Freedom Planet: Faith & Shock

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    12
    Capítulos:

    Capítulo 4

    Descobrindo um novo mundo sem querer

    Spoiler, Violência

    Lilac e suas amigas conseguiram fugir em segurança e salvaram Viktor. Mas e agora? Como será?

    Lilac e suas amigas conseguirem enfim cumprir a missão. A bela dragão também conseguiu salvar Viktor, um humano que pelo visto não tem ideia do que está acontecendo. E pelo visto nem onde está, tendo em vista que as informações que ele passou as garotas não são entendidas por elas de nenhuma forma.

    Não demora muito e chegam a casa de Lilac, que ficava aos arredores do reino de Shang Tu. A frente da casa, Carol desembarca de sua moto, junto a Viktor que, ainda confuso, diz:

    - Então deixa eu ver se entendi: vocês não conhecem os Estados Unidos, não sabem onde fica e nem tem ideia do que seja?

    Carol não perdeu tempo:

    - Não, cara. E você tá perdido mesmo com essas idéias.

    - Então onde eu estou afinal?

    - Bem vindo a Shang Tu, ou em parte porque não viu a cidade.

    - Shang Tu? Estamos na China?

    - Hã? China? Mais um país desses, é?

    - Esse nome é chinês.

    - É, você tá perdido.

    Lilac, percebendo a desolação de Viktor, logo o tranquiliza.

    - Viktor, acalme-se. Estou certa que pra isso deva ter uma explicação.

    Carol foi empática, sem rodeios.

    - Mas tá na cara o que houve, Lilac. Na certa o "pessoinha" aí veio de outro planeta, que nem o Torque.

    - Mas como, Carol? Torque veio aqui em sua espaçonave. Mas Viktor apareceu do nada. Não é Viktor?

    - Espaçonave? Não, eu não sou um astronauta. Na verdade essa ideia aí do... quero dizer, da Carol é muita viagem, não?

    Carol estava mesmo disposta a descobrir mais.

    - Cara, para alguém que acabou de nos conhecer você tá bem íntimo, não?

    - Ueh, como assim?

    - Bem, nos apresentamos e já tá me chamando de Carol?

    - Sério, me desculpe. Eu nem pensei nisso. Como eu disse a senhorita Sash, me chamo Viktorius Ashem.

    - Ah tá tá? vou te chamar de Viktor mesmo porque seu nome é muito complicado. Eu me chamo Carol Tea.

    - Prazer, Senhoria Tea.

    - Ok, cara. Agora seja menos formal.

    - Mas você disse que eu estava sendo atrevido em te chamar de Carol.

    - Tudo bem, erro meu. Só tava te zuando. E falta a Milla.

    Milla, até então quieta, diz:

    - Que tem eu?

    - Ele ainda não se apresentou a você.

    Viktor, visivelmente envergonhado, diz:

    - Prazer, meu nome é Viktorius Ashem.

    Milla, mostrando a mesma forma envergonhada do rapaz, diz:

    - Eh? meu nome é Milla Basset.

    - Encantado, senhorita Basset.

    - Hã?

    Carol queria mesmo brincar com Viktor. Seu cavalheirismo a divertia.

    - Pronto, agora o Viktor está galanteando geral, até a Milla, nyah!

    O rapaz, ainda mais envergonhado, virava para Carol, totalmente sem jeito.

    - O que? Não... é... tipo, eu.. eu só estava sendo educado com vocês... não é o que parece...

    - Hehehe, relaxa, cara. Adoro zuar com você.

    - Isso não se faz, sabia?

    - Nyah!

    Lilac, percebendo a situação de Viktor, o puxa pelo braço, levando-o para frente a porta de sua casa. Lá, ela diz:

    - Viktor, você tem onde ficar?

    - Eu não sei nem o que está acontecendo. Eu não sei bem onde estou e porque estou aqui.

    - Tudo bem. Se quiser, eu te convido a ficar aqui hoje.

    Carol arregala seus olhos, se surpreendendo com a oferta de Lilac. A felina verde, se aproximando da amiga, diz:

    - Lilac, será que você poderia me explicar o que está fazendo?

    - Ora, só estou sendo cordial com ele. Não podemos deixá-lo ao relento e a própria sorte.

    - Eu concordo, mas será que você não acha errado convidar um garoto desconhecido que-não-tem-ideia-de-onde-veio pra dentro da casa de três garotas lindinhas?

    - Do que está falando, Carol?

    - Deixa de ser inocente, Lilac. Será que tudo que aconteceu no passado não passa na sua cabeça?

    - Eu entendi sim. Mas com Torque era diferente porque ele estava em uma missão secreta e você deu uma de curiosa e desmascarou ele, só que ele era uma pessoa legal.

    - Sim, mas o Torque sabemos de onde veio e porque veio. O "pessoinha" aí não tem nada que conhecemos.

    Viktor, depois de ouvir Carol, entendeu bem a mensagem.

    - Ela tem razão, Lilac. É um risco grande você me deixar entrar.

    - Porque, Viktor? Eu assumo esse risco, do mesmo jeito que corri pra te ajudar na floresta.

    - Eu sei e agradeço. Mas ela está certa. Eu poderia ser um espião, ou um ladrão, ou um sequestrador...

    - Eu sei que não é nada disso, Viktor.

    - E como pode ter tanta certeza?

    - Você salvou a Milla. Só isso já me diz que é alguém confiável.

    - Mas eu poderia ter feito isso pra ganhar a confiança de vocês, não?

    - Por isso mesmo.

    - Como assim?

    - Você poderia ter fugido mas se arriscou pra salvá-la. Você estava machucado, não teria motivos de fazer isso se não fosse mesmo de confiança.

    Milla, se aproximando de todos, diz:

    - Eu voto pra que o Viktorius fique com a gente.

    Lilac, se surpreendendo com a atitude de Milla, diz:

    - Milla? eu também voto pra ele ficar com a gente. E você, Carol?

    - Ah fala sério vocês duas? Isso não é justo. Tá bom, deixa ele ficar...

    Viktor ainda assim estava incomodado com tanta hospitalidade das garotas. Não achava certo aceitar a oferta.

    - Olha, eu não quero incomodar vocês. Tenho ciência que tem a vida de vocês e não quero me meter. Só quero voltar pra casa.

    Lilac logo tratou de tranquilizá-lo.

    - Não se preocupe, Viktor. Nós vamos te ajudar no que for preciso. Enquanto isso será de bom agrado que fique com a gente. Tem lugar pra todo mundo aqui.

    - Tudo bem. E agradeço mais uma vez pela hospitalidade.

    Viktor logo a reverencia ao estilo japonês, inclinando sua cabeça ante as garotas, que não entendiam muito bem o porquê. Logo Lilac mostra uma escada em uma enorme árvore, indicando que seria por ela que chegariam até sua casa. O jovem logo se surpreendeu com o tamanho da contrução. Depois de contemplar a visão, eles subempreiteiros à árvore e Lilac abre a porta, convidandi o rapaz a entrar. Embora fosse uma casa na árvore, lá entro era uma casa aconchegante, com uma grande sala com dois sofás e uma TV, podendo ver uma mesa redonda ao canto, que dava acesso a cozinha. Ao fundo, um corredor que levava a outras três portas: uma para o banheiro, outra para o quarto das garotas e uma, no final, para hóspedes. Mas algo chamou muito a atenção de Viktor: a cozinha. Inquieto, olhou cada centímetro do lugar, principalmente as frutas e legumes que estavam em uma cesta sobre uma bancada. Lilac, Carol e Milla estranhavam o comportamento do rapaz. A dragão, se preocupando com ele, fiz:

    - Viktor, você está bem?

    - Eu estou muito bem. Nunca vi uma cozinha tão bem arrumada assim em uma casa. E essas frutas aqui eu nunca vi e nem esses legumes. Posso prová-los?

    - Hã? Bem, pode. Você deve estar faminto. Eu entendo.

    - Não, não é isso...

    O rapaz, logo após Lilac permitir que provasse, não perde tempo. O semblante do rapax ao sentir o sabor era de satisfação plena, o que assustou ainda mais as garotas. Carol, até então calada, diz:

    - Esse cara é estranho. Maluquinho. Doido de pedra.

    Viktor, ao terminar de provar cada um dos frutos, olha para as garotas, percebendo que estava mesmo as deixando preocupadas. Sem perder muito tempo para não parecer mesmo um louco, diz:

    - Olha, antes que pensem algo de mim, tudo isso tem uma explicação.

    - Pode ter certeza que queremos ouví-la - disse Carol, olhando nos olhos de Viktor.

    - Eu sou cozinheiro.

    - O que? Você?

    - Sim.

    E de forma contagiante, todas começarem a rir do rapaz, incredulas com as habilidades culinárias dele. Carol era a mais exautada.

    - Hahahaha... Fala sério, cara. Você cozinheiro? Como pode um garoto ser cozinheiro?

    - Hehehe... por um minuto eu até acreditei - disse Lilac, tentando conter seu riso.

    - Eu nunca vi um cozinheiro. E não esperava que você fosse um, Viktorius - disse Milla, de um jeito mais doce.

    Viktor estava sentido, mas seu semblante era de confiança. Ignorando o momento de risadas das garotas, diz:

    - Ah é? Se quiserem eu mostro pra vocês que falo sério. Só me darem a cozinha.

    Carol percebeu que ele estava falando sério. Lilac, até então rindo, vai até Viktor e, num tom mais sério, diz:

    - Você pode fazer o que quiser na minha cozinha, mas antes peço por favor que vá tomar um banho.

    - Hã? Tomar banho?

    - Sim. Se você é esse cozinheiro que diz, sabe que higiene é muito importante, não?

    - Bem, é... você está certa.

    - Então, vá tomar um banho e depois você pode fazer o que quer na minha cozinha. Eu vou lhe mostrar o banheiro...

    Lilac o leva até o banheiro, o ajudando com sua mochila. Ela retorna então pare a sala, onde Carol assistia TV com Milla.

    - E aí, Lilac? O imundo foi tomar banho mesmo?

    - Carol, tenha modos.

    - Tá, desculpa.

    - Ele foi sim. Ele é um pouco estranho, mas é legal.

    - Você tá sendo muito camarada com ele. Fala sério? como ele pode ser cozinheiro? Ele pode ser um lutador sei lá, até porque ele estava usando aquelas roupas, mas eu acho que ele tá é fazendo pose.

    - Pode até ser, Carol. Mas mesmo assim devemos respeitá-lo.

    - Tá bom. Mas melhor ficar de olho nesse cara...

    E do nada Viktor aparece na sala, vestido com uma camisa branca e calça jeans usando um tênis preto. No mesmo instante as garotas olham pra ele se surpreendendo. Carol logo se manifesta.

    - O que um banho e roupas limpas não fazem com alguém. Tá bonitão, hein.

    - Eh... bem... realmente está bem melhor agora. - dizia Lilac, um pouco envergonhada.

    - Mas ele está usando roupas que nunca vi. Essa calça dele azul tá desfiada nas pernas, parece que estão rasgadas? - dizia Milla, olhando-o de cima para baixo a todo instante.

    Viktor, surpreso, fica um pouco sem jeito frente as garotas.

    - Olha, vocês estão me olhando como nunca tivessem visto alguém como eu.

    - Mas é exatamente isso, seu bobo. Nunca vimos alguém como você antes - dizia Carol, ainda o olhando.

    - E porque suas calças estão rasgadas? E ele são feitas de quê? - Dizia Milla, confusa com as roupas do rapaz.

    - Mas esse tipo de calça está na moda. Mas isso não deveria ser estranho.

    Lilac, para evitar que a discussão se prolongasse, tratou de falar a Viktor sobre o que havia dito antes.

    - Bem, está limpo agora. E sobre você ser um cozinheiro, é verdade mesmo?

    - Bem, na verdade o nome que uso é chef de cozinha. Mas sim, sou cozinheiro. Minha avó me ensinou tudo de cozinha e eu fiz um curso exatamente pra isso.

    - Muito bem. Eu estou mesmo curiosa pra saber se existe mesmo isso de um garoto saber cozinhar.

    - Vocês duvidam?

    Carol só estava esperando a pergunta.

    - Pode apostar nisso, falador. Sem chance de um garoto saber cozinhar.

    - Então façamos isso: se eu provar que sei cozinhar, amanhã mesmo terão de tentar descobrir como volto pra casa, até porque não conheço nada por aqui.

    Lilac mostrou-se animada com a proposta de Viktor, assim como as demais garotas. Milla logo disse:

    - Mas e se você não for um cozinheiro?

    - Tá na cara, Milla. Ele vai ter que limpar a casa pra compensar - Disse Carol, com um sorriso no rosto.

    - Peraí... limpar a casa?

    - É, ora. Eu sei que existem zeladores. Você tem cara de ser um e dos bons. Concorda, Lilac?

    - Sim, eu concordo. - Dizia a bela dragão, também sorrindo, sinalizando com o dedo.

    - Isso aqui está parecendo uma prova. Mas vocês vão se surpreender... - Dizia Viktor, já pegando os legumes e verduras.

    O rapaz estava animado. Começava a cortar os legumes de forma profissional, impressionando as garotas. A forma que manejava a faca e como tratava cada ingrediente era louvável. Sua habilidade era mesmo de alguém acostumado a cozinha. Já preparava a panela, fervendo a água e mergulhando alguns ingredientes. Logo vai até a geladeira e constata algo:

    - *Bem... vamos raciocinar. Um: eu não estou na minha dimensão ou planeta. Dois: eu estou indo bem, sem pagar mico até agora, pelo menos um mico grande. Três: pelo que vejo na geladeira, as pessoas daqui não consomem carne vermelha. Quatro: consomem pelo visto só frutos do mar? Hum? interessante. Já sei o que irei fazer. Tem algas aqui... hehehe... vou surpreender elas...*

    Havia pedaços generosos e frescos de peixe, os quais Viktor logo trata de pegar. Lilac logo diz:

    - Espera, não me diga que você vai fazer o que estou pensando...

    - O que, Lilac? - Dizia Viktor, com um sorriso no rosto.

    - É sushi, não é? Diz que sim!

    - É sim. Porque?

    Lilac logo olha para Carol e Milla e, juntas, gritam de alegria.

    - NÓS ADORAMOS SUSHI!

    - Nossa, sério?

    - Sim! Muito! Bastante! "Tudão" dessa vida EVER, nyah! - Dizia Carol, a mais animada.

    Depois de alguns instantes, Viktor serve a elas uma refeição completa. Os olhos das garotas brilhavam com tamanha fartura e o cheiro da comida era delicioso. O rapaz, bem satisfeito com a recepção, apresentou os pratos.

    - Aqui temos o meu famoso purê de legumes com tempero de "sei lá o nome da erva mas caiu como uma luva". Aqui tenho a sopa de legumes e verduras "que também desconheço o nome mas são deliciosas pra ficarem juntas em um prato". E para fechar, sushi de "peixe que eu não tenho a mínima ideia de como se chama mas é bem saboroso e fresco". Podem se servir.

    As garotas praticamente pulam a mesa e se sentam para comer. Viktor também se senta, pegando um pouco da sopa. Carol, de longe a mais faminta, com a boca cheia de sushi, diz:

    - Cora, ussa cumuda qui vuçu fuz tu útuma!

    - Carol, tenha modos na mesa! - disse Lilac, colocando sua amiga nos eixos.

    Carol engole a comida e completa:

    - Mas sério, isso aqui tá uma delícia. Só comi algo igual só em um restaurante.

    - Está ótima mesmo. Me surpreendeu - Disse Lilac, enquanto pegava mais sushi.

    - Ah não precisam agradecer. Na verdade, isso até serve para pagar a hospitalidade de vocês. - Disse Viktor, com um sorriso no rosto, mostrando-se satisfeito.

    - Mas devo reconhecer que você cozinha muito bem. Carol estava certa quando disse que está tão bom quanto em um restaurante.

    - Bem, eu meio que improvisei porque não conheço bem esses legumes e verduras. E essa carne de peixe tem um sabor e textura excelentes. É difícil achar essa qualidade onde eu moro.

    Aproveitando o assunto que Viktor puxou, Lilac continua a conversa.

    - De onde você veio é parecido com aqui?

    Um pouco sim. Onde eu moro as pessoas não se vestem como vocês.

    - Hã?

    - Tipo, vocês são cosplayers, não são?

    - O que seria isso?

    - Pessoas que se vestem como personagens de anime, filmes, desenhos etc. Do mundo pop em geral.

    - Viktor, não tenho ideia do que você está falando.

    - Espera... só pra eu ter ideia do mico que eu estou pagando: vocês estão usando uma fantasia, não?

    - Lilac, acho que ele quer saber se a gente é de verdade - Disse Carol, devorando uma linha de quatro sushis ao mesmo tempo.

    - Ah entendi. Viktor, não estamos fantasiadas. Estamos vestidas, mas não estamos usando fantasia alguma. Creio que de onde você veio todo mundo deva ser como você.

    O rapaz logo parou de comer, olhando para Lilac sem piscar.

    - Vocês estão mesmo falando sério?

    - Sim, Viktor.

    - Você é um dragão de verdade?

    - Sou sim. Carol é uma gata do sul e Milla é uma canina fofinha.

    - Agora só falta ele dizer que está sonhando e pedir pra alguém o beliscar. Se ele pedir, eu sou a primeira, tá? - Disse Carol, ainda comendo.

    - Mas... mas os seus costumes são parecidos com de onde moro. E vocês não se impressionaram por eu ser diferente.

    - Porque faríamos isso? Tudo mundo é o que deve ser. Nunca vimos alguém como você antes, mas isso não é motivo pra termos algum preconceito nem nada - Disse Lilac, tranquila, se servindo com mais um sushi.

    - Eu nunca tinha visto um dragão na vida. E saber que eles de fato existem me anima.

    - Não existem dragões onde mora?

    - Só em lendas. Nossa, você não tem ideia da simbologia que você representa pra mim!

    - Hã? Como assim?

    - Dragões de onde venho são símbolos de força e sabedoria. São verdadeiros deuses do oriente. Sua imponência é tanta que só em dizer seu nome já trás harmonia.

    Viktor dizia suas palavras com um brilho nos olhos, o que causou a Lilac uma reação inesperada.

    - Eh? está me deixando sem jeito, Viktor - Dizia a dragão, um pouco corada.

    - Desculpe pela franqueza, Lilac. Não queria te envergonhar.

    - Ah relaxa, cara. Eu vivo fazendo isso. Mas o que eu posso fazer, né? Ela é demais mesmo. Uma diva, nyah! - Dizia Carol, deixando Lilac ainda mais envergonhada.

    - Carol, para com isso, sua boba!

    Muitas gargalhadas eram ouvidas a mesa. As garotas estavam adorando a refeição. Já satisfeitas, e com Carol praticamente limpando o prato, ainda se mantinham por ali, conversando. Lilac perguntava.

    - Carol, estava muito bom mesmo, não?

    - Sim. O cara aí é um baita de um cozinheiro.

    - Ele cozinha melhor que você, Lilac. - Disse Milla, de forma bem inocente.

    - Não estou em pé de igualdade com ele, Milla? - Disse a dragão, um pouco constrangida.

    - Ah mas não é que sua comida é ruim. Eu gosto dela, mas né? O Viktor provou que é mesmo um cozinheiro.

    - É verdade. Bem, como combinado, amanhã mesmo irei até o reino pra saber alguma forma de você voltar para seu mundo, Viktor.

    - Beleza! Tudo bem, Lilac. E obrigado.

    Carol, que ajudava a limpar a mesa, logo tratou de dizer.

    - Viktor, com quem você mora?

    - Eu... bem... eu morava com... com a minha avó.

    Viktor falava de uma forma mais comedida, fato esse sendo percebido por Milla. A canina era conhecida por ter a habilidade de saber o estado de espírito das pessoas e percebeu que o rapaz expressou-se indicando que algo não estava bem. Lilac e Carol simplesmente continuaram a conversa, com a dragão perguntando:

    - Verdade, você disse durante o jantar. Foi ela que te ensinou a cozinhar, não?

    - Sim.

    - E ensinou muito bem. Você é ótimo na cozinha. Sua avó deve estar orgulhosa.

    - Está sim. Estou certo disso.

    Carol, terminando de juntar os pratos, logo toma a palavra.

    - Você já pensou em trabalhar em um restaurante? Tipo, abrir um negócio só seu, nyah?

    - Já sim. Mas pra isso precisaria de muito dinheiro. Eu não tenho nenhuma grande riqueza de onde venho. Teria de trabalhar em um restaurante de alguém. Só depois eu poderia juntar grana pra abrir algo meu.

    - Ah verdade. Essas coisas são caras.

    - São sim. Mas essa cozinha de vocês é um sonho. É exatamente o que eu sempre quis.

    - Pode sempre usar minha cozinha, Viktor. Pelo menos até você poder voltar - Disse Lilac, gentil como sempre.

    Depois de lavarem a louça, todos se preparavam para dormir. Lilac levou Viktor até o quarto de hóspedes. Não era muito grande, mas confortável. O interior era como nos apartamentos japoneses, com a cama no chão e alguns pequenos cômodos que guardavam a roupa de cama e de dormir.

    - Fique a vontade, Viktor. E boa noite.

    - Boa noite, senhorita Lilac. E muito obrigado por tudo que vocês estão fazendo por mim.

    - É o mínimo que podemos fazer. Além do mais, você salvou a Milla. Devemos essa a você.

    - Que isso, Lilac. Eu fiz pra ajudar mesmo.

    - Eu sei. Bem, até amanhã.

    Lilac, dele de se despedir do rapaz, entra em seu quarto, onde estava Milla, já dormindo, e Carol, já quase caindo no sono. Lilac retira suas botas e deita em sua cama. Ela, já mostrando que estava bem cansada, pensa:

    - *Aquelas criaturas... elas só ficam por alí, não saem por nada daquela floresta. Porque? Será que já estão investigando isso? Pois bem, amanhã mesmo irei saber e também irei ajudar o Viktor...*

    A noite cai...

    Durante o sono de nossas heroínas, eis que Viktor se levantou de sua cama e, passando pelo corredor dos quartos, se dirigiu até o exterior da casa. Lá, se sentou próximo a porta de entrada. Ele, com um semblante bem fechado, apoiando seus braços em suas pernas, começou a chorar. As suas lágrimas caiam ao chão, mostrando o peso de uma tristeza ainda não explicada. Mas para sua surpresa, uma voz feminina é ouvida, chamando pelo seu nome. Era Milla, que rapidamente se aproximava do rapaz, que não pôde esconder o choro. Ela, gentilmente, diz:

    - Porque está chorando, Viktorius?

    - Milla... eu... eu... eu não quero envolver você nisso.

    - Viktorius, durante a janta eu percebi que você não estava bem quando falou da sua avó. Aconteceu algo?

    Ela fitava Viktor, que fugia do olhar. Mas a canina insistiu.

    - Viktorius, pode falar comigo.

    - Milla... você não entende...

    - Eu entendo muita coisa, sabe? As garotas estão me ajudando a encontrar meus pais. Faz mais de um ano que não os vejo, nem sei onde estão...

    - Milla... eu... eu não sabia disso... Como pode estar tão bem consigo mesma sem saber onde estão seus pais?

    - Eu tenho minhas amigas e nós nos ajudamos. Eu não sei onde estão meus pais, mas eles me deixaram muitos ensinamentos pra quando eu estivesse sozinha eu pudesse me virar. Uma das coisas era nunca desistir. Um outro era sempre ajudar quem precisa. E o mais importante: nunca perder a fé. Isso sempre me dá forças pra seguir em frente.

    Viktor, ao ouvir as palavras de Milla, fica impressionado com o poder de resiliência da canina, que ou praticamente o ensina como deve ter forças pra superar obstáculos. Ele, ainda muito triste, diz:

    - Milla... eu... eu... quando tinha cinco anos... eu... perdi meus pais.

    - Nossa, Viktorius. E como eu você não sabe onde eles estão?

    - Não, Milla... não é como seu caso... eu sei onde eles estão...

    - Onde?

    - Eles... eles morreram, Milla. Eu sou órfão...

    Milla ficou atônita com a notícia. A tristeza de Viktor era completamente sentida pela canina, que logo tratou de se sentar ao seu lado, acudindo-o. Ela, o abraçando, diz:

    - Eu sinto muito, Viktorius. Eu não sei o que dizer... Mas eu sei que eles eram importantes pra você...

    - Eu sei, Milla... eu nunca os esqueci e sempre me lembrarei...

    - Viktorius, se quiser pode me abraçar forte. Pode desabafar se quiser.

    - Desde os meus cinco anos minha avó cuida de mim. Eu não conheci meu avô, então nós dois acabamos nos unindo na dor e viramos os melhores amigos.

    - Isso é bom, Viktorius.

    - Minha avó me ensinou praticamente tudo, dando continuidade aos meus pais. Ela tinha um restaurante, onde ela me ajudou a conhecer o que é ser um chef. Mas ela...

    - O que aconteceu, Viktorius?

    - Milla... faz seis meses que ela morreu... Milla... dói muito isso... eu não tenho mais ninguém no mundo... eu não tenho uma família...

    Viktor estava mesmo triste. Seu luto não havia concluído e a perda de seu único ente querido era uma dor tremenda. Milla, percebendo que não era um sentimento comum, tratou de ser sincera.

    - Viktorius... eu sinto que sua dor é bem grande... mas não guarde isso só pra você agora... vou te fazer companhia na sua dor... não deixa isso guardado no seu coração... Eu quero te ajudar... diz tudo, põe pra fora essa dor...

    As palavras de conforto de Milla encheram os olhos do rapaz de lágrimas, que depois disso passou a chorar compulsoriamente, não se segurando mais e colocando para fora todas as suas angustias. Viktor, durante seus prantos, dizia que não tinha condições de manter o restaurante da sua avó sozinho e, por ter hipoteca, não conseguiu mantê-lo aberto, sendo fechado semanas depois. Passou a morar sozinho usando a pensão, mas não conseguia superar a perda. A única coisa que lhe mantinha era seu amor pelo karatê, onde tinha forte amizade com seu sensei.

    Durante todo esse tempo Milla ficou ao seu lado, ouvindo tudo, dando-lhe as mãos, abraçando-o com a outra. Ela é a única testemunha da dor do rapaz, que insistiu que não contasse nada a Lilac e Carol. Milla não pensou duas vezes e atendeu ao pedido de Viktor.

    - Muito obrigado, Milla...

    - Amigos sempre devem ajudar amigos

    Continua.


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