Chiaroscuro

Tempo estimado de leitura: 2 horas

    18
    Capítulos:

    Capítulo 2

    Regresso

    Hentai, Incesto, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoiler, Suicídio, Violência

    Boa noite leitores lindos!

    Sejam bem vindos ao segundo cap de Chiaroscuro, sou Luana ou LuInoue, como preferirem.

    Estou muito feliz de trabalhar com o Felipe nesse projeto, temos nos divertido muito com os planejamentos, trocado muitas teorias e brisas e tudo para divertir a agradar nossos queridos leitores.

    O primeiro capitulo foi um tanto longo, mas estamos fazendo o possível para que os seguintes sejam menores.

    Então, para mim trabalhar sobre The Lost Canvas é um prazer gigantesco, sou apaixonada por todo elenco, as personalidades e histórias e poder dar um toque a mais e brincar de remoldar aquilo que já era bom, é uma sensação maravilhosa, fora o fato de ser super nostálgico e é claro que estou assistindo o anime novamente e vou assistir quantas vezes precisar para tirar o melhor para nossa aventura.

    Agradeço a todos que responderam a nossa divulgação e vieram nos dar essa oportunidade, não iremos desapontá-los.

    Então é isso, obrigada pelo apoio, favoritos, comentários e leitura, sem mais enrolação vamos ao capitulo de hoje.

    Santuário de Athena

    Algum lugar da Grécia

    Século XVIII

    Se havia algo digno de competir com a bela imensidão noturna em seu véu estrelado, exibindo um imponente espetáculo sobre as longínquas montanhas, este objeto era nada mais, nada menos que algo que equivalesse a tal beleza… Ou a ultrapassasse. Ela também era altiva, monumental e majestosa, uma gigante deusa a ser vista do alto de seu marmorizado e belo altar, de cabeça erguida a fitar o infindável horizonte além das rochas. Se Athena em sua inspirada representação pétrea era o símbolo maior do oculto e antigo Santuário grego, escondido dos olhos da humanidade em meio à uma afastada cordilheira de montes rochosos em algum lugar selvagem da velha Grécia, por si só aquele histórico lugar se fazia mítico. Irreal para os inimigos. Fictício para os homens. Uma lenda para as futuras gerações.

    A estátua de Athena era responsável pelo que os cavaleiros conheciam como “Cuore Santo”, uma energia luminescente e cósmica que emanava um poderoso escudo, uma redoma de puro cosmo divino sobre o santuário que servia não apenas para protegê-lo, como também para torná-lo invisível aos olhos dos humanos e principalmente, despistar a localização do abrigo para quem ousasse rastrear o cosmo da deusa ou de algum cavaleiro abrigado em seu templo. Esta resistente energia era fortificada pelos cavaleiros eleitos como “Grandes Mestres”, heróis que garantiram a vitória de Athena nas guerras santas anteriores e dignos de comandar não apenas o Cuore Santo como também todo o santuário. A missão de um Grande Mestre era guiar de séculos em séculos os soldados, bem como restaurar o escudo até o receptáculo da deusa, pertinente a cada época, se fazer presente.

    Um Grande Mestre devia defender com a própria vida o esconderijo e mantê-lo encoberto das forças negras de Hades, o deus do submundo. Sage de Câncer sabia muito bem disto. O velho alcançava seus 260 anos envolto em longas memórias de batalhas que fizeram dele o que era hoje: O mais antigo cavaleiro de Athena a sobreviver na última e mais brutal guerra santa, ao lado de Hakurei de Altar, seu irmão mais velho. Sage era acima de tudo, sábio e coerente. Apesar de ser constantemente assombrado pelas mortes de seus companheiros e pelos traumas da antiga batalha, o velho liderava com pulso firme e uma analítica inteligência os domínios santos, bem como um justo e ponderado coração. Já não era mais o jovem guerreiro, discípulo de Itia, nem mesmo o valente cavaleiro de ouro de Câncer… Agora era um mestre, um líder leal à sua deusa, empenhado a manter vivo seu ideal de justiça. A prova disto era o elmo dourado em sua cabeça, ornamentado em ouro, adornado pelo pequeno dragão alado no topo, o símbolo dos mestres anteriores que honraram a peça, devotos e brilhantes. Seu longo manto formal e escuro, exibindo um reluzente colar dourado em meio aos talismãs e a comprida estola, pesava menos que a armadura de ouro, em compensação pesava mais que a responsabilidade de guardar uma das casas.

    Sage guardava todo o santuário. Sua missão se estendia  também para procurar o próximo receptáculo de Athena, a humana que cederia seu corpo para reencarnar a deusa. Após uma reunião com o conselho católico grego, comandado pelo clérigo administrativo europeu, foi relatado a presença de cavaleiros negros em vilas e cidades por todo o continente, a arquidiocese de Roma enviou um documento pedindo ajuda ao santuário, dizendo que estranhos espectros estavam a assassinar cidadãos e raptar jovens rapazes.

    Sage desconfiava da nuvem negra a se aproximar e priorizou as buscas pelo receptáculo de Athena, utilizando seu melhor contingente: Os cavaleiros de ouro das doze casas. Depois de alguns meses, a longa campanha cruzou seu caminho com os tais espectros e uma disputa pelo tempo se formou, cada lado a correr contra o relógio. Aquele que obtivesse seu trunfo primeiro, teria seu primeiro lance na iminente guerra. O velho Mestre não queria que uma nova guerra santa eclodisse, mais mortes, mais destruição, mais jovens retirados de suas famílias para combater em nome da paz. A busca surtiu efeito e o devoto Sísifo de Sagitário localizou uma menina em um distante vilarejo na Itália.

    Naquela noite, o velho Sage estava agitado. Dirigiu-se para o observatório do templo, próximo à estátua, a pedido de Dégel, o cavaleiro de ouro de Aquário. Ressabiado, o mestre adentrou a biblioteca que ficava dentro do local, um enorme acervo cultural dos tempos antigos. Milhares de obras importantes, livros perdidos e resgatados de postergadas civilizações, guias e mapas do mundo além-mar e muitos outros tesouros preenchiam as milhares de prateleiras e seções enumeradas. Tudo aquilo fora reunido pelo inteligente e culto Dégel, estudioso e amante de livros que explorava ruínas atrás de documentos e manuscritos passados.

    O cavaleiro de Aquário era reservado e gentil, porém, sempre recluso e na maior parte das vezes era visto a pesquisar seus livros e mapas, e o responsável por traçar um minucioso padrão das forças de Hades desde o século XIV em um mapa. Era astrônomo e hábil leitor das constelações. Vestido em um elegante traje francês em tons lilases, seu longo redingote o cobria por inteiro, dando-lhe um ar mais sério do que aparentava. O rapaz de longos cabelos verdes estava sentado sobre sua poltrona a mirar com seu aguçado olhar as estrelas através da lente comprida do colossal telescópio da sala.

    Controlando a direção da lente com uma bússola integrada a um painel de comando, o cavaleiro cobria seu campo de visão celeste ao tempo em que fazia anotações, completamente absorto em sua atividade. Uma doce melodia de violinos soava ao fundo. Sage riu, discreto. Dégel não lembrava em nada seu antigo mestre Krest de Aquário. Enquanto os outros cavaleiros de ouro seguiam fervorosos por Athena, ele mantinha-se obstinado a estudar maneiras menos conflituosas de proteger a deusa. Mas não menos bravas. Era um erro fatal considerar Dégel como um cavaleiro fraco.

    — Perdido novamente nas estrelas, meu jovem? — Cumprimentou Sage, amistoso, retirando seu elmo e o colocando sobre a mesa ao lado de Dégel.

    — Estrelas são caminhos previamente traçados, não há como se perder ao trilhar algo já planejado… — Afirmou Dégel, voltando sua atenção para o mestre. — Boa noite, senhor Sage! Sei que já é tarde, mas precisamos conversar.

    — Sua pupila não está entre nós? — Questionou Sage, sentando-se em frente a Dégel. — Aquela criança tem o dom para ouvir atrás das paredes.

    — Já pedi para a menina Riley ir dormir… De fato ela é bastante cansativa, seu treinamento está me tomando quase todo o tempo que tenho para rastrear os espectros de Hades, quando não está batendo nos garotos, está a arrumar confusões com as servas do santuário. Fico a pensar se esta garota tem potencial para carregar as virtudes do Cisne, já que é explosiva e impaciente…

    — Seu mestre também era… — Comentou o mais velho, a servir-se do vinho ao lado das leituras do rapaz.

    — Bom, vamos ao que importa? Meu senhor, após meses de pesquisas sobre o plano que tracei das movimentações das tropas de Hades pela Europa, descobri algo que foge do padrão! Algo que está além de nossa compreensão. Estamos lidando com uma energia perigosa, que alterna entre a realidade e o mundo dos mortos e só pode ser rastreada pelas estrelas. Todos os espectros mortos em batalha contra nossas forças voltaram a ser vistos não apenas nas cidades europeias como também no mundo inteiro e a cada nova aparição, cada constelação ganha uma espécie de estrela maior, como uma regente, marcando aqueles que retornaram. Cada supernova origina estas estrelas, mas durante estes séculos elas jamais morreram. Isto vem ocorrendo desde o século XV e só não foi detectado antes por dois motivos: Nossos cavaleiros estavam sendo convertidos por Hades, em contrapartida,com os espectros revividos a dedo, escolhidos estrategicamente por estas forças.

    — Como não percebemos isto antes nas guerras anteriores? — Indagou Sage, curioso.

    — Bom, desde as respectivas ascensões de Hades, o mundo dos mortos tornou-se uma mixórdia, diversas almas escapam de Samsara e não temos controle algum sobre isto, o que quer que esteja originando estas supernovas e trazendo de volta à vida os espectros, está se aproveitando da balbúrdia para nos confundir, cada espectro que retorna tem sua armadura alterada e são capazes de corromper nossos soldados. Há relatos de que nos atuais ataques, uma mulher foi vista liderando-os e segundo os cavaleiros sobreviventes, ela é a responsável pela conversão de nossos aliados. Contatamos os diretores da Fundação Graad para auxiliar o santuário a localizá-la… Mas meses se passaram e até agora não conseguimos um único rastro. Esta energia cósmica não é proveniente de nossa dimensão, mas sim de outra paralela e está a provocar tanto o caos no submundo quanto a ressurreição dos nossos inimigos. Vocês antes não perceberam isto porque agora é um novo padrão… Estão aprimorando seus meios para nos confundir.

    — Hades então já está agindo? — O grisalho massageou as têmporas, alarmado.

    — Pela leitura das estrelas, ainda não… — Levantou Dégel, cansado. — O senhor precisa entender que o que está vindo é a preparação para recebê-lo, estão a preparar o terreno para sua chegada e há uma poderosa energia que está cuidando disto, não creio que esta misteriosa mulher seja sua portadora, mas sem dúvida é a porta-voz.

    — Muito obrigado por esta importante revelação, Dégel! — Agradeceu o Grande Mestre, levantando-se enquanto vestia novamente seu elmo. — Mandarei mais reforços para o campo de batalha e contatarei um dos nossos dourados para investigar de perto. Sísifo está prestes a chegar com o receptáculo de Athena, precisamos nos preparar para receber a menina… Posso contar com você lá embaixo, trajado em sua armadura de ouro?

    — Claro, senhor Sage! — Concordou Dégel, reverenciando o mestre com a cabeça. Sage agradeceu e voltou para a  entrada do templo, ansioso, afinal fora comunicado que Sísifo estava a poucas horas dali e o alerta fora dado mais cedo, o que significava que a qualquer minuto poderiam chegar. Pediu aos servos que comunicassem aos cavaleiros de ouro para se reunirem no templo, todos, já trajados e prontos para receber a futura Athena. O velho suava frio, nervoso, estava prestes a testemunhar o surgimento daquela que daria um fim aos perigosos tempos que se aproximavam.

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    A noite estava abafada, quente, nem mesmo um sopro ou brisa refrescante aliviava a tensão e os exaltados ânimos. Pelos caminhos rochosos e estradas íngremes e repletas de longos e mortais desfiladeiros; a difícil e perigosa rota para o santuário se mostrava dura para os cavalos, mesmo treinados para suportar as extensas curvas e subidas por entre as pedras, os animais sofriam para chegar ao destino.

    A carruagem era leve, de uma madeira resistente em contraparte das poucas peças, um cupê de apenas dois lugares à frente e uma minúscula cabine traseira, além de um bagageiro sobre seu capô para carregar as malas e o ‘item’ mais pesado, a urna dourada contendo a armadura de ouro de Sagitário. Delphos e Nínive, os respectivos corcéis pertencentes a Sísifo, traçavam a tortuosa rota com suas fortes pernas e o estalado alto de suas ferraduras sobre o solo. Ele confiava no casal de equinos que se dedicou a criar desde que eram pequenos potros adotados pelo santuário. Quando não os usava em missões, se divertia com El Cid de Capricórnio a disputar corridas pelo vale montanhoso além do templo. Poucos animais sobreviviam às extremas condições do clima escaldante do santuário como eles. Como todos que chegavam lá.

    O santuário não era somente um lugar belo entre as montanhas… Mas também mortal e insuportável, um verdadeiro inferno santo. Só havia duas formas de sair de lá: Como cavaleiro de Athena ou numa mortalha enrolada sobre seu corpo. No alto verão de extremos 40 graus, os aprendizes eram submetidos a exaustivos treinos e às severas condições climáticas, lutando no coliseu. Quando o inverno chegava, as terríveis chuvas os assolavam, obrigados a combater durante tempestades. Os mestres tinham de forçar o melhor em seus alunos, caso contrário virariam instantâneos cadáveres nas mãos dos cruéis espectros de Hades. Sísifo sabia muito disto, Fora arduamente treinado por seu irmão Ilias de Leão e, após passar na sua derradeira prova contra Rugonis de Peixes, foi aprovado para vestir a dourada armadura alada de Sagitário. Sabia que seria substituído pelo próximo candidato a honrar sua constelação, mas até lá daria seu melhor por Athena… Nem que tivesse de morrer por sua deusa.

    Após aportarem na Grécia, seguiram viagem até a cidade de Atenas onde o cavaleiro pagou uma pequena estalagem para pernoitar e no dia seguinte, retomar a viagem. A menina de cabelos curtos e violáceos não proferia uma única palavra durante todo o trajeto, brava e descontente. Em um absoluto silêncio, alternava entre os furiosos olhares para Sísifo a pequenas crises de choro, que ela lutava para não deixar o cavaleiro a presenciar em  prantos. Mesmo assim, Sísifo escutava os gemidos discretos de angústia e saudade da criança.

    Sasha não se mostrava como a alegre e intrépida menina que avistou em Monteriggioni, estava extremamente reservada, fechada dentro de si própria. Não comia, não tinha interesse em conversar e por mais que toda aquela viagem até a Grécia fosse a primeira vez que saía de seu pequeno vilarejo, ela não se deslumbrava com paisagem alguma. Uma pesada tristeza refletia em seu olhar esmeralda. Na noite anterior na estalagem, ele a viu ajoelhada, apoiada sobre a cama, a rezar em um tom inaudível e íntimo, com os olhos marejados. Tinha certeza de que orava pelo irmão que deixou para trás, o menino que gritara desesperado após sua partida. Haviam dois, o garoto loiro, outro moreno, de punhos enfaixados, que o fitou a levar Sasha consigo. Dentro de si, sentia um imenso remorso a  corroer o peito, uma intensa culpa que lhe alfinetava o coração.

    Sísifo sabia que tinha separado os três por uma causa egoísta, uma luta que não pertencia a nenhum deles, uma guerra que deveria ser apenas dos adultos. O cavaleiro estava a cumprir ordens e apesar de seu amor por Athena, não conseguia deixar o compadecimentoa cada vez que fitava o raivoso olhar de Sasha. Ainda sim, tanto seu quente e confortável cosmo quanto o tenebroso e frio cosmo de Alone lhe assustavam e mesmo que o Grande Mestre não tivesse ordenado, pelo bem dela ele teria de tomar a iniciativa de resgatá-la e tirar de perto de Alone. Sentiu a fúria do doce garoto ser liberada, uma explosão surreal de uma caliginosa energia que beirava ao descontrole. Sasha por si, emanou um ascendente cosmo caloroso, uma energia incomum e poderosa que tanto podia proporcionar segurança quanto causar temor em qualquer inimigo. Ela era um sol ardente enquanto Alone era uma lua fria a tomar os céus.

    Não demorou a um servo em Atenas lhe trazer seus corcéis que estavam à sua espera, bem como o forte cupê para desbravar as montanhas. Sasha se dera por vencida e finalmente dormiu na cabine, recolhida em seu cobertor e invulnerável aos sacolejos da carruagem e o alto trote dos cavalos. Sísifo a observava pela janela frontal enquanto guiava, sentado à frente. Era uma encantadora criança, graciosa e dedicada às suas causas, inteligente e intuitiva, capaz de desarmar o mais negro dos corações com sua alegria e raciocínio. Se questionava se toda aquela bondade continuaria intacta após os intensos treinamentos que estavam por vir, se a menina teria coragem de encarar todo o império que fora predestinada a assumir. O futuro do mundo agora estava em suas pequenas mãos. A pulseira de flor sacudia em seu fino pulso, uma lembrança de seus irmãos.

    Já anoitecera e com o breu vieram as estrelas, um infinito céu astral a se estender sobre as montanhas. Sísifo estava exausto, seus equinos estavam cansados, mas por sorte estavam a chegar. Ao longe, um tímido brilho clareou, emitindo uma energia alva à urna de Sagitário e ao coração do cavaleiro, era o alerta de que o Cuore Santo permitiu a entrada de Sísifo, um sinal de bandeira branca ao aliado. A gigantesca Athena de pedra sorria para ele, surgindo como mágica no escuro horizonte. A deusa se alegrou da vinda de sua futura hospedeira e Sísifo sentia um doce e suave cosmo a cercar os pedregulhos da entrada do templo. Ao trespassar as rochas, trilhou pelo magnífico e monumental jardim das flores em frente ao santuário, um lindo viridário repleto de campos floridos, diversas árvores de todos os tipos, trilhas de mármore entre o lugar e as longas pilastras acesas com fogo para iluminar, espantar a escuridão do fascinante sítio, além de indicar a entrada para o templo.

    Todo aquele lugar fora elaborado por Teobaldo, um importante floricultor da Grécia que através de Sage, mantinha acordo com o santuário para restaurar e manter seus jardins e ao lado da jovem filha Agasha, trabalhavam não apenas para embelezar o templo como também cuidar dos ornamentos da casa de peixes. Sísifo pressionou os cavalos, que largaram mais rápidos para alcançar a entrada. Ao longe avistou os servos e a figura imponente do Grande Mestre a lhe receber. Reduziu a velocidade até parar diante dos empregados. Exausto, desembarcou da carruagem e cumprimentou com uma prostração Sage, que o devolveu com um singelo aceno de cabeça. Os servos descarregavam o cupê enquanto removiam as rédeas dos corcéis, levando-os para o estábulo e descendo as malas, bem como a urna dourada. Ligeiro, Sísifo pediu para que não a acordasse no interior da cabine.

    — Senhor Sage, quero apresentá-la à você, por favor aguarde um momento… — Pediu o cavaleiro, caminhando nervoso até a cabine. Depois de tanto silêncio, iria quebrar a mudez, a despertaria para que conhecesse seu novo lar. Parou em frente à porta, engolindo em seco, percebendo que Sasha dormia apaziguada, mas com o pequeno semblante vermelho e inchado de tanto chorar. Moveu-se lentamente para dentro, a sentar ao seu lado enquanto balançava suave seus pés cobertos.

    — Sasha… — Balbuciou Sísifo, temeroso. — Sasha, por favor acorde, já chegamos em… — Um nó travou sua língua. Diria “casa”, mas lembrou-se de que ele foi quem a tirou de sua originária casa. Retomando o fôlego, completou. — Já chegamos ao nosso destino! Pode levantar? Preciso que conheça um amigo…

    A menina despertava sonolenta com a calma voz de Sísifo, a sacudi-la de leve. A visão embaçada lhe obrigou a esfregar os olhos à procura do ambiente onde estava. As lamparinas fracas a iluminar o interior da cabine, deitada sobre o pequeno sofá, rodeada por servos que a aguardavam lá fora e à sua frente… O homem de cabelo castanho-claro, escondendo a testeira vermelha sobre os bagunçados fios, com um tenro semblante e um sorriso disfarçado. Estendia sua mão para que a pegasse. Confusa, a menina questionou.

    —  O-onde estamos? Que lugar é este?

    —  Este é o santuário da Grécia, lar de Athena e seus cavaleiros, criança… — Respondeu Sísifo, cauteloso e paciente. —  A partir de hoje, será seu novo lar e saiba que será muito bem-vinda. Sei que está cansada da viagem, teremos apenas uma leve formalidade a cumprir, então pegue minha mão e vamos descer, está bem?

    —  EU NÃO VOU DESCER! -— Exclamou Sasha, revoltada. Sísifo congelou, surpreso. Não sabia que aquela doce garotinha podia exibir tal comportamento hostil. Nervoso, fitou com o canto do olhar Sage, a aguardar ansioso à frente. Respirou fundo, esforçando para perceber alguma brecha à seu favor.

    — Sasha… Sei que está magoada comigo, mas agora não temos tempo para isto… — De fato, o rapaz não tinha noção alguma de lidar com crianças. — Podemos conversar depois, o que acha? Seja uma boa menina e desça comigo, depois desta apresentação, iremos jantar e você poderá verdadeiramente descansar. Vamos?

    –— NÃO VOU DESCER, NÃO VOU DESCER, NÃO VOU DESCER! — Ralhou a pequena, a se esconder debaixo de seu cobertor para evitar olhar para aquele terrível homem.

    Ele era o culpado por cada lágrima que derramou naqueles dois dias de viagem. Ainda ouvia os gritos de Alone em seu subconsciente e o perdido olhar de Tenma a vê-la partir. Sentiu-se mal por agir assim, jamais fora birrenta e mal educada pois madre Beatrice a ensinou a ser uma mocinha, uma dama gentil e dedicada. Mas não conseguia aceitar sua nova realidade, aquele lugar era estranho, frio, distante de tudo o que um dia conheceu… E amou. Pôs-se a chorar novamente.

    —  S-sasha… — Esboçou Sísifo, angustiado e atônito. Já perdera o controle da situação. - Por favor, menina, sei que está sendo difícil para você, mas tente compreender que…

    –— QUANTAS VEZES VOU TER DE REPETIR QUE NÃO VOU DESCER? — Bradou exaltada, girando os pulsos ao ar. Seu tom, por mais agressivo que soasse, não fugia do infantil timbre. Estava enrubescida de raiva. — QUERO VER MEUS IRMÃOS!

    — Sei que quer vê-los novamente, criança, mas… E - Ei, soltem-na… — Ordenou aos servos que a puxavam pelo braço, do outro lado. Assustados, deixaram-na. Sasha voltou a se esconder, decidida a não ceder.

    De repente, sentiu um doce aroma invadir o tecido de seu cobertor. Uma brisa levava para si o perfume delicado de algo que lembrava a agridoce essência da floresta onde fizera as pulseiras de flores. Sensitiva, atraída pelo aroma, saiu lenta de seu abrigo e fitou espantada a bela e modesta jovem de madeixas castanhas e vestes simples a lhe oferecer uma singela e delicada rosa anilada.

    Com um meigo olhar, a garota sorriu, convidativa. Estendeu a flor até Sasha, incentivando-a  pegar para si. Sísifo e os demais servos encaravam calados à cena. A dura expressão da menina mudava lentamente e ao apanhar a rosa, levou-a ao nariz cautelosa, sorvendo o perfume das pétalas com paciência. Um mar de lembranças a afogou naquele exato momento. O doce cheiro silvestre remetia à tudo o que vivera ao lado de Alone e Tenma, com Beatrice e as outras crianças do Esperanza. Toda sua vida passou como um flash diante de seus olhos. Encarou surpresa a jovem que lhe entregou a flor, ainda sorridente. Sua beleza era pura, ia além do que era físico, e mesmo em trajes de camponesa, exibia um fascínio em Sasha.

    —  Agasha? — Indagou Sage, preocupado. - O que ainda faz aqui, minha jovem? Pensei que você e seu pai já tivessem voltado para Rodorio!

    —  Estou a trabalhar na ornamentação da casa de Peixes… — Respondeu educada, reverenciando o Grande Mestre. — Estamos aproveitando que o senhor Albafica está ausente em missão para acelerarmos a montagem dos ramos, vamos dormir nas instalações do templo hoje. Se o senhor não se incomodar, é claro…

    —  De maneira alguma… Podem trabalhar tranquilos, mas devo advertir que Albafica já retornou de sua missão e logo mais estará aqui para recepcionar Sasha junto aos outros cavaleiros!

    —  O-O QUÊ? —  Indagou Agasha, nervosa. Seu coração disparou veloz, um súbito suor a acometeu e suas mãos começaram a tremer. Ansiosa, corou diante de Sísifo que estranhara sua atitude. Tentando se controlar, a garota se recompôs. Lutava para esconder seu amor pelo cavaleiro de Peixes. Voltando sua atenção à Sasha, suavizou novamente, estendendo sua mão à criança.

    –— Vamos sair? —  Convidou Agasha, a lhe conquistar com sua simplicidade.

    A violacea piscou algumas vezes e respirou fundo, não poderia se esconder de sua nova vida, então que fosse, ao menos, recepcionada por uma energia tão amistosa e singela. Aceitou a mão da castanha e deu o primeiro passo, mesmo sem saber ao certo, para sua nova vida em seu santuário, como Athena.

    Que local era aquele, afinal? As mulheres trajavam vestidos leves, livres de todo aquele amontoado de saias, de espartilhos como ela era acostumada a ver na Europa, alguns mal lhes cobria os tornozelos.Fora encarada de forma minuciosa, como se estivesse sendo avaliada. Encolheu-se acanhada e temerosa. A bela jovem que lhe ofertara a rosa, se afastou com uma espécie de reverência, o que a deixou ainda mais confusa. Teve uma de suas mãos cativada por Sísifo e perdida, se deixou guiar. Não conseguia entender porque sua presença pareceu petrificar os presentes, porque todos a estavam olhando daquela forma. Desorientada, corria seu olhar curioso pelo majestoso local, encantando-se com as belas estátuas de pedras, as pilastras onde haviam belas imagens entalhadas e as meias colunas que se dividiam entre armazenar tochas, Candeias e belos arranjos florais. Mesmo com o coração perfurado pela dor da separação, de ser arrancada de seu lar, ela se pegou emocionada e de certa forma sentiu-se familiarizada com o local.

    —  Mestre, lhe apresento, Sasha Bianchi! —  Sísifo iniciou a tímida apresentação. Pretendia prosseguir, mas ficou sem fala ao ver a forma como os dois se olharam.

    Sage tentou falar, mas as palavras se calaram e Sasha não entendia o motivo de sentir-se tão emocionada na presença de um desconhecido, mas algo dentro de si, parecia reconhecê-lo de alguma forma. O Grande Mestre do Santuário, retirou seu elmo revelando os cabelos grisalhos e ajoelhou-se diante da pequena. Em sua mente as imagens da guerra que lutou ao lado de Athena, se passava em pausas e não foi possível para o mestre segurar as lágrimas.

    —  Seja bem-vinda de volta, Athena! —  A voz saiu trêmula e oscilante, seu peito apertava-se em um misto de nostalgia, dor e emoção.

    Sasha piscou algumas vezes, engoliu em seco, não entendera o que lhe foi dito, decerto estava em terras estrangeiras, mas seu coração pareceu entender de alguma forma. Porque sentia-se culpada diante daquele senhor, sentia-se como se tivesse lhe tirado algo importante e gostaria de poder reparar, mas não havia possibilidades. Porque queria se desculpar, agradecer? Não fazia sentido. E de repente uma lágrimas inoportuna lhe escorria pela face, já não se lembrava de estar cercada por todos aqueles olhares analíticos, avaliadores, nem sequer tinha noção da presença de Sísifo, que ainda lhe segurava a mão.

    Uma brisa sorrateira soprou em um assobio, lançando pétalas de flores pelo ar e a rosa que Agasha presenteara a violácea, foi-se ao vento, o que pereceu uma flecha a quebrar o momento. Quando voltou a realidade, Sasha mirou pesarosa, a flor que se foi, mas quando fitou as pessoas a sua volta, grande foi o seu assombro ao vê-las curvadas para si. Com espanto, seu olhar buscou Sísifo, que soltou-lhe a mão e repetiu o gesto. Os olhos esmeralda se arregalaram, a fala ainda estava perdida dentro de si. Sacudiu a cabeça na tentativa de talvez, acordar de algum sonho estranho, mas não foi esse o caso. Era como se o cenário girasse, dando voltas e voltas, deixando-a mais confusa. Porque estavam a se curvar para uma mera órfã? Porque parte dela parecia pertencer àquele local? O que aqueles estrangeiros esperavam de si, afinal? Ela era só uma menina normal, não?

    つづく


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