ANUON 9999

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    Capítulo 25

    A Herança - Parte 2

    Violência

    A aparição de Kitsune surpreendeu Tikai Rayka, mestra do Dojoh Rayka. A história continua agora...

    Tikai não sabia o que fazer naquele momento. Estava confusa com o que estava acontecendo. Mesmo desta forma, pegou a raposa em seus braços e se dirigiu para dentro do templo com o animal. Já dentro, ela lhe coloca curativos e a coloca confortavelmente em uma cama. Depois de colocar a cabeça no lugar, Tikai tenta dialogar mais uma vez, por mais que isso possa ser estranho, com a raposa.

    — Ei, você... O que aconteceu?

    — Eu... eu fui atacada por humanos...

    — Porque?

    — Não posso dizer... humana... Você me mataria por isso...

    — Mas por que diz isso?

    — O que fiz... não tem perdão... Eu mesma reconheço isso...

    — O que você fez? Me diga!

    — Será melhor que não saiba...

    — Diga agora! Tudo isso não faz o mínimo sentido. Você, uma raposa, falando comigo agora... Aqui neste templo não há lugar para mentiras e segredos. Seja o que for, me diga.

    — Você é diferente, humana... Porque essa dedicação comigo?

    — Eu privo a vida de todos a minha volta, inclusive a animais. E ainda mais você, que fala.

    — Eu... matei um humano!.

    — O que? Mas... Você...

    — Sim, e me arrependo agora...

    — Depois deste seu ato, o que a vez se arrepender?

    — Você - Disse Kitsune, olhando-a nos olhos.

    — Eu? De que forma?

    — Nunca havia recebido tamanha atenção. Você realmente se importa com mina saúde... E lhe devo a minha vida...

    — Não, você não me deve nada.

    — Eu insisto... Deixe-me pagar...

    — Não, eu não aceitaria... O maior prêmio será vê-la em paz. Descanse por hoje... A propósito, qual é seu nome?

    — Humana... Me chamo Kitsune. E o seu? 

    — Tikai Rayka. Sou a sacerdotiza deste templo.

    — Nobre vida... Eu a invejo.

    — Não diga isso. Se quiser, pode viver aqui.

    — Não, eu não mereço...

    — Porque não?

    —Humana... eu matei um de vocês. Será que não entende que sou um ser despresível?

    — Você seria despresível se não mostrasse arrependimento. Mas o fez e é hora de se redimir... se quiser.

    — Sim... eu quero. Me ajude...

    — Ajudarei sim, Kitsune.

    Naquele dia, um pacto de amizade foi fincado entre as duas. Tikai cuidou de Kitsune até que melhorasse por completo. Sendo assim, Kitsune e Tikai viveram juntas desde então.

    Os meses passam...

    Era o início do outono. As ceregeiras começam a soltar suas folhas, ilustrando a bela paisagem do templo. Tikai varria a passagem e Kitsune havia ido pescar no riacho perto do templo. Pode até ser estranho, mas a raposa púrpura era uma ótima pescadora. Tikai, ao vê-la carregando um balde com peixes em seu focinho, se surpreende, dizendo:

    — Kitsune, como você consegue pegar tantos peixes? E como os trouxe aqui para dentro?

    — Tikai... Sério que não deveria ter demorado pra lhe contar mas... devo lhe mostrar algo que escondi nesses últimos meses...

    — Kitsune, o que disse em não guardar segredos aqui?

    — Mas foi para o seu próprio bem. Acredite.

    — Para o meu bem? Se é isso, porque não contou antes?

    — Seria arriscado para mim... Você me tratou tão bem que fiquei com medo...

    — Medo? De que?

    — De me expulsar daqui.

    — Kitsune, eu nunca faria isso...

    — Mas acho que, depois de mostrar o meu segredo, vai pensar diferente.

    — Mostre-me então.

    E Kitsune pede para que Tikai a acompanhe. Ambas ficam no pátio do templo e a raposa se afasta de Tikai, que a observa. Kitsune então começa a manifestar de seu corpo vários ráios negros, que circundam todo o jardim, mas sem lhe causar dano. A sacerdotisa do Templo Rayka, assustada, diz:

    — MAS COMO PODE SER? O QUE É ISSO?

    — Por favor, Tikai... não me mande embora. Eu não faço mais isso se quiser... Eu não quero ir... - Disse Kitsune, chorando.

    — Kitsune, pare de chorar. Não me agrada vê-la assim. Sei que há uma boa explicação para isso.

    — Sim. Há.

    — Me conte então. Mas não chore, minha amiga...

    — Eu fui vítima de uma experiência... Acabei desenvolvendo poderes das trevas. Ou seja, sombras. Posso fazer o que quiser com elas...

    — E quem fez isso a você?

    — O governo financiava um projeto, visando observar o comportamento de animais. Aqueles malditos humanos...

    — O governo? Mas que miseráveis...

    — Mas eu lhe peço: por favor, não me odeie.

    — Não, Kitsune... Eu nunca iria fazer isso com você. Esses últimos meses foram maravilhosos a seu lado. Nunca estive com tanta paz interior como agora. Eu lhe agradeço por estar aqui. Vicia tão sozinha aqui e, desde que você entrou na minha vida, os dias tem um significado. Eu cuido de você e você de mim...

    — Obrigada... Por Riviera... Eu não tenho palavras para dizer o quanto estou grata a você...  Eu amo você, Tikai.

    — Também a amo, Kitsune... Minha amiga... Minha única amiga...

    A forte amizade delas fez com que ambas esquecessem seus problemas e viveram suas vidas normalmente desde então. Tikai, por ser membra da família Raika, sempre sofreu preconceito. Mas em Kitsune pode encontrar alguém para conversar, que resultou numa forte amizade. A felicidade havia voltado a sua vida.

    Mas, certa noite, Kitsune não pode esconder algo que carregava consigo desde que havia chegado ao templo. Tikai notou que seu dorso estava maior e, pressentindo algo, diz:

    — Kitsune, há algo estranho com você...

    — Hã? Do-do que está falando?

    — Sua barriga... Você não come tanto assim.

    — Tikai, preciso lhe contar um outro segredo...

    — De novo, Kitsune? O que é agora?

    — Me desculpe. É que desta vez for por vergonha mesmo.

    — O que foi?

    — Eu, quando apareci aqui, estava... esperando...

    — Esperando o que?

    — Um... filhote.

    —O QUE? Mas passou todos esses meses e você não aparentou estar prenha. E mesmo assim, não deveria ter demorado tanto tempo...

    — Sei disso... Mas me modificaram geneticamente. Houve mudanças e isso afetou as etapas do ciclo.

    — E agora?

    — Eu não sei...

    Entendendo que não havia motivos pra tanta preocupação, Tikai se tranquilizou e logo tratou de confortar a futura mãe.

    — Hehehe... e qual será o nome?

    — Eu vou deixar você escolher...

    — Que isso... É dever da mãe dar o nome do seu filho.

    — Mas deixarei esta honra a você, que me deu uma nova chance de viver.

    — Kitsune...

    — Tikai...

    Em pouco tempo teriam mais um novo morador do Templo Rayka. Tikai e Kitsune se tornaram ainda mais amigas.

    A noite cai.

    Já era tarde da noite. Todas já dormiam. Mas algo de errado parecia estar acontendo na parte externa do templo. Faíscas iluminam aquela noite fatídica. Logo o jardim arde em chamas, estas que rapidamente chegam ao templo. As duas ainda dormiam...

    Mas Kitsune acorda, depois de ouvir um estalo. Tenta acordar Tikai, que se assusta com a sua ação.

    — O que foi, Kitsune?

    — Algo está errado! Vamos!

    — Espere...

    — O que foi?

    — Deixe-me pegar minha espada de madeira! Alguém pode estar aí...

    E assim que abrem a porta do quarto, dão conta de que estão praticamente cercadas por chamas. Tikai, desesperada, diz:

    — MEU TEMPLO! O QUE FIZERAM?

    — VAMOS SAIR DAQUI, TIKAI!

    — NÃO, ESTE TEMPLO É MINHA VIDA!

    — MAS SUA VIDA CORRE PERIGO!

    — SE ESTE TEMPLO ACABAR, EU MORRO!

    — TIKAI!

    E Tikai, mesmo com toda a dificuldade a sua frente, tenta a todo custo acabar com o incêndio. Suas roupas são queimadas, assim como seu cabelo e um pouco de sua pele. Seu desespero era tanto que batia nas chamas com um lençol molhado. Kitsune ajudava usando suas habilidades em manipular sombras. Ambas se dedicaram a apagar o fogo. Como esperado, ninguém apareceu para ajudar a controlar o fogo, nem mesmo os bombeiros.

    Ao fim da tragédia, Kitsune e Tikai estavam a frente do templo, vendo o estrago que ele as causou. Não era um momento de alívio.

    — Tikai, conseguimos finalmente! Vamos começar de novo, amiga. Vamos reconstruir este templo.

    — Sim, Kitsune, mas...

    — Mas o que?

    —Eu... Eu usei todas as minhas forças... Tudo de mim... para apagar... o fogo... - Disse Tikai, que se ajoelhou em seguida, fraca.

    — Porque fala assim?

    Tikai estava muito ferida. E acaba caindo de exaustão. Kitsune corre em sua direção e a olha nos olhos.

    — Tikai?! Levante-se! Você é forte! Vai!

    — Kitsune, nós lutamos juntas pela primeira vez...

    — Lutamos sim...

    — Vivemos juntas durante muito tempo... E eu fico feliz por ter conseguido ter uma amiga como você...

    — Porque está dizendo isso, Tikai?

    — Kitsune, eu estou morrendo...

    — Não... Não, você não pode... Não depois de tudo que nos passamos juntas até agora...

    — Você precisa seguir seu caminho...

    — O MEU CAMINHO É O SEU CAMINHO! 

    — Cada um tem seu próprio caminho, Kitsune... Você escolheu fazer o certo... Você se arrependeu e se tornou alguém melhor... Você é uma guerreira... - Disse Tikai, deitava ao chão, acariciando Kitsune em seu dorso.

    — Tikai, não me deixe! Como vou viver sem você? E seu templo? E o Maratsu-Kyoken?

    — Ninguém dessa cidade se importa com o templo nem com minha doutrina. Sou a última Rayka que leva esse estilo...

    — Não, Tikai! É seu sonho! Eu não posso deixar que isso acabe assim!

    — Você foi leal a mim e seguiu ao meu lado até em meu leito de morte... Kitsune, eu concedo a você meu templo e a faço, a partir de hoje, sob meu título de sacerdotisa do Templo Rayka, seu título de Kitsune Rayka.

    — Eu não mereço tal título... Não... Não... NÃO! TIKAI!

    Aos poucos as carícias feitas por Tikai ao dorso de Kitsune perdiam a força. A nobre raposa púrpura sabia que a vida de sua amiga estava chegando ao fim...

    Continua.


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