Fundo do Poço

  • Finalizada
  • Thwila
  • Capitulos 1
  • Gêneros Esporte

Tempo estimado de leitura: 4 minutos

    16
    Capítulos:

    Capítulo 1

    Com as Mãos Feridas

    Adultério, Heterossexualidade, Suicídio, Violência

    Eu não sei dizer ao certo quando caí. Não foi um tombo só, foi um empurrão seguido de muitos tropeços. Cada decepção, cada frustração, cada dívida virando bola de neve, traições, cada "eu te amo" vazio foi me afundando. Até que, sem perceber, estava no fundo.

    Literalmente, o fundo do poço. Os pesamentos suicidas começaram a surgir.

    As paredes ao meu redor eram escuras, geladas, silenciosas. E a água ali... rasa. Não profunda o bastante para me afogar de vez, mas fria o bastante para me manter presa. Uma tortura silenciosa, como quem diz: “Você vai continuar viva, só para sentir mais um pouco.”

    As pessoas acham que quem afunda é fraco. Mas não. Às vezes, a gente só cansa de nadar.

    — Eu cansei.

    Cansei das cobranças, das dívidas que pareciam se multiplicar mais rápido que minha força. Das tentativas de conseguir um novo emprego, cansei dos sorrisos falsos, das amizades interesseiras. Mas, acima de tudo, cansei do amor. Do amor que me prometeram, mas me deram pela metade. E depois tiraram de mim como se fosse nada.

    — Eu me lembro dele.

    Camisa azul. Capitão do time rival. Tinha aquele jeito irritante de quem sabia que era bom — e era mesmo. Eu jogava pelo time oposto. Odiava aquele olhar convencido dele. Até que, um dia, ele me olhou diferente. E aí... foi tudo por água abaixo.

    Nos tornamos aquele casal de filme esportivo: rivalidade na quadra, parceria na vida. Corríamos juntos, treinávamos lado a lado, dividíamos metas, planos, promessas. Juramos que o jogo da vida seria jogado em dupla.

    Mas não foi. Vivemos juntos por pouco tempo, 6 meses até que...

    — Ele traiu.

    Com outra atleta. Uma que nem jogava tão bem. Mas tinha algo que ele queria — ou talvez algo que eu nunca tive. E o pior? Ele teve coragem de me dizer que “foi só um erro”. Como se trair alguém fosse um tropeço no meio da quadra e não um chute direto no peito.

    A partir dali, tudo desmoronou. A depressão veio sem cerimônia, se sentou no meu colo e ficou. Os treinos pararam. As dívidas aumentaram. Os amigos sumiram. E eu... eu simplesmente me deixei cair.

    — O fundo do poço me recebeu de braços abertos.

    Chorei tantos dias que minhas lágrimas pareciam preencher aquele buraco escuro. Gritei por socorro, mas o mundo estava ocupado demais com sua própria correria. Ninguém escuta quem sangra em silêncio. E quando pensei em desistir de vez... veio a memória. De mim mesma.

    Não dele. Não de nós ou do nosso casamento. Mas de mim — antes da queda, antes do amor, antes das feridas, antes do desemprego. Me vi correndo na quadra, vibrando a cada ponto, sorrindo suada depois de uma vitória.

    Eu era forte. Eu era alguém antes de ser ninguém para ele ou até mesmo antes de conhecê-lo. Eu tinha o meu trabalho antes da depressão tirá-lo de mim, tinha a minha faculdade, os meus amigos. Eu tinha tudo. Eu era chamada de mulher perfeita e produtiva pois conseguia equilibrar tudo em minha rotina invejável.

    As saudades batiam fortemente em meio peito. Era a hora de me levantar mesmo sentindo muita dor na minha alma e ódio, as minhas pernas tremiam para ficar de pé pois estava muito tempo prostada, deitada pensando em inúmeras formas de morrer, para que assim talvez eu conseguisse um pouco de paz para uma alma desperançosa. Olhei para as paredes do poço. Limo, sujeira, escorregadio. E mesmo assim, comecei a escalar. Sozinha.

    A cada tentativa, eu escorregava, ralava os braços, machucava os joelhos e as minhas mãos sangravam. Mas eu não parava. —  Subir era um ato de sobrevivência.

    Depois de tanto tempo, alcancei a borda. E saí. A luz do sol doeu nos olhos. O barulho do mundo me agredia. Estava viva, mas sentia como se tivesse voltado de um campo de guerra.

    E aí vieram eles... As pessoas.

    Me olharam com surpresa, com desdém e com julgamentos.

    — “Nossa, já está bem? Pareceu fácil.”

    — “Nem parece que estava tão mal assim.”

    — “Era drama, então, né?”

    Eu só sorri. Aquele sorriso curto de quem entendeu tudo. Puxei as mangas da blusa e escondi as mãos. Elas estavam em carne viva, mas ninguém veria. Eles não sabiam das noites em claro. Dos gritos abafados. Dos cortes invisíveis. Não sabiam da dor de perder tudo e ainda ser cobrada por parecer forte.

    Me olhavam como se a minha superação fosse obrigação. Como se viver fosse simples. Mas eu sabia. Cada passo fora daquele poço foi pago com sangue, alma e lembranças. E mesmo escondendo minhas mãos feridas, eu carregava nelas uma vitória silenciosa: eu venci sem plateia. Sem aplausos. Sem ninguém.

    Eu venci por mim.


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