A paixão do capitão de gelo

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    18
    Capítulos:

    Capítulo 31

    Ruptura

    Álcool, Hentai, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência

    Naquela noite enquanto os demais esquadrões continuavam suas funções rotineiras, o décimo segundo bantai lidava com uma crise interna. O alarme soava frenético alertando todos os técnicos residentes de plantão e aqueles que já haviam se retirado do serviço. Ainda era cedo e a agitação dos shinigamis promovida pelo som anasalado quebrava a rotina mesmo incomum naquela parte do quartel.

    Enquanto nos corredores daquele prédio específico soldados iam e vinham assumindo seus postos, uma figura se misturava por entre as sombras rastejando pelos nichos que encontrava até a saída mais próxima. Ela arquejava, o peito magro e ossudo se movia frenético em tentativa de se acalmar sem soltar um único som.

    Por detrás da máscara de bulbo observava a movimentação se mantendo o mais silencioso possível. A única coisa que poderia denuncia-lo seria o rastro daquele soro onde havia sido mergulhado. Sua pressão espiritual estava nula e a mantinha assim analisando o próximo passo.

    Não teve de esperar muito. Quando por um momento nenhum daqueles shinigamis apareceu, saiu de cima das tubulações caindo no corredor. Num impulso se atirou para a janela à esquerda quebrando a vidraça ao cair do alto. O barulho poderia alertar os soldados, porém àquela altura já estaria bem longe dali.

    HITSUGAYA POV

    Depois daquela conversa que tivemos, Karin foi ao nosso quarto tomar um banho enquanto que fiquei na sala, esperando no sofá. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, cruzava as mãos pensativo sobre isso.

    Está se complicando.

    Em velocidade alarmante, mais eventos estão acontecendo sob nossas vistas e sequer fazíamos ideia do por que. Isto é, exceto alguém. Suspirando fundo,  apertava os punhos lembrando do rosto de satisfação de Kurotsuchi. Na vigília ele estava lidando com a falta de controle de modo muito superficial. Praticamente seu terceiro oficial que assumiu as rédeas da operação.

    Aquele demente sabia de alguma coisa, porem, não era apenas isso que me inquietava. Desde a reunião com Hirako estava com uma sensação incômoda.  Há algo, um fato bem específico de que não estou me lembrando e a sensação aumentou enquanto conversava com Karin.

    Do que se trata? Por mais que me esforce não consigo associar com o que. A razão bem provável para isso seja que nas últimas semanas mal tive tempo com o trabalho redobrado. As milícias eram desgastantes. Meus soldados se intimidavam com minha presença por mais que eu não interfira. Não havia nada para descobrir ou investigar, nada ilegal que pudesse encontrar no cumprimento das missões.

    Em outras palavras, não havia nenhuma infração interna para se policiar. O comandante nos sujeitou à esse castigo sabendo muito bem disso.

    - Toushirou.

    Saí do devaneio. De soslaio, vi Karin em pé ao meu lado. Ela me olhava confusa e notei que usava uma roupa leve, um nagajuban.

    - Hum?

    Era a primeira vez que a via usar uma roupa assim fora do quarto. O tecido branco e fino mostrava tanto o contorno do seu corpo como a lingerie que usava por debaixo...

    - O que foi? Algum problema?

    Pestanejei desviando o olhar. Estava me distraindo.

    - Não, apenas pensando.

    - Sobre o que te contei?

    Sim e sobre outras questões também. Sua pergunta me centrou mais uma vez e notei que estava um pouco inquieta. Isso me fez estranhar. Voltei minha atenção para ela, perguntar o que havia de errado quando sentou ao meu lado. O movimento veio acompanhado do seu cheiro e suspirei fundo. Ela nem tem noção do quanto me distraía assim.

    - Toushirou tem mais uma coisa.

    Me foquei no que disse. Karin estava muito séria ao me encarar.

    - Fale

    Sua respiração vacilou um pouco.

    - Dias atrás quando quase... quase perdi o bebê, uma colega de classe veio conversar comigo.

    - Sobre o que?

    Franzindo o cenho, ela desviou os olhos num ar confuso e nervoso.

    - Segundo ela, há cerca de uma semana algo estranho aconteceu. A Barbie, quer dizer, a Yuuki disse que viu uma sombra gigante assim que voltava de um jantar em família. Soldados morreram, mas não encontraram os corpos.

    Escutei direito? Uma sombra gigante?

    - A família relatou alguma coisa?

    Encolhendo os ombros, Karin meneou a cabeça.

    - Acho que não, já que ela veio conversar comigo. Disse que os pais acreditam que os guardas fugiram do posto.

    - Estranho...

    - O que?

    Me encarando com expectativa, percebi o quanto queria entender sobre o assunto.

    - Algo assim seria relatado à Brigada. Mesmo que por deserção não devia passar despercebido o desaparecimento dos guardas.

    - Hum...

    Franzindo o cenho incomodada, segurei sua mão num gesto de conforto.

    - Não pense muito sobre isso.

    - É meio difícil, mas vou tentar.

    O sorriso vacilante me fez hesitar um pouco, afinal, pela mão que eu segurava senti o quanto estava nervosa. Isso não era bom para ela, ainda mais no seu estado atual.

    - Descanse um pouco. Volto mais tarde.

    Dando um leve aperto em sua mão, me inclinei para ela cheirando seu cabelo por um momento e levantei do sofá. Me dirigia até a porta com ela me seguindo.

    - Espera, aonde vai?

    - Ao gabinete, ainda tenho que revisar alguns relatórios periódicos.

    Infelizmente não poderia traze-los para casa.

    - Hum.. ‘tá bom.

    O tom passivo me incomodou e a espiei sobre o ombro. Mirando um ponto qualquer na parede ela fingiu pensar em alguma coisa esperando que eu saísse. Entendendo o recado, girei no lugar abrindo a porta. Assim que fechei ouvi um suspiro resignado e me dirigi à saída. Quando saí do prédio indo até o escritório pensei sobre isso.

    Eu não entendo. Por que ela ainda continua a agir desse jeito? Eu disse que não precisava se forçar à isso. Fingir que está tudo bem dessa maneira não é do seu feitio. Eu vi que me queria por perto, afinal estava um pouco trêmula sobre o que me contou. Poucas vezes a vi com medo daquele modo, Karin parecia frágil e angustiada. Mas ela não precisava fingir como se fosse nada demais.

    “Não quero te causar problemas...”

    Reprimi um suspiro de desgosto ao entrar no prédio do escritório. Ela não me causa. Essa insegurança não é normal, alguma coisa está errada. Até outro dia Karin agia como sempre, pouco mais irritadiça por conta da gravidez e eu também tinha minha carga de estresse pela questão do trabalho. Pode não parecer, mas não sou calmo como aparento. Tive que aprender a ser paciente desde cedo. Meus poderes e meu gênio atrapalham quando me aborreço e acabo afetando quem estiver ao redor.

    Ansiedade, enfado, nervosismo e aflição. Passei a sentir tudo isso com intensidade outra vez desde que me apaixonei por ela. Karin tirava meu controle, meus sentimentos por ela são fortes e intensos. Às vezes me sinto perdido, principalmente quando me preocupa, então não é nada demais ela se irritar ou me enfrentar, ser temperamental. Ninguém é perfeito.

    Mas parece que ela se esqueceu disso nesse meio tempo e agora age cheia de cautela perto de mim. Isso me aborrece.

    - Capitão, já chegou?

    Piscando levantei o olhar para a voz. Havia acabado de entrar no gabinete e Matsumoto me encarava do sofá de um jeito curioso. Fingi que não vi indo até à minha mesa.

    - Ainda tenho algumas coisas para resolver.

    - Hum.. Como foi a consulta da Karin-chan? Tudo bem com ela e o bebê?

    Travei no lugar, paralisado por um momento ao pegar uma folha. O resultado da consulta... Tinha me esquecido disso! Maldição, por isso ela estava estranha?

    - Taichou?

    - Talvez.

    - Como assim? O senhor não perguntou pra ela, não foi?

    Matsumoto...

    - Não tive tempo, mais tarde pergunto.

    Ouvindo um suspiro, levantei os olhos em tempo de ver Matsumoto cruzar os braços já de pé e me encarando. Além do ar reprovativo tinha um quê de enfado. Não gostei disso.

    - Sabe, capitão. O senhor devia ser mais atencioso sobre essas coisas. Karin-chan está grávida. Os homens realmente não entendem como é difícil se sentir uma pilha de nervos o tempo todo.

    Com essa a encarei estranhando.

    - Como sabe sobre isso? – estreitei os olhos agora bem desconfiado - Já esteve grávida?

    Pestanejando de susto, ela quase riu.

    - Claro que não. Sou mulher, apenas sei das coisas.

    Suspirei de cansaço. Estava sem energia para contra-argumentar.

    HITSUGAYA POF

    Departamento de Pesquisas Técnicas de Informações

    - O que está acontecendo aqui, Hiysu?

    Akon adentrou esbaforido no laboratório assim que a porta se abriu. Dentro da sala, os técnicos lidavam quase histéricos com os dados mostrados no grande painel. Um deles, de olhos salientes girou na cadeira o encarando atordoado.

    - Akon! Até que enfim. Um dos setores da Área de Sigilo disparou o alarme.

    - Sob que circunstância?

    Se aproximou do painel mantendo a voz sob controle. Um dos que estavam à direita respondeu trêmulo.

    - Falha de contenção.

    Susteve o fôlego de susto ao arregalar os olhos. Nos rostos dos outros técnicos estava espelhado a reação de choque, além de uma outra. Horror. Afinal, todos sabiam como eram as cobaias de Kurotsuchi taichou.

    - Já avisaram o capitão?

    - N..não conseguimos contacta-lo.

    - Nani?!

    Como assim? Era uma situação de urgência! Surpreso com isso, Akon rápido se recompôs puxando uma cadeira giratória ao assumir um dos consoles.

    - Continuem tentando.

    Ao seu lado, o técnico de olhos salientes rangia os dentes irritado.

    - Onde está Rin? Aquele incompetente já devia estar aqui há meia hora.

    - Ele saiu em missão de campo, Hisyu-san. Não lembra?

    O técnico se entalou surpreso para depois franzir os lábios em nervosismo. Maldição, havia se esquecido disso. Agora não poderia fazer nada, teriam que lidar com a situação sem aquele garoto.

    //////////////////////////////////////////////////////////////////////////

    O som de staccato ecoou assim que entraram na luz branca quando o Seikamon oficial foi aberto. Tsubokura Rin, um técnico do setor de investigação de reishi e observação era acompanhado por um shinigami combatente do sétimo bantai. A missão que fariam hoje era um tanto inusitada. Eles iriam buscar os corpos de um grupo Omitsu Kidou numa região segundo informações, perigosa.

    Ninguém do setor onde trabalhava queria fazer isso, então ele mesmo se ofereceu.

    Essa era a segunda vez que Rin fazia uma missão externa. Seu trabalho como técnico de investigação de reishi nunca o permitia sair dos laboratórios. Apenas uma vez teve essa oportunidade e foi anos atrás. Entretanto, o encargo que lhe foi incumbido era bem diferente do anterior. Por causa do incêndio no Posto Médico Geral noite passada, Kurotsuchi taichou se esqueceu totalmente sobre a ordem de coletar os cadáveres de uma missão de reconhecimento. Pelo o que soube por Hiysu-san foi um completo fracasso.

    - Oe.

    Pestanejou de susto. À sua frente o guarda atarracado que lhe foi designado o olhava sobre o ombro de maneira séria. Engoliu em seco de nervosismo.

    - Sim?

    - Tsubokura, certo?

    - Hai.

    Encolheu os ombros e vendo o shinigami estreitou os olhos.

    - Não saia de perto de mim.

    - Hum.

    Rin encarou o chão tímido. Com certeza o outro o achava um inútil.

    - Hei, estou falando sério. – levantou o olhar, o shinigami ainda o encarava - Enquanto estiver investigando sabe lá o que, faça o que eu mando.

    - Mas não é nada demais. Apenas procedimento de rotina nesses casos.

    Outra vez encolheu os ombros, não entendia essa seriedade no soldado. E como ainda o olhava estranhou quando o outro franziu as sobrancelhas num ar compreensivo.

    - O que foi?

    Apertou a maleta contra si um pouco desconfortável. Nunca o olharam desse jeito sem vir com uma ofensa ou chacota de sua pessoa.

    - Você não estava lá, não é mesmo?

    Pestanejou de susto. Voltando o olhar para frente, o shinigami parecia mais tenso do que quando atravessaram o portão.

    - O lugar para onde vamos foi um local de massacre. Justo onde várias equipes retornaram naquele estado, praticamente sem poderes e fracos. Não sabemos o que esperar.

    - O..ok.

    Apertando a alça da maleta apressou o passo ficando ao lado do shinigami. Faria o que ele dissesse, afinal, não designaram para si uma escolta à toa. Assim que irromperam numa clareira quando o portal se abriu, Rin sentiu arrepios sinistros observando ao redor. O lugar era escuro, subterrâneo com a vegetação seca e rasteira. As poucas árvores que tinha eram brancas e nuas como osso, além do ar quente circulando por ali. Procurou fazer logo seu trabalho se aproximando do ponto onde o rastreador indicava a localização. Logo avistou os corpos que devia coletar e enquanto arrumava os equipamentos retirados da maleta, sua escolta verificava os arredores com olhos atentos.

    Havia se passado uma hora quando o shinigami grunhiu atrás de si.

    - Hei, ainda não acabou?

    Franzindo os lábios, continuou analisando os dados no espectrofotômetro portátil. Ainda faltava um pouco para a analise ficar completa.

    - S..só mais alguns minutos, se interromper agora o exame da amostra t..terei de fazer tudo de novo.

    Bastou um olhar sobre o ombro e viu o quanto o shinigami estava desconfortável. Não gostava de se sentir um incômodo, mas não tinha o que fazer. Enquanto arrumava o cadáver que encontraram e o enviou para uma perícia completa no 12º esquadrão, havia achado algo estranho no sangue da vítima, além do óbvio calor nesse lugar. Isso era o que o intrigava. No subsolo e sem luz solar, como a temperatura estaria abafada desse jeito? Até suava e de vez em quando enxugava a testa.

    - Será que você poderia acabar logo com isso? Esse lugar me dá arrepios.

    - Hum.

    Escutou a grama ser esmagada pelos passos do outro. Estava trabalhando o mais rápido que podia. Encarava com afinco o papel sob as estacas de luzes que haviam colocado ao redor na área quando a agulha pulou. Prendeu o fôlego, trêmulo sem desviar o olhar do papel. Os riscos aumentavam com o comprimento da onda e arquejou erguendo os olhos.

    Estava aqui. Seja o que for, estava interferindo no aparelho. Alarmado mirava ao redor sentindo os nervos tensos de medo procurando e não vendo nada.

    - Tatsufusa-san.

    - Hein, o que foi?

    Girou nervoso no lugar para o outro. O soldado o olhava impaciente segurando a zanpakutou presa à cintura.

    - Nós.. nós devíamos...

    - Fale logo, Tsubok...

    Foi de repente, sequer viu de onde veio o ataque.

    Num segundo o soldado reclamava da sua hesitação e num outro foi suspenso no ar, brusco e violento como num bote invisível. Prendia um grito paralisado de medo, assistindo o corpo do outro se arquear de dor. Rin estremeceu até os ossos, observando entalado o gemido sufocado do shinigami enquanto as órbitas enegreciam em segundos.

    Quando a zanpakutou do homem caiu de sua mão, seu corpo deu um choque de adrenalina. Rapidamente pegou o papel da impressão e puxou rasgando, no seu bolso do jaleco os vidrinhos chacoalharem. Levantando aos tropeços riscou o ar com a ponta dos dedos, um pouco de reiraku nos dígitos e abriu um Seikamon ali mesmo entrando estabanado.

    Correndo na passagem escura de Dangai, Rin não olhava para trás, sequer ousava. O barulho das correntes espirituais, seus passos surdos na passagem escura eram abafados por seu pulso disparado. Seu coração batia seco e forte na garganta enquanto forçava as pernas a irem o mais longe que podia. Nunca sentiu tanto medo como agora.

    Ainda corria quando um arrepio sinistro varreu sua espinha, o ar seco e estagnado de Dangai abrasou. Não precisou pensar, aquilo que atacou Tatsufusa-san naquele lugar estava aqui, veio atrás dele! No meio do pânico e corrida desenfreada bem diante de si o ar rachou, abrindo de cima abaixo ao se rasgar num espaço negro. Sabia o que era e mesmo assim não acreditava. A abertura da Garganta. De olhos arregalados mal viu um braço pálido como giz se esticando e sentiu o agarre no pulso.

    Foi puxado bruscamente para dentro da passagem e tão logo a mesma se fechou.

    No dia seguinte

    HITSUGAYA POV

    Por volta do meio-dia, um comunicado trazido por um integrante da brigada negra convocou todos os capitães para uma reunião. Ordem de primeira classe. O assunto era sobre a decorrência da missão de reconhecimento. Quando Soi Fong relatou o resultado vi a mão do Comandante apertar com força sobre o cajado. Hirako trocou um olhar comigo nesse instante e numa breve discussão silenciosa decidimos não dizer nada.

    O Soutaichou quer resultados, evidências concretas que provem sobre a estranha criatura e não tínhamos nada disso. Dependíamos da investigação de Urahara e até agora ele não havia se manifestado. Outro tema levantado foi a origem dos desaparecimentos de Hollows em Karakura. Kurotsuchi dando um passo à frente explicou entediado que não havia nenhuma anormalidade nos fluxos espectrais, o equilíbrio de transição de konpakus entre os mundos não se alterou.

    A única singularidade do caso era uma certa seleção dos desaparecimentos. Segundo sua tenente (já que era a líder desse caso dentre os outros), em sua maioria os Hollows que sumiram eram os mais procurados por Soul Society. Nenhum shinigami acumulou as recompensas pelas capturas, então era descartado o envolvimento de alguém do Gotei. Também com o equilíbrio inalterado o clã dos quincys foi rejeitado como culpado.

    Durante sua explicação o tom cínico era evidente e reprimi um suspiro enfadado. Louco demente... Kurotsuchi sabe exatamente o que está acontecendo e editava as informações. Zaraki com a paciência por um fio resolveu discutir com ele, questionando sua preguiça com a investigação (o que não deixa de ser verdade) e todos nós assistimos Kurotsuchi ranger os dentes de raiva o xingando de volta. Ele não suportava que duvidassem da sua competência, sempre o fazia perder a compostura.

    - Basta!

    Nenhum dos dois disse mais nada e o Comandante Yamamoto abriu minimamente os olhos.

    - Para manter o potencial combativo restante, nenhum grupo partirá mais em missão externa. Kuchiki taichou, Zaraki taichou, Kyouraku e Hitsugaya taichou – O mirei com o chamado e Soutaichou continuou –, estão liberados das milícias. Dispensados.

    - Hai!

    Aos poucos os capitães foram se dispersando em silêncio deixando a sala de reuniões com a atmosfera mais tensa. Foi implícito o objetivo do Comandante com àquela ordem. Antes que a força da Brigada decaía mais, as investigações não seriam mais necessárias. Isso me dava mal estar. Faltava pouco para entrarmos em estado de alerta. O que me levava a focar no taichou do 12º bantai. Ele caminhava adiante pela passarela que ligava o prédio do 1º esquadrão com os demais, tenso e com um ar que julgaria irritado.

    Tive a sensação que não era apenas pela reunião.

    - Parece intrigado, Hitsugaya-kun.

    Estreitei os olhos, Hirako quase me desconcentrou.

    - Um pouco.

    - Kurotsuchi anda um tanto estranho ultimamente, não acham?

    Olhei de soslaio Kyouraku observar analítico as costas do outro capitão. Pelo modo compenetrado em seu rosto, eu e Hirako não éramos os únicos intrigados com isso. Afinal, ele também fez parte da vigília.

    - Algo deve ter acontecido com seu laboratório.

    Hirako não estava errado em sua suposição. Se havia alguma coisa que perturbava Kurotsuchi eram suas pesquisas e o local de trabalho. Entretanto, aquela sensação de esquecimento me vinha, mais forte que ontem à noite. A impressão aumentava, como se fosse algo realmente importante, mas não consigo lembrar.

    Suspirei enfadado, lidaria com isso mais tarde.

    HISTUGAYA POF

    KARIN POV

    Sei que eu devia ficar quieta, afinal eram recomendações médicas, mas ainda assim me encarava frente ao espelho analisando se devia ou não ir desse jeito. Como casei não faz pouco tempo a maioria dos meus quimonos era de moças solteiras. Além disso, meu tempo era dividido entre estudar, fazer os trabalhos extras e dormir um par de horas. Não lembrei de comprar roupas de mulheres casadas.

    Fiz um esgar, não posso usar essa yukata. É muito casual. Droga... Por que a Barbie não poderia ser alguém mais normal? Não vão me deixar entrar se vestir qualquer roupa. Bufando segui até o guarda-roupa, as portas já escancaradas desde que Toushirou foi trabalhar.

    Ontem, mesmo com ele me dizendo que devia ser eu mesma a insegurança não desapareceu. Sozinha quando fui tomar banho, pensei bastante debaixo do chuveiro sobre o que deveria fazer. Eu nunca fui tão insegura desse jeito, medrosa... Parte disso culpo bastante os hormônios, mas também sobre essa situação.

    Eu sinto o Toushirou estressado e preocupado mais que o normal. Ele está tão tenso, ontem sequer me viu chegar perto quando entrei na sala e hoje nem veio almoçar comigo. Rangiku antes de sair me disse que ele foi para uma reunião e suspirei. São essas milícias que o estão esgotando. Caramba, ele chega exausto toda noite, mal fala direito comigo e vai dormir. Antes eu não entendia, agora com o tempo livre por ordem médicas reparei nisso. Enquanto ele me treinava, Toushirou não tinha esse ar sobrecarregado, sua irritação e esforço de paciência eram comuns e convenhamos, eu não tenho lá um gênio fácil.

    Mas... Agora era bem diferente. Esse castigo pelo o que Rangiku me contou será durante três meses. Mal chegamos à um! E ainda tinha essa criatura que ninguém vê matando as pessoas. Confesso, ontem à noite estava cheia de reservas sobre como agiria perto de Toushirou sem mudar meu jeito e ainda não o estressar. Não deu muito certo. Que ótimo.

    Bem, depois vejo isso com mais calma. Procurando entre os cabides puxei a yukata mais chamativa e bonita. Azul royal com flores brancas e o obi amarelo. Tirei a roupa que vestia deixando o nagajuban e fui para frente do espelho. Coloquei a roupa do jeito como Rangiku pôs em mim, lembrando também de quando Unohana taichou me ajudou. Na hora do obi deu um bocado de trabalho, mas ao olhar meu reflexo sorri satisfeita. Isso!  

    Com uma Kazanshi na mão, torci os cabelos num coque alto e prendi com o enfeite deixando a franja. Era o suficiente e além de que havia algo que não deveria esquecer. Peguei minha zanpakutou do suporte na parede e a segurei com as palmas abertas me concentrando. Assim que brilharam, sussurrei.

    - Bakudou nº 24, Kyokkou.

    A energia nas minhas mãos envolveu minha zanpakutou do punho até a correia entremeada. Logo em segundos à primeira vista, não havia nada nas minhas mãos. Escondi um sorriso. Esse kidou esconde a reiraku e torna tudo o que envolver invisível.

    Eu não sairia por aí com aquela coisa nas ruas desarmada.

    Pelo toque senti a correia e segurei passando sobre a cabeça ao pendura-la nas costas. Ajeitei de modo que não atrapalhasse o laço do obi e bem, ninguém ia suspeitar que eu carregava uma espada. Com uma bolsinha nas mãos, abri a janela do quarto e dei uma espiada. Nenhuma reiatsu por perto, então saltei no shunpo indo até a parte nobre da cidade.

    Se eu não me engano, a família Kasumiooji fica à noroeste daqui.

    ///////////////////////////////////////////////////////////////

    - Karin-san?

    Sorri da nobre enquanto seguia um empregado seu até onde estava. Num cômodo oriental como o resto da mansão, sobre o tatame havia uma mesa baixa de madeira e sobre ela uma caneca de fina porcelana. O líquido fumegava, pelo o que entendi ela tomava chá e à julgar ausência de outras reiatsus por perto estava sozinha.

    - Vim em má hora?

    - Não, de forma alguma. Sente-se.

    - Com licença.

    Me acomodei com todo cuidado em cima da almofada que ficava diante dela e assim que a Barbie se distraiu chamando uma empregada, rápido tirei a zanpakutou das costas segurando-a no colo. Para os outros isso era postura normal, como se estivesse apenas com as mãos pousadas sobre as coxas.

    - Acabei de pedir mais um pouco de chá. Tudo bem?

    - Não precisava se incomodar, mas aceito sim.

    Observei em volta na direção da varanda para a paisagem pacífica e agradável. A propriedade dos Kasumioojii era bem suntuosa. Escadarias até o terreno elevado onde se encontrava a mansão além dos jardins e outras áreas arborizadas.

    - Então à que devo o prazer da visita?

    Ela parecia bem animada. Que bom.

    - Precisava espairecer um pouco. Ficar enfurnada em casa não é bem o que gosto.

    - Entendi. Já que mencionou, como está? Soube do incêndio no hospital.

    Nesse momento, uma empregada chegou pela varanda trazendo numa travessa de madeira mais uma caneca de chá e alguns petiscos. Esperei ela terminar de nos servir até sair desta saleta e respondi.

    - Bem melhor, ontem me consultei e... – quase disse que estou grávida – estou bem. Apenas tenho que ficar de repouso e sem atividades físicas por um tempo.

    Beberiquei um pouco do chá. Bota tempo nisso, quase oito meses.

    - Nossa, por que? É tão sério assim?

    Quase ri.

    - Não.

    Ela estreitou os olhos meio divertida com meu tom risonho.

    - O que está escondendo?

    - Logo vai saber.

    Afinal, agora somos amigas, certo? Claro que contaria pra ela. Deixando as amenidades de lado, pousei a caneca na mesa e Yuuki percebeu a mudança no ar. A fitei séria e ao ver piscou confusa.

    - O que foi?

    - Bar... Yuuki, você se lembra do que conversou comigo dias atrás?

    Seus olhos azuis ficaram mais confusos até um brilho de reconhecimento aparecer. Logo seu rosto ficou mais pálido.

    - Claro.

    - Pode me dizer mais detalhes sobre isso?

    - Bom, eu...

    Passos cortaram o que iria dizer e tão logo que ouvimos uma senhora bem vestida num quimono apareceu abrindo o shoji à direita. Foi tão de rompante que pisquei de susto.

    - Yuuki-sama, já está na hora do seu... – os olhos inflexíveis de repente me notaram - Quem é essa moça?

    Franzi o cenho com o tom severo e dei uma espiada em Yuuki. Ela havia perdido todo o ar jovial ficando séria, sem expressão. O que mais me intrigou foi seu ar de tristeza. O que está acontecendo?

    - Essa é minha amiga. Hitsugaya Karin-san.

    - Boa tarde, senhora.

    Fiz uma reverência sentada mesmo e percebi que a mulher se incomodou. Não dava pra fazer em pé, se levantasse teria que segurar a espada e seria um gesto esquisito já que estava invisível.

    - Entendi. Bom, Yuuki-sama, daqui a pouco precisa se arrumar para o jantar. O senhor receberá alguns convidados e exige sua presença.

    - Hai.

    Sem nem olhar para mim, a mulher fez uma reverência para a nobre e saiu do cômodo fechando o shoji. Bufei de desagrado pela antipatia dela.

    - Sobre o que ela estava falando?

    - É um compromisso com os sócios do meu pai. Como você está aqui, Yue-san permitiu que eu faltasse nas minhas aulas de etiqueta. Era disso que estava falando assim que entrou.

    - Hum...

    A observei por um momento vendo o quanto estava chateada.

    - Algum problema?

    Silêncio. Acho que não devia ter perguntado. Antes que me desculpasse Yuuki fungou e vi chocada seus olhos encherem de lágrimas. Levantei da almofada e sentei ao seu lado no tatame vendo o quanto ela estremecia.

    - Hei, o que foi?

    Respirando fundo, ela sussurrou.

    - Ele me arruinou.

    - O que?

    Erguendo o rosto rosado pelo choro contido, a nobre me olhou desolada.

    - Kabutou contou para meu pai que me deflorou.

    Arregalei os olhos. Aquele cretino!

    - Como aconteceu?

    - E..eu não sei direito. Meu noivo acabou morrendo e a família ficou sem um herdeiro para desposar. C..como meses atrás eu e Kabutou estávamos juntos, m..meu pai achou que seria bom um casamento com os Sakai. Mas...

    - Aquele babaca deu uma de cretino e disse tudo.

    Seus olhos azuis inundaram outra vez e me senti seriamente mal por ela. Não foi preciso explicar. Sakai com certeza se recusou e a família o protegeu. Agora a Yuuki estava sendo forçada a passar por uma humilhação dessas. Ah, se eu encontro aquele nobre...

    - Ei, não fique assim. Vamos dar um jeito.

    - Como? Meu pai quer me casar logo antes que a noticia se espalhe e os amigos dele...

    Estremeceu de asco. Puxa vida, já fazia uma noção que não eram nenhum pouco jovens e ainda por cima rígidos. De repente, tive uma ideia.

    - Esses amigos são da nobreza?

    - Hã? Não. Pertencem à burguesia já que no comércio dominam os mercados.

    Minha ideia se fazia mais plausível.

    - E se fosse um militar?

    - O que?

    O modo como arregalou os olhos quase me fez rir, senão fosse a gravidade da sua situação.

    - Seu pai pelo visto não quer te casar com uma família nobre e pra ele tanto faz se o pretendente tiver uma certa influência, não é? Se fosse desposada por um militar de alta patente ele não iria reclamar, certo?

    - Bem... Talvez não, por que?

    Escondi um sorriso.

    - Acho que resolvi seu problema.

    A nobre piscou confusa sem entender nada. Era de se esperar, estava bem abalada.

    - No que está pensando, Karin?

    - Depois eu te conto. Quer passear comigo?

    - Agora? Mas...

    Espiou temerosa o shoji por onde a senhora apareceu.

    - Deixe disso. Logo eu te trago de volta, além do mais você precisa respirar.

    Sorrindo trêmula, um pouco acanhada, Yuuki assentiu e sorri a ajudando se levantar. Segurando sua mão, andamos até a varanda e espiei os guardas conversando na esquina à direita. Numa distração usei o shunpo saindo dali. Nas ruas ela ficaria mais à vontade, até porque teria que conversar sobre aquilo e aqui não parecia seguro.

    KARIN POF

    Rukongai – Distrito 64º Leste: Sabitsura

    - Shsss, querida. Aqui ele não pode nos ver.

    A menininha, no entanto, tentava engolir o choro sentindo os braços em volta de si estremecerem. Ela e a mulher que lhe cuidava haviam ido comprar doce. Era tão raro naquele bairro pobre poderem adquirirem algum regalo, que dirá um desses. Ao contrário da maioria que roubava, agredia e até matava por migalhas, Hana-san a acolheu no seu casebre. Era abandonado, as paredes velhas de madeira rangiam caindo aos pedaços, mas era muito melhor do que viver na rua.

    Mais um grito horrendo ecoou e as duas tremeram de medo. O vento uivava lá fora, trazendo o frio para dentro dessa cabana pelas frestas junto com um cheiro forte. Engoliram em seco, o cheiro era de sangue. Passos metódicos soaram, ficando mais próximos e altos. Seus corações martelaram de medo. Antes que chegasse à porta eles pararam, o silêncio sobrepujando com a ausência do barulho e os gritos estridentes as confundindo. Por um fugaz momento... acharam que o perigo havia passado.

    Mal relaxaram quando a parede ao lado delas explodiu, os pedaços e estilhaços de madeira choveram enquanto berraram aterrorizadas. A lâmina da alabarda surgiu diante delas, descendo impiedosa em suas direções. Segundos antes do golpe, a mulher se jogou na frente da criança abraçando-a e a menininha não viu mais nada.

    ///////////////////////////////////////////////////////////////////////////

    - Tem certeza que é por aqui?

    - Claro, senhor. O departamento de pesquisa afirmou que é esse o local.

    Renji estalou a língua irritado, saltando no shunpo atrás de um oficial do 12º Bantai. Depois da reunião dos capitães, Kuchiki taichou havia lhe informado sobre o cessar de missões externas pelo Comandante. A investigação que trabalhava há quase três semanas no Mundo dos Vivos se tornou inútil com a ordem e como se não bastasse, por ter crescido num dos bairros mais pobres de Rukongai foi designado para abater um grupo de hollows errantes.

    Eles estavam desde ontem à noite assassinando os cidadãos, sem devorar. Estranho, mas com a falta de soldados disponíveis lhe incumbiram dessa missão. Haviam passado por Inuzuri, agora estavam numa floresta em Sabitsura. Tinha uma vila pequena por perto e mesmo debaixo dessa chuva iam até lá averiguar se tinha sobreviventes.

    Saltava de um galho, quando um barulho rasgou de repente. Se jogou girando para trás em reflexo, segundos antes do galho partir em vários estilhaços e caiu nas folhagens arrastando as sandálias até frear. Que diabos foi isso? Tenso agarrou a bainha sacando a zanpakutou em tempo do outro shinigami surgir em sua frente.

    - O que foi Abarai fukutaichou?

    - Shsss.

    Observava ao redor, o vento uivando e dificultando sua acuidade. Seus shihakushou já estava bem molhado à essa altura e procurou se centrar. Aquele som... Foi um de sonido, mas a reiatsu que acompanhava era totalmente diferente. Onde já sentiu parecida?

    - Será que...?

    - Está aqui.

    - Então...

    Outra vez o rasgado de som e assistiu o shinigami diante de si arregalar os olhos antes de cair. Nas suas costas um talho profundo e ensanguentado. O ser que o atacou soltou um risinho insano, girando a arma na mão direita e atirou nele. Se esquivou para o lado antes que o acertasse e sumiu no shunpo aparecendo acima dele dando um golpe. A criatura puxou um dos braços, o som de correntes tilintando e a alabarda veio direto para sua mão, bloqueando sua zanpakutou.

    Rangendo os dentes, insistiu no ataque. Na penumbra por causa da floresta e da chuva, em meio aos golpes viu que havia algo de muito estranho no hollow. Ele era humonóide, usava um capa puída e amarelada e o som metálico persistia durante a luta. Kuso... Ainda por cima tinha muita força. Quando ele saltou descendo a alabarda, pulou se esquivando e gritando.

    - Hoero, Zabimaru!

    A zanpakutou fulgurou em vermelho se transformando ao deslizar os dedos pela lâmina. Num chicoteio, usou o pé de apoio para girar o corpo e o ombro amplamente. As lâminas de zabimaru se cravaram no peito do hollow, destruindo o caminho onde estavam quando puxou atirando-o para longe. O grito ecoou e saltou no shunpo indo atrás, na direção da nuvem de poeira da queda.

    Assim que chegou encontrou o hollow gemendo entre as tábuas do que foi um casebre da vila. Sua arma estava jogada em outro canto. Porem... Algo estava errado. Apesar da reiatsu distorcida e nociva, a criatura estava quase desmaiando, fraca. Ao se aproximar para o golpe final viu uma coisa que gelou seu sangue. No braço descoberto uma corrente estava fundida no pulso. Para confirmar tirou com a ponta da espada o capuz da cabeça dele e prendeu o fôlego.

    - Merda.

    KARIN POV

    - Ainda está chovendo?

    - Não, já vai parar.

    - Que bom, não posso demorar muito.

    Curvando os lábios, observei a nobre ainda inspecionando as carretilhas das fitas coloridas. Havia nos levado até o comércio e quando a chuva caiu nos abrigamos nessa loja de fitas e tecidos. Em parte fiz isso porque ela precisava se distrair daquele clima severo em sua casa, da sua situação. Em outro pela circulação das pessoas. Misturadas entre os cidadãos e sem seus guardas-costas seria seguro conversar sobre aquele assunto.

    Me aproximei da nobre.

    - Então, já escolheu uma?

    - Ainda não... Qual acha mais bonita? Esse azul turquesa ou verde jade?

    Com cada uma nas mãos ela me mostrou indecisa, mas relaxada. Realmente fiz bem em leva-la nesse passeio.

    - Er... Eu não sei, as duas são bonitas.

    Num muxoxo a Barbie revirou os olhos.

    - Claro, você só usa aquelas brancas.

    Se voltou para a parede colocando-as de volta. Suspirei meio contrariada com o comentário. Poxa, qual é o problema? Elas combinavam com qualquer roupa. Aproveitei que estava concentrada nas fitas outra vez e observei em volta. Quase não havia ninguém... Um cliente analisava um quimono florido salmão no fundo da loja, mas só. Perfeito.

    - Yuuki.

    - Hum?

    Ela agora segurava uma fita dourada.

    - O que aconteceu exatamente quando viu aquela sombra?

    Ao ouvir, ela engoliu em seco para depois suspirar fundo e sussurrar.

    - Havíamos acabado de celebrar no jardim dos meus tios. Eles têm um lago com carpas. Estava bem calmo e espelhava perfeitamente a lua cheia. Meu pai e meu tio beberam com meus primos contemplando a lua e num pedido da minha mãe enfim iríamos embora.

    Numa pausa respirou fundo molhando os lábios.

    - Eu fui a primeira a entrar na carruagem enquanto se despediam e... Então as tochas do portão e dos muros tremularam no quarteirão. Isso atraiu a atenção dos guardas e a mim também até apagarem. Sabe, eu não gosto do escuro. Pela fresta da cortina na janela vi uma sombra cobrindo toda a rua, achei que era uma nuvem até um tremor surdo vibrar. Como... como algo gigante dando um passo.

    Prendi o fôlego. Isso estava soando um tanto sinistro agora.

    - Foi quando os guardas morreram?

    Ela assentiu pálida.

    - Um a um como peças de dómino. Meus pais e meus tios ouviram, escutei eles correrem e espiei melhor da janela vendo um corpo dos guardas perto da carruagem. Acho... Que tinha um buraco nas costas, queimado... Bom, isso me assustou e fechei a cortina tremendo de medo.

    Mirei o vazio sentindo meu estômago gelar. Um ferimento por queimadura e a sombra gigante. Os pelos em minha nuca se arrepiaram com a conclusão do relato. Como nenhuma de nós disse mais nada, ela finalmente escolheu um par de fitas e foi até o caixa. Ao sairmos passeamos mais um pouco pelas ruas. Vi uma barraquinha de takoyaki e salivei. Corri até lá puxando Yuuki pela mão e comprei uma porção generosa dos bolinhos.

    Ela me olhou um pouco enojada porque me lambusei com os molhos e ri da sua cara, a enfadando. Nesse momento me lembrou um pouco da garota azeda de antes e segurando mais um bolinho no palito, sondei o terreno perguntando de mansinho.

    - Tem visto o Renji?

    Ao meu lado ela se engasgou de surpresa e engoli o bolinho. Assistindo enquanto a Barbie se recuperava um pouco e corando escondi um sorriso. Ela ficava bem fofa assim.

    - Karin como pode chama-lo assim pelo primeiro nome? É um desrespeito.

    - Não ligo pra isso, até porque conheço Renji há anos, ele não se importa.

    Comi outro bolinho.

    - Er... E Hitsugaya taichou?

    Parei para pensar lembrando das cenas de ciúmes de Toushirou. Suspirei irritada.

    - Ele supera.

    Se eu não armava um barraco com Hinamori (tudo bem que desde àquele dia a gente não se viu) Toushirou teria que lidar com seus ciúmes. Renji, coitado, ficou acuado naquele dia do hospital. Percebi que a nobre estava estranhamente calada e a espiei vendo me olhar impressionada. Quase ri.

    - O que foi?

    - Você tem mesmo coragem.

    Sorri calma por isso.

    - Toushirou me conhece, na verdade quando nos encontramos pela primeira vez no Mundo dos Vivos foi na mesma época que conheci Renji e outros shinigamis. Mas você ainda não me respondeu. Tem o visto por aí?

    Ela ficou mais rubra de vergonha enquanto comia um dos últimos bolinhos esperando. Afinal, precisava me localizar nessa interação deles.

    - Não. Quase não tenho saído de casa a não ser para a Academia.

    - Hum...

    Então eram só amigos. Não faz mal.

    - Ele é um cara muito legal. Quase um irmão para mim. Sabia que já tem uma Bankai?

    - Mesmo?

    Escondi um sorriso pela surpresa dela. Os olhos azuis brilhavam de admiração.

    - Unhum. É impressionante, já vi uma vez. Ele e Toushirou as vezes trabalham com uns assuntos sobre inimigos de Soul Society e etc. Agora mesmo ele deve estar ocupado com isso, por esse motivo não têm se visto por aí.

    Parei um pouco para observa-la e vi o quanto ela parecia se iluminar ouvindo um pouco sobre o tenente do 6º Bantai. Poxa, eu vi o modo como ela olhava para ele quando foi me visitar no hospital, quando ele foi me buscar na Academia. Ele seria a pessoa perfeita pra ela.

    Renji era um tanto sozinho apesar de disfarçar bem. E eu estava ajudando meus amigos, certo?

    -  Abarai fukutaichou é um homem honrado.

    - Não é? Seu pai não teria do que reclamar se ele te desposasse.

    - Nani? Por que?!

    A nobre quase infartou. Já riria dela quando percebi uma reiatsu. Ela havia sumido de repente, mas logo me situei e entendi. Lidaria com isso depois e encarei a nobre ofegante.

    - É um militar, tenente de um esquadrão capitaneado por um líder de uma nobre família. Uma das mais importantes. Ninguém ousaria falar alguma coisa sobre você. Renji é um combatente reconhecido pelo Gotei 13 e convenhamos, além de não ser nada feio não é um babaca.

    Comi o último bolinho queimando segundos depois a caixinha com um kidou. A Barbie piscou um tanto desorientada pelo o que acabei de fazer como do que disse à ela. Percebi que ainda estava temerosa.

    - Mas eu não posso simplesmente empurrar esse problema nele.

    - Então não faça. Converse com o Renji e eu tenho certeza que vai te ajudar de um jeito ou de outro.

    Afinal ele era amigo do meu irmão. E ao pensar melhor, Yuuki tinha uma certa expressão de alivio em seus olhos.

    - Obrigada, Karin.

    - De nada. Já deve estar na hora de você ir pra casa, certo?

    A nobre assentiu e segurei sua mão saltando no shunpo. Em minutos já estávamos na mesma saleta em tempo daquela empregada invadir o cômodo. Como já estava de saída, a Barbie pediu que me acompanhassem e me despedi dela. Quando saí da propriedade dos Kasumioojii a mesma reiatsu oscilou e respirei fundo. Não era um profissional, senão disfarçaria sua presença melhor.

    Assim que dobrei uma esquina ele saltou se revelando, mas eu já estava preparada. Com os dedos indicador e o médio retos, uma energia estalando na ponta deles, girei no lugar atirando.

    - Tsuzuri raiden.

    O shinigami por um segundo arregalou os olhos de susto e desviou com shunpo da corrente elétrica que atirei nele. Prevísivel. Com um estalido ele apareceu atrás de mim quase agarrando meu outro pulso. Péssimo erro. Ele soltou um grito de dor com o outro choque elétrico. Aproveitei o momento e agarrei a bainha com essa mão sacando com a outra. Dei um golpe girando no lugar quando tentou mais uma vez me segurar pelo ombro. Ele se esquivou guinchando ao se jogar para trás, salvando seu pescoço e quando estava no ar joguei um bakudou nele.

    Tiras de aço surgiram brilhando, prendendo juntos seus braços para trás. Ele caiu todo torto no chão e caminhei até onde estava com a zanpakutou em punho. Ainda resmungava tentando se soltar quando me notou.

    - É um bakudou de nível noventa, não vai conseguir se livrar.

    - Mas o que...?

    O sujeito franzino com o cabelo falhado se espantou enquanto eu liberava o kidou da espada. Quanto mais ela ficava visível seus olhos aumentaram até estar bem arregalados quando viu a zanpakutou no meu punho.

    - Quem foi que te mandou? Se responder logo, não vou te eletrocutar.

    Para provar o que estava dizendo apontei a espada para ele, fluindo o hadou pela lâmina até a ponta. Ele empalideceu com os choques de energia a centímetros do seu peito e estreitei os olhos nervosa.

    - Diga.

    KARIN POF

    HITSUGAYA POV

    Pela parte da tarde Hirako havia me chamado outra vez no 18º posto médico. Matsumoto ficou curiosa sobre o recado, mas me mantive quieto, a deixando responsável pelo quartel até eu voltar. Pelo meu semblante sério sequer insistiu no assunto e segui até aqui encontrando o capitão num corredor orientando algumas enfermeiras. Ao me ver as dispensou fazendo um gesto para que o seguisse.

    Não me impressionei quando me levou outra vez ao necrotério. Estava vazio tanto de funcionários como de corpos.

    - Analisei as amostras finalmente e não vai acreditar.

    Me aproximei curioso.

    - O que foi?

    - Nas provas que tirei havia resquícios de um tipo de reiraku. O mesmo encontrado nos soldados doentes e comatosos das missões.

    Pestanejei ao ouvir e Hirako assentiu sério.

    - Exato. A coisa que você viu é a mesma razão da dor de cabeça que estamos passando.

    Estreitei o olhar. Ele estava muito absorto nesse assunto.

    - Diga o que está pensando.

    Me encarando de soslaio, Hirako cruzou os braços por dentro das mangas do haori.

    - O que disse sobre Kurotsuchi esconder fatos concordo plenamente. Creio que tenha haver que essa energia espiritual estranha. Ele estava muito interessado com os corpos dos soldados da missão fracassada.

    - Acha que ele sabe o que é?

    Ele quase riu.

    - Tenho certeza. – levantando o olhar Hirako me encarou sério – Sugeri que participasse da autopsia e ele negou veemente. Depois flagrei noite passada um shinigami seu tentando invadir esse lugar.

    O sorriso debochado deixava claro que não resolveu o problema na conversa.

    - O que descobriu?

    - Kurotsuchi anda passando muito tempo no seu laboratório particular. Há semanas mal dá as caras nas outras dependências do Departamento Tecnológico. Suspeito, não?

    Estalei a língua desviando o olhar. Esse demente...

    - Se essa crise continuar ele ainda não dirá nada. E existe outro problema.

    - Como assim?

    - Karin fugiu do Posto Médico Geral.

    - Sim, eu soube. O que isso tem haver?

    Reprimi um suspiro.

    - Ainda não sei.

    O que me disse ontem, principalmente sobre o que aconteceu naquele poço não poderia ignorar. Hirako estava atento às minhas expressões pelo visto, pois logo franziu o cenho desconfiado.

    - Está escondendo algo.

    - Não exatamente.

    - Então o que...?

    - Hitsugaya taichou!

    Encaramos as duplas portas brancas em tempo de Abarai entrar ofegante por elas. Uma enfermeira estava atrás dele, o rosto cheio de culpa pelo tenente nos ter interrompido.

    - Gomenasai, capitão. Mas ele não quis me ouvir...

    - Está tudo bem. Pode ir, Hana-chan.

    Com um rubor no rosto a mulher saiu nos deixamos à sós. Encaramos Abarai enquanto o mesmo recuperava o fôlego. Suas vestes estavam um pouco molhadas, sinal que esteve sob chuva de outrora. Foi quando reparei que estava pálido. O que será que aconteceu?

    - Diga Abarai.

    Hirako parecia impaciente e engolindo em seco, o tenente nos encarou sério.

    - É melhor que venham comigo.

    /////////////////////////////////////////////////////////////////////

    - O deixei amarrado aqui dentro.

    Hirako e eu trocamos um olhar.

    - “Amarrado”?

    O louro debochado duvidou enquanto relanciei os olhos ao redor. A vila pequena estava deserta. Apenas poças d’água no chão de terra se faziam presentes. Depois de dizer aquilo, Abarai nos guiou até essa vila em Rukongai. Ele não disse sobre o que queria nos mostrar, entretanto, o ar carregado e pálido do seu rosto mostrava o quanto era sério.

    A porta se abriu num rangido deixando o sol poente entrar na moradia escura. No centro dela e preso ao pilar central, estava um sujeito encapuzado e sentado no chão. Ele respirava rarefeito, murmurando algo inaudível, porem no instante que entramos aqui notei a fraca reiatsu que emanava.

    Não é possível.

    - Eu o encontrei aqui. Estava assassinando os moradores dessa parte do distrito Rukon e atacou meu parceiro. Já está hospitalizado, mas..

    Seus olhos tremiam confusos igual aos meus e de Hirako. O capitão encarava o sujeito sentado no chão tão chocado como eu.

    - Abarai que tipo de brincadeira é essa?

    - Eu não sei, senhor.

    - Mas o portão se fechou! Que diabos ele faz aqui?!

    Histérico, Hirako apontava para o homem no chão alheio a confusão ao redor.

    - Isso porque ele ficou para trás quando o mesmo se fechou.

    Olhamos para a voz, em tempo da pessoa sair das sombras e respirando fundo estreitei o olhar. O Arrancar pálido como giz de vestes brancas e esfarrapadas nos encarava apático sem se importar com a desconfiança nítida. Os olhos verdes ao nos enfrentar eram inflexíveis.

    - Ele não pode ir embora.

    De fato, seu portão só pode ser aberto no Mundo dos Vivos.

    Esse era o togabito que ficou para trás quando o portão se fechou e eu o capturei trancando-o na Prisão Central. Era isso que estava me inquietando. Como para evidenciar a gravidade da situação, o choramingo do Pecador ficou mais baixo no silêncio, ao ponto que ouvimos um estalo. Vi um pedaço branco cair do seu rosto para o chão, se despedaçando. No instante seguinte, um coro de sons graves ecoou vibrando pelo ar, o mesmo tremulando com a reiatsu nociva e deturpada.

    O grito de dor do togabito me deixou arrepiado, suando frio enquanto nos quatro assistíamos tensos de choque as correntes do Inferno aparecerem por um instante o rodeando e então sumirem junto ao coro.

    HITSUGAYA POF


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