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O que ocorreu depois do meu afogamento não importa; Os garotos idiotas da minha sala foram suspensos, minha mãe processou os índices e quase destruiu a casa de um deles, mas o que importa mesmo é que após o incidente, me senti mais ligado ao Dã do que nunca. Era como se eu tivesse realmente morrido naquela piscina e renasci pelas mãos - ou lábios - do meu melhor amigo. Agora, eu sentia que vivia apenas para ele.
Ficamos mais alguns anos convivendo. Eu fiz mais amigos, consegui uma "paquera" e finalmente decorei como se escreve PISCINA. Mas Dã e eu ainda tínhamos aquela conexão, que estava cada vez mais forte. Eu não expressava meu sentimento porque não tinha certeza do que eu sentia.
Estava enlouquecidamente apaixonado pelo Danilo, mas ao mesmo tempo não sentia atração nenhuma por ele. Em aulas de sexologia, professores diziam que é normal ficar confuso com o próprio corpo nessa idade, mas que tudo se esclareceria com o tempo. Então esperei as coisas se esclarecer. Não amava a Pri (minha ficante), mas sentia muita, MUITA atração por ela. Ao mesmo tempo, não tinha vontade de beijar Dã, mas gostava mais de ficar com ele que com minha própria família, e sempre pensava nele antes de dormir.
O dia mais triste da minha vida foi o dia em que morri. De novo. Na verdade, eu não morri; eu apenas fiquei só, e por isso me sentia morto. Quando Danilo tinha quinze anos, ganhou uma bolsa de estudos para um curso profissionalizante que lhe daria ótimas oportunidades de emprego no futuro. Mas para isso, ele deveria se mudar. A escola nova fica em São Paulo, e leva-se no mínimo uma hora e meia de viajem da nossa cidade até lá. Ele gastaria muito tempo e dinheiro pegando três horas ou mais de estrada todos os dias, então os pais dele o mandaram para morar na casa dos tios dele até que ele acabasse esse curso. Eu sabia desde que ele me contou aquilo, que aquela era a grande oportunidade dele; a quando chance dele se prepar para o futuro, e eu sabia que ele merecia. Mas eu, estúpido e irracional não aceitei. Na época, eu não me conformava com o fato dele me abandonar e ir para outra cidade. Me senti traído. Ele me disse que era uma chance única, mas eu estava cego de paixão por ele e fui egoísta a ponto de implorar que ele ficasse. Ele realmente pensou na possibilidade, mas não podia recusar uma chance como aquela.
Ele se foi. Ficamos brigados por muito tempo. Depois de pensar um pouco, eu cheguei à conclusão de que ele não tinha responsabilidade nenhuma de cuidar de mim e eu consequentemente eu não tinha nenhum direito de exigir que ele ficasse. A cada dia me sentia mais idiota por ter brigado com ele. Tentei ligar para ele e me desculpar, mas tinha medo de que ele não aceitasse minhas desculpas. Eu era realmente um estúpido e merecia ficar sozinho. Ele veio duas ou três vezes visitar os pais, mas na primeira não me procurou, e nas outras eu me escondi dele. Não queria enfrentá-lo, sabendo que tinha sido tão egoísta.
Hoje, tenho quinze anos. Dã tem dezessete. Semana que vem, começo a cursar o 1º ano do ensino médio, e Dã o 3º. Quando acordei pela manhã, nunca imaginava que esse dia quente de verão acabaria desse jeito. Na verdade, até as três da tarde, eu não imaginava que algo assim pudesse acontecer. Fiquei totalmente surpreso depois do almoço. Estava voltando do mercado, quando o avistei. Dois quarteirões à frente, estava ele. Danilo. Ele conversava com uma garota de nossa, ou melhor, de MINHA escola, e não me viu. Ele crescera bons centímetros nesses dois anos. E quando digo isso, não me refiro apenas à altura. Ele estava mais forte. Os braços mais musculosos, as coxas mais grossas. Podia ver que até seu trapézio estava bem maior que antes. Além disso, seus óculos eram outros: Finos, tanto que eu mal podia notar a parte de baixo da armação. Sua pele estava levemente mais morena e até sua postura estava mais ereta. Parecia muito saudável. Ao velo, pensei o quanto ele teria perdido caso não tivesse se mudado para a cidade grande. Novamente, o ódio por mim mesmo ferveu em minhas entranhas. Coloquei meus fones de ouvido (que não emitiam nenhum som), baixei a cabeça aparentando estar distraído e passei por ele do outro lado da rua, fingindo não vê-lo.
Ele gritou meu nome, mas eu estava muito distraído na minha "música imaginária", e principalmente, com muita vergonha do que havia feito. Meu plano de passar despercebido teria dado certo, se não fosse uma coisa: aquele era meu melhor amigo. Ele correu e segurou meu ombro. Quando olhei para seu rosto, ele abriu um sorriso e me abraçou. Fiquei surpreso, e um tanto envergonhado. Ao me soltar, notei que ele também estava corado.
- Caíque! - Disse-me Dã, extremamente animado - Há quanto tempo!
- Verdade... - queria parecer igualmente feliz, mas acho que meu tom soou como uma mistura de surpresa com diarréia.
- Nossa... Senti tanto a sua falta... - ele me olhava como um artista olha para sua obra quando acaba de criá-la.
- Eu também. Não teve um dia em que eu não pensasse em você.
Muito provavelmente eu ainda falava como um bebê com a fralda cheia. Ele continuou falando, mas eu só conseguia me concentrar no seu rosto limpo das espinhas, nos seus braços fortes, no seu abdome...
- Caíque! - gritou minha mãe a distancia. - Por que está demorando tanto?
- Tinha fila... - respondi, ainda anestesiado.
- Ôôôôiii Danilooo!!! - disse minha mãe extreeemamente doce - Chegou cedo! Pensei que viria mais tarde!
- Você sabia? - perguntei
- Vou fazer um bolo para vocês tomarem um cafezinho da tarde... - ignorou-me minha mãe - ... por isso mandei o Caíque no mercado.
- Não precisava...
- MAS É CLÁRO QUE PRECISAVA! Tanto tempo sem vir aqui, merece ao menos um bolo de fubá e uns bolinhos de chuva.
Ela nunca mais havia feito bolinhos de chuva para mim... Mas em todo caso, nos despedimos e Dã prometeu que iria para minha casa naquela tarde. Enquanto minha mãe batia a massa do bolo, fiquei questionando a mim mesmo o porquê da minha reação. Sempre gostei muito, MUITO MESMO do Dã, mas nunca de fato senti atração por ele ou qualquer outro garoto. Mas quando o vi, fiquei sem palavras; mesmo não sendo um deus grego, fiquei impressionado com seu corpo. Tive vontade de abraçá-lo, de beijá-lo... Mas espere! Isso é loucura! Eu devo ter dado um "surto de sentimentos" - se é que isso existe -, afinal, estava com saudades do meu amigo. Depois que ele chegou em casa, começamos a conversar. Depois de algum tempo, éramos os mesmos de dois anos antes: irmãos de pais diferentes que não escondiam nada um do outro. Medos, desejos, vontades... Não sentia mais o pavor de ser rejeitado por ele e deixei de ME rejeitar.
As horas se passaram. Minha mãe convidou Dã para dormir em casa. Fiquei animado como um cachorrinho antes de sair para passear. Minha casa foi cuidadosamente planejada para infernizar minha vida. Ao se casar, meus pais começaram a construir a casa e ainda moravam com minha avó. Quando o andar inferior estava completo, eles foram morar lá. Mas antes que o segundo andar estivesse concluído, eles tiveram uma surpresa: Eu. Então, um terço do segundo andar é coberto por telhas. Adivinha qual terço!! O meu quarto, é claro! Junte isso com o sol de verão na parede do seu quarto por seis horas e terá um maravilhoso forno com vista para o crepúsculo!
- Mamãe... - chantageei minha mãe, com olhos tristes e suplicantes.
- Nem pensar!
- Mas temos visita!
- Dã é da família, então, vocês que se virem.
Sempre que podia, pedia para minha mãe para dormir no quarto dela, afinal, era do lado menos infernal da casa. Mas por maioria de votos (o dela e o do meu pai) no inverno eles invadiam meu quarto.
- Mas mãe, vamos cozinhar lá!
- E você quer que sua mãe velha e doente cozinhe? Não mesmo!!
- Se esse for o problema... - interrompeu Dã - ... poderíamos dormir na casa da árvore.
A ideia fez um arrepio subir pela minha espinha. Desde que Dã s mudou, eu só subi naquele barraco velho duas vezes. Uma delas com uma panelada de brigadeiro para afogar as mágoas e curtir minha depressão sizinho, mas percebi que aquele lugar só aumentava a saudade de meu amigo, então só voltei lá outra vez: Quando uma bola de vôlei caiu dentro dela. Nesse episódio, subi lá e vi tudo podre e úmido. Depois de alguns meses, o local deveria estar ainda mais deplorável.
- Não sei se é uma boa ideia... - comentei.
- Por quê? Está com medo de umas aranhas? - não quis parecer medroso e sim, tinha aranhas na velha casinha da árvore. E pra falar a verdade, algumas pareciam mutantes.
- Não estou com medo, mas ela está muito velha... E...
- Você prefere seu quarto?
Pensei na sauna na qual eu dormia e afirmei:
- Vamos pegar nossas coisas.
Continua...