Procura-se um Marido

  • Aelita
  • Capitulos 11
  • Gêneros Romance e Novela

Tempo estimado de leitura: 4 horas

    10
    Capítulos:

    Capítulo 9

    Capítulo 9

    Álcool, Linguagem Imprópria

    – Você está tão linda que me dá vontade de chorar, Sakura – Mari disse, abanando os olhos na tentativa de não borrar a maquiagem. – Esse vestido é perfeito!

    – Pareço uma noiva louca pra casar? – perguntei um pouco insegura.

    – Hã... não – ela sorriu. – Mas você está deslumbrante!

    – É o único vestido mais sério que eu trouxe pra cá. Não posso nem pensar em comprar alguma coisa agora.

    O vestido off-white – que eu havia usado no último aniversário da vovó – tinha decote reto e busto e mangas curtas cobertas por uma delicada renda francesa, a cintura bem marcada por uma faixa larga de seda arrematada por um laço lateral e saia rodada até a altura dos joelhos. Mari se encarregou da maquiagem, leve e delicada. Sua mãe adorou a ideia de me ajudar com o cabelo, criando um coque despojado. Embora a aparência fosse casual, levou duas horas para que ficasse satisfeita com o resultado. Ela finalizou prendendo um narciso branco na lateral do meu coque.

    – Assim ele vai estar presente de alguma forma – disse com os olhos marejados, me admirando no espelho por um momento, antes de me deixar a sós com Mari.

    Eu, por outro lado, não queria pensar em vovó naquele momento. Era por sua culpa que estava indo me casar com um homem que eu não amava.

    Suspirei.

    – Você ainda está chateada por causa do carro? – Mari quis saber.

    – Um pouco. Ontem, quando fechei negócio, eu pensei em voltar atrás, mas fiquei com medo de ser presa. Imagino que cadeia no Brasil seja ainda pior que ônibus. Pelo menos estou tentando me convencer disso.

    Como minha vida podia ter mudado tanto em tão pouco tempo? Em apenas seis semanas, eu deixara de ser a neta rica do Sr. Narciso para me tornar a neta falida do finado Narciso – e, o que era ainda pior, casada.

    Contemplei-me nos espelho por alguns minutos. Os fios de meus cabelos emolduravam estrategicamente o rosto e seguiam naturais para a parte de trás da cabeça. O vestido delicado e acentuado e a maquiagem em tons claros me deixaram com um quê de romantismo.

    Sorri

    Nada mal para uma falida.

    – O noivo chegou! – gritou Ana.

    Mari voou até o corredor e deu uma espiada.

    – O Sasuke está aqui! – dando pulinhos. – Ele está na sala. E está um gato!

    – Ele até que é bonito, mais é sério demais. – Passei a mão na saia do vestido para me livrar de um vinco.

    – Mari? – chamei, sentindo algo se avolumar em meu peito. – Vai ficar tudo bem?

    Ela me abraçou com ternura tomando cuidado para não estragar meu penteado

    – Não sei – disse sinceramente como sempre. – Mas vou torcer muito para que aconteça.

    – Acho que... é hora de ser corajosa e encarar o bicho-papão – tentei sorrir.

    – Relaxa Sakura. Isso nem é casamento – ela me consolou, apertando minha mão.

    – Eu estava me referindo ao Sasuke.

    Ela riu.

    – Ah, se o bicho-papão for lindo desse eito, vou rezar para que ele venha me assustar todas as noites.

    Revirei os olhos enquanto seguíamos para a sala. Sasuke se levantou ao instante em que me viu. Seus cabelos estavam ligeiramente desarrumados, e a barba rala conferia ao maxilar um ar imponente, a camisa branca sob o paletó escuro e bem cortado o deixara sexy, mas ao mesmo tempo respeitável. Ele não usava gravata. Os dois primeiros botões da camisa estavam abertos. Os olhos brilhavam mais do que de costume. Mari tinha razão, ele estava lindo. Ele era lindo.

    – Você está muito... hã...apresentável – ele me disse, meio sem jeito.

    – Eu estava pensando o mesmo ao seu respeito. Você fica bem com essa roupa.

    Ele passou a mão pelos cabelos – de novo, com numa propaganda de perfume –, parecendo nervoso. Bastante nervoso.

    – É, foi isso que eu quis dizer. Você ficou bem com esse vestido. Parece uma mulher. – Estreitei os olhos. Ele se apressou em esclarecer, parecendo ainda desconcertado. – Quer dizer, você parece uma mulher adulta, não uma garota mima... Você está linda. É isso que estou querendo dizer desde o início – ele suspirou pesadamente, com os punhos cerrados.

    – Ah. Isso foi... – acho que sorri – um elogio?

    Ele assentiu brevemente.

    – Então eu agradeço.

    – Hã... disponha. Você está pronta? Não quero me atrasar.

    Voltei-me para minha amiga, a beijei e abracei.

    – Obrigada por tudo, Mari.

    – Boa sorte, amiga! Te vejo daqui a pouco.

    – Obrigada pela hospedagem, Ana! – gritei. Ela ainda estava se arrumando.

    – Até já, querida! Estou enrolada com o zíper, mais estarei na cerimônia. Não vou perder isso por nada. Nem que tenha que ir sem roupa! Mariana, pode vir me ajudar?

    – Como se eu tivesse opção – ela revirou os olhos e nos deixou sozinhos na sala.

    Respirando fundo, passei as mãos no vestido uma última vez e me dirigi a Sasuke.

    – Bom... – abri os braços, desanimada. – Estou pronta.

    Ele apenas assentiu e indicou com a mão que eu fosse na frente.

    Sasuke foi todo gentil, abrindo a porta do carro para que eu entrasse e depois dirigindo com cautela seu SUV confortável. Era estranho estar a caminho do meu casamento com alguém com quem eu não tinha intimidade alguma. Ao contrário, Sasuke sempre me intimidava, mesmo quando estava calado, como naquele momento.

    – Está nervoso? – perguntei, tentando quebrar o silêncio esmagador.

    Ele hesitou, mas acabou respondendo.

    – Um pouco.

    – Eu também – confessei. – Você acha que alguém vai desconfiar?

    – Pelo que você disse, o Clovis foi o único que suspeitou de alguma coisa até agora. Só precisamos ficar atentos quando ele estiver por perto.

    Claro que Clóvis tinha que ser estraga-prazeres de sempre e me submeter a uma intensa sabatina quando comuniquei a ele sobre o casamento. Respondi monossilabicamente a quase todas as perguntas, com medo de cair em contradição. Ele não pareceu convencido.

    – Vou ficar atenta. E seus pais? Vão estar lá?

    – Hã... – sua testa enrugou. – Não.

    – Você não contou pra eles que vai se casar? – Não que isso importasse, mais fiquei decepcionada. Sasuke parecia ser do tipo que fazia tudo como mandava o figurino.

    – Contei que conheci uma garota... especial. Depois que eles se acostumarem com a ideia, vou contar que estamos morando juntos. Não quero envolver minha família nisso, Sakura. Em um ano, você e eu seremos meros conhecidos. Eles não precisam sofrer com a perda de alguém que talvez venham a gostar.

    – Parece sensato – concordei, fitando o painel do carro sem realmente vê-lo. Eu estava indo me casar. Com Sasuke. Oh, Deus!

    – Mas para o pessoal da empresa eu disse que meus pais estão viajando e que, infelizmente não conseguiram voo para chegar a tempo. Parece que acreditaram – ele continuou.

    – Menos o Clóvis, obviamente – apontei, – Ás vezes tenho vontade de esganar o meu avô... se isso fosse possível, é claro. Como ele pôde confiar desse jeito naquele advogado e não em mim? – Sasuke abriu a boca, mais rapidamente levantei as duas mãos em súplica. – Foi uma pergunta retórica. Não precisa responder!

    Ele riu, um pouco mais relaxado.

    – Ele só ia dizer que o seu avô deve ter tido algum motivo pra isso. Ele era um bom homem, jamais ia te magoar se não fosse o último recurso.

    – Não quero falar sobre isso – cruzei os braços sobre o peito, desviando o olhar para a janela.

    Ficamos em silêncio o restante do percurso. Assim que ele estacionou o carro, me senti fria. Meus olhos tremiam e minha boca estava tão seca quanto o deserto do Atacama. Mesmo depois de desligar o motor, Sasuke permaneceu com as mãos agarradas ao volante, olhando para o para-brisa.

    – Isso vai dar certo? – perguntei num fiapo de voz.

    Ele assentiu, ainda olhando para frente.

    – Se fizermos tudo direito, vai.

    Entrei em pânico.

    – Ai, que inferno! Então não vai funcionar! Eu não sei fazer tudo direito, Sasuke. Por mais que eu tente, alguma coisa sempre acaba dando errado e... e...

    – Fica calma – ele voltou seus olhos pretos em minha direção. – Eu já sei que você não costuma seguir pelo caminho do óbvio. Mas eu sim. Estou aqui. Vamos conseguir.

    Engoli seco. De alguma forma. Sua tentativa de me acalmar me deixou ainda mais nervosa.

    – Vamos mesmo? Porque normalmente dá tudo errado quando estou perto.

    Ele riu, totalmente descontraído agora.

    – Já percebi. Vou garantir que isso não aconteça hoje – e se inclinou em minha direção.

    Prendi a respiração.

    O que ele está fazendo? O que ele está fazendo?!

    Seu rosto ficou a centímetros do meu, o sorriso ainda em seus lábios cheios e convidativos. Levantei ligeiramente a cabeça. Sua respiração sapecou minha pele.

    Ele vai me beijar!

    Por um segundo, eu não sabia o que fazer – se esmurrava seu rosto sem dó ou me lançava sobre ele para apressar o beijo. Mais logo ele se afastou, puxando algo do banco traseiro, me deixando perplexa e cheia de sensações contraditórias.

    – Aqui está – disse ele me entregando um buquê de flores brancas variadas. – Achei que você ia precisar.

    Peguei o buquê rapidamente. Ele não queria me beijar, estava apenas pegando as malditas flores. Claro que ele não queria me beijar. Assim como eu não queria beijá-lo. Na verdade, não podia imaginar nada mais repugnante di que ter aqueles lábios rosados e fartos sobre os meus.

    Seguimos calados para o cartório, no centro da cidade. Uma borboleta voava descontrolada e subitamente se decidiu por uma única direção – a que levava ao meu encontro. Congelei na calçada, respirando com dificuldade. Ela circulou Sasuke – que não deu a menor importância ao inseto nojento – e depois partiu pra cima de mim.

    – O que foi? Sasuke perguntou quando notou que eu não o acompanhava.

    – B-b-b-b-b-b... – foi o que saiu

    – O quê? – ele se aproximou, me observando atentamente.

    – B-borboleta – gemi, tremendo

    – Você tem medo? – ele inclinou a cabeça enquanto espantava o bicho com uma das mãos.

    Respirei aliviada quando a vi se afastar.

    – Medo? Que nada. Só... não gosto muito de insetos.

    Sasuke conseguira uma cerimônia privada para aquela manhã de domingo. Ele havia convidado alguns colegas de escritório. “Para dar credibilidade”, dissera. Convidei pouca gente. Mari, Ana, Breno e Mazé. Convidei também Clóvis e Telma, para que assistissem ao espetáculo e me deixassem em paz de uma vez por todas. Eu tremia que , se ele descobrisse minha farsa o sacrifico fosse em vão.

    Estavam quase todos lá quando chegamos. Mari e Ana apareceram minutos depois. Não deixei de notar o olhar – e os sorrisos – de cumplicidade trocados entre Mari e Breno, mais ficou cada um em seu canto. Como se não quisessem que ninguém soubesse que estava saindo – quase todas as noites – havia três semanas.

    Eu estava nervosa. Era um casamento de mentira, mas ainda assim um casamento, Eu nunca sonhara com uma festa espetaculosa nem nada. Na verdade, gostava de imagina que, se um dia me casasse, seria nu lugar exótico, como no topo de uma montanha da Mesa, na Cidade do Cabo, e não em um cartório monocromático no centro da cidade sem nenhuma família por perto.

    Tive um pequeno sobressalto quando uma mão quente e grande envolveu a minha. Olhei no rosto de Sasuke, assustada, mas tentei me recompor. Ele apertou gentilmente minha mão e não a soltou.

    – Fica calma. E tenta parecer feliz – disse num sussurro.

    – No nosso acordo não permite esse tipo de contato físico a não ser extremamente necessário – um calor súbito inundou minha face.

    Pode apostar que também não me agrada muito essa encenação, mas é o nosso casamento, não se esqueça. E, já estamos aqui, vou cumprir o meu papel. Se alguém não acreditar que esse casamento não é real, não vai ser por falta de esforço da minha parte.

    Ele tinha razão. Eu sabia que tinha. Entretanto, fiquei ainda mais apavorada. Acontecia sempre que ele ficava assim tão perto. Sasuke despertava sensações novas em mim, e eu não podia lidar com mais nada naquele momento. Tentei sorrir com uma noiva radiante. Acho que falhei.

    O juiz de paz deu inicio a cerimônia, lendo uma infinidade de coisas que eu não ouvi. Sasuke estava tenso, olhando pra frente, minha mão ainda na sua. Às vezes ele apertava gentilmente. Eu o fitei, mais ele encarava a parede clara atrás do escrivão. Então tudo aconteceu muito rápido: assinamos os papéis, depois foi a vez das testemunhas e BAM!, eu estava casada.

    Em meio ao zumbido que a tensão do momento me causou, vi Sasuke retirar do bolso do paletó uma caixinha e entregá-la ao juiz de paz.

    Isso me despertou do torpor imediatamente.

    – Sasuke, o que é...

    – É a parte do espetáculo – ele sibilou de volta.

    Eu ainda estava atônita no momento em que Sasuke enfiou a argola dourada e reluzente em meu dedo. Ele sorriu quando o juiz teve que pigarrear para que eu pegasse a aliança e colocasse em seu dedo, no dedo do meu marido. Engoli seco. Comecei a suar. Minha mão tremia tanto que tive dificuldade para encaixar a aliança no anelar largo de Sasuke.

    – Eu vos declaro agora marido e mulher – disse o juiz cheio de pompa, oficializando nossa sentença... quer dizer, nossa união.

    Tudo ia relativamente bem – Mari tirava centenas de fotos, Mazé chorava copiosamente e ninguém além de Sasuke, parecia notar meu pânico. Contudo Ana estragou tudo dizendo:

    – Cadê o beijo do casalzinho?

    Apavorada, olhei para Mari, que furtivamente apontou para Clóvis, atento a cada movimento meu. Voltei-me para Sasuke que estava sério. Ele se virou devagar, me encarando, até ficar de frente para mim. Encaixou as mãos grandes em meu queixo, inclinou minha cabeça para trás e começou a fazer o percurso que traria seus lábios aos meus.

    Ah não. De jeito nenhum esse camarada vai me beijar. Não mesmo!

    Sasuke não podia me beijar. Eu já havia fantasiado sobre os pelos em seu peito. Já havia imaginado como seria estar na cama com ele. E meio que desejara beijá-lo meia hora atrás, quando estávamos no carro. Isso sem termos tido nenhum contato físico. Ele simplesmente não podia me beijar.

    Não vou retribuir!

    Aflita, tentei enviar mensagens telepáticas sobre o que aconteceria com o seu nariz caso ele ousasse colar aquele lábios suculentos e macios nos meus, mas ele não entendeu. Ou fingiu não entender. Talvez minha mensagem tenha sido um pouco confusa, já que aqueles olhos caleidoscópicos me desconcertaram.

    Ok, talvez eu retribua. Só um pouquinho...

    E inexoravelmente, Sasuke me beijou. Quando sua boca cobriu a minha, tive vontade de gritar para que parasse, mas uma fração de segundo depois a doçura, o calor e suavidade do toque me desarmaram e me vi de repente correspondendo, suspirando e ansiando por mais. Não foi longo, mais foi mais do que um simples beijo. Foi um roçar, provar, degustar de lábios que imprimiu tanto sutileza quanto desejo de se aprofundar. Fiquei tão chocada com o que estava sentindo que mal pude me mover.

    Sasuke se endireitou, o rosto sério, olhos escurecidos como eu nunca vira antes. Eu não fazia ideia da expressão em meu rosto, mas não devia ser das melhores, já que ele tocou meu queixo com delicadeza e murmurou:

    – Agora sorria

    Fiz o que ele pediu atordoada demais para pensar em outra coisa. Os convidados se apressaram para nos parabenizar. Ninguém parecia duvidar da veracidade de nosso casamento – exceto Clóvis como o chato que era.

    – Amada, você está deslumbrante! – disse Telma, beijando o ar ao lado de minhas bochechas.

    Foi tão repentino – Clóvis comentou analisando Sasuke atentamente – Confesso que fiquei surpreso com a notícia.

    – Foi coisa de momento. A gente não quis esperar – retruquei nervosa. – Pra que esperar quando estamos tão apaixonados...?

    – Como foi que aconteceu mesmo? – ele questionou pelo que me pareceu ser a milionésima vez. – Como vocês acabaram se apaixonando?

    – Hã... foi... é...

    – Amor à primeira colisão – Sasuke interveio. Repremi um suspiro de alívio. – Fiquei louco pela Sakura assim que ela me atropelou, em seu primeiro dia na empresa. Ela é uma garota fantástica, foi impossível resistir aos seus encantos.

    – Isso. Foi exatamente assim – assegurei a Clóvis, cruzando os braços atrás das costas para que ele não visse o quanto minhas mãos tremiam.

    – Que romântico! – arrulhou Telma – Sakura, amada, você não devia ter escondido de mim que estava apaixonada.

    – Eu não sabia bem o que estava sentindo, Telma.

    – E isso começou há pouco mais de quê? Um mês? – Clóvis insistiu.

    – Quarenta e noves dias, para ser exato – Sasuke respondeu e passou os braços em minha cintura, muito tranquilamente, me puxando para seu peito. – Quarenta e nove dias gloriosos, não é, Sakura?

    – Ãrrã. Pura alegria! – murmurei. Eu me sentia um pouco zonza com Sasuke me abraçando daquele jeito tão... íntimo. Eu sentia seus músculos firmes em detalhes impressionantes, comprimidos contra meu corpo. Ele era tão grande, tão rijo, tão quente, e seu perfume tão sedutor...

    Tentei parecer à vontade com tanta proximidade, passando os braços ao redor de sua cintura estreita. Fiz o melhor que pude.

    Clóvis franziu a testa, mais se viu sem argumentos.

    – Fico feliz por você Sakura. Você está encantadora, Lembra muito sua mãe. Bom... vou deixar vocês a sós. Devem estar querendo alguns momentos de privacidade.

    – Estamos ansiosos! – tentei parecer feliz.

    Ele sorriu em resposta, ainda que parecesse desconfiado.

    – Claro, claro. Só mais uma coisa. – Retirou um gordo envelope do bolso e me entregou. – Seu avô não perderia seu casamento por nada

    Peguei o pacote um pouco trêmula e o apertei de encontro ao peito.

    – Obrigada. – murmurei emocionada.

    – Não me agradeça – Clóvis sorriu, pegou a mão de sua esposa, se despediu e nos deixou.

    Voltei o olhar para o envelope, em um nó se formando em minha garganta. Fechei os olhos e encostei no ombro de Sasuke, inspirando para me acalmar.

    – Eu não queria enganar ninguém – gemi de encontro ao ombro forte que me amparava.

    – Eu sei – ele sussurrou, acariciando meus cabelos, me confortando. Era tão bom tê-lo ao meu lado naquele instante que se tornou um pouco mais fácil suportar tudo aquilo.

    Foi então que me dei conta de que ainda estávamos agarrados.

    – Que ideia foi essa de me abraçar? – me livrei de seus braços e tentei respirar normalmente. – Você não pode me abraçar assim!

    – O que você acha que estou fazendo, Sakura? Acabamos de nos casar. Devemos parecer apaixonados.

    – Não faça isso sem me avisar primeiro. E ainda teve aquele beijo que francamente... – engoli seco, a lembrança ainda quente e úmida em meus lábios – foi totalmente, completamente desnecessário.

    – Não concordo – ele retrucou, o rosto impassível. – É assim que os casais costumam selar o compromisso.

    – Pois saiba que eu não gostei – avisei, soando bem menos convincente do que pretendia.

    – Não se preocupe Sakura. Prometo que aquele foi nosso primeiro e último beijo.

    Sasuke pegou minha mala no carro de Mari e a guardou no porta-malas de seu SUV preto, enquanto permaneci ao lado de meus amigos. O pessoal do escritório deu no pé logo que o almoço no restaurante italiano terminou.

    - Tão linda, menina Sakura. Igualzinha à sua mãe nessa idade – disse Mazé com lágrimas nos olhos. – Até o mesmo brilho no olhar.

    - Verdade? – perguntei, um pouco emocionada

    Ela assentiu, sorrindo.

    - Ninguém conseguia ficar triste quando dona Layla estava por perto. Você herdou dela essa alegria, a cabeça oca e o coração puro. – Ela me abraçou apertado, então se voltou para Sasuke, segurou o rosto dele entre as mãos e comprimiu suas bochechas. – Cuide dela e terá meu amor para sempre, rapaz. Se magoar essa menina... – seu aperto se tornou mais forte.

    Ele a olhou espantado, o rosto prensado entre as mãos fortes de Mazé e assentiu rapidamente.

    - Não vou magoar a Sakura – conseguiu resmungar.

    - Que bom... que bom... – ela o soltou. – Agora preciso ir, porque aquela jabiraca topetuda já deve estar enfiada na minha cozinha, fazendo o quê, só Deus sabe.

    Eu ri e a abracei. Quando Mazé se foi, Sasuke disse, massageando a mandíbula:

    Ela tem uma mão e tanto

    Dei risada.

    - Não foi uma ameaça de verdade.

    - Não foi o que pareceu.

    - Relaxa, Sasuke. Ela gostou de você. É só não ficar por perto quando ela estiver usando o cutelo e você vai ficar bem.

    Ele assentiu, assustado, e tornei a rir.

    - Sakura, venha nos visitar sempre que quiser – Ana disse ao me abraçar. – Por favor, não se esqueça de ser feliz, querida. A vida já te maltratou bastante.

    - Obrigada, Ana. Você também será bem-vinda quando quiser me visitar. – Ou eu achava que seria. Não havia falado sobre isso com Sasuke. Não ainda.

    Mari demorou mais para me soltar.

    - Estou com medo, Mari – confessei, enterrando a cabeça em seu pescoço. Mesmo não tendo comentado com ela os efeitos que Sasuke causava em mim ultimamente, já que nem eu mesma entendia o que estava acontecendo comigo, ela sabia. Mari sempre sabia.

    - Eu sei – ela sussurrou. – E que beijo foi aquele? Deus do céu! Você tem tanta sorte!

    - Deixa de ser boba. Eu não quero ficar sozinha com ele – eu disse, amedrontada com o que aconteceria a partir dali.

    - Eu sei, Sakura – ela segurou meus ombros e sorriu. – Eu só estava tentando descontrair um pouco. Mas acho que não é uma boa ideia eu passar a noite na sua casa. Pra todos os efeitos, é a sua noite de núpcias. Poderia levantar suspeitas uma amiga passar a noite com vocês, ou no mínimo seríamos chamados de pervertidos – ela sorriu. – Você vai ter que ser corajosa. Eu te ligo mais tarde, tá?

    - Tá.

    Ela me deu um beijo estalado no rosto e fiquei observando-a entrar no carro.

    Quando ficamos sozinhos, virei-me para Sasuke, que estava encostado no capô do carro, os braços cruzados sobre o peito, me observando - veja só! – com o rosto amigável.

    - Pronta para conhecer sua nova casa? – ele sorriu, um pouco nervoso.

    - Não. Mas acho que não tem outro jeito.

    Ele riu, abriu a porta do carro para que eu entrasse e permaneceu calado durante todo o trajeto até o prédio de classe média. Sasuke foi gentil e se ofereceu para levar minha bagagem até o elevador. Assim que abriu a porta do apartamento, fez um gesto para que eu seguisse na frente.

    - Bem-vinda ao seu novo lar – anunciou.

    Entrei um pouco acanhada. O apartamento era pequeno, mas acolhedor e organizado. As paredes claras combinavam com os móveis de linhas retas e modernas. Uma pilha de CDs desalinhados contrastava com o restante da sala, meticulosamente arrumada.

    - Bacana.

    - Vou te mostrar o seu quarto – ele disse, se enfiando no curto corredor, então abriu a porta do cômodo minúsculo e praticamente vazio. – Eu não tive tempo de arrumar nada. Imaginei que você mesma ia querer fazer isso. Meus pais dormem aqui quando vêm me visitar por isso só tem a cama, a mesa de cabeceira e a cômoda. Mas pode usar o meu guarda-roupa para pendurar vestidos ou qualquer coisa que quiser.

    - Obrigada – eu disse meio sem jeito.

    Ele também parecia não saber o que fazer.

    - Aqui em frente é o meu quarto, e o banheiro é ali – ele apontou para a porta no fim do corredor.

    - Beleza.

    Ele assentiu, deixando minha mala sobre a cama. Entrei no quarto, um pouco apreensiva. Era tudo muito simples e sem cor. Meio triste até. Sasuke havia colocado um pequeno vaso de narcisos amarelos sobre a cômoda, na tentativa de trazer um toque de vida ao espaço, o que achei fofo. Sentei-me no colchão – mole demais – e avaliei os poucos metros mal decorados ao meu redor. Um contraste enorme com meu antigo quanto na mansão, cheia de espaço, enfeites e cortinas diáfanas. Eu teria que dar um jeito naquele lugar se quisesse me sentir em casa pelos próximos meses. Não era ruim, só não se parecia com um lar ainda.

    - Vou... vou te deixar sozinha para se acomodar melhor – disse ele, encostado no batente, os braços cruzados sobre o peito. – Estou na sala se precisar de alguma coisa – e saiu, fechando a porta trás de si.

    Com um suspiro, abri a mala e comecei a arrumar minhas coisas na pequena cômoda da melhor forma possível. Peguei o porta-retratos com a foto de minha família e o coloquei sobre o móvel, ao lado de meus produtos de higiene, mantendo os narcisos. Em seguida, me atrevi a ir conhecer o banheiro. Era pequeno, e tudo ali gritava testosterona, mas Sasuke tivera a delicadeza de colocar um pequeno pote com sabonetes decorativos sobre a pia de mármore negro. Ele realmente estava se esforçando.

    Lembrei da carta do vô Narciso, que Clóvis havia me dado, e corri para o quarto para abrir o envelope. Havia duas cartas ali dentro, uma destinada a mim, outra ao meu marido. Abri a primeira.

    Minha neta querida,

    Você nãos sabe quanto eu gostaria de estar presente neste dia tão especial. Imagino como você deve estar feliz agora que encontrou o amor. Eu daria tudo para partilhar de sua felicidade neste momento.

    Engoli em seco.

    Casamento é uma das etapas mais importantes da vida, a construção de uma nova família. Que Deus abençoe você e seu marido, e os filhos que terão. Espero que seu marido saiba que acaba de ganhar na loteria, já que ganhou seu coração.

    Sempre ouça o que ele tem a dizer, querida, respeite-o e exija o mesmo. Um casamento nada mais é que uma parceria, em que ambos decidem ser felizes, tendo um ao outro como instrumento. Por favor, não o trate com mentiras. E não tente força-lo a fazer todas as suas vontades, como você tende a exigir.

    Eu não faço isso, não!

    Você sabe que faz isso. Não discuta comigo. Ninguém conhece você melhor que eu.

    Eu não podia argumentar contra isso.

    Agora vá ficar com seu marido. Aproveite a lua de mel, mas não exagere na bebida.

     Com amor, vovô.

    P.S.: Tomei a liberdade de endereçar uma carta o seu marido. Entregue a ele, por favor. Não se preocupe, quero apenas lhe dar as boas-vindas à família.

    Encontrei Sasuke na sala, a TV ligada, mas tive a impressão de que ele não prestava atenção no jogo de basquete. Fiquei ali parada, completamente deslocada, sem saber o que fazer. Ele se virou para me observar e me estudou por um segundo antes de sorrir.

    - Você está com cara de quem acaba de entrar na sala do diretor – disse de modo gentil.

    - Pra ser sincera, é exatamente assim que eu me sinto.

    - Esta é sua casa agora. Talvez leve alguns dias para você se sentir à vontade, mas prometo fazer o possível para te ajudar a se adaptar. – Fiquei surpresa com tanta hospitalidade. Mas, por outro lado, parecia ser exatamente o tipo de coisa que Sasuke diria. Ele ainda era uma incógnita para mim. – Por que você não se senta pra gente conversar um pouco?

    Pareceu uma boa ideia. Muito melhor que ficar parada no meio da sala sem saber onde colocar as mãos. Ele ainda vestia as roupas da cerimonia, porém sem o paletó. As mangas da camisa haviam sido dobradas até os cotovelos. Sasuke ficava bem de terno, mas ainda melhor naquele estilo mais casual. Menos intimidador, mais... acessível. Era mais fácil falar com ele sem toda aquela armadura que ele costumava vestir.

    - O vovô me deixou algumas cartas, Sasuke – comecei, encarando o envelope nas minhas mãos. – Recebi uma na B&L, a respeito do meu emprego. A que Clovis me entregou no cartório é sobre nós dois, você e eu, quero dizer. – Estiquei em direção a ele a carta endereçada a “marido de Sakura”. – Uma era para mim, e essa é pra você.

    Ele pegou o envelope e o analisou por um instante, depois o devolveu.

    - Não é pra mim, Sakura. É para o seu marido de verdade. Guarde e um dia entregue ao homem que você realmente amar.

    - Tudo bem. – Não pude negar que, naquele instante, Sasuke me pareceu um homem ainda maior.

    - Gostou do quarto? – ele quis saber.

    - Gostei, é bem bacana. Posso mudar algumas coisas?

    Ele riu.

    - Vejo que gostou muito.

    Eu corei.

    - É que é meio sem cor. Parece triste e solitário – eu disse, encarando o tapete grosso e macio sob meus pés. Exatamente como eu me sinto. – Talvez um pouco de cor deixe o ambiente mais alegre.

    - O quarto é seu. Mude o que achar que deve para se sentir mais confortável. Se precisar da ajuda de um marido forte para mudar os moveis de lugar, posso procurar um na lista telefônica.

    Eu ri, surpresa.

    - Olha só! Você tem senso de humor! – apontei.

    - Claro que tenho. Só é difícil usar quando você está por perto.

    Eu estava prestes a perguntar o que ele quis dizer com aquilo quando sua expressão mudou, voltando à seriedade habitual.

    - Como... – ele se sentou mais ereto, deixando as mãos unidas sobre os joelhos. – Eu fiquei pensando sobre o que aconteceu hoje e sobre o seu discurso depois que... hã... – ele se remexeu no sofá, procurando uma posição confortável. Ou talvez procurasse um assunto menos constrangedor.

    - Como exatamente vamos agir diante das pessoas?

    - Não pensei nisso ainda. Mas gostaria que me avisasse da próxima vez que decidir me beijar.

    - Eu não pretendo te beijar de novo – ele respondeu imediatamente.

    - Ótimo! Assim cumprimos o acordo à risca

    - Sim, mas... fiquei pensando que não vamos parecer amantes – ele apontou. – As pessoas podem estranhar, já que acabamos de casar.

    - Humm... Bom... Tem razão.

    - Pensei que, se a gente se esforçar para manter a fachada, talvez as pessoas acreditem que o nosso casamento é real, que estamos mesmo apaixonados. O que você acha de vez ou outra almoçarmos juntos?

    - Acho razoável. Talvez eu deva sorrir pra você de vez em quando – sugeri, como quem não quer nada. Seria bom se Sasuke pensasse que eu estava desempenhando um papel, não sorrindo involuntariamente toda vez que olhava para ele. E por que isso estava acontecendo afinal?

    Ele assentiu.

    - Vou fazer o mesmo. E seria bom se nós dois não... hã...

    - Se a gente não trocasse desaforos em público? – ajudei.

    - Isso – ele sorriu. – A partir de hoje, e pelos próximos doze meses, você é minha mulher, e vou tentar te tratar como tal. Pelo menos quando tiver gente por perto – ele fez uma careta divertida.

    Não me ofendi. Na verdade, fiquei satisfeita.

    - Obrigada por fazer isso, Sasuke. Vou fazer o possível para você não se sentir nauseado quando pensar em voltar pra casa.

    - Pode ser que eu nem note você por aqui – ele deu de ombros, encostando-se no estofado. – Se eu conseguir minha promoção, vou ter tanto trabalho que provavelmente não vou ter tempo pra perceber muita coisa. Minhas chances de ser promovido são grandes.

    - Que bom. Espero que você consiga o que quer – eu disse sinceramente.

    Ele sorriu um pouco, depois voltou a ficar sério.

    - Eu sei que você vendeu seu carro, e você já deixou bem claro o horror que sente pelo transporte público.

    – Ele se remexeu no sofá, como se o assento estivesse repleto de espinhos. Que estranho. – Também notei que você tem problema com horários. Honestamente, pra mim tanto faz, mas fiquei pensando que talvez as pessoas achem estranho se a gente não chegar juntos ao trabalho. Já que trabalhamos na mesma empresa e moramos no mesmo apartamento.

    - Essa é sua forma de me oferecer carona, não é? – sorri.

    - Se você estiver pronta na hora certa – ele esclareceu, sorrindo torto.

    Senti meu estomago se revirar e contorcer, como se estivesse numa montanha-russa.

    - Essa foi a coisa mais incrível que você já me disse. Não vou me atrasar. Quer dizer, vou fazer o possível para acordar na hora certa. Deus sabe como os ônibus me assustam! Por incrível que pareça, você é menos assustador.

    Ele riu.

     - Isso foi um elogio?

    - Não! – ri também.

    A conversa enveredou para trivialidades. Sasuke me mostrou onde ficavam alguns utensílios e me alertou para não deixar coisas jogadas pelo chão, pois a faxineira guardava tudo no lugar errado e levava semanas até que lembrasse onde colocara cada objeto. Aprendi um pouco sobre ele naquele conversa. Ele fora campeão estadual de nado de costas quando estava na faculdade – o que explicava muita coisa, principalmente aquelas costas largas e bem definidas -, mas decidira abandonar o esporte para ser estagiário na B&L. Ele ainda nadava sempre que podia.

    Sasuke me contou sobre seus poucos amigos, seus pais, mas não tocou no assunto que, curiosamente, mais me intrigava – as mulheres de sua vida. Ele tinha alguém?

    Ele falou, falou e falou, mais do que eu imaginei que fosse capaz, e por diversas vezes tive que me lembrar de parar de sorrir. Fiquei surpresa quando ele sugeriu pedir uma pizza para o jantar e constatei que já era noite, pois mal vira o dia passar. Ele até me deixou escolher o sabor, e descobri que ambos éramos fissurados por pizza de calabresa. Conversamos um pouco mais enquanto comíamos, ainda sobre trivialidades, ainda pisando em solo arenoso, testando, nos conhecendo.

    - Eu lavo e você seca e guarda – ele disse, retirando os pratos da mesa e levando-os até a pia.

    - Não tem lava-louças? – perguntei em pânico.

    - Não.

    - Por que não? – eu quis saber. – Todo mundo tem lava-louças! Até a mãe da Mari tem.

    - Nunca precisei – ele deu de ombros. – Sempre morei sozinho. Não tem muita louça pra lavar.

    - Mas... mas... eu não sei onde guardar! - apontei aflita.

    - Por isso mesmo você vai secar e guardar – ele sorriu, divertido, com meu horror. – Vou te dizendo onde cada coisa fica, assim você aprende, para o caso de decidir cozinhar alguma coisa.

    - Você realmente não me conhece. Obrigada pela preocupação, mas dificilmente isso vai acontecer. Não sei cozinhar. Não vou precisar de nada. Mas eu... eu te ajudo. Você foi legal comigo hoje.

    - Eu sou legal! – ele sorriu. – Comprei algumas coisas para você. Nunca morei com uma garota antes então o Paulo me deu uma ajudinha.

    -Quem?

    - O Paulo, do Comex – ele disse, como se fizesse algum sentido. Percebendo que aquilo não significava nada para mim, prosseguiu: - Aquele cara que derrubou vinho na Mazé no nosso almoço de casamento.

    - Ah, o Paulo. – Magrelo, narigudo, trabalhava no mesmo setor que Sasuke e nunca falara comigo até aquela manhã, e mesmo assim seu “Parabéns, tomara que dure” não fora bem uma conversa.

    - Somos amigos há muito tempo, desde a época da faculdade. Ele disse que as mulheres gostam de certas coisas. Estão no armário e na geladeira. Se eu comprei errado, me avise.

    - Hã... obrigada, Sasuke – respondi, espantada com sua delicadeza. E me dei conta de que em aspecto algum ele era o ogro que eu havia imaginado. Era educado, gentil e atencioso. Não entendi o por quê, mas essa constatação me deixou com mais medo dele.

    - Por falar nisso, agradeço se você não mexer nos meus hidrotônicos. Costumo levar uma garrafa de manhã quando vou malhar. Se quiser posso comprar alguns pra você, só me diz que sabor prefere.

    Ah, então aquela montanha de músculos era cultivada com algum esforço.

    - Não gosto de hidrotônicos, obrigada.

    Terminamos com a louça rapidamente. Sasuke voltou para a TV e aproveitei para tomar um banho. Vesti o pijama – calça azul com nuvenzinhas brancas, regata branca lisa, pantufas de patinhas de dinossauro – e fui direto para aquela cama mole demais para o meu gosto.

    Mari ligou assim que me deitei.

    - E aí? Estou interrompendo alguma coisa? – perguntou sugestivamente.

    - Deixa de ser boba.

    - Uma garota pode sonhar – ela suspirou. – Como foi?

    - Foi... surpreendentemente bom – admiti, encarando o teto branco.

    - Bom? Quer dizer, bom mesmo?

    - Por incrível que pareça, o Sasuke é bem bacana quando quer. – Ele era mesmo bacana! Como eu não tinha percebido isso antes? – Ele me ofereceu carona para ir para o trabalho.

    - Não acredito! O que você disse?

    - Agradeci e aceitei, claro. – Embora devesse ter recusado. Sasuke e eu ficaríamos muito tempo juntos. E isso parecia ruim de alguma forma.

    - Ah... Sinto cheiro de coisa boa vindo por aí. Mas você não parece muito animada com tudo isso.

    - É que... eu não sei, Mari. Parece que tem algo errado. Não sei dizer o que é.

    - Humm... Talvez você esteja se sentindo culpada por enganar seu avô.

    - Talvez. – Mas, sendo sincera, não era esse o problema, era?

    - Amanhã eu passo aí pra conhecer sua nova casa. Boa noite, Sakura.

    - Até amanhã, Mari.

    Demorei um pouco para pegar no sono. O colchão mole afundava e minhas costas doíam. Depois de me remexer por mais de uma hora, finalmente adormeci, mas preferia ter me mantido acordada a noite toda. Vovô voltou a assombrar meus sonhos. Estávamos no cartório, Sasuke conversava animadamente com Mari, e vovô, no fundo da sala, me observava. Caminhei lentamente até ele. Ele não sorria, seu rosto marcado pelo tempo estava triste. Uma tristeza profunda, que fez meu coração doer.

    - Que foi? O que está errado?

    Ele olhou para Sasuke por um longo tempo, depois voltou os olhos verdes para os meus.

    - Você não gosta dele? – perguntei insegura.

    Ele não respondeu.

    - Olha, vovô, eu não queria fazer isso, tá legal? Mas o Clovis disse que eu ia para a cadeia se não pagasse os meus cartões, e tive até que vender o meu cupê, e você mais do que ninguém sabe como eu amo aquele carro... e... e as coisas estão meio fora do meu controle e você morreu. Então não tem o direito de me julgar.

    Ele suspirou.

    - Vai partir seu coração – disse, com um pesar que me causou calafrios.

    - O Sasuke? Não. Eu juro que não. Ele é um cara bacana, mas eu nem gosto dele. E ele não gosta de mim desse jeito. Ele meio que me tolera e é só até tudo se resolver – expliquei apressada.

    Ele me mostrou um sorriso triste.

    - Vai doer além do que você pode suportar.


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