Procura-se um Marido

  • Aelita
  • Capitulos 11
  • Gêneros Romance e Novela

Tempo estimado de leitura: 4 horas

    10
    Capítulos:

    Capítulo 11

    Capítulo 11

    Álcool, Linguagem Imprópria

    Na volta para casa, eu tinha muitas perguntas para Sasuke. Entretanto, sua armadura havia retornado, e não tive ânimo para perguntar o que aquele monte de coisas escritas no MSN significava. Se é que tinha algum significado. Eu achava que sim, já que seu olhar naquele momento parecia me dizer muito.

    Mari me esperava na portaria do prédio, com os braços cheios de sacolas.

    – Você esqueceu algumas coisas lá em casa. Não que isso seja surpresa – ela riu, depois olhou para Sasuke um pouco encabulada. – Oi, Sasuke.

    – Oi, Mariana. Deixa eu te ajudar com isso – ele tomou as sacolas das mãos de minha amiga, deixando-a paralisada feito um poste. – Vai ficar para jantar?

    Ela me encarou, a boca aberta como a de um peixe agonizante.

    – Eu posso? – me perguntou num sussurro

    Sasuke riu, e foi ele quem respondeu:

    – Não só pode como deve. Vai ser um prazer. Essa é a casa da Sakura agora, ela pode receber quem quiser. Vamos subir? – e indicou o elevador.

    – Tá bom – ela disse sorrindo. Abraçou minha cintura e sussurrou: – Me diz que você já tirou uma casquinha, por favor!

    Não tive certeza se Sasuke ouviu. Rezei para que não tivesse escutado nada.

    Mari adorou o apartamento e aprovou a decoração despojada. Assim como eu, acho meu quarto um pouco sem personalidade, mas viu potencial e começou a ter milhares de idéias de decoração de baixo custo. Ela adorava mudar ambientes aproveitando o que já tinha e gastando pouco. Eu sempre opinava a respeito de tudo, afinal cinco anos de faculdade me serviam de alguma coisa.

    Sasuke pediu comida chinesa e se negou a aceitar que eu pagasse minha parte.

    – Nunca imaginei que seria assim – Mari soltou, enquanto comíamos na pequena mesa de jantar. – Quer dizer, a vida de casada. Não é tão ruim, Sakura.

    – Ãrrã – murmurei distraída.

    Sasuke largou os hashis.

    - Tem algo te incomodando? – me perguntou. Não estava bravo nem parecia triste. Apenas curioso.

    – Não. Mas isso aqui não é bem um casamento. É mais como um alojamento. Imagino que casamento seja diferente.

    – Diferente como? – ele quis saber, voltando a comer.

    – Pra começar, as pessoas normalmente estão apaixonadas e dormem na mesma cama – apontei.

    Ele refletiu por um momento, engoliu a comida e acrescentou:

    – E com certeza o marido não ficaria surpreso se flagrasse a esposa nua na cozinha.

    – Provavelmente não – concordei.

    – Você ficou pelada na cozinha? – Mari sussurrou, mesmo estando sentada a dois palmos de Sasuke.

    – Antes que sua imaginação viaje e não volte mais, não foi bem assim. Eu pensei que o Sasuke já tivesse saído e não fosse mais voltar. – Voltei-me para ele. – E eu já disse que isso não vai mais acontecer.

    – Não acredito que você não me contou, Sakura. Você sabe como estou ansiosa por detalhes – resmungou ela, sem notar a surpresa estampada no rosto de Sasuke.

    – Detalhes de quê? – ele quis saber.

    Ela corou ao notar seu lapso.

    Suspirei exasperada.

    – Não é nada, Sasuke. A Mari adora viver no mundo do faz de conta. Ela está esperando que a gente se apaixone perdidamente um pelo outro. Ela lê horóscopo todo dia e acredita que borboletas são sinais de alguma coisa – revirei os olhos. – É só ignorar que ela acaba cansando.

    Ele me lançou um olhar inquisitivo, e havia um pequeno sorriso em seus olhos quando disse:

    – Vou tentar.

    – Ah, Sakura eu só queria que você fosse feliz. Nos últimos meses você ficou órfã, pobre, virou assalariada e está sem carro. E ainda teve aquela confusão em Amsterdã um pouco antes. É errado querer que a sua melhor amiga tenha uma vida feliz?

    – O que aconteceu em Amsterdã? – Sasuke perguntou a ela.

    – Nada! – gritei, ao mesmo tempo em que Mari dizia:

     – Ela foi presa injustamente.

    Ele me fitou, intrigado.

    – Presa? Parece que eu devia ter dado uma olhada no seu atestado de antecedentes criminais – e uma de suas sobrancelhas se arqueou.

    – Muito obrigada, Mariana! – resmunguei.

    – Eu não sabia que ele não sabia – ela se encolhe na cadeira. O rosto anguloso estava rubro como sangue. – O seu avô ficou tão irado na época que pensei que todo mundo soubesse. Saiu nos jornais e tudo, poxa!

    – O que aconteceu para você ser presa em Amsterdã? – Sasuke inquiriu.

    Suspirei.

    Ninguém nunca vai esquecer essa história?

    Ele apenas me observou com o rosto impassível, brilhando de obstinação, esperando por um esclarecimento. Sasuke tinha que me ensinar como fazer aquilo. Era muito eficiente. Talvez eu pudesse usar com Clóvis e fazer com que ele ficasse do meu lado...

    – Tudo bem – bufei. – Conheci um cara em Dublin, um australiano. Acabamos viajando juntos para vários lugares de Europa. Quando chegamos em Amsterdã, não sei se foi pelo clima liberal ou pela quantidade de chás exóticos que tomamos, mas o fato é que acabei... ficando com ele onde não devia. Baixou polícia e fomos presos. O vovô mandou três advogados pra me livrar da confusão. Fim da história.

    – Quando você diz ficou... quer dizer... – disse ele, cruzando os braços sobre o peito.

    – Quero dizer que estávamos quase nas estrelas, Sasuke.

    Ele recuou um pouco, sobressaltado. Arrependi-me instantaneamente do comentário, mas era tarde para voltar atrás. Nós nos encaramos por um segundo interminável, seu olhos me fazendo perguntas, os meus tentando entendê-las.

    Mari sentiu a tensão.

    – Gente, eu... vou nessa.

    – Espera – Sasuke se recompôs rapidamente, desviando os olhos para ela. – Preciso revisar uns contratos importantes. Vocês podem ficar mais à vontade sem a minha presença. Eu já terminei de comer mesmo. Aparece mais vezes, Mariana. Essa casa agora também é da Sakura. E, diferente da cadeia, aqui ela tem direito a visitas a hora que quiser – ele me lançou um olhar reprovador.

    Fiquei observando-o se levantar com a elegância costumeira, apesar de todo aquele tamanho. Era como observar um leão, poderoso e perigoso, que se movia com agilidade e força descomunal. Seu rosto ainda estava duro quando ele se trancou no quarto.

    – Desculpa! – Mari começou assim que a porta se fechou. – Eu juro que escapou sem querer!

    – Não esquenta. O Sasuke ia acabar sabendo de uma forma ou de outra. Melhor que tenha sido por mim. Não que faça alguma diferença, já que ele me considera uma garota mimada e irresponsável. Não entendi por que ele ficou tão surpreso ao saber dessa história. Ele devia imaginar que eu era capaz disso... – dei de ombros.

    Ela me estudou por um momento.

    – É impressão minha ou tá mesmo rolando alguma coisa? – e sorriu

    – O Sasuke tem sido gentil e simpático na maior parte do tempo, mas nada além disso. Ele parece estar se esforçando para que a nossa convivência seja a melhor possível, dentro das possibilidades. E eu estou tentando fazer o mesmo, mas você me conhece. As coisas sempre dão errado quando eu tenho boas intenções.

    – E é só isso? – ela questionou, os olhos castanhos ligeiramente contraídos.

    – Ah, eu fui promovida, sabia? – mudei de assunto rapidamente. Eu não queria me aprofundar nas especulações sobre o que realmente estava acontecendo entre mim e Sasuke. Não naquele momento.

    – Não acredito! Me conta tudo! – ela pediu, entusiasmada.

    Ficamos conversando até tarde. Mari quis saber todos os detalhes sobre minha promoção e gargalhou quando constatou, assim como eu, que não havia promoção alguma. Depois foi minha vez de exigir atualizações do romance dela com Breno, que avançava a passos largos. Ela ainda não admitia que estava apaixonada, mas não era necessário. Seu entusiasmo ao falar dele demonstrava isso, e ela não parecia capaz de se conter quando tocava nesse assunto. E continuou falando, falando, falando, inclusive enquanto ela me contava que, no último encontro, Breno a levara para o litoral, onde fizeram amor – isso mesmo, nada de sexo; fizeram amor, foi o que ela disse sorrindo – na areia da praia, e seu traseiro terminou todo esfolado.

    Mari se interrompeu e revirou os olhos ao analisar meu pijama, dizendo que Sasuke nunca se interessaria por mim se eu me vestisse daquele jeito. Então, para que o efeito fosse ainda melhor, calcei minhas pantufas de patas de dinossauro e ela gargalhou. Insisti para que dormisse ali, mas ela recusou, alegando não querer levantar suspeitas dos vizinhos. Passava da meia-noite quando ela foi embora, feliz por ter me ajudado a guardar as roupas que eu havia esquecido em sua casa e por ver Sasuke de volta à sala, agindo de modo mais casual quando se despediram.

    Então sobramos ele e eu. Seu humor realmente havia melhorado, já que ele olhava para minhas pantufas e sorria sem parar.

    – Que foi? – perguntei, olhando para baixo

    – Nada. Estou tentando entender que tipo de dinossauro teria patas azuis com unhas multicoloridas – ele riu. Aquele som rico, reconfortante, acariciou minha pele.

    – Um dinossauro que curte balada? – sugeri.

    – Provavelmente. Você sempre foi assim? – ele quis saber, enquanto eu recolhia as caixas de comida e jogava tudo dentro da pia.

    – Assim como? – perguntei cautelosa.

    – A lixeira fica bem aqui do lado – ele explicou, pegando as caixas que eu acabara de jogar na pia e as colocando no cesto de lixo, ao lado do fogão. – Com a Mari, eu quis dizer. Vocês sempre foram tão amigas?

    – Ah, sim! Desde que me conheço por gente. Eu conheci a Mari no maternal, ela me salvou de uma lagarta que me perseguia pelo parquinho. Estremeço só de pensar naquele bicho gosmento e peludo, que parecia sentir meu cheiro e me caçava por toda parte. Se não fosse a Mari, sei lá, acho que eu teria morrido. Somos inseparáveis desde então.

    Ele sorriu.

     – Isso explica a cena com a borboleta ontem de manhã. Você tem medo delas também.

    – Não é medo – esclareci. – Só acho nojento.

    – Eu pensei que você não tivesse medo de nada – ele comentou. – É sempre tão confiante.

    – Até parece – eu ri, sem humor algum. – Eu sou normal, Sasuke. Tenho meus medos, como todo mundo. Certas coisas me apavoram.

    – Tipo o quê? – ele inclinou a cabeça, lavou as mãos melecadas de Shoyu, depois as secou num pano de prato e o jogou sobre a pia. Abriu o armário, pegou uma garrafa de vinho e serviu duas taças. Esticou uma delas para mim.

    – Obrigada. Tenho medo de perder, por exemplo. Estou cansada de perder as pessoas que amo – respondi sinceramente, sem saber por que fiz aquilo. Algo no rosto dele me instigava a abrir a boca e despejar a primeira coisa que surgisse em minha cabeça.

    – Está falando do seu avô?

    – Dele também. Eu era pequena demais quando meus pais morreram naquele maldito atentado no Egito, mas não o bastante para não me lembrar deles.

    Ele puxou um dos bancos altos para que eu me sentasse, depois se sentou ao meu lado, virando até ficar de frente para mim, e apoiou o cotovelo no balcão.

    – Eu sinto muito – murmurou, os olhos repletos de solidariedade.

    – Eu também. Sinto falta do que poderia ter sido, sabe? De como teria sido minha vida se eles não estivessem no lugar errado na hora errada.

    – Bom... com certeza não estaríamos casados – ele comentou, claramente tentando aliviar o clima.

    – Provavelmente. E talvez eles tivessem me internado em um colégio de freiras. O meu avô bem que tentou uma vez, mas pra minha sorte recusaram minha matrícula, alegando que o meu histórico escolar era conflitante com os preceitos de ensino do colégio. – Tomei um gole do vinho Pinot Noir. – Adoro esse vinho.

    – Você não pode ter sido tão... – ele parou e deliberou por um momento antes de continuar. Um sorriso enorme se abriu em seu rosto perfeito. – Você deve ter sido impossível! Tem cara de quem já aprontou muito.

    Sorri também.

    – Digamos que eu soube aproveitar a vida sempre que tive chance. – Tomei outro grande gole da bebida revigorante.

    – Eu nunca soube – ele soltou um pesado suspiro. – Sempre fiquei com a cara enfiada nos livros, nos projetos, nos contratos... Mal tive tempo de pensar em me divertir.

    – Por que isso não me surpreende?

    – Eu bem que queria ter sido um adolescente normal, irresponsável, que pula de festa em festa. Meus pais até reclamavam. Chegaram a me obrigar a ir em algumas festas. Mas eu não curtia. Parecia errado. Eu tinha que dar o melhor de mim, ser o melhor que pudesse – ele sorriu com amargura.

    Fiquei esperando que ele continuasse, mas, claro, ele não continuou, como sempre. Dessa vez, porém, não me atrevi a perguntar por que lhe parecia errado se divertir aos dezoito anos.

    Sasuke sacudiu a cabeça levemente, esvaziou sua taça e perguntou:

    – Como era seu relacionamento com seus pais?

    – Não me lembro de muita coisa. Eu tinha cinco anos quando eles morreram, mas lembro que a minha mãe sempre brincava comigo, principalmente brincadeiras com maquiagem. E o meu pai lia histórias quando me colocava na cama. Eu detestava as histórias que ele contava. Normalmente ele gostava de ler Dostoiévski ou Tolstói – eu ri. – Que criança gosta desse tipo de literatura? Mesmo assim, nunca falei nada. Meu pai era ocupado, passava pouco tempo em casa. O vovô é quem sempre esteve por perto. Até dois meses atrás – suspirei.

    – Sinto muito, Sakura – ele disse, tocando minha mão e deixando a sua ali. Era quente, macia e tão grande que engoliu a minha. – Não consigo imaginar como isso tudo te machucou.

    Fiquei imóvel. Seu toque abriu as comportas do meu autocontrole, e de repente eu queria contar toda a minha vida, para que ele me conhecesse de verdade.

    – Eu era pequena demais e não entendia bem o significado da morte, que nunca mais veria meus pais. O vovô me levou pra morar com ele na mansão e fez tudo que pôde para que eu fosse feliz. Ele já era viúvo na época. Tivemos dias bem ruins, como nas datas comemorativas, meu aniversário, Natal... Na semana do Dia das Mães, eu inventava uma história pra não ir para o colégio. Fazia o mesmo drama no Dia dos Pais. É claro que o vovô sabia que eu estava mentindo quando dizia que tinha pegado um tipo de malária sueca que impossibilitava meu cérebro de aprender coisas novas, e a única forma de me curar era ficar em casa e tomar muito sorvete, mas ele nunca disse nada. Sempre trazia potes e mais potes de sorvete e comia comigo, dizendo que era pra se prevenir da doença.

    – Ele foi um ótimo avô. Você teve muita sorte – sua mão continuava sobre a minha.

    – Sem contar essa questão do testamento... – tentei sorrir. – A gente era muito ligado, Sasuke. O vovô sempre esteve comigo. Acho que eu não quis pensar que um dia ele poderia... não estar mais – dei de ombros. – Sei que não ando me saindo muito bem sem ele por perto, mas, acredite, estou tentando fazer o melhor que posso.

    Ele me lançou um olhar quente, carinhoso e cheio de promessas. Promessas que não pude compreender.

    – Eu sei disso.

    Eu estava nervosa com a intensidade que vinha dele, não apenas dos olhos, mas de todo ele. Era como se algo realmente físico saísse de seu corpo e me tocasse. Peguei minha taça com a mão livre para ter alguma coisa para fazer que não fosse olhar para aquelas caleidoscópicas, mas meu vinho tinha acabado. Sasuke notou e soltou minha mão para servir um pouco mais. Por um instante, me senti em queda livre.

    – Humm... me conta sobre você – pedi. – Como é sua relação com seus pais?

    – Eles estão muito orgulhosos do que já conquistei. E ficaram contentes ao saber da sua existência.

    Fiquei encarando seus olhos enigmáticos por um tempo, até que – não faço idéia do porquê – me ouvi indagando:

    – Você tem namorada?

    Ele pareceu surpreso.

    – Não. – Suas sobrancelhas se arquearam um pouco. – E você?

    – Não.

    – Que bom! Seria um problema se tivesse. – Meu coração se encheu de calor com aquelas palavras. Contudo, logo a quentura se foi. – Como a gente ia sustentar a mentira se você tivesse um amante?

    – Ia ser complicado. Mas não tenho ninguém há muito tempo, quer dizer, alguém sério. Se você quiser... sei lá... – clareei a garganta para que a voz não saísse tão esganiçada – namorar alguém meio escondido, tudo bem. Um ano é bastante coisa.

    – Não se preocupa comigo. Você... – ele inclinou a cabeça para que nossos olhos ficassem na mesma altura – pretende sair com outra pessoa?

    Com outra pessoa. Não com alguém, mas com outra pessoa.

    – Não estamos saindo, Sasuke. Você e eu, quero dizer – mas sorri.

    – Você entendeu – ele disse constrangido, tomando mais um pouco de vinho.

    – Minha vida tá uma confusão. Não quero me envolver com ninguém agora – mas então ele poderia pensar que eu não estava disponível. – Quer dizer, se rolar... – dei de ombros, só para deixar claro que eu não estava, de forma alguma, fechada para o mundo. Eu estava ficando louca!

    Ele sorriu.

    – Você nunca planeja nada, não é? Deixa tudo acontecer. Acho isso fascinante!

    Fascinante era a forma como ele me encarava. Oh, Deus, o vinho estava me deixando em chamas.

    – É uma das coisas que admiro em você – ele continuou. – Essa sua espontaneidade, essa vida que transborda dos seus olhos – e me lançou um sorriso torto, que me atingiu como um taco de beisebol.

    – Você... me admira? – perguntei baixinho e muito, muito surpresa.

    – Que tipo de idiota eu seria se não admirasse uma garota com tanta personalidade? – Ele tocou de leve a ponta do meu queixo com o indicador. Foi como ser tocada por um fio desencapado. Um tremor desconhecido percorreu todo o meu corpo. – Te vejo amanhã. – então se levantou e foi para o quarto.

    Permaneci onde estava, aterrorizada. Um súbito calor inundou meu peito, uma cálida sensação de proteção, e mais alguma coisa que eu não conseguia nomear, começavam a brotar em meu coração.

    - Boa noite – murmurei após ouvir a porta se fechar.

    Depois daquela noite reveladora – de minha parte, pelo menos -, decidi que Sasuke e eu poderíamos ser amigos, afinal estávamos nos ajudando, era natural que nos entendêssemos melhor. Não que eu o quisesse louco de amores por mim ou algo do tipo, mas que mal faria se de repente nos tornássemos tão íntimos que ele não pudesse mais viver sem mim?

    Naquela manhã, Sasuke foi chamado para uma reunião com a diretoria. Parecia tenso ao subir até o nono andar. Vanessa, a garota do decote, que hoje usava outro modelito nada recatado, aproveitou para se aproximar da minha mesa.

    - Estão decidindo quem vai ser o diretor de Comex – comentou ela. – O Sasuke tem boas chances.

    - Ele é muito competente – eu disse desinteressada. Continuei trabalhando numa planilha supercomplicada e esperava não cometer erros dessa vez. O cancelamento do imenso pedido dos argentinos ainda fazia Joyce estremecer.

    - Será que ser marido da futura herdeira desse império não tem nada a ver com isso? – ela sugeriu.

    Levantei os olhos. Um sorriso venenoso brincava em seus lábios cheios.

    - Entendi mal ou você está insinuando que o Sasuke pode ser promovido por ter se casado comigo e não pela capacidade dele?

    - É você quem está dizendo... – ela levantou as mãos, as palmas viradas para frente, exatamente como faz um jogador de futebol depois de uma entrada maldosa que quebra a perna do adversário em dezoito pedaços

    Levantei-me bruscamente. Ela recuou um passo, assustada.

    Bom!

    - Escuta só – comecei, a voz baixa e contida. – Caso você ainda não tenha notado, eu sou uma simples secretaria, com um salário certamente menor que o de qualquer um neste andar. Se o Sasuke fosse esperto, teria ficado longe de mim.

    - Convenientemente, depois de alguns meses de casada, você vai receber a sua fortuna e assumir os negócios do seu avô, não é? E não fui eu quem inventou essa história, é o que todo mundo anda dizendo – ela deu de ombros – Que o Sasuke deu o golpe do baú.

    Apoiei as mãos na beirada da mesa e me inclinei ligeiramente em sua direção.

    - Você está indo longe demais, Vanessa. Estou avisando.

    - Eu andei observando vocês. Pra mim não existe nenhum tipo de relacionamento entre vocês dois. Não me convenceram. Na verdade, acho que esse casamento não passa de uma grande piada. Mas não se preocupe, a verdade sempre aparece. Mais cedo ou mais tarde – ela sorriu enquanto voltava para sua mesa.

    Claro que não consegui me concentrar em mais nada depois disso. Refleti por um bom tempo, na tentativa de descobrir quem poderia ter iniciado o boato, e me perguntei se Sasuke já o tinha ouvido.

    Eu o esperei no corredor, impaciente. Levou séculos para que ele aparecesse. Interceptei-o assim que ele saiu do elevador.

    - Precisamos conversar – e o peguei pelo braço arrastando-o até as escadas que ninguém nunca usava.

    - Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou.

    - Como foi a reunião?

    Ele sorriu, animado.

    - Os diretores marcaram um jantar para sexta-feira. Eles vão decidir quem vai ocupar a vaga de um jeito mais informal. Do jeito que o seu avô costumava fazer. Estou no páreo.

    - Isso é ótimo! – Olhei ao redor para me certificar de que estávamos sozinhos. Puxei Sasuke mais alguns passos, parando atrás de um pilar largo. Não havia como sermos vistos ali. – A Vanessa me disse uma coisa agora há pouco.

    - Que tipo de coisa? – ele perguntou, inseguro. Que estranho...

    - Ela insinuou que você casou comigo para ser promovido e que o boato tá rolando na empresa toda – bufei. – Garota mau-caráter! Tive vontade de enfiar meu sapato na cara dela...

    Suas sobrancelhas se franziram.

    - Por quê? – ele quis saber.

    - Como assim, por quê? Ela acha que você deu o golpe do baú, quando na verdade sou eu que estou te usando para conseguir minha fortuna de volta.

    Ela riu suavemente.

    - Fico muito comovido que você queira me defender dessa forma, Sasuke. Não imaginei que você fosse capaz disso. Mas a Vanessa está certa. Eu casei com você para tentar ser promovido. E não me importo muito com o que ela diz.

    - Tá, mas você trabalhou duro. E meio que foi obrigado a casar comigo por culpa das ideias absurdas do meu avô. – Vovô deixara muita confusão para trás. Eu lhe diria poucas e boas na próxima vez que ele invadisse meus sonhos. Se é que ele voltaria a aparecer. – E todo mundo parece saber que o nosso casamento é uma farsa. Não faço ideia de quem espalhou isso por aí, mas o fato é que acham que você é um golpista.

    Ele refletiu por um momento antes de responder tranquilamente.

    - Não me importo com isso também. Desde que não traga complicações para nós dois, claro. Eu trabalho duro aqui na empresa. Acho que fiz por merecer a promoção, certo? Vamos fingir que não sabemos de nada.

    - Essa é a coisa mais ridícula que você já me disse – cruzei os braços sobre o peito. – E você já me disse muita coisa ridícula!

    Ele riu.

     - Se a gente tentar se justificar, o que você acha que vai acontecer?

    - Vão saber que eu não levo desaforo pra casa?

    - Todo mundo aqui já imagina isso, Sakura – ele sorriu. – Além disso, aposto que, se a gente começar a se justificar, todo mundo vai ter certeza que somos mesmo uma fraude. O melhor agora é não dar bola. Deixar que falem até cansar e mudem o foco para outro boato.

    - Você acha que o Clóvis já ouviu os rumores?

    - Tenho certeza que sim. Mas vamos deixar tudo como está. Confia em mim. – E, por mais louco que pudesse parecer, eu confiava. – Você pode jantar comigo na sexta?

    O convite varreu todas as minhas preocupações para longe. Senti-me quente e viva e ansiosa e faminta em questão de segundos.

    - Claro – sorri. – Algum motivo especial?

    - O jantar com a diretoria, lembra? – ele sussurrou.

    - Hãã... claro! - O que mais seria? Um encontro com a própria esposa? – Ah, que inferno! Eu não tenho nada bacana pra vestir. A maior parte das minhas roupas ficou na mansão.

    Ele me mostrou um sorriso torto, dando um passo à frente e ficando a dez centímetros de distancia.

    - Você fica linda com qualquer coisa.

    Um arrepio delicioso se espalhou por todo o meu corpo, alcançando até os dedos dos pés. Naquele momento, ele poderia ter dito “você fede” ou “tire a roupa” que o efeito teria sido o mesmo – se bem que, se ele tivesse pedido que eu tirasse a roupa, eu provavelmente teria reagido de forma muito diferente. Não foi só o que ele disse que fez meu mundo virar por alguns instantes, mas a forma como disse. A voz rouca, quente, sussurrada, tão intima, doce e ao mesmo tempo imperiosa, me lançou numa espiral de sensações tão arrebatadoras que eu mal sabia dizer em que parte do planeta me encontrava.

    Congelei quando vi sua mão se erguer para tocar meu pescoço. Meu coração desatou a bater como louco dentro do peito, e pensei que pudesse explodir com as pancadas urgentes. Lentamente, Sasuke se inclinou até que seus lábios quase tocassem os meus. Àquela distancia, pude ver o caleidoscópio hipnótico em seus olhos mais uma vez, embora suas pupilas estivessem dilatadas e parecessem me engolir.

    - Pensei que namoro no escritório fosse proibido! – arrulhou alguém.

    Confusa, olhei para o lado e vi Vanessa com uma das mãos no alto da parede e a outra na cintura, o rosto cínico contorcido num sorriso tão falso que quanto uma nota de quinze reais.

    Sasuke se endireitou num átimo.

    - Sabemos disso – ele disse. – Só estávamos conversando.

    - Não foi o que pareceu, - retrucou, venenosa. Vanessa se demorou mais um segundo ou dois antes de se virar e sair rebolando, certamente tentando atrair a atenção de Sasuke. Não funcionou. Seus olhos ficaram grudados nos meus o tempo todo.

    - Acho melhor a gente voltar. A Vanessa tem bastante assunto agora – ele falou, pegando minha mão e me arrastando de volta para o corredor que levava ao nosso departamento.

    Uma onda de constrangimento fez desaparecer minha tontura. Era disso que se tratava. Encenação. O coração dele provavelmente não estava acelerado como se ele tivesse subido cinco lances de escada correndo, nem seus joelhos pareciam ter se transformado em gelatina. Sasuke estava atuando. Eu... não.

    - Almoça comigo? – ele pediu ao me deixar em minha mesa.

    Apenas sacudi a cabeça, confirmando. Não tinha certeza se conseguiria responder sem deixar transparecer minha frustração.

    - Ótimo – e delicadamente ele beijou minha mão, antes de soltá-la e se dirigir à sua mesa.

    Fiquei observando ele se afastar com meus pensamentos em desordem. O que estava realmente acontecendo? E seus ombros sempre foram assim tão largos? Quer dizer, ele era alto e já tinha dito que malhava, e eu sabia de seu passado de nadador universitário, mas aquelas costas em V, a cintura estreita, o traseiro pequeno e benfeito, que parecia convidar minha mão a...

    - Sakura.

    Virei-me abruptamente, dando de cara com Joyce.

    - Hã... Oi. Eu... eu... estava... humm... meditando sobre... os novos hidrantes para as mãos e...

    - Ãrrã – ela sorriu maliciosamente, aumentando meu constrangimento por ter sido flagrada olhando para Sasuke com... hã... interesse puramente físico. – Agora esqueça seu marido por algumas horas e se concentre no trabalho, porque dessa vez não pode haver erros. Preciso que você monte uma planilha com os contratos internacionais mais recentes. Clientes, datas, valores, percentual de contribuição total, custos e lucros, e tudo o mais que puder encontrar. Você tem até o fim do dia. Aqui estão os documentos – e jogou a pilha de papéis em meus braços paralisados. – Bom dia, querida.

    Contemplei por um tempo a montanha cheia de números e nomes. Sentei-me na borda da mesa e examinei o calhamaço de papeis sem saber por onde começar e sem entender o que Joyce queria que eu fizesse exatamente. Respirei fundo e me acomodei na cadeira, esperando que uma luz me iluminasse e milagrosamente tudo fizesse sentido. Porém a luz iluminou apenas um quadradinho em meu monitor.

    Sasuke_Comex diz:

    Pela sua cara, você precisa de ajuda.

    Sakura_ H Lima diz:

    Não sei nem por onde começar.

    Sasuke_Comex diz:

    O que a Joyce quer?

    Sakura_ H Lima diz:

    Não faço ideia!

    Algo a ver com percentual total e planilha, e para HOJE!

    Sasuke_Comex diz:

    Percentual de contribuição total?

    Sakura H Lima diz:

    Acho que é isso.

    Sasuke_Comex diz:

    Certo.

    Eu te ajudo.

    Primeiro separe os contratos, de acordo com as datas...

    Ele foi me orientando até que comecei a pegar o jeito. Quando chegou a hora do almoço, eu já tinha feito boa parte do serviço. Supus que o trabalho dele estivesse atrasado, já que ele não havia feito nada além de me socorrer e responder às minhas centenas de perguntas, mas ele nada comentou sobre isso quando veio até minha mesa e anunciou:

    - Hora de parar um pouco. Você precisa comer

    Andamos lado a lado até o refeitório da empresa. Muitos olhares curiosos nos seguiam. Nós nos sentamos juntos a uma mesa mais ao canto.

    - Credo! O que é essa gororoba? – perguntei quando olhei para a bandeja à minha frente.

    - Honestamente, não faço ideia. Difícil identificar só pela aparência – ele cutucou a comida com a ponta do garfo. Ao menos ela não se moveu. – Parece risoto de alguma coisa.

    - Decididamente isso não é risoto. Parece que alguém vomitou no meu prato.

    - Quer comer em outro lugar? Estamos meio sem tempo, mas tem um boteco aqui perto que serve um...

    - Não dá, Sasuke. A Joyce pediu a planilha para hoje. Não posso perder nem um segundo. Vai ter que ser essa gosma mesmo – suspirei pesadamente.

    Ele me olhou divertido, então pegou o garfo, fechou os olhos, tapou o nariz com os dedos e enfiou aquilo na boca. Confesso que fiquei orgulhosa dele. Sasuke não temia o perigo.

    Ele mastigou algumas vezes antes de abrir os olhos.

    - Humm... não é tão ruim – comentou.

    Reprimi uma careta.

    - O que é?

     - Não faço a menor ideia, Sakura. Alguma coisa com frango... – Ele pegou mais uma pequena porção de comida e aproximou o garfo da minha boca. Recuei um pouco. – Não seja covarde. Experimenta.

    Um pouco receosa, abri a boca, já que havia sido desafiada. O gosto não era dos piores, mas a aparência era realmente repugnante. A textura lembrava um risoto que passara do ponto, havia um sabor suave de cogumelos e... talvez milho?

    - Acho que pode ser cogumelo – anunciei.

    - Mesmo? – ele arriscou outra garfada. – Pra mim parece frango.

    - Talvez seja frango. Ou talvez seja... – gemi, - Ok, comida pela qual não preciso pagar – e comecei a comer. – não acredito que meu avô não se preocupara com a qualidade da comida dos funcionários.

    - Algumas coisas estão diferentes desde que os eu avô... hã... depois da mudança na presidência da B&L.

    - Sério?

    - E não foi só a qualidade da comida que caiu. Alguns setores estão um pouco perdidos. Acho que é normal acontecer esse tipo de coisa. A B&L, como várias outras empresas do seu Narciso, caminha sozinha, mas ele sempre fez questão de prestar atenção nos detalhes. O Hector está sendo um bom presidente, eu acho, mas não é o seu Narciso. Imagino que vai levar um tempo até que ele se adapte e tudo volte ao normal.

    - Acho que você tem razão. – Eu me perguntei se ainda estávamos falando sobre os problemas da B&L. Minha vida seguia em frente sem o meu avô, e, assim como suas empresas, eu também precisava de tempo para me adaptar.

    - Sabe, você não é a garota mimada que pensei que fosse – ele comentou do nada, entre uma garfada e outra.

    - E você não é o idiota que eu pensei que fosse – rebati, tomando um pouco de suco. – Bom, não totalmente.

    - Obrigado – ele sorriu. – Dessa vez foi um elogio, certo?

    - Ainda não – sorri de volta.

    Ele riu. Mas logo seu rosto assumiu uma seriedade que fez minha comida ficar presa na garganta.

    - Sakura, eu andei pensando se...

    - Olá, Sakura. Sasuke – cumprimentou Clóvis, aparecendo do nada. – Como têm passado?

    Sasuke reassumiu a aspereza habitual e não tocou mais na comida. Ou no que andava pensando, o que me deixou frustrada. Ele olhava vez ou outra para Clóvis de forma pouco amistosa.

    - Estou bem, Clóvis – respondi. – E você? Se divertindo com a minha grana?

    Ele fechou a cara.

    - Você sabe muito bem que não estou fazendo isso – censurou. – estou cuidando do que é seu. E com a mesma dedicação que o seu avô teria. Como está a vida de casada?

    - Nada do que reclamar – tomei um gole de suco.

    - O Sasuke sempre foi um funcionário exemplar – Clóvis disse. – Seu avô chegou a comentar comigo que tinha grandes planos para ele. Mas, pelo que ouvi hoje, parece que ele está se saindo muito bem por conta própria.

    - O Sasuke está bem aqui na sua frente – apontei. – Pode falar direto com ele. Essa coisa de usar a terceira pessoa é irritante.

    - Sempre arredia – Clóvis sorriu, mas não parecia satisfeito. – Pois bem. Vim aqui hoje para cumprir um papel que me foi designado. Sei o que os eu Narciso gostaria de estar aqui para lhe dizer isso, Sasuke. Como não é possível, eu mesmo o farei.

    Lancei a Sasuke um olhar agoniado, mas ele apenas encarava Clóvis desafiadoramente.

    - A Sakura foi o bem mais precioso do seu Narciso. Trate-a como ela merece ser tratada e não ouse magoar essa menina.

    - Eu preferiria tomar um tiro de fuzil a fazer a Sakura infeliz – Sasuke disse calmamente. Espantei-me com a seriedade explicita em suas palavras. Não me pareceu atuação.

    Clóvis sorriu.

    - Fico feliz em ouvir isso. Evita um bocado de ameaças que eu não teria problema algum em cumprir. Não pense que ela está desamparada. A Sakura tem que olhe por ela.

    - Ah, eu já havia notado – Sasuke retrucou, a voz fria como gelo. – Deixar alguém sem um tostão, dependendo da bondade de amigo, é sem dúvida um gesto muito protetor.

    Clóvis se retraiu.

    - Sou pago para executar ordens, Sasuke.

    - Mesmo sabendo que essas ordens vão fazer a Sakura sofrer. Bom trabalho, Clóvis. – Sasuke parecia realmente irritado.

    - O seu Narciso sabia o que estava fazendo – argumentou o advogado, o rosto impassível.

    - Discordo – Sasuke retrucou. – O seu Narciso conhecia bem a neta. Sabia como a decisão dele a magoaria, e mesmo assim foi em frente. Me pergunto o que, ou quem, pode ter influenciado um homem generoso como ele a agir dessa forma. – Clóvis tentou dizer alguma coisa, mas Sasuke não permitiu. – Não se preocupe mais com a Sakura. Ela é minha mulher agora. Não vou permitir que lhe falte nada, e vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que ela seja feliz. E, por favor, gostaria que você parasse de perturbar a Sakura. Se ela precisar de ajuda, sabe onde te encontrar. Não que você tenha a intenção de realmente ajudar, não é? – Ele se levantou da mesa e me pegou pela mão, lançando um olhar fulminante para Clóvis.

    Por um momento, pensei que mísseis de destruição em massa sairiam dos olhos do advogado e acertariam em cheio a cabeça de Sasuke.

    - Até logo, Clóvis – resmunguei atordoada.

    Alguns olhares curiosos nos acompanharam, mas Sasuke não pareceu notar enquanto pisava duro no assoalho de madeira, e me levando de volta para nossa sala ainda vazia.

    - Desculpa – ele pediu quando me fez sentar na cadeira de sua mesa e se encostou no tampo. – Eu não tinha a intenção e falar por você daquele jeito. Eu... não sei o que me deu. Eu simplesmente detesto esse cara! – ele passou a mão pelos cabelos.

    - Eu... realmente não preciso que ninguém me defenda, mas agradeço o que você fez. Só não sei bem se entendi o que te fez ficar tão alterado. O que o Clóvis fez com você?

    - Comigo, nada. Com você, tudo! Eu detesto o que o Clóvis e o seu avô fizeram com você. Sou pago para executar ordens – ele imitou, furioso. – Que tipo de homem permite que uma garota magoada, que já perdeu toda a família, se sujeito aos caprichos de uma pessoa que nem está mais aqui? Me desculpa, mas o seu avô foi cruel com você. Ele errou. Errou feio. Nem ele tinha o direito de brincar assim com a sua vida. Por causa disso hoje estamos casados.

    Pressionei os lábios para não gritar. Eu havia entendido tudo errado Sasuke não se importava comigo. Não de verdade.

    - Se você tá querendo pular fora... – comecei, sem conseguir terminar.

    - Pular fora? – sua testa vincou, o olhar ficou confuso. Em seguida, seus olhos se arregalaram e ele se agachou à minha frente, tomando minhas mãos nas suas. – Não! Não foi isso que eu quis dizer, Sakura. Não mesmo!

    Só consegui fitar o chão. Ele me surpreendeu encaixando as mãos quentes em meu queixo e levantando meu rosto até que eu olhasse para ele.

    - Eu não quis dizer isso – falou numa voz urgente, os olhos límpidos e profundos. – Eu juro! É que me mata pensar em como tudo isso te magoa, em que tipo de problema você teria se o noivo não fosse eu. Com que tipo de maluco você teria se casado para recuperar o que é seu de direito. Entendeu?

    Assenti, meio zonza. Sasuke não me soltou.

    - Eles estão errados. Seu avô e o Clóvis... e eu estava errado também. Você não é quem eu achei que fosse. Você é uma mulher especial, sincera ao extremo, que ama os amigos e a família e que precisa de ajuda quando uma lagarta aparece. Você é... – seu olhar estava preso em meu rosto e se deteve por um instante em meus lábios.

    Minha respiração ficou pesada. Seus olhos brilharam perigosamente, e sua proximidade me deixou em chamas.

    - ...tão linda! – ele se inclinou em minha direção.

    Não me atrevi a piscar, temendo acordar se fechasse os olhos. Eu queria que Sasuke me beijasse mais uma vez, para me convencer de que seus lábios não eram tão macios e quentes como eu lembrava. Só queria ter certeza de que eu havia fantasiado a doçura e o calor de seu toque. Nada além disso.

    Entretanto, não pude comprovar que estava enganada, já que Paulo entrou na sala, silencioso como um mamute.

    - Opa! Desculpa, cara. Foi mal – ele murmurou, sorrindo maliciosamente. – Não sabia que vocês estavam trabalhando num... assunto importante.

    Sasuke me soltou de imediato e me larguei na cadeira, com vontade de matar aquele varapau narigudo pela intromissão.

    - Já terminamos – respondeu Sasuke. E, como se um botão tivesse sido ativado, a fachada distante que ele usava com frequência voltou com força total. – Sakura, eu... preciso terminar algumas coisas. Será que você pode... – e indicou a cadeira onde eu estava sentada.

    - Ah, claro. – Se minhas pernas me obedecessem!

    Num esforço hercúleo, me pus de pé e me obriguei a caminhar até minha mesa. Não ousei olhar para Sasuke pelo resto da tarde


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