La Femelle

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    18
    Capítulos:

    Capítulo 5

    Segundo Ato: Cena 1

    Adultério, Bissexualidade, Estupro, Hentai, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência

    Mudança de cenário. Nas laterais e ao fundo do palco, estarão sob os praticáveis, Minerva com um vestido de noiva preto, do lado oposto Hércules com um vestido de noiva branco. No meio de ambos estarão sentados nas gangorras quatro clowns (clowns) com vestes mórbidas. Vigilante Notredame segura um pedaço de madeira que serve como porrete e caminha à frente das gangorras de um lado para outro, sempre batendo o porrete na mão em tom ameaçador. Agamenon está sentado na boca de cena.

    NOTREDAME (aos berros) ? Atenção, ?formar?!

    Os clowns descem das gangorras e se colocam em fila. Agamenon se levanta e fica em posição de fila. Vigilante caminha em direção a Agamenon.

    NOTREDAME (com ironia) ? Agamenon, tudo bem? Tem faltado luma coisa pra você? Tem se alimentado bem? Você sabe que aqui os menores são bem tratados e todos tem tudo o que precisam. (mais ironia) ? Tudo o que a vida não pode oferecer a vocês, a Febem oferece o de melhor, embrulhado pra presente. Estou certo Agamenon?

    AGAMENON (cabisbaixo) ? Sim Senhor!

    NOTREDAME ? Muito bem meu filho... Tenho uma surpresa pra você Agamenon. Vá até a cozinha, tem visita pra você. Ah! Não se esqueça de dizer sempre que você é muito bem tratado aqui. Mas antes de ir gostaria de dizer que só depende de você pra conseguir aquele curso de cozinha que há tanto tempo vem me pedindo. Vai depender das coisas que você falará sobre a Unidade. (breve pausa) Pode ir.

    Agamenon caminha em direção à noiva de preto. Luz sobre Minerva. Agamenon sobe no praticável de Minerva.

    AGAMENON ? Quem é você?

    MINERVA ? Minerva, sua irmã.

    AGAMENON (perplexo) ? Minha irmã? Sou filho único!

    MINERVA ? Sou filha de vossa mãe...

    AGAMENON ? Mentira!

    MINERVA ? Sou sua irmã mais velha...

    AGAMENON (tapando os ouvidos, em desespero) ? Mentira, mentira, mentira!

    MINERVA ? Sou sua irmã, acredite! Você talvez não saiba, mas mamãe me teve muito antes de você...

    AGAMENON ? É mentira!

    MINERVA ? Quantos anos você tem?

    Breve pausa. Agamenon não responde.

    MINERVA ? Você pode não acreditar...

    AGAMENON (interrompendo Minerva) ? Vá embora, eu não te conheço!

    MINERVA ? Meu irmão!

    AGAMENON (aperta os ombros de Minerva) ? Sou filho único porra! (vira-sede costas para Minerva) ? Minha mãe jamais deixaria de me dizer se realmente eu tivesse algum irmão.

    MINERVA ? Você precisa acreditar. Na separação, mamãe ficou com você e eu fui embora com nosso pai. Ou melhor, ele me levou à força. Nunca mais tive notícias de vocês...

    Breve luz em Notredame.

    NOTREDAME ? Você tem muita sorte garoto. Sua irmã passará o final de semana com você. Durante o dia poderão ficar juntos e a noite a visita dormirá no lar 7. (ironia) ? Agamenon, você também poderá ficar no lar 7, se quiser... (blecaute em Notredame)

    MINERVA ? Meu irmão! Mostre aonde você dorme, aonde almoça...

    AGAMENON ? Mentira!

    MINERVA (indiferente) ? Fiquei sabendo que aqui tem até um mini zoológico... É verdade?

    Luz em Notredame.

    NOTREDAME (altivo) - Vamos lá rapaz! Mostre a Unidade para a sua irmã... (blecaute em Notredame)

    Luz nos clowns.

    CLOWN 1 ? Quem é essa menina?

    CLOWN 2 ? Como se chama? Quantos anos?

    CLOWN 3 ? Ela tem pinto?

    CLOWN 4 ? Você comeu a bucetinha dela?

    CLOWN 1 ? Passaram o dia juntos...

    CLOWN 2 ? Conheceram toda a Unidade. Ela conheceu o quarto do Agamenon. Ela conheceu o refeitório do Agamenon.

    CLOWN 3 (rindo) ? Ela não sabia o que era ?escovão?!

    CLOWN 4 ? Será que ele meteu ?escovão? nela? (rindo) ? Ela achou o ?escovão? pesado.

    Blecaute nos clowns. Luz em Minerva e Agamenon.

    MINERVA ? Como aqui tudo aqui é limpinho... Cadê a mulher da faxina?

    AGAMENON ? Aqui não tem mulher nenhuma que limpa. Aqui a gente varre, lava, encera o chão, cozinha, dorme, leva surra. Se trabalhar come, se não trabalhar não come. Aqui a gente bate nos pequenos pra roubar a sobremesa, a gente come a bunda das bichinhas, a gente caga e faz de tudo.

    MINERVA ? Mas não tem nenhuma mulher pra ajudar?

    AGAMENON ? Não dependemos de porra nenhuma de mulher. A única mulher que tem aqui é a mulher do vigilante. Uma vadia que detesta esse lugar e desconta a raiva pra cima da gente.

    MINERVA ? E naquela caixa de madeira pendurada ali?

    AGAMENON (resposta brusca) ? Televisão!

    MINERVA (numa euforia) ? Você assiste Roque Santeiro? Adoro o Sinhozinho Malta...

    Silêncio. Breve pausa.

    MINERVA ? Você deve me achar uma chata, não é mesmo?

    Agamenon permanece em silêncio.

    MINERVA ? Gostaria muito que você fosse meu amigo e me reconhecesse como seu irmão... Você é a única pessoa que tenho na vida e...

    AGAMENON (interrompendo) ? Vamos lá pra fora. Vou te mostrar a roça.

    MINERVA ? O que é aquilo?

    AGAMENON ? Mandioca.

    MINERVA ? Manga! Aqui tem manga? Adoro mangas... É a minha fruta favorita!

    AGAMENON (interrompendo) ? Não é época de manga. Manga só no final do ano.

    MINERVA (vira-se em direção dos clowns) ? O que aqueles meninos estão fazendo sentados no asfalto quente debaixo deste sol forte?

    AGAMENON ? Estão tirando erva daninha e grama entre as pedras. As ervas daninhas, o mato e a grama nascem no meio dos pedaços de paralelepípedos e a gente é obrigado a tirar com aqueles pedaços de ferros que fodem todas as mãos. (oferece as mãos para Minerva) ? Olha como ficam?

    MINERVA (pegando nas mãos de Agamenon) ? Nossa! Como estão calejadas?

    AGAMENON ? Calejam muito mais do que as enxadas...

    Clowns encaram Minerva e Agamenon.

    MINERVA (aturdida) ? Por que estão todos olhando pra gente? Tenho até medo...

    AGAMENON ? Estão estranhando. Aqui nunca aparecem meninas. Você pra gente é como se fosse um marciano.

    MINERVA ? Por que estão aqui?

    AGAMENON ? Muitos perderam as suas famílias. Outros foram abandonados em orfanatos. Alguns são filhos de bêbados, bandidos, muitos são filhos de prostitutas...

    MINERVA ? Manga! Aqui tem manga? Adoro mangas... É a minha fruta favorita!

    Luz nos clowns.

    CLOWN 2 ? Conheceram o estábulo...

    CLOWN 3 ? Conheceram a pocilga...

    CLOWN 1 (suspirando) ? Ah! Ela ficou encantada com as margaridas brancas do jardim do diretor...

    CLOWN 4 ? Será que ele comeu a menina no meio das margaridas brancas do jardim do diretor?

    Blecaute nos clowns. Luz em Minerva e Agamenon.

    MINERVA ? Aqui é tão gostoso? Passaria o resto a minha vida aqui. Frutas a vontade, cavalos... Adoro galopar! Isto aqui é o paraíso!

    AGAMENON ? Você não sabe de nada. Você não agüentaria ficar um dia sequer neste inferno... Este lugar é como cocaína; atrai e depois destrói.

    MINERVA ? Me fala sobre este lugar. Você não gosta daqui? Eles te maltratam?

    AGAMENON (interrompendo) ? Deixa pra lá... É melhor mesmo que você não conheça a vida que a gente leva aqui. Meninas como você só devem ter a vida enfeitada com coisas boas; um mundo de fantasia, um mundo puro e sem maldades. Sofrimento foi feito pra meninos que vivem na Febem.

    Luz nos clowns.

    CLOWN 3 ? Eles conheceram a casa de cursos...

    CLOWN 2 ? Marcenaria, lapidação, serigrafia...

    CLOWN 1 ? Foram para o mini zoológico...

    CLOWN 4 ? Viram o macaquinho Chico bater as famosas punhetinhas...

    Blecaute nos clowns. Luz em Minerva e Agamenon.

    AGAMENON ? Quer conhecer o riacho? Lá estão as jabuticabeiras. No caminho tem o galpão aonde aprendemos a tocar violão...

    MINERVA ? Depois você toca uma música no violão pra mim?

    AGAMENON ? Só aprendi a tocar Serenô, do Angelino de Oliveira. Faz um ano que estou no curso da Dona Antonietinha. Só faço esta merda de curso pra escapar da roça. Ainda mais quando é dia do lar 6 ir para o milharal. A Dona Antonietinha é um anjo perdido neste inferno.

    MINERVA ? O riacho fica muito longe?

    AGAMENON ? Não! É logo ali depois do lar 9. Logo, logo a gente chega.

    MINERVA ? Não entendo porque você não gosta deste lugar! Aqui parece ser tão bom...

    AGAMENON ? Paraíso falso. Este lugar é a maçã que desencaminhou Eva. Tudo é feito pra enganar a família da gente. Que isto fique em segredo...

    MINERVA ? Segredos de irmãos... Prometo!

    AGAMENON ? Aqui, somos maltratados, espancados... A gente só come se for pra roça. Trabalho escravo no sol quente, sem nenhuma proteção. Entra espinhos nos pés, picadas de borrachudo, cobras. Se não capinar direito é murro na cabeça, sabugada de milho na cara, pauladas na pele fina da sola dos pés, ?escovão? a noite inteira, ficar de joelhos por horas, choques com a pimentinha, pau-de-arara...

    MINERVA ? Pau-de-arara?

    AGAMENON ? É um pau que fica atravessado no alto da cela de fora a fora. Eles prendem a gente pelos pés e pelos pulsos, jogam água fria e descem a porrada.

    MINERVA (atônita) ? ?Tadinho do meu irmão...

    AGAMENON ? Não me chame assim. Eu não tenho irmã...

    MINERVA ? Está bem, me desculpe! (breve pausa) ? Você deve sofrer muito aqui!

    Agamenon permanece em silêncio.

    MINERVA ? Porque o doutor Tarses te colocou aqui? Ele é rico pode dar a você uma vida muito legal...

    AGAMENON ? E o meu pai, onde está?

    MINERVA ? Ele morreu. Já faz alguns meses. Depois que teve um ataque do coração no ano passado nunca mais teve saúde. Neste ano teve um ataque epiléptico, uma parada respiratória... Acho que o coração não agüentou. Minha madrasta queria que eu continuasse morando com ela, mas não quis saber de nada e resolvi ir atrás de você e da nossa mãe...

    AGAMENON ? Minha mãe morreu!

    MINERVA ? Sei disso. O juiz me disse. Foi muito difícil encontrar o doutor Tarses. Ele me levou até o juizado de menores. Passei na outra Unidade da Febem, daqui de Batatais e eles disseram que você estava aqui no lar 6. (breve pausa) ? Estou muito feliz em ter te encontrado. Você é a minha única família. Foi muito difícil conseguir te encontrar... Antes de ir ao juizado de menores passei por vários orfanatos e outras Unidades da Febem, mas finalmente te encontrei. Estou muito feliz. Conhecer você era o meu maior sonho; poderia morrer feliz...

    AGAMENON ? Que besteira!

    MINERVA (atônita) ? Estou doente... Muito doente.

    AGAMENON ? O que foi? Você está passando mal?

    MINERVA ? Não... É que o que tenho é muito grave. Eles vão me operar...

    AGAMENON ? Mas o que você tem?

    MINERVA ? Leucemia. É uma doença no sangue. Todo mês eu preciso ir ao hospital para trocar o meu sangue. Às vezes tenho o pressentimento que me restam meses, semanas, dias e até poucas horas. É por isso que preciso fazer uma operação.

    AGAMENON ? Que operação é essa?

    MINERVA ? É um transplante de medula óssea.

    AGAMENON ? Medula? O que é isso?

    MINERVA ? Não sei direito, os médicos nunca dizem. O que importa é que estou aqui. Vamos para o riacho.

    AGAMENON ? Vamos. Fica depois do jabuticabal.

    Agamenon e Minerva descem para a boca de cena.

    MINERVA ? Que água limpinha... Posso nadar?

    AGAMENON (perplexo) ? De roupa?

    MINERVA (encalistrada) ? De roupa não. Vamos, tape os olhos.

    Agamenon permanece estático. Minerva se desnuda, se cobre com o tule azul disposto na boca de cena e se agacha.

    AGAMENON (ofegante) ? Você é muito bonita. Sabe, nunca tinha visto uma menina sem roupa... Seu corpo é diferente do meu. Estou me sentindo diferente. Veja estou tremendo; meu coração está disparado, quase não consigo respirar...

    MINERVA (atônita) ? Você me viu nua?

    Minerva ?mergulha? no tule.

    AGAMENON ? Cuidado com as pedras!

    MINERVA ? Vem também...

    AGAMENON (ainda ofegante) ? Vai molhar a minha roupa.

    MINERVA ? Faça como eu; tire toda a roupa.

    Minerva e Agamenon permanecerão nus encobertos pelo tule brincando como se estivessem numa lagoa. Música envolve a cena. Os dois param um em frente o outro. Fitam-lhe os olhares por alguns instantes.

    MINERVA ? Porque o doutor Tarses te colocou aqui?

    AGAMENON ? Ele quis se livrar de mim. Você deve ter cuidado; ele é um assassino.

    MINERVA ? Assassino?

    AGAMENON ? Ele matou a minha mãe.

    MINERVA ? Como foi isso meu irmão?

    AGAMENON ? Me lembro como se fosse ontem. Ele estava bêbado, violento. Mamãe sangrou tanto. A coitada gritava desesperada. Vi quando ele começou a enforcá-la, não deu chances nenhuma pra ela escapar.

    MINERVA (numa revolta) ? Filho da puta. Mentiroso! Ele me disse que a nossa mãe morreu de me cerebral...

    AGAMENON (aos berros) ? Mentira!

    MINERVA ? Acalme-se.

    AGAMENON ? Ele sempre tentava me agarrar... Ele me acariciava; ele me tocava...

    MINERVA (numa revolta) ? Desgraçado!

    AGAMENON ? É por isso que ele me jogou na Febem. Foi pra me calar...

    MINERVA ? Ele já veio te visitar alguma vez?

    AGAMENON ? Nunca apareceu por aqui.

    MINERVA (atônita) ? Precisamos vingar a nossa mãe... Vou arrumar um jeito pra fazer este filho da puta pagar tudo o que ele fez pra você...

    Pausa. Agamenon beija a boca de Minerva.

    MINERVA ? Porque você fez isso?

    AGAMENON ? Não sei... Achei a sua boca bonita. Sempre tive curiosidades pra beijar uma boca de menina...

    MINERVA (desesperada) ? Mas nós somos irmãos!

    AGAMENON - E daí?

    MINERVA ? É pecado! Você não deveria ter feito isso!

    AGAMENON (apreensivo) ? Por favor, não diz nada para o vigilante; ele pode me espancar.

    Minerva retira-se do tule e veste-se com o vestido de noiva.

    MINERVA (vestindo-se) ? Você não devia fazer isso.

    AGAMENON ? Mil desculpas! Eu não queria te magoar... Só te beijei porque nunca me senti tão feliz assim.

    Minerva se abaixa e beija Agamenon na testa.

    AGAMENON ? Tome cuidado; o doutor Tarses é muito perigoso!

    MINERVA ? Não se preocupe; depois de tudo o que você me disse preciso mesmo tomar muito cuidado. Aquele desgraçado... É por isso que ele dificultava as coisas pra eu não ver você nunca!

    Agamenon levanta-se e põe a se vestir.

    AGAMENON ? Você tem mesmo que morar com este desgraçado?

    MINERVA ? Não tem jeito! Eu não tenho pra onde ir. Mas não se preocupe, se o doutor filho da puta tentar alguma coisa comigo, mato aquele desgraçado!

    Agamenon já vestido olha fixamente para Minerva. Breve pausa.

    MINERVA (melíflua) ? Que se dane!

    Minerva abraça Agamenon e ambos se beijam calorosamente. Blecaute. Minerva retorna ao praticável. Agamenon inerte. Luz nos clowns.

    CLOWN 4 ? E então Agamenon? Comeu a menina?

    CLOWN 2 ? Comeram jabuticabas e foram para o riacho...

    CLOWN 1 ? Vi quando chegaram no lar 6 com os cabelos molhados.

    CLOWN 3 ? E os peitinhos? Ela tem peitinhos?

    CLOWN 4 ? Você chupou os peitinhos dela?

    CLOWN 1 ? Ela tem pinto?

    CLOWN 2 ? Tenta comer ela. Aí você deixa um pouquinho pra mim.

    CLOWN 3 ? Ela é muito gostosa! Te dou a sobremesa...

    CLOWN 4 ? Já bati três punhetas pensando nela.

    Agamenon se deita na boca de cena. Blecaute.


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