Os Cinco Selos

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    Capítulos:

    Capítulo 179

    Início do Fim

    Linguagem Imprópria, Mutilação, Violência

    YOOOOOOOLOLOLOLOLO

    Enfim, tamo de volta após meros 75 dias

    Gostaram da sensação de que a história nunca voltaria?

    Sentiram minha falta?!

    Eu sei que não!

    Um chekpoint aqui: começaremos esse ano com exatos 58514 views

    Senhoras e senhores, otaku nem tanto, dou-lhes as boas vindas na quarta e última parte desta longa história que me suga um tanto

    Bem-vindos ao "Império de Lúcifer"

    Boa leitura ^^

    Sete anos depois...

    Era uma tarde com o céu cinzento sobre a floresta que cercava o reino de Caluna¹. Por entre essas árvores de médio porte, algo havia acontecido. Perto de uma das diversas rotas de terra batida, esta que levava em direção as ruínas da cidade de Akarat², havia uma carroça tombada entre as árvores e grama. Os cavalos não estavam ali, mas os donos da carroça sim. Três no total, e todos mortos.

    O mais próximo da carroça, praticamente encrustado nela, estava um homem barbado. Seu rosto estava completamente desfigurado e encoberto por sangue seco. Havia sofrido um golpe muito forte, quebrando seus ossos e, muito provavelmente, os estilhaços se cravaram em seu cérebro. A segunda era uma mulher, que também tinha consigo um ferimento na cabeça, sendo que a predominância da deformação era o lado esquerdo do rosto — e a pedra ensanguentada recaída ao lado do corpo revelava o motivo. E o último homem, parecendo ser o mais jovem, tinha um galho grosso de árvore trespassado na barriga. Agachado perto deste último corpo, encontrava-se Edward.

    O capitão dos Selos estava trajado com seu sobretudo, como de praxe, botas de cano alto que tinham mais fivelas do que deveria, uma blusa branca sem estampa e calças de couro. Seu colar e anel de cristais azuis cintilavam mesmo sem os raios de sol.

    Ele analisava o corpo do falecido sem tocá-lo. Em seguida seguiu seu olhar para a mulher e depois para o barbudo. Ainda com a expressão de indiferença, Edward olhou por cima do próprio ombro e observou sua filha por um instante.

    Miana vestia um simples vestido branco sem mangas que descia até um pouco abaixo de seus joelhos, onde tinha pequenas borboletas roxas bordadas em seu fim, e calçava sandálias. Seus cabelos brancos e lisos, aos seis anos, haviam acabado de tocar seus ombros. Seus olhos vermelhos fintavam os corpos mortos com indiferença, e, ao perceber que seu pai olhava para ela, abriu um sorrisinho sem mostrar os dentes.

    Edward suspirou, negando com a cabeça.

    “O que você esperava?”, sussurrava Sombra, “Ela é sua filha, afinal”.

    — Pelo menos um “que nojo, papai”.

    O Selo se levantou, ficou meio de lado olhando para sua filha e apontou para o defunto barbudo.

    — Aquele ali recebeu um golpe forte bem na cara. Seu corpo voou e bateu contra a carroça, fazendo-a tombar. Os cavalos fugiram neste instante. — Seguiu apontando. — Essa mulher foi atingida com uma pedra na cabeça logo em seguida. Já o homem aí foi tentar vingar seus parceiros. Não era tão forte quanto achava, e acabou sendo presentado com o galho onde está. Ou seja, nossa criatura é bem forte. — Edward se certificou de que Miana prestava atenção, então apontou para as árvores ao redor. — O tronco de algumas árvores está faltando uma parte, parecendo mordidos. Algumas têm galhos e frutas faltando. Com isso, é muito provável que um troll da floresta tenha atacado a carroça para roubar as fru-

    — Ele não atacou — interrompeu Miana.

    — Ah, não? — Edward sorriu olhando para sua filha. — Por que não, Mia?

    Ela abaixou os olhos para os próprios pés e começou a puxar o vestido, negando com a cabeça, tímida. Edward se aproximou, agachou e a puxou para seus braços, apertando-a enquanto esfregava sua bochecha na dela, ganhando sorrisinhos como resposta.

    — Vamos, querida. Diga-me — pediu.

    — Uhrum... Uma vez o tio Aiken me disse que os trolls são criaturas sencientes e pacificas. Eles podem falar a nossa língua, até! E eles só brigam para se defender...

    — Está querendo dizer que foram as pessoas que atacaram primeiro?

    — Sim.

    — Então... aquelas três pessoas, comerciantes de frutas, ficaram furiosos por ter um troll comendo as frutas da região e tentaram acabar com ele, mas o troll se defendeu? Agora a história faz mais sentido para você, Mia?

    — Sim, papai.

    Lizzie escutava a conversa um pouco distante, sentada em uma rocha. Estava trajada com um vestido negro com mangas curtas semitransparentes e calçava botas com cano médio. Desde o nascimento de Deckard e Miana, ela já não ficava tão colada nas costas de Edward mais. Lizzie não se entristecia com isso, pelo ao contrário, ficava feliz por Edward ter os dois e...

    — Vamos — soou a voz de Edward, puxando Liz de seus devaneios. Ele estava com mão esticada para ela. — Os corpos estão frescos. Então o troll está pelas redondezas.

    Esboçando um largo sorriso, Lizzie desceu da rocha e segurou a mão dele.

    ***

    Demorou pouco tempo para encontrar o troll da floresta, pois Corvo o havia rastreado. Era um animal de tamanho médio. Seu corpo rechonchudo era encoberto, com exceção o peito, por uma carapaça que se assemelhava em muito a lascas de madeira do tronco de uma árvore, também marrom; sua cabeça era levemente quadrada e grande, e suas orelhas são pontiagudas. De suas costas até o topo de sua cabeça, flores coloridas cresciam em meio a grama que cobria estas partes.

    Edward se recostou em uma árvore não muito distante e colocou sua filha no chão. Dando tapinhas nas costas dela, ele sinalizou com a cabeça o troll. Miana protestou em silêncio por um tempo ao perceber que seu pai queria que ela falasse com o troll, mas por fim Edward deu um empurrão mais forte, e Miana foi aos tropeços para perto da criatura.

    O troll da floresta saltou para pegar uma fruta na árvore e caiu de bunda no chão. Sem se importar pela queda, abriu a boca cheia de dentes e abocanhou a fruta.

    Corvo pousou no ombro de Miana. Depois de reunir coragem o suficiente com o corvo ao seu lado, ela colocou as mãos na cintura, estufou o peito e disse com a voz mais autoritária o possível:

    — Senhor troll!

    Lentamente, o troll levou seu olhar até Miana. Depois além, para Edward, e rapidamente notou a diferença de força absurda entre os dois. Entretanto, manteve-se calmo e entendeu que só seria atacado caso ele o fizesse primeiro. "Queria que os humanos fossem assim também," pensou Edward.

    — Senhor troll! — repetiu ela.

    — Hmm... siiim...? — respondeu o troll, preguiçosamente.

    — Foi você que bateu naqueles humanos?!

    — Sim.

    — Por quê?

    — Hmm... Senhor Troll sentir muuuitá fomê! — Ele deu leves tapinhas na barriga. — Frutas ser delisiozas. Troll comer, humanus naum gostarrr. Humanus bater em Senhor Troll. Senhor Troll bater nus humanus tábem.

    — Então você só se defendeu?

    — Siiim. — Concordou com a cabeça. — Humanus mauús. Naum ser como voscê, pequeniná.

    Com um sorriso radiante, Miana olhou por cima do ombro. Lizzie e Edward devolveram o sorriso com a mesma intensidade para ela, erguendo os polegares. E seu pai sinalizou para que ela continuasse.

    Miana suspirou bem alto propositalmente.

    — O problema, Senhor Troll, é que os humanos estão caçando você porque você come muitas frutas deles. Tem até um contrato sobre sua cabeça!

    — E issu ser ruiiim?

    — Muito.

    Senhor Troll levou a mão a cabeça, maneando de um lado para o outro, preocupado.

    — Acalme-se! A gente pode te ajudar — garantiu Mia.

    — Verdadi?

    — Sim — confirmou Edward, ficando ao lado de sua filha. — Irei dizer que matei você. Mas, para que acreditem, preciso levar algo seu. Seu dente.

    — Não se preocupe — interveio Liz —, posso curar o ferimento. Ai você vai ter um dente novinho. Só que irá doer.

    — Hmmm... Troll concordarrr. Sim. — E maneou a cabeça em concordância.

    Depois que o troll da floresta abriu a boca, Edward agarrou uma de suas duas presas inferiores — que tinha o tamanho de sua palma — e puxou bem rápido. Antes mesmo que o sangue fluísse, Lizzie tocou no maxilar do Senhor Troll, e o corpo dele pulsou o azul.

    — Aiii! — grunhiu a criatura a sentir a intensa queimação.

    Segundos depois, o dente havia se regenerado.

    — Vá logo — disse Ed. — Se não, você irá acabar morrendo nesta região.

    Com dificuldades, o troll se ergueu, virou-se e foi embora na direção oposta, caminhando lentamente.

    ***

    Os três foram até o reino de Caluna receber a recompensa pelo troll.

    Edward entrou na taverna com Lizzie e Miana em seu encalço. Dirigiu-se até o balcão, onde tinha um homem corpulento, de pele marrom e quase era totalmente careca, salvo pelo cabelo na parte detrás de sua cabeça preso estilo rabo de cavalo. Quando Edward colocou o contrato e o dente sobre o balcão, Marmaand virou-se e fintou-o.

    — Era um troll — explicava Edward. — Os mercadores locais o atacavam por ele pegar as frutas. Em defesa, o troll atacava de volta. Não quis sair pacificamente, então tive que o matar. Isto foi a única coisa que sobrou dele.

    — Um dente? — Marmaand pegou o dente com seus dedos cheio de anéis, e fez uma careta. — Como só é um dente que sobra?

    — Eu o incinerei. — O Selo fechou os olhos para não demonstrar a esclera negra, e as chamas azuis arderam em sua mão. — O dente voou quando seu corpo bateu contra a pedra com uma magia de vento.

    — Humpf. Um mago. Foi difícil?

    — Não. Fácil.

    Marmaand colocou a mão na bolsa e jogou as moedas sobre o balcão, depois pegou duas canecas e foi servir para outras pessoas. Edward contou as moedas e percebeu que faltava, e logo se postou na frente do homem corpulento.

    — Tem menos que no contrato dizia — ele disse, frio.

    — No contrato... — começou Marmaand — dizia que era um demônio que estava nas redondezas, mas era só um troll, pelo jeito. Você o derrotou sem riscos. E ainda trouxe algo pequeno para comprovar que de fato estava morto. Então esse dinheiro é mais que o suficiente. Suma daqui.

    Lizzie viu o momento exato em que a veia no pescoço do Edward pulsou de raiva. Com os olhos azuis arregalados, ela olhou para Miana e sinalizou com as mãos e cabeça. Entendendo rapidamente, Miana começou a dar pulinhos alternados de um pé para o outro, desesperada e pensativa, e puxou a mão de seu pai em seguida.

    — Paaaai! Papaai! — dizia Mia, dengosa. — Vamos para casa logo! Estou morrendo de fome!

    — Está bem, querida. — disse Ed, acalmando-se, e olhou sua filha com um sorriso.

    Edward saiu de mãos dadas com Miana.

    Marmaand olhou para baixo e viu Lizzie devolvendo o olhar para ele, séria. Depois, deu meia volta e saiu também.

    Já do lado de fora da taverna, Lizzie se aproximou de Edward e ergueu a bolsa de moedas que roubou de Marmaand. Com uma carranca, Edward pegou a bolsa.

    — Se me desse o valor do contrato, não iria precisar perder tanto — resmungou colocando a mão nas moedas. Ele pegou o que faltava, um punhado a mais, e jogou o resto para um mendigo que estava sentado no chão por onde passava.

    — Você pareceu aquele carinha que roubava as dos ricos e dava para os pobres, pai! — observou Mia.

    — Robin Hood era um babaca, filha.

    Seguindo pelas ruas de paralelepípedo de Caluna, eles chegaram na área da praça principal. Lá, havia uma grande concentração de pessoas. Mais à frente, um alto palanque se erguia. Sobre este palco, havia um homem robusto, trajado de preto e com um machado de um gume em mãos — o carrasco. Na sua frente, estava o homem que estava prestes a receber sua sentença de morte. A multidão a espera de sua morte não para de clamar “sangue, morte, assassino, punição”.

    Edward parou e observou toda a cena ao seu redor. Indiferente, ele pegou Miana no braço e sinalizou com a cabeça o assassino que seria executado publicamente.

    — Preste atenção no que irei dizer, Miana. — Ele fez uma pausa. — Humanos... eles falam tanto sobre assassinos entre eles, mas, quando há a execução pública de um, o que eles fazem? — Edward sinalizou as pessoas com o braço livre. — Lotam a praça. Não para ver a justiça sendo feita... não, não. Clamam por sangue, pela morte, querem ver a cabeça do indivíduo rolando para a cesta. Não é a mesma coisa que assassinos desejam? — Fez uma careta. — Então, Miana, responda-me: qual a diferença destes humanos aqui em baixo para os que ficam lá em cima?

    — Nenhuma diferença, papai — respondeu ela, depois de um tempo refletindo.

    — Sim, há. Pense direito.

    — Hmm... — Ela pensou mais um pouco, e fez uma caretinha. — Um mata e os outros não?

    — Exatamente, filha. — Edward sorriu. — Mais especificamente dizendo, o homem lá de cima suja as mãos de sangue, enquanto os de baixo esperam que outrem suje a mão por eles. É mais fácil, não? Livre de culpa, não se sujam. Mas o desejo por sangue e morte é o mesmo, assim como o sadismo.

    Miana escutou pai atentamente, com seus olhos vermelhos fixos nele, sem piscar, e quando acabou, ela ficou em silêncio, absorvendo o que lhe fora ensinado.

    — Entenda desde cedo, Mia... ninguém pode tirar a vida de um ser. Nem eu, nem aquele carrasco ali, anjos, demônios... nem mesmo deuses. Só o tempo detém esse direito.

    — Então... estes assassinos devem continuar vivos? Mas... eles tiraram uma vida, pai.

    — Não. Não devem. — O sorriso em Edward se intensificou. — Este é um dos dilemas da vida, minha criança. — Seu sorriso foi desfeito e seu olhar tornou-se frio, e os de Mia ficaram parecidos, com menos intensidade, porém. — Se for matar alguém, faça com as próprias mãos. Mas tenha em mente que uma pequena parte de sua alma sempre irá morrer com suas vítimas, então faça valer a pena. Não seja mais uma dentre vários, que nem estes humanos. Mate um para salvar muitos outros. Saiba também que você não é diferente de sua vítima. Assassinos são assassinos, não importa sua motivação. Ademais, espere que o mesmo fim recaia sobre você um dia, e não se lamente quando este dia chegar, aceite-o de braços abertos. Este é o equilíbrio da vida. Mesmo que você ainda não entenda... você pode tudo aquilo que quer, é minha filha, afinal. Então não mire baixo, pois, você, está destinada a estar lá no alto, em evidência para que todos vejam. Para que todos clamem. Esta, Miana, é a sua sina.

    — Sim, papai — simplesmente concordou Miana Sparda.

    ***

    Deckard bocejou.

    Ele estava sentado em uma cadeira na cozinha, e a mesa a frente dele estava cheia de livros abertos. O que estava em suas mãos dizia sobre magia e seu uso, e a criança lia cada linha de maneira lenta e concentradamente, tentando extrair o máximo que conseguia de informações. Deckard vestia uma simples camisa preta com uma bermuda meio acinzentada.

    Mais um bocejo.

    — Queria tanto estar fazendo os contratos, mãe — reclamou enquanto jogava sua cabeça para trás, olhando para o teto da casa.

    Mikaela estava situada do outro lado da mesa, de frente para o fogão a lenha, enquanto remexia algo na panela com a colher. Seus cabelos negros estavam amarrados em um rabo de cavalo. Ela trajava um vestido vermelho-escuro que descia até os joelhos, e que tinha um decote mínimo. Quando se virou para olhar seu filho, o colar de cristal azul cintilou.

    — Eu também queria, Deck. — Mika suspirou bem alto. — Mas é a vez de seu pai e sua irmã. — Se virou novamente, voltando a mexer a colher. — Daqui a dois dias é nossa vez. Passa rápido... espero. — Pegou a substância da panela e levou até a boca para provar, fazendo uma careta de desaprovação. — Por que meu purê não fica tão bom quanto o de seu pai?!

    — Porque ele cozinha melhor... — murmurou Deck.

    Mikaela olhou por cima do ombro com seus olhos vermelhos semicerrados e fulminantes, e Deckard rapidamente voltou seu olhar para os livros, voltando a ler.

    Depois de alguns minutos com o silêncio pairando, uma dúvida sobre um fato surgiu na cabeça de Deckard:

    — Mãe?

    — Sim, filho?

    — Por que o pessoal da aldeia matou aquele homem ontem?

    Enquanto Mikaela pegava a madeira e alimentava as chamas do fogão, estava pensando se deveria contar ou não o motivo, mas facilmente sua curiosidade tomou conta de seus pensamentos.

    — Porque aquele homem era mau. Roubou alguns moradores daqui da aldeia — respondeu ela.

    — Os aldeões são burros! — exclamou Deck, aumentando consideravelmente o tom de voz.

    Ao ver sua mãe parando imediatamente, ele se encolheu, já esperando ser repreendido, mas Mikaela virou-se e sentou na cadeira que estava de frente para seu filho do outro lado da mesa. Ela apoiou o cotovelo na mesa e a sua bochecha na mão erguida, e, com a voz calma, perguntou:

    — Por quê acha isso?

    — Hmm... — Ele hesitou por um instante, depois pegou um dos livros sobre a mesa e o deixou à mostra. Seus olhos vermelhos se encontram com os da mãe. — Porque neste livro diz que a vida é algo espetacular. A complexidade do corpo de qualquer ser vivo é grande, cada detalhe se interligando ao outro! Até mesmo o mundo como um todo tem este detalhe, que precisa das árvores, nutrientes, água e muitas outras coisas! E vivemos dentro dele, com nossos próprios detalhes, com nossas próprias funções! Evoluindo constantemente, em cada ato. — Deck fez uma pausa, respirando. — Então, quando vidas são perdidas por causa de um roubo, estão dizendo que bens materiais próprios valem mais do que uma vida! Mais do que essa complexidade!

    Mikaela abriu um sorriso espontâneo.

    — Sim, filho. Olhando por este lado, é burrice sim. — Ela se recostou na cadeira e deixou o dedo indicador em riste. — Lembre-se sempre que há no mínimo dois lados. O equilíbrio exige isso. — Ela levantou o segundo do dedo. — Agora pense nos lados dos moradores. Eles trabalharam muito para conseguir ter seu próprio dinheiro, suas próprias coisas e, consequentemente, viver da melhor forma possível. Acha justo alguém roubar deles o que eles deram duro para ter?

    — Não... mas tirar a vida dele... é errado. O papai me disse que ninguém pode tirar a vida de alguém, apenas o tempo detém esse direito!

    "Então você já começou, Edward," pensou Mika, sorrindo mais.

    — E seu pai tem razão. Mas, meu lindo, você ainda não entendeu. — Mika se inclinou para frente, ficando mais perto de Deck, e disse quase em sussurro: — E... se esses ladrões roubassem sua irmã de você?

     Deckard abriu a boca para responder, mas fechou logo em seguida. Mikaela desviou seu olhar para baixo, e viu o momento que seu filho cerrou a mão com força; depois os pelos se ouriçaram e começou a tremer levemente. Quando ela subiu o olhar novamente, encontrou os olhos agora sombrios dele. "Seu instinto diz para matar, mas ele não sabe o que é isto de fato", pensou. Serena, Mikaela levou a mão ao rosto do filho e acariciou a bochecha.

    — Acalme-se, Deck. Eu e seu pai nunca deixaríamos isso acontecer.

    Os olhos de Deckard perderam a sombriedade, e um sorrisinho brotou em seus lábios.

    — É verdade! — concordou. — E é isso o que eu faria! Contaria para você e o papai.

    — Boa resposta, meu lindo.

    Ela se inclinou mais um pouco, dando-lhe um beijo na testa e continuou com o carinho. Eu e Edward devemos trabalhar bem na personalidade dele, se não teremos problemas.

    — Mais alguma dúvida?

    — Na verdade, tenho sim. Por que quando se recita uma magia ela sai mais forte?

    — Ah! — Ela sorriu, puxando a bochecha dele. — Mas isso você consegue responder. — Se levantou, voltando aos seus afazeres. — Pense um pouco mais.

    Mais um tempo se passou, ela tirou as coisas do fogo e virou-se para Deckard, que se mantinha em silêncio de olhos fechados desde então. Mikaela ficou um tempo observando a expressão de esforço do filho.

    — Concentração — ela disse, bem baixinho.

    — Concentração! — repetiu Deck, de imediato. — Isso! Se você recitar, seu cérebro irá inconscientemente se preparar para lançar, e consequentemente o resto de seu corpo. Juntando isso mais o tempo maior de conjuração, aumenta a força!

    — Exatamente, filho.

    — Porra, eu sou demais!

    — O que você disse?! — Mikaela arregalou os olhos, assustada.

     No segundo seguinte, a porta se abriu, e Edward, Miana, Lizzie e Corvo adentraram na casa.

    — Chegamos — anunciou ele, e ficou parado na porta segurando Liz e Mia nos braços, enquanto o Corvo voou para seu poleiro. Com a sobrancelha erguida, viu Mikaela com os olhos arregalados e Deckard se encolhendo na cadeira. — O que houve?

    — Deckard falou uma palavra muito feia — respondeu, indignada.

    — Já entendi, amor. — Com uma expressão séria, ele colocou as duas no chão. — Deixa comigo.

    Edward se aproximou de Deckard, agachou para nivelar mais ou menos a altura e o encarou com olhos severos, enquanto Deckard apenas se acanhava mais.

    — Deckard, meu filho... que porra é essa?

    Lizzie e Miana saíram da frente da porta.

    Deckard viu o momento em que o pé de sua mãe se projetou na bochecha de seu pai, que foi atirado no ar para fora da casa.

    — Foi tão fácil descobrir o culpado! — vociferou. Mikaela levou seus olhos raivosos para Deck. — Essa palavra é muito feia. Da próxima vez que eu escutar você falando isso, você vai voar mais longe que seu pai. Entendeu?

    — Sim, mamãe.

    Ela levou seus olhos fulminantes para Miana. A menininha, que estava distraída, rapidamente ficou ereta, estufando o peito e completamente tensionada.

    — Você não diz essas coisas, né, Miana?

    — Não, mamãe. — Negou com a cabeça veemente.

    — Ótimo. Pois, isso vale para você também.

    Mikaela levou seus olhos para Edward, preparando-se para falar, mas sua boca travou. Edward já a encarava, com seus olhos azuis intensos e sombrios, cintilando levemente. Parecia que tudo ao redor ficou sem som, e os dois ficaram poucos segundos se entreolhando dessa forma, e parecia ter sido horas. Por fim, Edward levou seu olhar para o céu.

    Subitamente, Mikaela sentiu uma sensação estranha, que fez os pelos de todo seu corpo se ouriçarem e sua barriga gelar. No mesmo instante, ela correu para fora, ao lado de Edward, e também olhou para o céu azul e limpo.

    Segundos depois, ao longe, subindo aos céus, emergiu um espesso pilar de energia multicolorida. Em um determinado momento, aquela energia parou, parecendo chocar-se em algo, apesar de ter sido apenas contra as nuvens. Aquele pilar mantinha-se constante, ondulando quase imperceptivelmente.

    Rachaduras começaram a surgir no céu ao redor do pilar.

    Edward apertou a palma de sua mão com tanta força que o sangue escorreu por entre seus dedos, gotejando.

    Mikaela olhou para ele, que, sem tirar os olhos do pilar, confirmou o que ela já temia:

    — Lúcifer.

    E o céu se estilhaçou.

    Clarão cegante, estrondo ensurdecedor e ventania impetuosa: tudo ao mesmo tempo.

    Quando tudo isso cessou, surgiu uma quilométrica extensão de terra sobre as nuvens, como se fosse um continente.

    O Reino dos Céus havia sido puxado para o Reino dos Humanos.

    O sol estava do lado oposto a este pedaço de terra flutuante, fazendo o dia parecer noite em certo lugares. A aldeia ainda era iluminada pelo sol. Entretanto, o pilar de energia continuava lá, iluminando com seu brilho multicolorido.

    De dentro do seu sobretudo, Edward retirou um cristal azul.

    O som de trombetas ecoou.

    As chamas azuis envolveram o cristal.

    Várias hordas de demônios passaram a voar em direção ao Reino dos Céus em vários locais diferentes.

    — Estão me escutando? — disse Edward, com o cristal próximo aos lábios.

    E o exército dos Céus fez seu movimento também. As hostes de anjos saíram aos montes em direção as hordas de demônios, confrontando-se diretamente ainda no céu.

    Naquele dia, os humanos voltaram a se lembrar de um confronto que nunca deixou de ser existir, que fora perdido em suas histórias. Além disso, voltaram a saber quão impotentes eram.

    Entretanto, com um confronto tão direto de tamanha proporção, a balança começou a oscilar. Mas há a existência de seres que irão fazer o equilíbrio ficar instável de novo, a qualquer custo. E estes seres irão punir os responsáveis, sem dó, sem misericórdia.

    Sim, capitão, soou a voz dos Selos que emanou do cristal azul.

    Continua <3 :p

    Curiosidades:

    Troll da floresta: são criaturas de certa forma, inteligentes e extremamente dóceis. Só atacam quando necessário e fogem de brigas o máximo que podem, mas extremamente fortes. Sua dieta é basicamente frutas e troncos de árvores (eles nunca comem o tronco por inteiro, justamente para as árvores não morrerem). Consequentemente, seus locais preferidos são florestas e afins. Existem pouquíssimos deles no mundo; não pode ser considerado a beira da extinção, pois, sempre foi assim. Ninguém sabe de fato como surgem os trolls, o que se tem é apenas teorias. A mais aceita diz sobre que eles vêm da própria árvore.

    Como já havia dito, mana é resquícios do poder usado do Criador na criação do mundo, ou seja, todos os elementos naturais têm este poder, inclusive as árvores. Pressupondo-se disso, a teoria diz que, em um determinado momento da vida uma árvore que já vive há muitos anos, ela cria um corpo a partir de seu próprio tronco e, com a mana, cria sua alma. Esta alma entra no corpo e finalmente há o nascimento de um troll da floresta. E, por estas árvores “observar e escutar” os humanos por tanto tempo, elas desenvolvem um corpo com estrutura parecida e a mesma língua.

    A mesma teoria é aplicada para trolls de pedra.

    Observações:

    1- Após a destruição de Caluna com a posse do demônio Mammon, este reino, mesmo destruído, passou por constantes disputas por entre outros reis, gerando até mesmo guerra. Por conta disto, Caluna acabou sendo posta de lado.

    Anos mais tarde, um magnata, Barleof IV, acabou se apossando do reino, reconstruindo ele pouco a pouco. E, quando o interesse sobre a terra voltou, ele fez um tratado de comércio com o Rei de Geórgia, que era considerado o reino com maior exército e de grande influência. Com este tratado, Caluna tornou-se aliada de Geórgia e foi reconhecida como Reino novamente, e deixou de ser um pedaço de terra.

    2 - A cidade de Akarat acabou sendo abandonada após a destruição do Kirbly. Por ser uma cidade pequena, ninguém teve o interesse de reconstruí-la. Ela entrou para história por ter sido a primeira cidade a ser atacada por um Kirbly, e também pelo misterioso mago de chamas azuis que o derrotou facilmente.

    Sete anos depois...

    Era uma tarde com o céu cinzento sobre a floresta que cercava o reino de Caluna¹. Por entre essas árvores de médio porte, algo havia acontecido. Perto de uma das diversas rotas de terra batida, esta que levava em direção as ruínas da cidade de Akarat², havia uma carroça tombada entre as árvores e grama. Os cavalos não estavam ali, mas os donos da carroça sim. Três no total, e todos mortos.

    O mais próximo da carroça, praticamente encrustado nela, estava um homem barbado. Seu rosto estava completamente desfigurado e encoberto por sangue seco. Havia sofrido um golpe muito forte, quebrando seus ossos e, muito provavelmente, os estilhaços se cravaram em seu cérebro. A segunda era uma mulher, que também tinha consigo um ferimento na cabeça, sendo que a predominância da deformação era o lado esquerdo do rosto — e a pedra ensanguentada recaída ao lado do corpo revelava o motivo. E o último homem, parecendo ser o mais jovem, tinha um galho grosso de árvore trespassado na barriga. Agachado perto deste último corpo, encontrava-se Edward.

    O capitão dos Selos estava trajado com seu sobretudo, como de praxe, botas de cano alto que tinham mais fivelas do que deveria, uma blusa branca sem estampa e calças de couro. Seu colar e anel de cristais azuis cintilavam mesmo sem os raios de sol.

    Ele analisava o corpo do falecido sem tocá-lo. Em seguida seguiu seu olhar para a mulher e depois para o barbudo. Ainda com a expressão de indiferença, Edward olhou por cima do próprio ombro e observou sua filha por um instante.

    Miana vestia um simples vestido branco sem mangas que descia até um pouco abaixo de seus joelhos, onde tinha pequenas borboletas roxas bordadas em seu fim, e calçava sandálias. Seus cabelos brancos e lisos, aos seis anos, haviam acabado de tocar seus ombros. Seus olhos vermelhos fintavam os corpos mortos com indiferença, e, ao perceber que seu pai olhava para ela, abriu um sorrisinho sem mostrar os dentes.

    Edward suspirou, negando com a cabeça.

    “O que você esperava?”, sussurrava Sombra, “Ela é sua filha, afinal”.

    — Pelo menos um “que nojo, papai”.

    O Selo se levantou, ficou meio de lado olhando para sua filha e apontou para o defunto barbudo.

    — Aquele ali recebeu um golpe forte bem na cara. Seu corpo voou e bateu contra a carroça, fazendo-a tombar. Os cavalos fugiram neste instante. — Seguiu apontando. — Essa mulher foi atingida com uma pedra na cabeça logo em seguida. Já o homem aí foi tentar vingar seus parceiros. Não era tão forte quanto achava, e acabou sendo presentado com o galho onde está. Ou seja, nossa criatura é bem forte. — Edward se certificou de que Miana prestava atenção, então apontou para as árvores ao redor. — O tronco de algumas árvores estão faltando uma parte, parecendo mordidos. Algumas têm galhos e frutas faltando. Com isso, é muito provável que um troll da floresta tenha atacado a carroça para roubar as fru-

    — Ele não atacou — interrompeu Miana.

    — Ah, não? — Edward sorriu olhando para sua filha. — Por que não, Mia?

    Ela abaixou os olhos para os próprios pés e começou a puxar o vestido, negando com a cabeça, tímida. Edward se aproximou, agachou e a puxou para seus braços, apertando-a enquanto esfregava sua bochecha na dela, ganhando sorrisinhos como resposta.

    — Vamos, querida. Diga-me — pediu.

    — Uhrum... Uma vez o tio Aiken me disse que os trolls são criaturas sencientes e pacificas. Eles podem falar a nossa língua, até! E eles só brigam para se defender...

    — Está querendo dizer que foram as pessoas que atacaram primeiro?

    — Sim.

    — Então... aquelas três pessoas, comerciantes de frutas, ficaram furiosos por ter um troll comendo as frutas da região e tentaram acabar com ele, mas o troll se defendeu? Agora a história faz mais sentido para você, Mia?

    — Sim, papai.

    Lizzie escutava a conversa um pouco distante, sentada em uma rocha. Estava trajada com um vestido negro com mangas curtas semitransparentes e calçava botas com cano médio. Desde o nascimento de Deckard e Miana, ela já não ficava tão colada nas costas de Edward mais. Lizzie não se entristecia com isso, pelo ao contrário, ficava feliz por Edward ter os dois e...

    — Vamos — soou a voz de Edward, puxando Liz de seus devaneios. Ele estava com mão esticada para ela. — Os corpos estão frescos. Então o troll está pelas redondezas.

    Esboçando um largo sorriso, Lizzie desceu da rocha e segurou a mão dele.

    ***

    Demorou pouco tempo para encontrar o troll da floresta, pois Corvo o havia rastreado. Era um animal de tamanho médio. Seu corpo rechonchudo era encoberto, com exceção o peito, por uma carapaça que se assemelhava em muito a lascas de madeira do tronco de uma árvore, também marrom; sua cabeça era levemente quadrada e grande, e suas orelhas são pontiagudas. De suas costas até o topo de sua cabeça, flores coloridas cresciam em meio a grama que cobria estas partes.

    Edward se recostou em uma árvore não muito distante e colocou sua filha no chão. Dando tapinhas nas costas dela, ele sinalizou com a cabeça o troll. Miana protestou em silêncio por um tempo ao perceber que seu pai queria que ela falasse com o troll, mas por fim Edward deu empurrão mais forte, e Miana foi aos tropeços para perto da criatura.

    O troll da floresta saltou para pegar uma fruta na árvore e caiu de bunda no chão. Sem se importar pela queda, abriu a boca cheia de dentes e abocanhou a fruta.

    Corvo pousou no ombro de Miana. Depois de reunir coragem o suficiente com o corvo ao seu lado, ela colocou as mãos na cintura, estufou o peito e disse com a voz mais autoritária o possível:

    — Senhor troll!

    Lentamente, o troll levou seu olhar até Miana. Depois além, para Edward, e rapidamente notou a diferença de força absurda entre os dois. Entretanto, manteve-se calmo e entendeu que só seria atacado caso ele o fizesse primeiro. "Queria que os humanos fossem assim também", pensou Edward.

    — Senhor troll! — repetiu ela.

    — Hmm... siiim...? — respondeu o troll, preguiçosamente.

    — Foi você que bateu naqueles humanos?!

    — Sim.

    — Por quê?

    — Hmm... Senhor Troll sentir muuuitá fomê! — Ele deu leves tapinhas na barriga. — Frutas ser delisiozas. Troll comer, humanus naum gostarrr. Humanus bater em Senhor Troll. Senhor Troll bater nus humanus tábem.

    — Então você só se defendeu?

    — Siiim. — Concordou com a cabeça. — Humanus mauús. Naum ser como voscê, pequeniná.

    Com um sorriso radiante, Miana olhou por cima do ombro. Lizzie e Edward devolveram o sorriso com a mesma intensidade para ela, erguendo os polegares. E seu pai sinalizou para que ela continuasse.

    Miana suspirou bem alto propositalmente.

    — O problema, Senhor Troll, é que os humanos estão caçando você porque você come muitas frutas deles. Tem até um contrato sobre sua cabeça!

    — E issu ser ruiiim?

    — Muito.

    Senhor Troll levou a mão a cabeça, maneando de um lado para o outro, preocupado.

    — Acalme-se! A gente pode te ajudar — garantiu Mia.

    — Verdadi?

    — Sim — confirmou Edward, ficando ao lado de sua filha. — Irei dizer que matei você. Mas, para que acreditem, preciso levar algo seu. Seu dente.

    — Não se preocupe — interveio Liz —, posso curar o ferimento. Ai você vai ter um dente novinho. Só que irá doer.

    — Hmmm... Troll concordarrr. Sim. — E maneou a cabeça em concordância.

    Depois que o troll da floresta abriu a boca, Edward agarrou uma de suas duas presas inferiores — que tinha o tamanho de sua palma — e puxou bem rápido. Antes mesmo que o sangue fluísse, Lizzie tocou no maxilar do Senhor Troll, e o corpo dele pulsou o azul.

    — Aiii! — grunhiu a criatura a sentir a intensa queimação.

    Segundos depois, o dente havia se regenerado.

    — Vá logo — disse Ed. — Se não, você irá acabar morrendo nesta região.

    Com dificuldades, o troll se ergueu, virou-se e foi embora na direção oposta, caminhando lentamente.

    ***

    Os três foram até o reino de Caluna receber a recompensa pelo troll.

    Edward entrou na taverna com Lizzie e Miana em seu encalço. Dirigiu-se até o balcão, onde tinha um homem corpulento, de pele marrom e quase era totalmente careca, salvo pelo cabelo na parte detrás de sua cabeça preso estilo rabo de cavalo. Quando Edward colocou o contrato e o dente sobre o balcão, Marmaand virou-se e fintou-o.

    — Era um troll — explicava Edward. — Os mercadores locais o atacavam por ele pegar as frutas. Em defesa, o troll atacava de volta. Não quis sair pacificamente, então tive que o matar. Isto foi a única coisa que sobrou dele.

    — Um dente? — Marmaand pegou o dente com seus dedos cheio de anéis, e fez uma careta. — Como só é um dente que sobra?

    — Eu o incinerei. — O Selo fechou os olhos para não demonstrar a esclera negra, e as chamas azuis arderam em sua mão. — O dente voou quando seu corpo bateu contra a pedra com uma magia de vento.

    — Humpf. Um mago. Foi difícil?

    — Não. Fácil.

    Marmaand colocou a mão na bolsa e jogou as moedas sobre o balcão, depois pegou duas canecas e foi servir para outras pessoas. Edward contou as moedas e percebeu que faltava, e logo se postou na frente do homem corpulento.

    — Tem menos que no contrato dizia — ele disse, frio.

    — No contrato... — começou Marmaand — dizia que era um demônio que estava nas redondezas, mas era só um troll, pelo jeito. Você o derrotou sem riscos. E ainda trouxe algo pequeno para comprovar que de fato estava morto. Então esse dinheiro é mais que o suficiente. Suma daqui.

    Lizzie viu o momento exato em que a veia no pescoço do Edward pulsou de raiva. Com os olhos azuis arregalados, ela olhou para Miana e sinalizou com as mãos e cabeça. Entendendo rapidamente, Miana começou a dar pulinhos alternados de um pé para o outro, desesperada e pensativa, e puxou a mão de seu pai em seguida.

    — Paaaai! Papaai! — dizia Mia, dengosa. — Vamos para casa logo! Estou morrendo de fome!

    — Está bem, querida. — disse Ed, acalmando-se, e olhou sua filha com um sorriso.

    Edward saiu de mãos dadas com Miana.

    Marmaand olhou para baixo e viu Lizzie devolvendo o olhar para ele, séria. Depois, deu meia volta e saiu também.

    Já do lado de fora da taverna, Lizzie se aproximou de Edward e ergueu a bolsa de moedas que roubou de Marmaand. Com uma carranca, Edward pegou a bolsa.

    — Se me desse o valor do contrato, não iria precisar perder tanto — resmungou colocando a mão nas moedas. Ele pegou o que faltava, um punhado a mais, e chegou o resto para um mendigo que estava sentado no chão por onde passava.

    — Você pareceu aquele carinha que roubava as dos ricos e dava para os pobres, pai! — observou Mia.

    — Robin Hood era um babaca, filha.

    Seguindo pelas ruas de paralelepípedo de Caluna, eles chegaram na área da praça principal. Lá, havia uma grande concentração de pessoas. Mais à frente, um alto palanque se erguia. Sobre este palco, havia um homem robusto, trajado de preto e com um machado de um gume em mãos — o carrasco. A sua frente, estava o homem que estava prestes a receber sua sentença de morte. A multidão a espera de sua morte não para de clamar “sangue, morte, assassino, punição”.

    Edward parou e observou toda a cena ao seu redor. Indiferente, ele pegou Miana no braço se sinalizou com a cabeça o assassino que seria executado publicamente.

    — Preste atenção no que irei dizer, Miana. — Ele fez uma pausa. — Humanos... eles falam tanto sobre assassinos entre eles, mas, quando há a execução pública de um, o que eles fazem? — Edward sinalizou as pessoas com o braço livre. — Lotam a praça. Não para ver a justiça sendo feita... não, não. Clamam por sangue, pela morte, querem ver a cabeça do indivíduo rolando para a cesta. Não é a mesma coisa que assassinos desejam? — Fez uma careta. — Então, Miana, responda-me: qual a diferença destes humanos aqui em baixo para os que ficam lá em cima?

    — Nenhuma diferença, papai — respondeu ela, depois de um tempo refletindo.

    — Sim, há. Pense direito.

    — Hmm... — Ela pensou mais um pouco, e fez uma caretinha. — Um mata e os outros não?

    — Exatamente, filha. — Edward sorriu. — Mais especificamente dizendo, o homem lá de cima suja as mãos de sangue, enquanto os de baixo esperam que outrem suje a mão por eles. É mais fácil, não? Livre de culpa, não se sujam. Mas o desejo por sangue e morte é o mesmo, assim como o sadismo.

    Miana escutou pai atentamente, com seus olhos vermelhos fixos nele, sem piscar, e quando acabou, ela ficou em silêncio, absorvendo o que lhe fora ensinado.

    — Entenda desde cedo, Mia... ninguém pode tirar a vida de um ser. Nem eu, nem aquele carrasco ali, anjos, demônios... nem mesmo deuses. Só o tempo detém esse direito.

    — Então... estes assassinos devem continuar vivos? Mas... eles tiraram uma vida, pai.

    — Não. Não devem. — O sorriso em Edward se intensificou. — Este é um dos dilemas da vida, minha criança. — Seu sorriso foi desfeito e seu olhar tornou-se frio, e os de Mia ficaram parecidos, com menos intensidade, porém. — Se for matar alguém, faça com as próprias mãos. Mas tenha em mente que uma pequena parte de sua alma sempre irá morrer com suas vítimas, então faça valer a pena. Não seja mais uma dentre vários, que nem estes humanos. Mate um para salvar muitos outros. Saiba também que você não é diferente de sua vítima. Assassinos são assassinos, não importa sua motivação. Ademais, espere que o mesmo fim recaia sobre você um dia, e não se lamente quando este dia chegar, aceite-o de braços abertos. Este é o equilíbrio da vida. Mesmo que você ainda não entenda... você pode tudo aquilo que quer, é minha filha, afinal. Então não mire baixo, pois, você, está destinada a estar lá no alto, em evidência para que todos vejam. Para que todos clamem. Esta, Miana, é a sua sina.

    — Sim, papai — simplesmente concordou Miana Sparda.

    ***

    Deckard bocejou.

    Ele estava sentado em uma cadeira na cozinha, e a mesa afrente dele estava cheio de livros abertos. O que estava em suas mãos dizia sobre magia e seu uso, e a criança lia cada linha de maneira lenta e concentradamente, tentando extrair o máximo que conseguia de informações. Deckard vestia uma simples camisa preta com uma bermuda meio acinzentada.

    Mais um bocejo.

    — Queria tanto estar fazendo os contratos, mãe — reclamou enquanto jogava sua cabeça para trás, olhando para o teto da casa.

    Mikaela estava situada do outro lado da mesa, de frente para o fogão a lenha, enquanto remexia algo na panela com a colher. Seus cabelos negros estavam amarrados em um rabo de cavalo. Ela trajava um vestido vermelho-escuro que descia até os joelhos, e que tinha um decote mínimo. Quando se virou para olhar seu filho, o colar de cristal azul cintilou.

    — Eu também queria, Deck. — Mika suspirou bem alto. — Mas é a vez de seu pai e sua irmã. — Se virou novamente, voltando a mexer a colher. — Daqui a dois dias é nossa vez. Passa rápido... espero. — Pegou a substância da panela e levou a boca para provar, fazendo uma careta de desaprovação. — Por que meu purê não fica tão bom quanto o de seu pai?!

    — Porque ele cozinha melhor... — murmurou Deck.

    Mikaela olhou por cima do ombro com seus vermelhos semicerrados e fulminantes, e Deckard rapidamente voltou seu olhar para os livros, voltando a ler.

    Depois de alguns minutos com o silêncio pairando, uma dúvida sobre um fato surgiu na cabeça de Deckard:

    — Mãe?

    — Sim, filho?

    — Por que o pessoal da aldeia matou aquele homem ontem?

    Enquanto Mikaela pegou a madeira e alimentava as chamas do fogão, estava pensando se deveria contar ou não o motivo, mas facilmente sua curiosidade tomou conta de seus pensamentos.

    — Porque aquele homem era mau. Roubou alguns moradores daqui da aldeia — respondeu ela.

    — Os aldeões são burros! — exclamou Deck, aumentando consideravelmente o tom de voz.

    Ao ver sua mãe parando imediatamente, ele se encolheu, já esperando ser repreendido, mas Mikaela virou-se e sentou na cadeira que estava de frente para seu filho do outro lado da mesa. Ela apoiou o cotovelo na mesa e a sua bochecha na mão erguida, e, com a voz calma, perguntou:

    — Por quê acha isso?

    — Hmm... — Ele hesitou por um instante, depois pegou um dos livros sobre a mesa e o deixou à mostra. Seus olhos vermelhos se encontram com os da mãe. — Porque neste livro diz que a vida é algo espetacular. A complexidade do corpo de qualquer ser vivo é grande, cada detalhe se interligando ao outro! Até mesmo o mundo como um todo tem este detalhe, que precisa das árvores, nutrientes, água e muitas outras coisas! E vivemos dentro dele, com nossos próprios detalhes, com nossas próprias funções! Evoluindo constantemente, em cada ato. — Deck fez uma pausa, respirando. — Então, quando vidas são perdidas por causa de um roubo, estão dizendo que bens materiais próprios valem mais do que uma vida! Mais do que essa complexidade!

    Mikaela abriu um sorriso espontâneo.

    — Sim, filho. Olhando por este lado, é burrice sim. — Ela se recostou na cadeira e deixou o dedo indicador em riste. — Lembre-se sempre que há no mínimo dois lados. O equilíbrio exige isso. — Ela levantou o segundo do dedo. — Agora pense nos lados dos moradores. Eles trabalharam muito para conseguir ter seu próprio dinheiro, suas próprias coisas e, consequentemente, viver da melhor forma o possível. Acha justo alguém roubar deles o que eles deram duro para ter?

    — Não... mas tirar a vida dele... é errado. O papai me disse que ninguém pode tirar a vida de alguém, apenas o tempo detém esse direito!

    "Então você já começou, Edward", pensou Mika, sorrindo mais.

    — E seu pai tem razão. Mas, meu lindo, você ainda não entendeu. — Mika se inclinou para frente, ficando mais perto de Deck, e disse quase em sussurro: — E... se esses ladrões roubassem sua irmã de você?

     Deckard abriu a boca para responder, mas fechou logo em seguida. Mikaela desviou seu olhar para baixo, e viu o momento que seu filho cerrou a mão com força; depois os pelos se ouriçaram e começou a tremer levemente. Quando ela subiu o olhar novamente, encontrou os olhos agora sombrios dele. "Seu instinto diz para matar, mas ele não sabe o que é isto de fato", pensou. Serena, Mikaela levou a mão ao rosto do filho e acariciou a bochecha.

    — Acalme-se, Deck. Eu e seu pai nunca deixaríamos isso acontecer.

    Os olhos de Deckard perderam a sombriedade, e um sorrisinho brotou em seus lábios.

    — É verdade! — concordou. — E é isso o que eu faria! Contaria para você e o papai.

    — Boa resposta, meu lindo.

    Ela se inclinou mais um pouco, dando-lhe um beijo na testa e continuou com o carinho. Eu e Edward devemos trabalhar bem na personalidade dele, se não teremos problemas.

    — Mais alguma dúvida?

    — Na verdade, tenho sim. Por que quando se recita uma magia ela sai mais forte?

    — Ah! — Ela sorriu, puxando a bochecha dele. — Mas isso você consegue responder. — Se levantou, voltando aos seus afazeres. — Pense um pouco mais.

    Mais um tempo se passou, ela tirou as coisas do fogo e virou-se para Deckard, que se mantinha em silêncio de olhos fechados desde então. Mikaela ficou um tempo observando a expressão de esforço do filho.

    — Concentração — ela disse, bem baixinho.

    — Concentração! — repetiu Deck, de imediato. — Isso! Se você recitar, seu cérebro irá inconscientemente se preparar para lançar, e consequentemente o resto de seu corpo. Juntando isso mais o tempo maior de conjuração, aumenta a força!

    — Exatamente, filho.

    — Porra, eu sou demais!

    — O que você disse?! — Mikaela arregalou os olhos, assustada.

     No segundo seguinte, a porta se abriu, e Edward, Miana, Lizzie e Corvo adentraram na casa.

    — Chegamos — anunciou ele, e ficou parado na porta segurando Liz e Mia nos braços, enquanto o Corvo voou para seu poleiro. Com a sobrancelha erguida, viu Mikaela com os olhos arregalados e Deckard se encolhendo na cadeira. — O que houve?

    — Deckard falou uma palavra muito feia — respondeu, indignada.

    — Já entendi, amor. — Com uma expressão séria, ele colocou as duas no chão. — Deixa comigo.

    Edward se aproximou de Deckard, agachou para nivelar mais ou menos a altura e o encarou com olhos severos, enquanto Deckard apenas se acanhava mais.

    — Deckard, meu filho... que porra é essa?

    Lizzie e Miana saíram da frente da porta.

    Deckard viu o momento em que o pé de sua mãe se projetou na bochecha de seu pai, que foi atirado no ar para fora da casa.

    — Foi tão fácil descobrir o culpado! — vociferou. Mikaela levou seus olhos raivosos para Deck. — Essa palavra é muito feia. Da próxima vez que eu escutar você falando isso, você vai voar mais longe que seu pai. Entendeu?

    — Sim, mamãe.

    Ela levou seus olhos fulminantes para Miana. A menininha, que estava distraída, rapidamente ficou ereta, estufando o peito e completamente tensionada.

    — Você não diz essas coisas, né, Miana?

    — Não, mamãe. — Negou com a cabeça veemente.

    — Ótimo. Pois, isso vale para você também.

    Mikaela levou seus olhos para Edward, preparando-se para falar, mas sua boca travou. Edward já a encarava, com seus olhos azuis intensos e sombrios, cintilando levemente. Parecia que tudo ao redor ficou sem som, e os dois ficaram poucos segundos se entreolhando dessa forma, e parecia ter sido horas. Por fim, Edward levou seu olhar para o céu.

    Subitamente, Mikaela sentiu uma sensação estranha, que fez os pelos de todo seu corpo se ouriçarem e sua barriga gelar. No mesmo instante, ela correu para fora, ao lado de Edward, e também olhou para o céu azul e limpo.

    Segundos depois, ao longe, subindo aos céus, emergiu um espesso pilar de energia multicolorida. Em um determinado momento, aquela energia parou, parecendo chocar-se em algo, apesar de ter sido apenas contra as nuvens. Aquele pilar mantinha-se constante, ondulando quase imperceptivelmente.

    Rachaduras começaram a surgir no céu ao redor do pilar.

    Edward apertou a palma de sua mão com tanta força que o sangue escorreu por entre seus dedos, gotejando.

    Mikaela olhou para ele, que, sem tirar os olhos do pilar, confirmou o que ela já temia:

    — Lúcifer.

    E o céu se estilhaçou.

    Clarão cegante, estrondo ensurdecedor e ventania impetuosa: tudo ao mesmo tempo.

    Quando tudo isso cessou, surgiu uma quilométrica extensão de terra sobre as nuvens, como se fosse um continente.

    O Reino dos Céus havia sido puxado para o Reino dos Humanos.

    O sol estava do lado oposto a este pedaço de terra flutuante, fazendo o dia parecer noite em certo lugares. A aldeia ainda era iluminada pelo sol. Entretanto, o pilar de energia continuava lá, iluminando com seu brilho multicolorido.

    De dentro do seu sobretudo, Edward retirou um cristal azul.

    O som de trombetas ecoou.

    As chamas azuis envolveram o cristal.

    Várias hordas de demônios passaram a voar em direção ao Reino dos Céus em vários locais diferentes.

    — Estão me escutando? — disse Edward, com o cristal próximo aos lábios.

    E o exército dos Céus fez seu movimento também. As hostes de anjos saíram aos montes em direção as hordas de demônios, confrontando-se diretamente ainda no céu.

    Naquele dia, os humanos voltaram a se lembrar de um confronto que nunca deixou de ser existir, que fora perdido em suas histórias. Além disso, voltaram a saber as quão impotentes eram.

    Entretanto, com um confronto tão direto de tamanha proporção, a balança começou a oscilar. Mas há existência de seres que irão fazer o equilíbrio a fica instável de novo, a qualquer custo. E estes seres irão punir os responsáveis, sem dó, sem misericórdia.

    "Sim, capitão", soou a voz dos Selos que emanou do cristal azul.

    Continua <3 :p

    Curiosidades:

    Troll da floresta: são criaturas de certa forma, inteligentes e extremamente dóceis. Só atacam quando necessário e fogem de brigas o máximo que podem, mas extremamente fortes. Sua dieta é basicamente frutas e troncos de árvores (eles nunca comem o tronco por inteiro, justamente para as árvores não morrerem). Consequentemente, seus locais preferidos são florestas e afins. Existem pouquíssimos deles no mundo; não se pode ser considerado a beira da extinção, pois, sempre foi assim. Ninguém sabe de fato como surgem os trolls, o que se tem é apenas teorias. A mais aceita diz-se sobre que eles vêm da própria árvore.

    Como já havia dito, mana é resquícios do poder usado do Criador na criação do mundo, ou seja, todos os elementos naturais têm este poder, inclusive as árvores. Pressupondo-se disso, a teoria diz que, em um determinado momento da vida uma árvore que já vive há muitos anos, ela cria um corpo a partir de seu próprio tronco e, com a mana, cria sua alma. Esta alma entra no corpo e finalmente há o nascimento de um troll da floresta. E, por estas árvores “observar e escutar” os humanos por tanto tempo, elas desenvolvem um corpo com estrutura parecida e a mesma língua.

    A mesma teoria é aplicada para trolls de pedra.

    Observações:

    1- Após a destruição de Caluna com a posse do demônio Mammon, este reino, mesmo destruído, passou por constantes disputas por entre outros reis, gerando até mesmo guerra. Por conta disto, Caluna acabou sendo posta de lado.

    Anos mais tarde, um magnata, Barleof IV, acabou se apossando do reino, reconstruindo ele pouco a pouco. E, quando o interesse sobre a terra voltou, ele fez um tratado de comércio com o Rei de Geórgia, que era considerado o reino com maior exército e de grande influência. Com este tratado, Caluna tornou-se aliada de Geórgia e foi reconhecida como Reino novamente, e deixou de ser um pedaço de terra.

    2 - A cidade de Akarat acabou sendo abandonada após a destruição do Kirbly. Por ser uma cidade pequena, ninguém teve o interesse de reconstruí-la. Ela entrou para história por ter sido a primeira cidade a ser atacada por um Kirbly, e também pelo misterioso mago de chamas azuis que o derrotou facilmente.


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