A viagem até Brand demoraria três dias a cavalo, então acabamos acampando em uma gruta nos arredores de Regen.
Regen era uma nação basicamente ocupada por agua, não tinha quase nenhum pedaço de terra. Era um lugar bonito, úmido e cheio de sons, as sereias amavam musica e sempre cantavam suas melodias nativas ao entardecer.
Eu havia acabado de me sentar em uma pedra para limpar meu arco, Helvin e Djaran estavam ocupados tentando inutilmente acender uma fogueira, distraída em minha tarefa comecei a ouvir sussurros que mais pareciam tentativas frustradas de formar uma canção. Levantei-me e caminhei furtivamente para fora da gruta para que Djaran e Helvin não me vissem, depois agucei meus ouvidos e segui as notas desafinadas. Acabei minha busca perto de um pequeno lago, com uma vasta vegetação em volta e muitos peixes dourados e pequenos nadando despreocupadamente.
O som ficava cada vez mais audível, fui me aproximando aos poucos me escondendo por entre as arvores. Deparei-me com uma bela jovem, uma sereia nativa daquela região, seus belos cabelos longos lhe caiam por sobre os ombros e seus olhos de um azul celeste brilhavam de frustração.
- Não é isso, tenho certeza de que a musica não é assim! – Resmungava baixinho com uma voz melodiosa.
Fiquei encantada com a voz da criatura, já havia vindo em Regen antes, mas nunca me deparei com este lago. Saia sempre para explorar as grutas com Helvin, mas este lugar deve ter passado despercebido por nós.
A bela criatura ainda frustrada por algum motivo continuava a resmungar baixinho para si mesma, tentei me aproximar mais para ver o que ela segurava nas mãos quando pisei em um galho que estava no chão, o som a fez olhar para onde eu estava por instinto me escondi atrás da arvore.
- Quem esta ai? – Perguntou enquanto se aproximava com passos cautelosos.
Continuei em silencio, peguei meu arco e o preparei para atirar. Sai de trás da arvore rapidamente e apontei o arco para a sereia.
- Aaah! Mas o que pensa em esta fazendo? – Falou a criatura assustada enquanto tentava recuar.
- Não se mexa! – Ordenei.
Ficamos nos encarando por alguns minutos, a sereia me avaliava com atenção enquanto eu me decidia se deveria atirar. Por fim desisti e abaixei o arco, a sereia continuava a me olhar fixamente e manteu a postura tensa.
- Relaxe, não vou atirar em você. – Suspirei e comecei a andar de volta a gruta onde se encontravam Helvin e Djaran.
- E..Espere... – Cautelosamente a sereia chegou perto de mim.
- O que foi? – A olhei com desconfiança, sereias são bonitas e cantam bem, mas podem enganar os outros seres com muita facilidade.
- Por que estava se escondendo? Sabia que é feio espiar os outros assim?! – Ela me olhava de cara feia e fazia bico enquanto esperava minha resposta.
A olhei surpresa por sua pergunta, provavelmente muitos se escondiam para ver sereias cantarem então a pergunta não fazia muito sentido.
- Acho que devo pedir desculpa por isso, ouvi as suas tentativas de formar uma canção do local onde estou acampando e fiquei curiosa. Apenas isso.
- Tentativas de formar uma canção???! Como ousa dizer isso?!! – Seus olhos brilhavam de indignação enquanto ela batia um dos pés no chão com raiva.
- Não acho que aquilo possa ser chamado de canção, mas então o que estava tentando fazer?
- Eu... eer.. eu.. Não te interessa! – Disse virando a cara para mim.
- Tudo bem então, boa sorte. – Comecei a andar quando fui surpreendida com a sereia parada a minha frente.
- Você desiste muito fácil, já te falaram que você deveria ser mais educada? Nem parece uma menina agindo de forma tão grossa! – “Realmente estou levando um sermão de uma sereia que não consegue admitir que não sabe formar uma canção decente?”
- Ficaria impressionada com a quantidade de vezes que ouço isso. – Dei de ombros e passei pela sereia.
- Eie! Eu mandei espera! – Batendo os pés a sereia me seguiu resmungando.
“Por que ela esta me seguindo afinal? Deveria ter atirado nela quando tive a chance...” – Pensei suspirando de arrependimento.
Entrei na gruta com a sereia resmungona atrás de mim ainda tentando fazer eu me portar como uma dama e falar decentemente com ela.
- Oi Shira, por onde andou? - Perguntou Djaran sem olhar para mim, ainda concentrado em arrumar um jeito de fazer a fogueira acender.
Helvin já havia desistido e estava sentada em um canto lendo um livro que trouxe junto. Olhou de canto para mim e depois se engasgou com a própria saliva quando viu a criatura que me acompanhava.
- O que ela faz aqui? Você a sequestrou?? – Perguntou apavorada.
- Não, claro que não! Ela me seguiu ate aqui por que quis. – Resmunguei e me joguei no chão perto de Djaran.
- Que lugar mais decadente para se passar a noite. – Observou a sereia.
- Bem vinda ao meu humilde lar temporário! – Respondi com sarcasmo.
- Educada como um cavalo! – Rebateu.
- As ordens vossa majestade! – Fiz uma breve reverencia dramática e voltei minha atenção a um punhado de maçãs que estavam dentro da mochila.
- Meu deus, uma criatura que consegue tirar a Shira do sério.. Isso é mesmo possível? Você arrancou ótimas expressões dela! – Falou Djaran com entusiasmo. – Prazer, Djaran a suas ordens. – Ele fez uma reverencia e eu revirei os olhos para sua tentativa falha de ser sedutor.
- Ora, uma criatura educada entre estes bárbaros. Prazer, me chamo Serena. – Ela então deu sua mão para que Djaran pudesse depositar um beijo, mas a puxou quando ele ia fazer o ato, fazendo com que quase caísse. Admito que me rendeu umas boas risadas.
- Então senhorita Serena, o que esta fazendo aqui? – Perguntou Helvin.
- Que menina adorável, eu estava aqui tentando compor uma nova canção para o festival que ocorre aqui todos os anos, mas não consegui boas ideias.
- Notei... – Murmurei baixinho.
Serena me fuzilou com os olhos enquanto eu dava uma mordida em minha maçã despreocupadamente.
- Sua irmã sempre foi assim?
- Ah, você nem faz ideia.. era bem pior. – Disse Helvin fingindo decepção enquanto balançava a cabeça dramaticamente.
Joguei uma pedra pequena em sua direção.
- Ei! Poderia ter me matado! E se acertasse a cabeça? – Disse fazendo expressões dramáticas.
- Não seja boba, era uma pedra pequena o máximo que iria acontecer seria formar um galo. – Respondi mostrando a língua.
Serena suspirou e olhou para todos nós curiosa.
- O que um grupo formado por elfos de Erde e um Lobisomem de Donner fazem aqui em Regen?
- Não te interessa. – Respondi secamente.
Helvin suspirou e olhou para a sereia com suplica nos olhos.
- Não podemos lhe contar sobre isso senhorita Serena.
Djaran não tentou se meter ao contrario disso ele se sentou ao meu lado e roubou minha maçã.
- Ei! Isso é meu! – Ralhei.
- Agora não é mais pirralha! – Disse rindo.
Ele examinava a maçã com atenção enquanto decidia por aonde iria começar, acabou por escolher bem aonde eu havia acabado de morder. Por algum motivo que não compreendo o ato me deixou corada um pouco, irritada virei o rosto para a mochila.
- Sabia que os humanos de Brand chamam isso de beijo indireto? – Comentou descaradamente.
- Ora seu... – Lhe dei um soco no braço e peguei outra maçã para mim.
- Ai ai, já disse para não fazer isso que eu gamo Shira.. – Falou enquanto dava outra mordida na maçã roubada.
- Eca! Parem com isso vocês dois! – Resmungou Helvin.
Serena continuava a olhar para nós, nos estudando e por fim falou:
- Vocês são viajantes, certo? Eu quero viajar com vocês.