Não fui ao Inn àquela noite como planejei. Na verdade, depois que Elli foi embora, só entreguei as folhas ao Zack e tudo o que ele disse é que voltaria no dia seguinte. Depois disso dormi como uma pedra.
No dia seguinte só me lembro de ter acordado atrasado (sei disso porque acordei com o cuco em minha cabeça cantando meio dia). Mas francamente não estava com o mínimo ânimo para me preocupar com isso.
Andei preguiçosamente para a mesa de madeira que ficava exatamente no meio do cubículo, e dei graças por não ter que atravessar corredores ou descer escadas para tomar café da manhã.
Lembro que acordei com uma música em minha cabeça, e então percebi que jamais tinha prestando atenção na letra, apesar de ser uma das minhas preferidas. Talvez fosse porque nunca tinha feito tanto sentido quanto agora. Era a música Eleanor Rigby, dos Beatles, que fazia bastante sucesso em minha cidade.
Ah, look at all the lonely people!
Eu disse para mim mesmo que esta frase era para eles ? os caipiras ? por serem diferentes, mas, na verdade, quem estava sobrando por ali?
Apesar de tudo, minha solidão não estava tão grande assim. Quem nunca tentou se encaixar na frase de alguma música, só para se sentir compreendido?
Mas minhas teorias são interrompidas quando alguém bate na minha porta de novo. Não foram três batidas uniformes, e foram muito mais forte do que as do dia anterior, mas mesmo assim havia um fiozinho de esperança. Será que alguém queria me dar bom dia?
Abri a porta, e não consegui disfarçar a decepção.
- Ouvi dizer que um homem suspeito usando roupas engraçadas estava andando pelo vilarejo. ? disse o guarda, com um rosto fino e sério. ? Ele usa óculos de sol e roupas amarelas, e tem uma sacola estranha. Tome cuidado.
Ele disse isso tão automaticamente que me lembrou aqueles seres de lata que as pessoas costumavam chamar de robô, e eu ri por dentro.
Demorei-me na porta até entender o que ele tinha falado, mas então decidi que não era tão importante assim. O que um homem desses podia fazer? Só mesmo em um lugar atrasado como aquele para se preocuparem com algo assim.
E então, como que por ironia do destino, segundos depois de o guarda cruzar a cerquinha em direção à Poutry Farm, um sujeito com as mesmas características bizarras surge das árvores e cruza a ponte que liga à minha fazenda.
- Meu irmão, como eu vim parar num lugar desses? ? também não sei, irmão, tive vontade de responder, mas me limitar a olha-lo.
O homem parecia perdido, mas de forma alguma apresentava perigo. Ele aproximou-se mais de mim, e então continuou com seu sotaque que era ainda mais forçado do que o dos moradores daquele vilarejo:
- Você é o dono daqui?
- Sim.
- Eu tô tão cansado de andar nas montanhas... posso descansar aqui um pouco?
Ele tinha um olhar suspeito, como se fosse esperto demais para estar ali. Na cidade, uma pessoa dessas seria chamada de muambeiro. E, se fosse como os da cidade, não havia motivo nenhum para temer.
- Não se preocupe, - disse ele com uma risadinha, depois que se sentou embaixo da sombra da árvore da lagoazinha. ? eu não causarei nenhum problema.
Respondi com outro sorriso, como se dissesse relaxe, cara, fique a vontade, e então caminhei a fora até sumir de seu campo de visão.
Não tive medo de deixá-lo sozinho na minha fazenda. Afinal, que tipo de problema ele poderia causar? Roubar minhas madeiras e joga-las na lagoa? E também não pretendia entrega-lo ao guarda e causar um auê ainda maior e sem motivos.
Mas então um pensamento cruzou minha mente, que me fez congelar onde estava. E se Rex resolvesse voltar? E se ele irritasse o ?homem perigoso? e...
Bem, não pensei no resto. Mas um murmúrio vindo do Yodel Ranch roubou minha atenção.
- ... isso porquê ele é só um pônei. ? ouvi uma garota dizer, e então me aproximei um pouco mais para ouvir o resto.
- Mesmo assim, - continuou o senhor que estava ao seu lado ? ele não parece muito espirituoso. Ele devia estar correndo por ai...
E então, quando tentei me aproximar um pouco mais, a garota me descobriu.
- Oh, Raymond! ? ela exclamou.
- Quem é esse, May? ? ouço o velho perguntando à garota enquanto me aproximava.
- É o Raymond. Ele se mudou para a fazenda ao lado.
- Ah, sim, a fazenda Solis!
- Podem me chamar de Ray. Algum problema?
- O cavalo num tá feliz... ? disse May, mas sua afirmação soou mais como uma dúvida.
O rosto simpático do senhor se converteu em uma expressão desanimada, e então ele continuou:
- O rancho tem muitos cavalos e ovelhas e vacas, então num podemos nos preocupar só com um animal. Mesmo assim, ele parece solitário...
- Eu posso cuidar dele! ? interrompeu teimosamente a May.
- Isso é doce May, mas você é muito jovem. ? e então ele se dirigiu a mim ? Diga, você tem um cavalo?
- Ainda não, cheguei ontem por aqui...
- Bem então, você num poderia cuidar desse pônei até ele crescer? ? ele respondeu imediatamente, como se já esperasse minha resposta. ? Eu vou te pagar, de algum modo. Você não precisa fazer nada de especial, só converse com ele todos os dias.
- Claro... sem problemas!
Ele sorriu da forma mais acolhedora que podia, mostrando os dentes ausentes, mas com um brilho nos olhos que me fez sorrir junto.
- Oh, ótimo! Num é legal, May? Tudo vai dar certo!
E então, sem toda a empolgação do senhor (mas ainda assim com um sorriso simpático), ela continuou:
- Oh, obrigada Raymon... digo, Ray. Você nomeia ele, tá?
- Puxa, não sou muito bom com essas coisas...
O primeiro pensamento que me veio na cabeça foi a cena de Elli aninhando Rex em seus braços. E então, como um tijolo despencando em minha cabeça, me lembrei do que estava pensando antes de estar ali. Não podia perder mais tempo.
- ... e estou meio atrasado. Não posso me demorar muito aqui...
- Então da logo um nome pra ele. ? retrucou May, mas ainda com aquele jeito doce.
Nunca fui bom em nomes. O pônei olhava para mim, e, além dos olhos tristes, eu podia ver outra coisa neles. Ansiedade, talvez? Eu devia estar ficando louco mesmo.
Mas então os olhos tristes fez a música voltar para minha cabeça, onde John Lennon se perguntava de onde vinham todas as pessoas solitárias, e se perguntava porquê elas faziam coisas que ninguém reconhecia.
Balancei a cabeça, e desviei todos os pensamentos que dominavam minha mente.
- Rigby. ? respondi, meio inconsciente.
- Deixa eu te explicar como cuidar de um pônei. ? começou o velho. ? Ele normalmente fica pra fora, mas você precisa colocar ele no estábulo quando chover. E também... ? ele fez uma pausa, alisou um pouco a barba, e então continuou, com aquele olhar pensativo ? ele gosta de ser escovado. E por favor, lembre de conversar com ele todos os dias.
Conversar com um cavalo? Só em um lugar como aquele para ouvir uma coisa daquelas.
- Então, ? ele continuou. ? acho que vou colocá-lo no estábulo em sua fazenda.
- Tchau-tchau, Rigby!
E então o velho seguiu cerca à fora, arrastando suas chinelas de couro velhas na terra fina, guiando o pônei pelas rédeas.
- Por favor, cuide bem dele. ? disse May, quando o velho e o pônei já tinham saído de nosso campo de visão.
Isso me assustou um pouco, já que minha mente tinha voltado a flutuar em pensamentos sem sentido.
- Ah, cuidarei sim. Hey, May, você viu aquele guarda por ai?
- Guarda? Ah, sim, eu vi ele indo por ali. ? ela esticou o indicador em direção à pracinha. Ou seria a praia? Não importava.
- Ah, sim, obrigado.
- Algum problema?
- Não, eu só preciso... conversar com ele um pouco. ? e então segui cerca a fora, sem me preocupar se ela ainda esperava alguma resposta.
Cruzei a cerquinha, e antes que chegasse no último degrau, já tinha o encontrado. Ele estava sentado em um dos bancos da praça, com os braços cruzados e pensativo. Ou estava dormindo?
- Ah, olá, Raymond! ? ele exclamou espantado ao me ver. Talvez minha segunda opção estivesse mais certa. ? Algum problema?
- Não bem um problema, é que... bem... é que tem um homem suspeito com uma mala, e roupas amarelas e óculos de sol na minha fazenda, então achei melhor comentar com você.
- O quê? Um homem suspeito foi à sua fazenda? Óculos de sol, roupas amarelas e uma mala suspeita?! Esse é o homem!
E então ele seguiu pelo caminho que eu fizera mais cedo. Pude ver a excitação em seus olhos, e logo imaginei que não deveria ter muita ação para ele em um vilarejo como aquele.
Porém, assim que ele seguiu o caminho do Yodel Ranch para a minha fazenda, eis que surge o mesmo homem suspeito de roupas amarelas.
Sim, aquele seria um longo dia.
- Oh, nos encontramos de novo! ? ele exclamou. ? Obrigado por antes. Essa caminhada me esgotou; acho que vou descansar aqui de novo.
Ele se sentou no banco, colocando suas malas ao lado. Por um momento achei que estivesse falando sozinho, mas então ele olhou para mim, curioso.
- Esse vilarejo é bastante complicado. Tem policiais por aqui?
- Não sei, também sou novo por aqui...
- Ah, entendo. Bem, não quem sentar-se comigo e beber um saquê? ? disse ele, enquanto tirava uma garrafa de sua mala.
- Não, obrigado. Tenho outras coisas para fazer.
- Oh, tudo bem. Te vejo depois, com certeza.
- Sim. Com certeza.
E então sai a procura do policial mais uma vez.