A paixão do capitão de gelo

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    Capítulo 32

    Portal do Fim

    Álcool, Hentai, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência

    Kurotsuchi Mayuri estava possesso. Era a única descrição fiel possível do seu humor ao descobrir a fuga de sua cobaia. Bastou se ausentar um pouco e isso aconteceu. Precisava se apresentar nos demais setores do esquadrão além de investigar furtivamente sobre as criaturas que rondavam Soul Society. Jamais imaginou que a cobaia aproveitaria o laboratório praticamente vazio e fugisse. Hiou era um incompetente, mais que justificável ter morrido de modo tão lamentável.

    A missão de reconhecimento que havia fracassado o tirou do seu cronograma, ainda mais com o incêndio posterior no Posto Médico Geral. Em razão da estranha incidência de soldados feridos e deficientes de reiraku, o Soitaichou convocou a reunião extraordinária com todos os capitães da Brigada. Ele foi obrigado a participar daquele fiasco, cuidando para que não descobrissem demais e interferissem em seus estudos. Estava concentrado havia semanas.

    Tinha um espécime raro em mãos, único.

    O pecador preso nas celas do décimo bantai.

    Ele havia descoberto sobre isso há pouco tempo. Cerca de três semanas atrás, quando aqueles sujeitos cínicos e o macaco acéfalo invadiram o Inferno, deixando o resto dos capitães do Gotei sem qualquer informação. Ele detestava isso, não conhecer a causa e muito menos ser aquele que descobriu o problema ou anomalia em primeira mão. De fato, deixou-o um tanto curioso que Hirako, Kyouraku e Hitsugaya taichou andassem juntos desde o incidente no seu laboratório. Nemu os seguiu naquele dia e contou fatos interessantes.

    Hitsugaya taichou havia perdido o controle e o discernimento depois que sua namoradinha tinha morrido devorada nos canais subterrâneos. Depois sabe-se como descobriu que ela na verdade estava viva e foi sequestrada pelos Togabitos. E em seguida invadiu o Inferno numa atitude impensada para salva-la. Ainda mais acompanhado por quatro capitães e outros oficiais de elite.

    Isso foi o que mais o esgotou. Imprudência, total e sem qualquer lógica. O castigo que os cinco receberam foi a única coisa satisfatória de ver. Além de que graças à desordem gerada pelo desaparecimento dos mesmos naquele dia lhe ofereceu a excelente oportunidade de buscar sua nova cobaia.

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    Três semanas atrás, Prisão Central

    Argh... Há quanto tempo estaria preso nesse lugar? Sequer tinha uma noção exata desde quando aqueles quatro shinigamis saíram daqui. Ainda estava amarrado na cadeira, encostado na parede de frente ao corredor das celas. A corda de energia, o feitiço ou seja lá o que for que aquele shinigami atirou nele não se desfez nesse meio tempo. Era um incomodo, já sentia uma dormência nos braços com a falta de circulação. Murakumo não era um tolo, sabia que ao revelar a localização do seu mestre foi muito grave e esperava quase em desespero que Shuren-sama não o banisse da fortaleza de ossos.

    Apenas em lembrar do lugar onde escapou... Do que passava no nível mais profundo em Jigoku enregelava seus ossos.

    Um barulho cortou seus pensamentos, seguido de passos e vozes se aproximando. Curioso ergueu levemente o pescoço, encarando através da máscara o corredor em tempo de duas figuras aparecerem. Ficou intrigado. Seus “visitantes” se tratavam de um homem e uma mulher. O homem tinha uma aparência estranha com os cabelos azuis volumosos, o rosto pintado em preto e branco além de usar um haori de capitão. Dirigiu os olhos para a mulher, uma morena esguia e pele clara vestindo um shihakushou sem um hakama como seu superior. Deduziu ser sua tenente.

    - Ora... O que temos aqui? Um pecador do Inferno de acordo com o relatório.

    O tom falso e superior do homem causou-lhe um embrulho no estômago. O olhar que esse capitão tinha era estranho... Louco.

    - Nemu, abra a cela.

    - Hai, Mayuri-sama.

    Pestanejou. O que diabos esse sujeito faria?

    Passos apressados alertaram os três e Murakumo viu escondido na penumbra um shinigami bem mais fraco que esses dois parar no corredor das celas. Ele arfava da corrida.

    - Pare com isso, capitão Kurotsuchi. Esta ala pertence ao 10º...

    - Silêncio!

    Um movimento mínimo da mão do taichou e um estalo estourou surdo nesse lugar. Espantado assistiu o guarda, (porque só poderia ser), recuar como se tivesse recebido um golpe e em seguida cair estatelado no piso polido, arquejando sufocado. De onde estava se enxergava apenas os pés deste dando espasmos. Voltou os olhos desconfiado para esses dois. Que diabos foi isso? Um tiro concentrado de ar? Quanto poder esse homem tinha?

    - Mayuri-sama.

    A mulher hesitou com a mão na fechadura irritando ainda mais seu capitão. Esse praticamente latiu para a garota.

    - Está me incomodando também, Nemu. Fique quieta! – estreitou o olhar, sibilando -  Quer que eu te corte outra vez?

    O que? E ainda espantado viu a garota baixar os olhos em submissão.

    - Não, senhor. Minhas desculpas.

    Tão logo ela abriu a tranca os dois entraram na cela. Por debaixo do manto e da máscara Murakumo suou frio estremecendo numa reação instintiva.

    - O que vocês querem?! Não direi mais nada!

    - Oh. Então é um macho. Interessante.

    Prendeu o fôlego, que conversa é essa? O sorriso empolgado naquele rosto cadavérico arrepiava sua coluna dando calafrios.

    - Nemu.

    - Hai.

    Dando um passo a mulher tocou com os dedos a energia que o prendia e recuou. Instantes depois a reiraku trincou estalando em rachaduras até despedaçar desaparecendo. Ele não perdeu tempo, saltou da cadeira derrubando o móvel, atacando na direção da mulher para lhe agarrar o pescoço, mas sua mão se fechou em nada. Pasmo sentiu um aperto em seu pulso, torcendo num ângulo dolorido quando seu braço foi puxado e depois um corte ardeu no peito.

    Grunhiu de dor. Maldição, detestava ferimentos de espadas. Entretanto... Algo estava errado. Seu braço foi solto no mesmo segundo e ao dar um passo avançando no capitão que o olhava cínico caiu flácido no chão. Seu arquejo de surpresa soou sufocado e tentou a todo custo se mover.

    Nada. Sequer um dedo! Apenas estremecia o corpo todo em esforço!

    - Curioso, a reação foi um pouco mais demorada. Deve ser a fisiologia.

    - O que... disse?

    Simplesmente foi ignorado.

    Engasgado sentiu quando foi segurado pelos braços e o tronco. Num movimento fluido foi jogado sobre o ombro pequeno da mulher, assistindo enquanto a mesma dava a volta seguindo seu superior. Se encontrava em estado de choque. Seus braços e pernas... Todo o seu corpo não respondia!

    - Precisarei extrair um pouco do veneno de Ashisogizisou. Alerte a equipe e prepare meu laboratório.

    - Hai, Mayuri-sama.

    Como a mulher havia parado de andar, Murakumo viu com muito esforço através da máscara de bulbo uma espada num formato estranho na mão do capitão. Era dourada com três lâminas e um rosto esculpido perto do punho. A bainha do shinigami estava vazia e engoliu em seco. Foi a espada... A zanpakutou desse maldito taichou!

    - Estou ansioso para estudá-lo.

    Trancando a porta de aço, os três foram embora sem serem vistos por alguém.

    Atualmente, Rukongai – Distrito 64º Leste: Sabitsura

    HITSUGAYA POV

    Ninguém dizia nada. Estáticos olhávamos o Pecador arquejando em tentativa de tomar fôlego depois daquele grito horrendo. Lá fora um trovejar propagava enquanto o vento começou a uivar causando uma sensação de agouro.

    - O que foi isso?

    A pergunta de Abarai feita num sussurro cortou a tensão desse silêncio. Ainda encaravámos o Pecador ofegante sentado no chão, sem mover um músculo. O que diabos aconteceu? As correntes... Os elos tilintando ao girarem sobre o corpo dele como serpentes surgiram num instante, abruptas e nítidas para depois desaparecerem junto àquele coro.

    - Foi a abertura do portão de Jigoku. – A voz de Hirako parecia atordoada. – Por que não aconteceu?

    De fato, era para esse casebre ter sido destelhado e destruído pelas rajadas de vento enquanto os portões do Inferno surgiam nos céus. Contudo...

    - São as correntes do Inferno. Elas não conseguem se manifestar por completo.

    Voltamos a atenção para o Arrancar. Ele mirava o Togabito de modo frio e analítico sem se aproximar. A reiatsu do Hollow era forte, concentrada. Indicando o quanto de controle sobre seus poderes o mesmo tinha. Estreitei o olhar.

    - Quem é você?

    Mirando de soslaio, percebi que me reconheceu, mas ainda mantinha o semblante imperturbável.

    - Isso não é relevante. – desviou o olhar para o pecador – Ele precisa voltar para onde veio antes que o caos se instale.

    Ao meu lado Hirako se agitou.

    - O que?

    - Ele tem razão.

    Olhamos na direção da voz encontrando uma pessoa parada na entrada. Pela silhueta se tratava de uma mulher. Ela caminhou para dentro retirando um pano tosco enrolado em seu rosto. Os trajes incomuns, como a blusa alaranjada e a calça negra justa foram uma pista forte, entretanto, ao ver suas feições relaxei um pouco confirmando. Shihoin Yoruichi manteve sua reiatsu escondida, como esperado da antiga comandante Onmitsu Kidou. Afinal de contas, só notei sua presença assim que falou.

    - Yoruichi-san, como...?

    Abarai parecia o mais chocado entre nós.

    - Estou seguindo o rastro dele desde ontem. Não é um inimigo, certo Ulquiorra?

    Ela encarou o Arrancar nesse instante, o ar astuto me intrigando. O rosto do Hollow se franziu por uns segundos na menção do nome, porem a ausência de resposta foi uma retórica. Agora faz sentido a demora com as informações. Observei o Arrancar que passou a olhar impassível o Togabito e minha reserva sobre ele diminuiu um pouco. Então era um aliado. Suspirando me dirigi para Yoruichi.

    - Obteve sucesso com a investigação?

    Ela suspirou deixando aquele pano solto no pescoço.

    - Explico depois. Por hora vamos nos concentrar nisso.

    Voltando seus olhos para o Pecador quieto, Yoruichi mantinha uma linha de tensão em seu corpo. Isso me inquietou, significava que o assunto era mais sério do que imaginei.

    - Há quanto tempo ele está aqui?

    Hirako franziu o cenho um tanto confuso como curioso.

    - Em Soul Society?

    - Hai.

    - Quase um mês.

    Ela estreitou os olhos com um ar preocupado.

    - É muito tempo.

    - Como assim?

    Questionei intrigado.

    - O ponto de equilíbrio se rompeu. Agora não aguentará muito.

    Hirako enrijeceu no lugar entendendo como eu o significado, enquanto Abarai indagava cauteloso.

    - Ponto de equilíbrio?

    Desta vez, foi o Arrancar quem respondeu.

    - Os trajes que escondem sua presença das sentinelas do Inferno. Deles só resta agora a máscara.

    E a mesma já começou a rachar. Todos nós miramos para o rosto do Pecador. Engoli em seco com a sensação de agouro aumentando com o significado disso. Suspirei tenso.

    - O que descobriu Yoruichi?

    Se voltando para nós cruzou os braços de modo sério.

    - Em Jigoku existem vários níveis. Os que viram quando invadiram o Inferno são os primeiros níveis. Em cada um deles os pecadores recebem as punições dos Kushanadas por seus crimes em vida. Porém... – tornou a olhar o pecador – existe um nível mais profundo e o pior de todos. Ele se denomina Daí Avici. Nele, os guardiões demônios são diferentes.

    - Em que sentido?

    Hirako se aproximou um passo e o encarando, ela esclareceu.

    - Eles se restringem somente neste nível e aos pecadores deste.

    - Por essa razão que não os vimos quando estivemos lá.

    Abarai comentou um tanto calmo e Yoruichi assentiu o encarando. Observando o objeto da conversa, notei que estava muito quieto preso e sentado no chão.

    - O que isso tem haver com ele ?

    Isso atraiu a atenção dos demais e todos se voltaram para o Togabito. Descruzando os braços Yoruichi o mirava com cuidado.

    - Ele pertence ao Daí Avici, o inferno reservado apenas para os piores pecadores sem chance de reencarnação. Desde que ficou preso aqui os guardiões saíram desse Inferno o procurando. São as criaturas que viu naquela missão.

    Na..ni?

    O vento uivou mais forte ao mesmo tempo em que um trovão estourou, ribombando pelas paredes frágeis desse casebre. Lá fora escurecia e esfriava aumentando esse ar sombrio. Tive a impressão que mesmo com esse clima o ar de algum jeito se mantinha abafado e sufocante. Como se houvesse algo aumentando a temperatura. Maldição... É pior do que imaginei.

    Nesse instante, um quase riso cortou o tenso silêncio e encaramos mais fixamente a figura presa no pilar central. O togabito respirava arquejante com o tronco tombado para frente. Somente não caía pelas cordas.

    - Daí Avici, é?

    - Nega que pertence à este nível?

    O tom de Yoruichi foi inflexível e o corpo do Pecador estremeceu retraindo no lugar.

    - Como descobriu?

    - Não interessa. Vai voltar para lá de qualquer jeito mesmo.

    Arquejando, ouvimos ele xingar num tom baixo demais.

    - Vocês não sabem o que é isso. A dor incessante... Todo tipo de tortura sentido na própria pele... Tudo isso nunca acaba. Vive e morre incontáveis vezes sofrendo no processo.

    Erguendo o rosto, o capuz caiu para trás deixando à mostra a máscara de bulbo em seu rosto. A mesma tinha um buraco exatamente no olho. O mesmo era fundo, cheio de olheiras e tons escuros além de brilhar quase insano.

    - Nem imaginam o que é experimentar a morte e renascer sempre, sempre todos os dias em agonia.

    O brilho insano mudou para ira, cheio de rancor enquanto ele encarava todos aqui estremecendo ao rosnar de raiva.

    - Eu não vou voltar. Prefiro continuar sendo mutilado por aquele shinigami louco e seus alunos do que voltar praquele Inferno.

    Matte... O que ele acabou de dizer?

    Antes que perguntasse, Hirako me interrompeu.

    - Isso não é você quem decide.

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    Depois daquela tensa conversa saímos para fora do casebre com exceção de Yoruichi que se prontificou em vigiar o Togabito preso e o Arrancar que permaneceu lá, sem dizer uma palavra para esclarecer sua presença. Mesmo agora sabendo que não era um inimigo, ainda me incomodava o fato dele parecer saber tanto ou mais que Yoruichi.

    Por que foi atrás de Karin em primeiro lugar? E por que não disse à ela sobre o que estamos enfrentando?

    - O que vamos fazer?

    Pestanejei girando no lugar. Abarai encarava o nada num ar contido e chocado. De todos era o que mais transparecia o nervosismo e por isso ninguém o culpava. Ao seu lado Hirako soltou o ar cansado.

    - Primeiro obter informações sobre o estado dos shinigamis hospitalizados.

    - Não é necessário. – olhamos para frente, justo no instante que o Arrancar saiu da sombra de uma cabana. – Um técnico do Gotei 13 pode ter encontrado a resposta.

    Caminhando até aqui ele ignorava o susto que causou. Eu não tinha percebido sua presença e os shinigamis comigo também não. Ao meu lado Hirako franzia a testa confuso junto de Abarai.

    - Como foi que ele saiu da cabana?

    Boa pergunta, sequer ouvimos o barulho com o movimento do sonido. Procurei ignorar, isso não era importante. Encarei desconfiado o arrancar e percebendo ele devolveu de modo apático. Franzi o cenho.

    - Como sabe disso?

    Voltado para mim sustentou meu olhar desconfiado.

    - Ele foi atacado enquanto examinava uma área de abate das sentinelas. O resgatei em Dangai antes que o pegassem.

    Abate?

    - Sendo assim traga-o aqui.

    Desviando os olhos de mim, ele encarou o louro debochado. Mesmo com o semblante tedioso demostrou desagrado com a ordem. Hirako sequer esperou voltando para dentro do casebre onde estava o Togabito. O hollow ainda mirava suas costas quando tirou uma mão do bolso levantando-a. Fiquei tenso junto de Abarai. Por um momento achei que golpearia lançando um cero, porem seus dedos fizeram um gesto. Como se tocasse algo sólido no ar, o mesmo rachou numa linha horizontal se abrindo num rasgo para cima e abaixo, mostrando um espaço vazio e negro pelo meio.

    A passagem de Garganta.

    Antes que fosse embora, Abarai se agitou.

    - Matte... Seu nome é mesmo Ulquiorra?

    Foi quase imperceptível, mas as costas do Arrancar enrijeceram.

    - O que tem isso?

    Sequer olhou para trás. Intrigado vi quando o tenente tombou o rosto. O olhar desconfiado e nervoso além do corpo tenso.

    - Como pode estar aqui? – sem respostas – Há cinco anos, você e Ichigo travaram uma batalha de vida e morte ao ponto que ele teve que se transformar num monstro. Ishida me contou que ao final Você virou pó.

    Mas o que...? Olhei o hollow, esperando uma resposta como Abarai enquanto esse silêncio se estendia. Quando a tensão aumentou o suficiente, o hollow a quebrou.

    - Isso mesmo. Naquele momento, meu tempo havia acabado.

    Se virando para nós, apenas de perfil o arrancar levantou uma mão encarando-a por um momento. Tinha um ar pensativo que realmente me intrigou.

    - Kurosaki Ichigo não quis me matar, totalmente imprevisível. E ainda...

    Os olhos verdes encararam de soslaio. Penetrantes com uma mórbida curiosidade enquanto ele abaixava a mão.

    - Vocês, shinigamis e humanos, ao final fizeram um pouco de sentido para mim. Meu limite de renegeração havia se esgotado, perdi tanto meu corpo como a consciência. Somente retornei à esse estado por causa dos guardiões de Jigoku.

    Tive a impressão que ocultava alguma coisa, uma lembrança desse dia, mas preferiu não dizer explicando sobre sua morte. Abarai pareceu se concentrar nisso já que franzia o cenho na última parte.

    - De que modo?

    - A interferência de sua reiatsu afetou a atmosfera de Hueco Mundo e acordei no deserto nesse estado. Um lixo perto do que já fui.

    - O que?

    O Arrancar apenas o encarou para depois se voltar diante da abertura que fez de Garganta. Sem dizer mais nada entrou no espaço vazio e o rasgo no ar se fechou com o som abafado de staccato.

    - Tsk.

    Olhei para o tenente vendo o mesmo com um ar frustrado. Compreensível já que também o que o hollow disse havia me chamado atenção. Entretanto, fazia alguma ideia do porque disse aquilo.

    - Abarai.

    Ele se espantou com o chamado.

    - Hai.

    - Ulquiorra era um Espada, não é?

    Seu semblante se fechou.

    - Sim, senhor.

    Estreitei o olhar para o vazio entendendo.

    - Volte à Seireitei. Reporte sobre sua missão de extermínio dos hollows errantes em Rukongai e depois volte para cá.

    - Hai. Hitsugaya taichou.

    Girando no lugar, ele saltou desaparecendo no shunpo enquanto continuei aqui fora. Hirako que havia voltado para dentro do casebre saiu caminhando até onde eu estava. O vento tinha amainado, mas não o suficiente. Pude ouvir com clareza seus passos até mim.

    - Ele não quer dizer nada. Kurotsuchi deve tê-lo torturado até a insanidade.

    - Não duvido.

    - Maldição. Uma pista sobre o aspecto da reiraku das sentinelas já valia.

    Espiei de soslaio encontrando o capitão frustrado. Há semanas ele junto com Unohana procuravam por respostas para a deficiência de reiraku dos soldados e a única fonte confiável não quer dizer nada. Justificável seu estado de nervos.

    - O Arrancar foi buscar o técnico de que falou em Hueco Mundo. Talvez ele tenha as respostas de que precisa.

    - Talvez.

    Não dissemos nada por um momento até que ouvi um suspiro.

    - Percebeu?

    - Sim. Ele não carregava uma zanpakutou.

    Desde que apareceu de modo furtivo dentro do casebre notei que não portava uma arma. Um Espada com aquele nível de reiraku sem levar sua zanpakutou era no mínimo estranho. Mas depois do que disse à Abarai... Acho que entendi a razão. Pela visão periférica vi Hirako cruzar os braços por dentro das mangas do Haori.

    - Na batalha de inverno todos os arrancars que acompanharam Aizen tinham uma espada. Ele não carregava uma agora. Acha que é confiável?

    - Até o momento. – hesitei cogitando se diria e me decidi – Ele tirou Karin do hospital durante o incêndio.

    - Nani?

    Ele se espantou como imaginei.

    - Disse que era importante a sobrevivência dela. Além de revelar sobre um lugar.

    - Que lugar?

    - Não faço ideia. Karin não se lembrava direito quando ontem me contou. Acho que é sobre o laboratório de Kurotsuchi.

    Lembrando do que o Pecador disse ainda pouco fazia bem sentido que fosse esse o segredo da informação. Aquele louco realmente sabia do que estava acontecendo e não disse nada. A loucura de Kurotsuchi não tem mesmo limites e pela visão periférica vi que Hirako pensava o mesmo que eu.

    - Quando acha que o sequestrou?

    Franzindo o rosto, Hirako ponderou compenetrado.

    - Duas... Três semanas no máximo pelo corpo enfraquecido do Pecador.

    - Deve ter se aproveitado quando invadimos Jigoku.

    O louro debochado quase riu.

    - Bem esperto.

    E um insano. Maldição... As sentinelas do Inferno, do nível mais profundo estão caçando esse Pecador. Os efeitos colaterais estão saindo do controle com tantas vítimas.

    - Isso se estendeu até demais.

    - Concordo. Odeio admitir, mas estamos praticamente encurralados. Não podemos lutar, avisar a população causaria apenas pânico ainda mais porque não tem como se proteger. Como se evita algo que não vê?

    Pergunta retórica.

    - Entrar em batalha é inviável. Vi como aquilo mata ao contato, não teríamos chance.

    - O Comandante mandará prender o Togabito em Muken se soubesse sobre ele.

    Pestanejei com o que disse.

    - Muken...

    - O que foi Hitsugaya?

    Encarei o vazio.

    - Na Grande Prisão Subterrânea Central, é o oitavo e último nível. Muken é um espaço vazio completamente vedado do mundo exterior, exceto pela torre principal que serve de entrada e saída.

    Seu rosto se franziu confuso.

    - Está sugerindo...?

    - E se usássemos para abrir o Portão de Jigoku lá?

    O mirei de canto, atento. Era uma sugestão louca, mas dado às nossas opções não tínhamos mais o que fazer. Agora que sabemos sobre o que é essa criatura que vi na missão, que Karin também viu por aqui, não podemos deixar essa situação continuar. Precisavámos abrir de algum jeito o portão para esse Togabito. Percebi que Hirako cogitava a ideia, pensando os pós e os contras do que isso implicava.

    - Pode dar certo.

    - Fora de cogitação.

    Giramos no lugar para a voz encontrando Yoruichi nos observando de olhos estreitados e braços cruzados.

    - Aquele lugar só é permitido para criminosos que não podem morrer. Além disso, é controlado pela Central 46. Não podemos usá-lo sem que soubessem.

    - Então que o quer façamos? Praticamente disse que estamos sem tempo!

    Hirako explodiu estressado. Inves de retrucar, ela sorriu de modo debochado irritando-o.

    - Cento e pouco anos atrás era mais paciente, Hirako.

    - Tsk. Eu não trabalhava feito um escravo nessa época, mulher. Falando nisso, preciso voltar.

    - Pode ir. Ficarei aqui vigiando.

    Assentindo em concordância tanto para ela como para mim, Hirako sumiu no shunpo e o acompanhei seguindo para o esquadrão. Estou fora já algum tempo. Precisava falar com Matsumoto, mas principalmente com Karin. A informação que me der será de suma importância sem contar que precisava saber se estava bem.

    HITSUGAYA POF

    KARIN POV

    Depois do que aquele sujeito disse o que eu queria, acabei dando-lhe um choque mesmo assim. Pela carga que usei o cara acabou desmaiando e rápido desfiz o bakudou que o prendia. Para todos os efeitos ninguém precisava saber porque ficou preso por um kidou e largado daquele jeito na rua. Caminhava voltando pra casa enquanto pensava sobre isso.

    Décimo segundo esquadrão.

    Alguém importante de lá queria algo comigo e estremeci com a opção óbvia. Bom, por um lado resolvia a segunda incumbência que faria hoje. Investigar o idiota que se disfarçou para me atender. Por outro... O que será que o taichou do 12º bantai queria com meu sangue? Já sabia que seja qual for o motivo, o sangue que levaram deve ter coagulado, já que o cara retirou de qualquer jeito de mim dias atrás, portanto não serviria. Teriam que coletar outra vez e caramba... De jeito nenhum vou deixar isso.

    Agora pensava numa desculpa pela minha fuga. Vão me descobrir, é inevitável. Exagerei usando um bakudou de alto nível, me deixou fraca. Droga, depender do shunpo e kidou era esgotante sem contar dessa roupa. Mirei chateada meu quimono. Se não fosse pela minha agilidade não teria conseguido sacar You Ou mais cedo. Quase chutei as sandálias de madeira para longe. Ainda bem que não precisei.

    Um trovejar me alertou e levantei os olhos. Nuvens grossas e densas cobriam o céu. Tomara que dê tempo. Não quero chegar ensopada. Entrava numa rua movimentada quando percebi que não estava mais sozinha. Diante de mim, vi um shinigami parado bem na minha frente. Parei de andar suspirando com o corpo tenso, ele era bem mais forte e astuto do que aquele outro. Só pela sua postura percebi isso.

    - Kurosaki Karin, venha conosco.

    Estranhei como se dirigiu à mim e entendi. Nem todos sabiam do meu casamento com Toushirou.

    - Por que?

    - É de suma importância.

    Pela visão periférica vi mais dois em cada lado... Merda, bloqueavam as rotas de fuga.

    - E se eu não quiser?

    - Então teremos que usar de outros meios para leva-la.

    Dei uma olhada ao redor. Ninguém transitando por aqui percebeu essa atmosfera carregada, quase hostil. Droga... Em condições normais lidaria fácil com esses três, mas agora...

    - Claro, para onde vão me levar?

    Fingi um sorriso gentil para o sujeito e ele retribuiu curvando os lábios. Cínico.

    - Logo irá saber.

    //////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

    Eu devia ter corrido naquela hora. Caminhando por um longínquo e largo corredor era escoltada por aqueles três soldados e aproveitei para observar o local. Depois de me coagirem, eles me seguraram e levaram para diante de um prédio branco pelo shunpo. Mal me deixaram ver ao redor, logo entramos pela porta principal e caminhamos por tantos lugares que me perdi do caminho que fazíamos.

    Pela ausência de janelas e o som de nossos passos ecoando nesse caminho julgaria que me levavam ao subterrâneo, senão é que já estávamos. As luzes no teto se acendiam conforme avançamos até chegarmos à uma porta de aço. Ao lado dela havia uma trava eletrônica onde o líder digitou a senha e a porta abriu deslizando para o lado. Entramos na sala e logo atrás de nós a porta se fechou.

    Engolindo em seco, olhei ao redor vendo mostruários e tanques com espécimes mergulhados dentro de um líquido. Todos eram ligados por fios e tubos e num calafrio percebi que estavam vivos. Shinigamis vestindo jalecos brancos transitavam entre as mesas de trabalho com pranchetas. Não eram muitos, cerca de seis e isso me relaxou um pouco. Se forem mais focados na ciência do que em combate mesmo nas minhas condições podia dar conta deles.

    - Kurotsuchi taichou, aqui está ela como o senhor ordenou.

    Pestanejei de susto, virando o rosto em tempo de ver o shinigami que me trouxe curvado em reverência. Os passos que antecederam me fizeram tremer por dentro enquanto vi o capitão Kurotsuchi se aproximar. Ele não estava sorrindo, parecia até mesmo rígido de tanta raiva. Sinceramente, apenas me deixou mais nervosa.

    - Oh... A esposa de Hitsugaya taichou. Bem vinda ao meu laboratório.

    Parecia que todos pararam de trabalhar, congelados no meio da ação. Pela visão periférica vi os shinigamis que me escoltaram me encararem surpresos, um técnico quase derrubando uma prancheta e uns dois virados totalmente pra cá. Sustentando o olhar superior desse capitão entreouvi o burburinho surpreso, até chocado das pessoas aqui dentro. “Esposa?”, “Tão nova!”, “Achei que eram só namorados”, “Que pena”

    Fazer o que? Não dá pra agradar todo mundo.

    - O que deseja de mim, senhor?

    O olho esquerdo do capitão tremeu com um espasmo e evitei com todas as forças esboçar uma reação. Apesar de tudo ainda sou um soldado mesmo com roupas de civil. Percebi que ele não esperava por isso.  

    - Me acompanhe.

    Girando no lugar ele seguiu para um canto desse laboratório e fui atrás. Ao segui-lo mantive cautela encarando suas costas. Apesar da atitude neutra não vi uma única abertura nele. Se eu tentar golpea-lo com a zanpakutou no mínimo se esquivaria.

    - Esteve em Jigoku e saiu com vida. Impressionante.

    Pisquei confusa.

    - Sim, senhor.

    O que será que queria? Era muito estranho esse ar educado. Parando perto de um console, um dos técnicos entregou uma prancheta para ele e se afastou. Kurotsuchi taichou o lia superficialmente, parecia encenação.

    - Segundo seu quadro médico, o miasma do Inferno foi retirado totalmente do seu organismo debilitando as células reishi do seu corpo. Ficou uma semana desacordada apesar da sedação ter cedido após a cirurgia. Interessante.

    Levantando os olhos para mim, o olhar aguçado enrregelou minha espinha.

    - Você pode vê-los, estou certo?

    Franzi o cenho.

    - O que?

    - As sentinelas.

    Arregalei os olhos, enrijecida de susto e essa reação foi confirmação o suficiente. Encarando um monitor, Kurotsuchi taichou esticou a mão livre apertando uma tecla com a unha comprida.

    - Noite passada uma de minhas cobaias fugiu desta área. Uma hora depois a movimentação dessas criaturas se alterou, ficando fora do padrão.

    Entregando a prancheta para um desses técnicos, voltou a me olhar de modo analítico, frio. Me sentia gelada por dentro com os nervos cheios de tensão.

    - A faixa do espectro visível captado pelo globo ocular é de entre a radiação infravermelha até a ultravioleta. Esta última para o qual todos somos cegos exceto você.

    - O que? Por que eu?

    Ecoei sem fôlego.

    - O tempo.

    Virei o rosto para a voz encontrando uma jovem vestida num shihakushou diferente, os cabelos negros trançados numa longa trança em suas costas. Pelo emblema em sua braçadeira era uma tenente.

    - De todos em Soul Society você foi a única que permaneceu mais tempo em Jigoku. Acreditamos que o miasma deve ter afetado de alguma forma seu organismo.

    - Não tem nada de errado comigo.

    Recuei um passo, quase tropeçando pelas sandálias de madeira de tanto tremer. Kurotsuchi taichou estalou a língua enfadado.

    - Isso é o que vamos ver. Nemu, amarre-a na cadeira.

    - O que?

    Mal pude reagir. Ela sumiu com o shunpo aparecendo atrás de mim. Logo me tiraram tanto minha zanpakutou como a bolsa que eu carregava e quando dei por mim fui sentada numa cadeira de couro branco. Uma tira de tecido reforçado me prendeu na cintura junto com os braços. Por mais que me sacudisse não cedia de jeito nenhum.

    - Me solta! Querem meu sangue outra vez?

    - Não foi pelo sangue que te trouxeram, menina. Quero recolher amostras de tecido.

    Como se fosse possível fiquei mais chocada.

    - De onde?

    Mesmo sem sorrir,  tinha um olhar ansioso quase louco.

    - Seus olhos... Eles me interessam bastante.

    - Não podem fazer isso comigo!

    - Fique quieta.

    Parei de espernear, empertigada na cadeira de couro tentando me por o máximo possível longe das mãos dele. Já poderia ver meu reflexo apavorado no bisturi quando todo o lugar estremeceu. Os fortes abalos desequilibraram todos os que estavam de pé, inclusive o capitão e sua tenente. Aproveitei o caos e consegui me livrar das amarras cortando-as com um kidou. Rápido pulei da cadeira, correndo na direção da mesa de metal ao lado dessa maca e agarrei tanto a zanpakutou como minha bolsa.

    Só tinha um 15 segundos antes que os dois reajam com minha fuga. Enquanto saltava no shunpo, pus a mão no peito em tentativa de controlar esse rugir de pânico. Ainda não acredito, ele queria me cegar! Ninguém me faria uma loucura dessas!

    Foi quando ergui os olhos do chão, vendo uma criatura transparente e um pouco opaca caminhar por entre as paredes, atravessando as mesas de trabalho.

    - Kurotsuchi taichou, estão aqui!

    - Evasão! Abandonem o prédio!

    Despertei do transe de pânico e saltei no shunpo em tempo de ver um dos soldados que me trouxe ser pego pela criatura. Apareci numa sala vazia e pequena. Ofegando corri até uma janela, quase tropeçando nas sandálias outra vez. Xinguei irritada e chutei essas coisas pra lá. Aproveitei que estava com a espada na mão e retirei o bakudou dela sacando-a. Encarei meu quimono suspirando fundo. Era uma pena, mas necessário. Furando a parte na lateral da minha perna cortei a primeira camada de tecido e repeti até haver uma fenda no quimono deixando minha perna livre.

    Pronto, desse jeito me movimentaria melhor e embainhei You Ou pondo-a nas minhas costas. A bolsinha amarrei no pulso esquerdo deixando minha mão dominante livre. Meu coração ainda rugia de medo. Bem que Toushirou chamava esse capitão de demente... Um tremor sacudiu esse prédio outra vez e me apoiei na janela até passar. Levantando os olhos, prendi o fôlego ao ver nitidamente três criaturas vagando por dentro da cidade ao deixar um rastro de destruição.

    Não faziam barulho, seus passos não ecoavam e não tinham impacto. Mas as construções por onde andavam pegavam fogo, até explodiam. Essa era a razão dos tremores. Abalada tentei enxergar através de seus corpos a forma. Ainda eram translúcidas e até pulsavam tornando o tom alaranjado mais visível. Porem, pude distinguir apenas três coisas: eram quadrúpedes, longas caudas e tentáculos saindo do que seria sua boca e o tamanho descomunal.

    Engolia em seco quando percebi um deles tomar uma direção à noroeste, indo para a parte nobre da cidade. Arquejei de pavor.

    Yuuki!

    KARIN POF

    Rukongai – Distrito 64º Leste: Sabitsura

    O tremor sentido em escala mínima sacudia as paredes de madeira do casebre, deixando poeira cair do teto. Yoruichi permanecia impassível encostada numa dessas paredes diante do prisioneiro. De braços cruzados analisava o comportamento atípico do togabito. Ele não gemia, arquejava e muito menos berrava implorando para que o soltassem. Simplesmente continuava quieto de rosto tombado para o chão. Mechas esbranquiçadas escapavam do buraco na máscara dele e percebeu o quanto estavam úmidas de suor.

    Esse pecador segurava muito bem o medo.

    - Ainda não chegaram?

    Direcionou o olhar para a voz ecoante, em tempo de ver o espaço se rasgar numa linha horizontal. Abrindo de cima e abaixo, na passagem escura de Garganta Ulquiorra estava acompanhado de uma figura trêmula e hesitante. O mesmo olhou para ela, apático e inexpressivo.

    - Vamos, ande.

    - H..hai. Ulquiorra-dono.

    Endireitando a coluna, o técnico saiu detrás do Arrancar para dentro do casebre. Atrás de si, Ulquiorra o seguiu e assim a passagem de Garganta se fechou com um som abafado. Pelo jaleco que usava, o rapaz foi facilmente identificado como membro do 12º Bantai. Isso atraiu a atenção de Yoruichi, mas preferiu responder a pergunta de Ulquiorra.

    - Provavelmente eles não virão.

    O hollow apenas a olhou inexpressivo. Nesse momento, outro tremor foi sentido sacudindo as paredes, as tábuas rangendo e viu o hollow aumentar um pouco os olhos impressionado. Apenas cruzou os braços.

    - Consegue sentir, não é?

    A ausência de resposta foi uma retórica.

    - Ahhh!!!!

    Voltaram o rosto para o grito nada masculino encontrando o técnico trêmulo e assustado. O rapaz somente naquele instante havia notado o Pecador preso no pilar central. O Togabito ergueu o rosto por causa do grito e encarando o shinigami ouviram um som de quase riso abafado pela máscara.

    - Qual o problema, garotinho?

    - Vo..você é...

    - Sim, eu sou. Vai se borrar agora?

    O técnico recuou uns passos, intimidado e assustado com a risada do outro. Nessa troca de palavras, Yoruichi percebeu que Kurotsuchi realmente havia mantido segredo sobre as experiências que fazia com o Pecador, sobre sua existência. De que outra forma justificaria esse ar chocado no rapaz? Enquanto o mesmo olhava o Pecador pestanejou de espanto.

    - A máscara dele...

    - Hai, já está rachando. Quanto tempo ainda temos?

    Entrando em ação, o técnico retirou um papel dobrado de dentro do bolso lateral do jaleco lendo atento.

    - Eu não sou nenhum perito, mas de acordo com o gráfico as criaturas que atacaram os grupos das missões possuem um padrão.

    - Padrão?

    - H..hai. O movimento deles não é aleatório. Sempre atacaram aonde havia traços de uma reiraku específica. – dirigindo o olhar para o Togabito preso engoliu em seco – Acredito que seja a reiraku dele.

    Um trovão estourou ribombando e logo em seguida o tamborilar da chuva preencheu o silêncio.

    - Eu não sei por que apenas alguns morreram e outros apenas ficaram doentes. O que são esses monstros? Kushanadas?

    Se virando para ela, Yoruichi percebeu as mãos trêmulas dele e o encarou séria descruzando os braços.

    - Não, são as sentinelas de Daí avici. Os hollows os chamam de ryokas de Muken e são um tipo de guardiões demônios do nível mais profundo de Jigoku.

    O rapaz empalideceu em segundos, mas manteve a compostura.

    - E..então precisamos avaliar o ataque e descobrir um meio de contra-atacar, certo?

    Suspirando fundo, Yoruichi desviou o olhar demostrando pela primeira vez nessa noite frustração.

    - É impossível. Ninguém do Gotei 13 é capaz de ver essas criaturas. Além disso, combates estão fora de cogitação.

    Um silêncio caiu pesado sobre eles. Bem que Yoruichi queria uma solução tão fácil, mas pela conversa que ouviu entre Hitsugaya e Hirako, as chances estavam contra eles. Apenas um capitão ter a capacidade de enxergar esse inimigo não era o bastante, quanto mais a veracidade do fato. Se sentia de mãos atadas e a sensação era péssima.

    - E se tivesse outro meio?

    Tanto ela como Ulquiorra se voltaram encarando Rin, o técnico - o nome estava bordado no jaleco - , que estremeceu com o olhar fixo de encrustínio.

    - Sobre o que está falando?

    - A...a razão dessas criaturas estarem aqui é por causa dele. – apontou para o Pecador preso ao chão no pilar – Se o levarmos de volta para o Inferno, então elas o seguiriam.

    - Pode dar certo.

    Encarou de soslaio o Arrancar. Ele continuava com o rosto apático e isso lhe arrancou um gemido de desgosto.

    - Sim. Poderia se fosse possível abrir o portão em Soul Society. Esqueceu que os Togabitos criaram uma passagem justamente por não chegarem por conta própria?

    - Não precisa ser aqui.

    Piscou confusa e com seu silêncio, Ulquiorra a fitou de canto com um olhar determinado.

    - Levarei o Togabito para Hueco Mundo. Uma vez lá quebrarei sua máscara e o portão se abrirá.

    - Como pode ter tanta certeza?

    Perguntou desconfiada, estreitando os olhos.

    - Szayel Aporro, ele era um Espada que se tornou um pecador. Semanas atrás apareceu em Hueco Mundo avisando sobre os ryokas de Muken. Eles saíram a procura deste pecador por entre os planos. Já devoraram vários Hollows em Hueco Mundo e no mundo dos vivos também.

    Arregalou os olhos. Essa informação era o que faltava para avisar Kisuke!

    Um trinco quebrou sua concentração e tanto ela como os outros dois olharam para a fonte. O pecador continuava quieto, sem se mover. Porem... Assim que ergueu o rosto, o olhar era insano e determinado. Uma reiatsu perturbou o ar de repente, antes do Togabito puxar os braços rompendo as amarras dos seus pulsos. Assim que Ulquiorra e ela saltaram, uma alabarda foi atirada na direção deles. Desviaram com o shunpo, aparecendo atrás do pilar agarrando o ombro do pecador o jogando no chão.

    A máscara com a queda trincou ainda mais e o Pecador soltou um urro quase animalesco antes da pressão espiritual dentro do casebre aumentar. Um ralo de reiraku azul feito línguas de fogo surgiu no togabito e correntes brotaram do seu corpo explodindo para cima. Saltaram para longe o largando, arquejando sufocados com um ar nocivo pairando sobre eles. Um coro de sons graves ecoou ao longe e tanto ela como Ulquiorra arregalaram os olhos.

    As correntes serpenteando o Pecador ficaram nítidas e sólidas e num instante elas se esticaram em tensão. O togabito foi puxado por elas arrebentando a parede dos fundos. Yoruichi e Ulquiorra foram atrás e quando já estavam metros de distância viram o Pecador levar uma mão em garra para o rosto. Puxando para o lado, a máscara foi reconstruída e as correntes sumiram. Freando o empuxo no ar, ele abriu a mão livre e do centro da palma uma energia se concentrou. Disparando na direção deles, desviaram do caminho e o golpe acertou o casebre.

    Não que tivessem desviado o olhar, mas o togabito havia sumido! Yoruichi trincou os dentes irritada.

    - Foi um truque.

    Devia ter usado o shunkou logo no início. Não esperava por isso. Voltaram para a vila encontrando o casebre destruído, o solo enegrecido da explosão. Procurou pela reiatsu daquele rapaz e contra suas expectativas achou. Virando o rosto para outro desses casebres, o viu todo encolhido encostado na parede. Se aproximou dele e o rapaz levou um susto. Estava quase catatônico.

    - Está ferido?

    - N..não. C..consegui escapar.

    Um ponto positivo. Ele era a melhor chance que tinham no momento já que não poderia contactar Kisuke agora.

    - Yoruichi-san.

    O olhou esperando e engolindo em seco, o rapaz enfiou a mão no bolso esquerdo do jaleco retirando um frasco tubular.

    - Quanto aos soldados doentes, se retirarmos um pouco do sangue do Togabito e analisarmos, podemos encontrar uma cura. – desviou o olhar de repente cansado – Em Hueco Mundo estive pensando nisso. Os pecadores são imunes ao miasma de Jigoku formado pelas auras dos guardiões, deve haver uma razão para isso, certo?

    Ao fita-la intrigado, percebeu que esse rapaz era de muita valia para o Departamento Tecnológico. Estendeu a mão para ele, o olhar confiante e isso bastou para alivia-lo. Entregou o frasco para ela.

    - Conte conosco.

    Girou no lugar sabendo que Ulquiorra a observava. Não precisou pensar muito e olhou para o técnico.

    - Quantos frascos você tem?

    KARIN POV

    Precisava me apressar, senão seria tarde demais. Correndo pelos telhados dos prédios na cidade, saltava no shunpo desviando dos incêndios e explosões. Ainda não acredito que isso está acontecendo, mesmo com a chuva engrossando o fogo não abrandava. Pela visão periférica via a população em pânico e os shinigamis tentando combater os incêndios. Alguns morreram bem na minha frente e reprimia o pânico saltando o mais rápido que podia. Mordi o lábio, preocupada.

    Se sobrevivermos essa noite, Toushirou ficará possesso comigo assim que descobrir as loucuras que fiz desde cedo. Claro que antes tomei precauções antes de correr como louca pelo caos na cidade. Duas delas era não ter liberado You Ou ainda e a proteger meu bebê com uma séries de barreiras dentro do meu corpo. Eu posso me machucar seriamente, mas meu filho não. Já estava chegando à beirada de um terraço quando senti uma reiatsu nociva crescendo debaixo dos meus pés. Saltei para baixo surgindo diante de um galho de uma árvore. Estiquei os braços agarrando-o ao jogar o corpo para frente. Antes de dar o giro completo soltei o galho caindo agachada nele e não perdi tempo. Saltei no shunpo outra vez avistando a propriedade dos Kasumiooji.

    Já estava perto daqui.

    Arquejando apareci dentro do terreno dos nobres, justo no jardim ornamental interno. Merda... Os guardas assim que me viram sacaram suas espadas vindo até mim e corri para dentro da casa aproveitando de um shoji aberto na varanda.

    - Auto!

    - Pare onde está!

    Ignorando-os continuei correndo pelos shojis abertos invadindo os cômodos. Pouco me importei com a confusão. Onde? Onde ela está?! Yuuki não tinha uma pressão espiritual tão forte! Já estava quase me entregando ao pânico quando ouvi um grito. Sumi no shunpo aparecendo dentro de um cômodo enorme e senti um arrepio sinistro. Olhei para trás em tempo de uma mulher correr para longe. Foi dela que ouvi o grito e com razão. Bem no meio do corredor de acesso um empregado estava caído no chão, pálido e ressecando aos olhos vistos. Encarava com horror uma cauda opaca e alaranjada atravessando seu peito.

    - Mas quem é essa garota?! Tirem-na daqui!

    Encarei a frente com o coração apertado pelo tempo esgotado. Aquela coisa já estava aqui. Vi uma mesa comprida e baixa de madeira ao centro dessa sala e em ambos os lados estavam os convidados e a família de Yuuki. Procurei com os olhos cabelos loiros arquejando angustiada. O ar daqui estava quente, abafado!

    - Karin?

    Virei o rosto para a voz encontrando a Barbie me olhar abismada. Não pensei, simplesmente sumi aparecendo do seu lado agarrando seu braço. O choque era claro em seu rosto ao levanta-la do chão e angustiada vi mais daquelas caudas sinuosas atravessarem as paredes. Fechando os olhos virei o rosto saindo dali. Não parei sequer uma vez saltar até que pisei em falso, uma dor se alastrando pelo meu tornozelo e encarei a queda iminente. Que droga. Tinha tropeçado numa calha, agora caímos de uns oito metros de altura. Agarrei com a mão livre o punho da espada em minhas costas e saquei, girando o punho ao jogar meu braço para trás.

    - Bata suas asas, YOU OU!

    Minha pressão espiritual aumentou à medida que os ventos aumentaram quando joguei meu braço para frente, erguendo You Ou para o alto. Ouvi um arquejo ao meu lado enquanto a nobre agarrava minhas roupas. Não esperei You Ou terminar de se transformar e girei os punhos unidos, retorcendo os ventos ao criar um bolsão de ar. Nos envolvi com ele, freando nossa queda abruptamente. Meu corpo doeu com o tranco, mas segurei até nos descer com leveza e desfiz o bolsão.

    Ao cair de pé quase soltei um grito e liberei a mão de Yuuki cravando as zanpakutous no chão para me firmar no lugar. Me concentrava nessa dor insuportável, tentando reprimi-la.

    - Karin, tudo bem?

    Abri os olhos respirando mais calma.

    - Estou. E você?

    A olhei de canto vendo o quanto estava bem arrumada exceto por seus cabelos que se soltaram assim que liberei You Ou. Apertando as mãos Yuuki me analisava confusa pelo meu estado.

    - Estou bem. Mas o que aconteceu? Por que me tirou daquele jeito de casa?

    - Porque...

    Desviei o olhar, triste e com o coração pesado por ela. Como vou dizer que a salvei de uma morte horrível e sua família provavelmente estava morta à essa altura? Justo nesse instante uma explosão reverberou no ar, estremecendo esse beco. Olhamos para trás assustadas e claramente ao longe se via uma propriedade perto das montanhas ardendo em chamas.

    - Chichiue... Hahaue...

    Arfei preocupada e olhei para Yuuki. A nobre tinha lágrimas nos olhos mirando em choque para onde um dia foi sua casa. Voltando os olhos para mim, ela estava mais pálida do que o normal.

    - Meus pais...?

    Engoli essa aflição e agarrei sua mão puxando-a para fora desse beco. Enquanto segurava a dor do tornozelo torcido apliquei um kidou de cura nele. Dava para andar, mas correr era outra história.

    - Vem, não podemos ficar aqui. É muito perigoso.

    - C..como assim?

    - Depois explico.

    Caminhando pelas ruas ignorava as pessoas correndo e gritando de desespero. Era óbvio que ninguém entendia nada do que estava acontecendo. Por garantia mantive minha Shikai, me sentia mais segura para nos proteger. Contudo... O que eu faço? Não pensei no depois quando conseguisse salva-la com a família. Quase falhei e pude somente tirar Yuuki de lá. Falando nisso, percebi que ela me olhava estranhando menos aera do que antes. Não fosse por menos, eu estava molhada da chuva com a roupa rasgada na perna e carregando minhas zanpakutous liberadas.

    Um belo desastre de dama casada. Ao contrário dela que a única coisa fora do lugar, exceto seus cabelos soltos, era estar tão encharcada da chuva como eu. Sinceramente, nem me importo. E tive uma ideia do lugar onde poderíamos nos abrigar.

    - Yuuki.

    - Sim?

    Que bom, não estava catatônica.

    - Vamos para o quarto bantai, está bem? No caminho pra sua casa era um dos poucos lugares intactos. Vamos ficar seguras lá.

    - Tudo bem. Por que não vamos com o passo relâmpago?

    Quase parei de andar xingando baixo. Yuuki percebeu, pois tentou me olhar e suspirei cansada. Que merda.

    - Eu não posso.

    - O que?

    Parando girei no lugar para encara-la. Tinha que dizer a verdade, afinal seria injusto com ela.

    - Lembra que te falei que não podia fazer esforço físico?

    Ela franziu as sobrancelhas confusa.

    - Sim, mas o que tem haver?

    Quase ri sem graça.

    - Bom, a verdade é que não devo fazer por estar fraca, mas para não prejudicar alguém.

    - Alguém?

    Curvando os lábios pus devagar a mão livre no meu ventre, me divertindo apesar da situação com seus olhos arregalados. Boquiaberta, a Barbie olhava do meu rosto para minha barriga e depois para meu rosto. Piscando desorientada ela tentou manter compostura.

    - Está... Grávida?

    - Quase dois meses agora.

    - Você é louca! Hitsugaya taichou sabe onde está agora?

    Meu sorriso alegre endureceu e desviei o olhar tirando a mão da barriga.

    - Ah não. Se ele soubesse iria me esganar.

    - Com toda a certeza.

    Gelei de susto e girei no lugar, para a pessoa que apareceu de súbito nessa rua. Toushirou estava parado há poucos metros de mim, com fuligem em seu rosto e um olhar sério me dizendo o quanto estava encrencada. Sua reiatsu pulsava lenta, suave trazendo um ar gelado e mirei para sua mão direita encontrando Hyourinmaru liberada. Por isso os céus estavam carregados de nuvens negras. Antes que dissesse qualquer coisa, mais alguém apareceu ao lado de Toushirou e dessa vez quem levou um susto foi a Barbie.

    Renji arfava coberto de fuligem, mas ao contrário de Toushirou não liberou sua Shikai. Estranhando vi que segurava algo na mão de punho bem fechado.

    - Perdi ele de vista, Hitsugaya taichou.

    Assentindo, Toushirou suspirou para manter a calma. Ele realmente estava zangado comigo.

    - Antes de continuar, leve as duas ao 18º posto médico.

    Mas o que estava acontecendo aqui? Foi somente nesse instante que Renji nos notou e estreitou os olhos mau humorado.

    - Mas o que estão fazendo aqui? Karin, Matsumoto procurava por você agoniada.

    Me encolhi envergonhada e desfiz minha shikai balançando as espadas para o lado. Ao embainhá-la percebi que Yuuki ficou triste outra vez engolindo o choro. Eles notaram também, pois o clima de repreensão amainou. Toushirou se aproximou um pouco.

    - O que aconteceu?

    - Uma daquelas criaturas foi para a área nobre da cidade. Quando cheguei na casa dos Kasumiooji já era tarde demais. Apenas pude salva-la.

    Toushirou suspirou olhando compreensivo a nobre enquanto que Renji parecia triste. Era de se esperar, afinal até onde sei Yuuki ficou órfã.

    - É melhor irem. Abarai, assim que deixa-las me encontre aqui.

    - Hai.

    Desaparecendo no shunpo, Toushirou foi para sei lá onde sem brigar comigo. Entendi que o que estariam fazendo era sério e não queria me envolver. Quieta observei os dois ao meu lado me surpreendendo. A Barbie chorava abraçando apertado o tenente e o mesmo devolvia segurando a nobre bem junto dele. Não diziam nada e ao mirar para Renji vi que encarava o vazio, sério e segurando a cabeça dela junto ao seu peito.

    Fiquei vermelha, não deu pra evitar. Me senti uma intrusa ali!

    Me afastando uns passos para dar privacidade senti uma sensação estranha... Ruim. Estranhando levei um segundos para entender tarde demais. Girei para trás, a mão em punho para sacar You Ou encarando uma lâmina enorme à centímetros do meu rosto. Ela caiu num intrépido e vi o porquê. Um arrancar (por que só poderia com aquela máscara quebrada na cabeça) sufocava com um antebraço um homem maltrapilho com máscara de bulbo. Sua outra mão cravava um frasco na carótida desse homem, o vidro se enchendo em segundos de sangue.

    O homem mal respirava e enquanto assistia sua máscara toda trincou. A partir daí tudo foi muito rápido. A reiatsu dele se manifestou densa, o Arrancar abriu uma passagem de Garganta no instante seguinte atrás de si. Quando os ventos sugaram para dentro tão fortes fui arrastada. Não vi nada a não ser escuro por uns segundos e então um deserto surgiu na minha frente pálido e cinzento. Caí rolando na areia até parar. Os ventos continuaram fortes e desorientada ergui o rosto me chocando.

    O homem maltrapilho que tentou me matar era arrastado por correntes longas e tensas, direto para os Portões duplos e vermelhos com esqueletos, abertos dando para uma passagem escarlate. Os gritos dele eram horrendos, me arrepiavam. E o mais impressionante foi ver diante desse portão a passagem da Garganta ainda aberta, mais larga e dela saíam aquelas três criaturas urrando ao mergulhar para dentro daquele lugar.

    KARIN POF


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