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Kamijou estava deitada em cima da cama dela. Em decúbito dorsal, fingindo apreciar as letras impressas de um livro que havia ganhado como presente. Era um livro de romance ?normal?, era sua resenha. Amor era uma concepção que ainda não entendia por completo a profundidade e os seus prazeres.
Ao lado de sua cama, outro Kamijou estava encostado. Não entrelaçados pelo sangue, Kamijou portava um olhar aparentemente distante, estava atencioso, tentando desvendar os segredos que algum programa de televisão poderia revelar em uma usual tarde de sexta feira.
Dois jovens unidos aparentemente por um nome, ?Kamijou?. Uma combinação de ideogramas, ?Deus? e ?Mulher?, logo, Kamijou. Kamijou Inohue era uma garota. Ishizono Kamijou era um garoto. Essa não é a história de duas almas gêmeas, uma história de romance ainda menos. Essa é a narrativa de uma alma somente, e a sua completude.
...
Voltando àquela tarde de sexta feira, ?kami2? ou Kamitwo, o apelido formulado por outros estudantes do colégio que frequentavam, alcunha dada àquela dupla de jovens que compartilhavam de uma peculiar nome, estavam a aproveitar a paz do tédio juntos. Nenhum deles possuíam compromisso com alguma atividade extra curricular; esportes ou artes, ambos compartilhavam do desinteresse pela prática de algo que os tornassem distintos dos demais pessoas de mesma idade.
Era companhia do ócio um burbúrio causado pela TV sintonizada em algum canal de culinária. Ingredientes que nunca ouviram falar, técnicas de cozinha que provavelmente nunca conseguiriam imitar devido às limitações domésticas e a mostra de pratos que apenas poderiam imaginar o deleite que proporcionaria em seus paladares...
?...Incrível! Nunca havia visto alguém utilizar lavanda para agregar ao arroz oriental um odor tão distinto!...?
Junto ao narrador culionário empolgado, luzes do fim da tarde de sexta feira entravam por uma persiana semi fechada, iluminando sensualmente os negros cabelos de Kamijou, dando lhes uma coloração castanha. Ela ainda se encontrava na mesma posição em que essa tentativa de narração iniciou. Deitada, mas agora a olhar desatenciosamente o teto e a decoração infantil que o adornava.
Kamijou estava usando uma regata rosa listrada. Nada muito recatado, nada muito revelador. Uma simples camisa desse estilo combinada com um mini shorts azul claro. Com as pernas esticadas, e os braços posicionados como se estivesse se espreguiçando, e ainda segurando o livro pelo qual perdeu o interesse, Kamijou repentinamente achou algo que prendeu sua atenção.
?...?
O que começou com simples olhares, evoluiu para um encarar contínuo. Por algum motivo, Kamijou não tirava os olhos do pescoço de Kamijou. O colégio em que eram alunos exigia um uniforme extremamente formal: um vestido preto às estudantes, e um terno preto aos homens, o que escondia muitas vezes pormenores físicos dos estudantes de ambos os sexos.
Mas naquela tarde, Kamijou estava usando uma regata também: de cor branca, revelando não obstante muito mais do que a camisa de mesmo estilo que ela estava utilizando, mostrando por inteiro o pescoço definido do jovem que estava a centímetros de sua face. Kamijou também possuía um cabelo longo, mas havia o prendido naquela tarde, repousando o consequente rabo de cavalo na frente de seu ombro esquerdo.
? Kamijou?
?Ah? O que foi??
Em um instante, o jovem, que virou o seu rosto escutar o que a jovem tinha a lhe dizer, foi puxado de supetão. Repousando uma de suas mãos próximo ao travesseiro, e outra na mão da garota que havia subitamente o arrebatado, Kamijou demorou para entender a posição em que estava: sua face acolchoada pelos seios, seu abdômen encostado junto a ao dela e com um dos joelhos entre as coxas daquela jovem.
?...?
Um breve intervalo de tempo com o silêncio ao fundo, um silêncio criado pela situação, no qual nem a TV poderia turbar. Enquanto ficavam estáticos naquela posição, Kamijou tentou entender a intenção da garota que havia acabado de puxá-lo para ao seu local de repouso.
?Quer transar??
Finalmente o estado de transe foi quebrado com uma pergunta espontânea. Com sua voz refinada, Kamijou suspirou tal oferta nos ouvidos do jovem, que ainda estava tentando entender porque ele estava naquela posição. Junto a essa pergunta, a qual ainda estava tentando processar em sua cabeça, Kamijou começou a beijar lascivamente a lateral de seu pescoço, passando posteriormente a deslizar vagarosamente a sua língua pelo pomo de Adão do jovem.
Ela permaneceu assim por alguns segundos, passando depois a deslizar suas mãos pelo abdomen de Kamijou, tateando delicadamente tais músculos e massageando os. E, progressivamente, suas mãos desciam pelo corpo de Kamijou...
?...?
Porém, nada. Nenhuma reação foi esboçada pelo jovem: naquela posição, ela podia encostar facilmente sua cabeça no tórax do jovem, e nenhuma mudança em seus batimentos cardíacos podia ser notada. Consequentemente, sua respiração permanecia sem mudanças também. Por fim, verificou com a mãos a flacidez do membro inferior dele...
Após ter verificado isso, percebeu também que não notou nenhuma mudança fisiológica em seu corpo. Inércia em seus batimentos cardíacos, lenta respiração, ausência de umidez em suas partes inferiores....
Nenhuma reação. Nenhuma mudança. Nenhum sentimento de vergonha. Nada. Como cócegas feitas no próprio corpo; como fazer poses em frente ao espelho. Indiferença. Isso era algo que Kamijou havia notado há algum tempo, pois o jovem era uma pesssoa que não se sentia muito confortável próximo a pessoas.
A Kamijou já tinha uma leve impressão desse sentimento de indiferença. Mas era algo que queria confirmar. Mas naquele momento, sentia uma mistura de satisfação e raiva: satisfação quando uma pessoa consegue compreender algo e raiva por ter o seu orgulho ferido naquela situação.
Por mais peculiar que fosse àquela situação em que se encontravam, por mais estranho que fossem aqueles sentimentos complicados, Kamijou ainda era uma mulher...Poucos homens resistiriam a tentação. E ela tinha certeza que ele não era homossexual.
?Kamijou?
?....O quê??
? De agora em diante, o seu apelido será 'Kagami'?
?...?
A cena a seguir foi um empurrão de Kamijou, com um rosto visivelmente transtornado pela raiva acima explicada; e Kamijou com suas nádegas repousadas do chão aveludado daquele pequeno quarto, com um teto decorado por ilustrações de afeição da jovem, e, no semblante dele, um visível sinal de interrogação, ainda tentando decifrar o porquê de ter sofrido aquele golpe.
A propósito, ?Kagami? significa espelho em japonês.