Lua de Sangue

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    18
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    Capítulo 17

    Lua de Sangue

    Hentai, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência

    Boa Leitura.

    Meu celular começou a tocar, me fazendo dar um pulo da cadeira pelo susto que levei, estava distraída demais com minhas teorias confusas sobre minhas possíveis descobertas. Meu corpo relaxou e meu peito se arqueceu quando eu vi que era Sasuke que me ligava. Não pensei duas vezes antes de atender, e fiz o possível para que a minha voz não demonstrasse o quanto eu estava desesperada por ele.

    - Oi.

    - Estou com saudades. - ele disse, fazendo com que um frio subisse em meu estômago, e sentir aquele calorzinho em meu peito que vinha através da linha invisível que nos conectava.

    - Eu também, muita. - prendi a respiração por um segundo enquanto meus olhos se fechavam. Eu tentava visualisá-lo em minha mente. - Eu sinto muito por hoje e por você não chegar perto.

    - Não se preoculpe com isso, eu entendo.

    Abri meus olhos e soltei todo o ar, eu podia sentir a sua presença próxima, como se ele estivesse perto de mim.

    - A Tsunade pensou em tudo, eu também fui pega de surpresa... quer dizer... eu poderia ter evitado... não fui tão esperta...

    - Sakura - ele me interrompeu. -, fique calma. A culpa foi minha, eu vacilei.

    - Não! - balancei a cabeça para os lados, como se ele estivesse ali para poder ver. - Você não tem culpa de nada.

    - A culpa foi minha sim. Eu sei disso, você sabe disso, e Tsunade també. - ele deu uma pausa. - Agora o jeito é esperar e fazer a coisa certa.

    - Você fala como se fosse tão fácil, como se você não estivesse sofrendo.

    Eu tentava entender como ele conseguia permanecer tão calmo com aquela situação, pois eu estava uma pilha. Pensei em todas as alternativas das coisas darem errado, e a minha má sorte voltar a reinar.

    - Não diga isso! Os deuses sabem o quanto está sendo difícil para mim, o quanto estou me segurando para não fazer uma besteira. Você não tem ideia do quanto é agoniante não poder sentir o seu cheiro, ou tocá-la.

    Mordi o lábio, sentindo suas palavras atravessarem cada poro do meu corpo, fazendo meu coração sobresaltar nos disparos.

    - Só temos que esperar alguns dias - sorri num tom debochado sofrido. -, dias que serão longos e sofridos. Não usarei mais o perfume depois que a lua cheia passar.

    - Mas mesmo assim, o cheiro do acônito irá prevalecer por alguns dias em sua pele, ocultando seu cheiro e me impedindo de aproximar de você.

    Não pude evitar que meus olhos arregalassem com aquela pequena e irritante revelação. Tsunade realmente não estava brincando, ela havia pensado em tudo.

    - Que droga. - chiei totalmente chorosa. - Me desculpe por isso.

    - Eu já disse que a culpa não é sua. - sua voz grossa e rouca me repreendeu. - Logo irei comunicar meu pai e concertar toda essa merda de uma vez. Não quero dar motivos para Tsunade levar você para longe de Konoha.

    - Eu fugiria na primeira oportunidade para te encontrar.

    Escutei seu sorriso e aquilo me derreteu por completa. E sim, eu estava loucamente apaixonda por Sasuke.

    - Gostei de ouvir isso, me conforta para não mandar logo um foda-se para todos e agir por impulso.

    Sorri, mordendo o lábio, sentindo meu coração bater mais forte. Meu corpo estava todo relaxado na cadeira.

    - Você é louco. - sussurrei, gostando de sua loucura.

    - Louco por você. - ele disse, com um tom galante em sua voz. - O que está fazendo?

    - Fazendo o meu dever de casa de bruxa. - respondi, voltando em órbita e lembrando do que eu havia descoberto, bom, quase isso.

    - Estudando? Vai se tornar uma bruxa poderosa se dedicando desse jeito.

    Sorri.

    - Tavez um dia, está muito longe de me tornar uma bruxa poderosa. Sou um desastre. O que você está fazendo?

    - Estou do outro lado da rua olhando para a sua janela.

    - O quê?

    Saltei da cadeira de uma vez, surpresa o bastante com o que ele havia dito. Corri até a minha janela, e pude vê-lo pelo vidro embaçado por gotículas de chuva que caía naquele final de tarde.

    Abri a janela um pouco estabanada e eu pude vê-lo melhor. Realmente ele estava do outro lado da rua, com as costas para a floresta e usava somente uma camiseta preta e uma bermuda da mesma cor. Eu estava meio que embasbacada e sorrindo como uma idiota, sentindo as reações que a sua presença - mesmo que longe - fazia em mim.

    Ele olhava em minha direção com um sorriso de canto, segurava o celular no ouvido, suas roupas totalmente molhadas.

    - Seu louco, saia dessa chuva antes que pegue um resfriado. - a minha intenção era de sair de casa e ir até ele e o trazer para dentro, mas eu não podia.

    Consegui visualizar seu sorriso se transformar em debochado e sua risada soou pelo celular.

    - É mais fácil as nuvens virar algodão do que eu pegar um resfriado.

    - Convencido. - fiz biquinho. - Mas nem sempre você vai ter essa sorte.

    Sentia as gotas da chuva misturado com aquele vento enjoado e frio bater em meu rosto, mas não me importei.

    - Minha saúde é de ferro, Sakura. Não sei qual foi a última vez que fiquei doente... - ele deu uma pausa. - Acho que nunca fiquei doente.

    - Eu queria ter a sua sorte.

    - Agora eu que te peço para fechar a janela antes que se resfrie. - propôs ele, sua voz aveludada causava arrepios em minha nuca.

    - Eu estou bem aqui.

    Só o fato de poder vê-lo, acabava com um pouco da ansiedade que eu sentia. Parecia que havia passado semanas sem o ver, e isso me deixava por algumas vezes surpresa comigo mesma, e me perguntava como eu havia nutrido um sentimento poderoso por aquele garoto em tão pouco tempo. Mas também tinha conciência de que trinta por cento do que eu sentia vinha de Sasuke.

    Ele também estava ansioso, ele também queria me ver.

    Ficamos um tempo nos fitando, o silêncio era nítido entre a gente, eu só escutava o som de sua respiração misturando-se com o som da chuva.

    Que vontade de sair de casa e ir até ele e o abraçar com todas as minhas forças, o beijar com toda a minha vontade, dando o meu melhor. Mas as coisas não eram assim tão simples, nós estávamos arcando com às consequência de nossos erros. Nós estávamos tentando andar sobre as regras propóstas pelos adultos.

    Isso era uma droga.

    E por falar em adultos, havia lembrado de minhas suspeitas sobre possíveis lobisomens na cidade. Aquela poderia ser a hora perfeita de tirar isso a limpo, Sasuke era a melhor pessoa para isso. Mas iria com cautela, para eu não pagar de idiota por conclusões precipitadas e ridículas.

    - Eu posso te fazer uma pergunta?

    - Manda.

    Umedeci os lábios e me esforcei para que a minha voz saisse desinteressada:

    - Além de você, a Karin, o Naruto e o Sai... ahn, tem mais de vocês... dá sua espécie na escola?

    - Claro. - ele respondeu sem exitar. - Caso não tenha percebido, aquela é a única escola de Konoha.

    - Entendi. - dei uma pausa, tentando procurar as palavras certas. - E atuando como professor?

    - Também.

    - E o senhor Sarutobi?

    - Ele é um de nós.

    Mesmo tendo uma desconfiança, não pude deixar de ficar surpresa com aquilo. Realmente as minhas suspeitas estavam certas, o perfume de acônito o denunciou. E agora parando para pensar, entendia quando o senhor Sarutobi mencionou o meu sobrenome materno com certo interesse, ele sabia o tempo todo quem eu era.

    Ele sabia que eu era uma bruxa.

    A questão agora era Gaara, ele também havia sentindo os efeitos do meu perfume, havia tido as reações. Será que ele também era? Fico confusa por nunca o vê-lo junto aos outros licantropos, e Sasuke tinha uma antipatia enorme por ele, e lembro-me que alegou uma vez para mim que sentia algo estranho nele.

    Mordi o lábio, e escutei a voz de Sasuke do outro lado da linha:

    - Você percebeu? - ele perguntou, fazendo-me voltar minha atenção para ele.

    - Acho que sim. - murmurei. - Todos vocês moram naquela vila ou tem mais de vocês morando pela cidade?

    - Todos moramos na vila, como uma verdadeira alcatéia que somos.

    - Hm.

    Agora que fiquei mais confusa, Gaara não morava na vila. Eu tinha que sondar mais.

    - Tem mais de uma alcatéia nessa cidade?

    Mesmo de longe eu pude ver suas sobrancelhas franzindo.

    - Sakura, duas alcatéias não reside no mesmo lugar. Konoha pertence a minha alcatéia por vários e longos anos.

    - Ah... - mordi o canto de minha boca, tentando achar uma lógica para tudo aquilo. - E se por acaso um lobo, que não seja de sua alcatéia, tivesse nascido e morasse aqui em Konoha sem que vocês saibam?

    - Impossível. Nenhum membro Lycan entra em território de alcatéia em que ele não faça parte sem uma permissão. Isso é proíbido, e temos permissão de matar o invasor

    Prendi a respiração só com a menção da palavra "matar". Quer dizer, mesmo que seja um lobisomem ele ainda era uma pessoa, os lobos que infrinjam as regras eram pessoas, e matar eles era errado. Aquilo era crime.

    Aqueles pensamentos estavam me levando para um outro lugar, em uma possível pergunta interna sobre Sasuke ter matado alguém.

    - Por que tantas perguntas? - sua pergunta me tirou de meus devaneios, e joguei aqueles pensamentos para o fundo de minha conciência.

    Não quero pensar naquilo.

    - Eu, ahn... só estou curiosa, só isso. - me atrapalhei nas palavras, e me odiei por isso. - Estava fazendo umas pesquisas sobre a sua espécie na internet... e fiquei curiosa para saber.

    - Nem tudo que está na internet é verdadeiro.

    - Já estou ciente disso.

    - Mas para acabar com a sua curiosidade, nenhum membro Lycan vive sem fazer parte de uma alcatéia, isso também vale para aqueles que preferem viver como solitários. Pois quando temos nossa primeira transformação, nós assinamos um código de honra com a alcatéia que iremos pertencer, e juramos lealdade para a Mãe Lua. Isso vale também para os meio sangue. Por isso que eu digo que é impossível um licantropo viver escondido sem esse juramento, sem que nós percebamos.

    - Hm.

    Agora que eu estava mais confusa ainda a respeito de Gaara, se ele fosse mesmo um lobo Sasuke saberia, não é? Mas por que ele ficou estranho quando eu me aproximei dele? Será que era só uma coicidência? Apesar que Gaara não tenha a mesma temperatura corporal que Sasuke, ele era normal.

    Um uivo soou ao longe, me fazendo voltar minha atenção para Sasuke que estava com a cabeça virada para a floresta, mas logo voltou a me fitar.

    - Eu tenho que ir.

    - Tudo bem.

    - Qualquer coisa me liga.

    - Tá. - murmurei baixinho, vendo-o dar as costas para mim e pular no pequeno barranco que levava a floresta e sumindo do meu campo de visão

    Ainda fiquei observando a floresta mais verde por causa do céu que ficava escuro. O vento frio junto com os respingos da chuva batiam em meu rosto, gelando meu nariz, assim como todo o meu corpo.

    Você é fraca, e inútil.

    A voz de Hinata ainda ecoava em minha cabeça, me fazendo fechar os olhos com força. Realmente eu era uma inútil, eu não estava honrando o meu sobrenome Senju. Eu não fazia nada para mudar isso, e mesmo que eu mostrasse alguma fobia no começo, eu me desinteressava no final...

    O som do Jeep soava lá fora, Tsunade havia chegado do trabalho. Recolhi meu corpo para dentro e fechei a janela. Em seguida saí do quarto e desci as escadas na mesma hora que minha avó entrava em casa, retirando o seu blazer.

    Terminei de descer o último degrau, fazendo com que ela me notasse.

    - Olá, querida. - sorriu, depositando as chaves no grampo que havia na parede ao lado da porta. - Nossa, ainda bem que cheguei antes que a chuva ficasse mais forte.

    - Vó - parei a sua frente, me sentindo determinada, atraíndo sua atenção para mim. -, eu quero que a senhora me ensine tudo.

    Suas sobrancelhas franziram lentamente, acho que estava tentando entender do que eu estava falando.

    - Tudo o quê?

    - Tudo sobre a minha natureza... tudo sobre o que eu presiso saber para ser uma bruxa.

    A surpresa inicial de Tsunade pareceu esvair na medida que ela processava o que eu havia dito. Aos poucos um pequeno sorriso se abria em seus lábios.

    Aquilo era tudo o que ela queria ouvir de mim, eu mostrando interesse em abraçar de vez quem eu era de verdade. E eu estava disposta a fazer isso.

    - Que bom, querida, que esteja decidida em saber sobre a sua natureza. - ela sorria, colocando uma mão em meu ombro. - Irei ensinar tudo o que estiver em meu alcance, mas tudo vai depender de você e da sua dedicação e de seu interesse.

    - Eu estou interessada, agora mais do que tudo.

    Seu sorriso se alargou mais, os olhos castanhos brilhando de orgulho.

    - Você não sabe o quanto me deixa feliz em ouvir isso. - ela me abraçou, e não deixei de retribuir. - Mas eu posso tomar um banho e comer primeiro?

    - Claro. - forcei um sorriso, nos separamos em seguida.

    - Tudo bem. - ela piscou para mim, totalmente humorada e começou a caminhar até as escadas, mas parou com o seu pé no primeiro degrau, e me fitou. - Mas antes de tudo, irei prepará-la para o ritual que está quase em cima. Tem muitas coisas para te ensinar.

    Apenas assenti com a cabeça, concordado, e ela voltou a subir as escadas.

    Hinata não havia dito aquelas coisas grosseiras para me magoar, ela estava abrindo os meus olhos para a realidade. Eu tinha que mostrar interesse e me dedicar mais, ser mais esperta e não deixar ninguém me passar a perna.

    Não iria tocar no assunto do acônito com Tsunade, vou deixar quieto, mas em troca ficarei mais ciente e atenta as suas atitudes para não ser pega desprevinida novamente.

    Naquela noite depois que jantamos, fui até o porão sinistro com a minha avó. Ela me explicou algumas coisas sobre o ritual e o que eu teria que fazer. Eu só tinha três dias para me preparar, e eu iria me dedicar por completo.

    A terça-feira e a quarta-feira havia sido diferente, não pelo clima que era chuvoso e frio, mas pelo fato de alguns detalhes que diferenciou tudo da rotina que eu conhecia.

    Por começar por Hinata que faltou esses dois dias. Eu estava meio que preoculpada e curiosa pela causa de sua ausência. E mesmo ela me tratando como se eu fosse um nada, eu tinha um coração mole o suficiente que não conseguia não me preoculpar com ela, principalmente por saber que ela passava por problemas.

    Gaara também era outro, ele não falou mais comigo desde o seu mal-estar na segunda-feira. Nem nos intervalos ele se juntava comigo e as meninas. E isso era meio que estranho. Já havia descartado a possibilidade dele ser um lincantropo, principalmente quando sondei sobre ele com Tsunade e descobri que não havia nada demais. Aquilo era coisa da minha cabeça. Mas ainda sim, iria o abordar quando o visse e iria perguntar o que estava acontendo.

    Mas o ponto chave que diferenciava aqueles dois dias da minha rotina era a falta terrível que Sasuke fazia para mim. Parecia que havia arrancado um pedaço do meu corpo, e que eu só sobrevivia com uma só metade, era agoniante.

    Eu sempre o via nas horas dos intervalos com seus amigos, e nas aulas de matemática ele sentava em outro lugar, longe de mim e do meu cheiro venenoso.

    Nos comunicamos pouco nesses dias, e mesmo eu querendo prolongar o assunto, eu evitava. Sabia que ele estava sentindo muito a minha falta, eu sentia isso, mas não podia fazer nada. Só esperar.

    Me mantive focada cem por cento nos preparativos do ritual. Li alguns livros que haviam no porão sobre controle de equilíbrio emocional, códigos e línguas nativas da Polônia. Orações para os deuses em busca de força, sabedoria, equilíbrio... Fiz uma pesquisa sobre ervas, plantas, flores, pedras, amuletos, fetiços, porções e entre outras coisas.

    Posso dizer que esses dois dias aprendi muitas coisas, e o que mais me surpreendeu era o fato de quanto mais eu aprendia e descobria as coisas, mais a minha curiosidade era aguçada a saber mais. Eu não tinha a mínima ideia que esse mundo de bruxas que eu estava entrando e descobrindo aos poucos pudesse tão interessante.

    Descobri que a natureza era uma grande aliada - Tsunade havia dito isso -, mas não havia dado tanta importância. É dela que nós bruxas retiramos suas forças e os direcionamos para onde precisam da ajuda. Também aprendi que a natureza é grande demais, é bruta. Só conseguimos mexer com uma pequena parcela, o que nós aguentamos o que precisamos.

    E pela primeira vez, eu sentia interesse em saber mais sobre a minha origem e o país de meus descedentes. Tsunade também percebeu que eu estava levando a sério, ela parecia mais confiante em explicar as coisas.

    E assim finalmente chegou quinta-feira, o grande dia. Não só para mim como também para os cientistas de plantão que deveriam está ansiosos por verem um dos fenômenos raros da natureza.

    O tempo não estava chuvoso, mas as nuvens brancas impediam que o sol saisse. Eu não fui para escola, e Tsunade havia colocado uma de suas folgas atrasadas para hoje. Passei a manhã toda deitada na cama, tentando me manter o mais calma possível, mas na verdade eu estava uma pilha de ansiedade.

    No começo da tarde eu saí do quarto e fui tomar um banho, e Tsunade preparou um outro banho com flores de alfazema. Ela disse que era para equilibrar as minhas energias e deixar meu corpo limpo, purificado e harmonioso. Admito que fiquei bem melhor depois do banho, eu tinha que tomar mais desse banho.

    E agora eu estava no porão com a minha avó de um lado para outro, procurando uma garrafa de um vinho que ela havia preparado dias atrás para hoje. Faltava algumas horas para o ritual, e isso fazia com que um frio subisse em meu estômago.

    - Achei. - ela ergueu seu corpo com uma garrafinha redonda nas mãos e a colocou em cima da mesa. - Essa será a sua bebida depois que você consagrá-la sob a luz da lua.

    - Hm. - peguei a garrafinha de vidro nas mãos e a fitei mais de perto, não havia rótulo, e o vidro era escuro o suficiente para não ver o líquido. - Eu terei mesmo que beber isso?

    - Claro - ela disse, voltando para uma estante com gavetas que ficava do outro lado daquele porão. -, esse não é um vinho qualquer, ele tem artemísia, uma erva que traz energias e afasta as ondas de negatividade.

    Ela voltou com um livro grande e grosso com capa de couro marrom-escuro nas mãos. E continuou, agora me fitando:

    - Como eu lhe expliquei, o ritual é para receber a luz da lua vermelha que irá purificar seu espírito, limpar sua alma e fortalecer o seu corpo. Você vai ficar mais forte, e mais senssível as coisas sobrenaturais - ela levantou um dedo para cima. -, e não tenha medo do que ver ou ouvir. Lembre-se, o medo é a fraqueza de uma bruxa.

    - Eu sei, mas é meio que difícil as vezes.

    - É difícil, mas o medo pode ser controlado, você tem que ter confiança em você mesma e em tudo o que faz, assim tudo vai dar certo.

    - Eu vou tentar. - voltei meus olhos para o livro em suas mãos. - Que livro é esse? - parecia com aquele que ela tinha.

    - Esse é o seu grimório. - ela estendeu o livro para mim.

    Ergui minhas mãos e peguei o livro grande e grosso, sentindo a textura da capa de couro, com bordas em relevo com quatro pedrinhas vermelhas, uma em cada lateral e um pentagrama de prata entalhado no meio.

    - É um pouco pesado. - comentei, abrindo a capa, as folhas eram amareladas e limpas, sem nada escrito.

    - Sim, esse livro é o maior tesouro de uma bruxa. - ela começou, fazendo minha atenção ser voltada para ela. - É aí que você vai fazer anotações, descrever magias e como conjurá-las, símbolos, rituais, descrição sobre entidade, criação de objetos, orações... Enfim, é como se fosse um diário, você terá que guardá-lo bem, pois uma coisa dessa extremura caíndo em mãos erradas, dependendo do que tem nele, pode causar problemas.

    - Entendo.

    - Por isso antes de mais nada, quando for fazer alguma anotação no grimório pense bem em qual forma de descrição você vai escrever.

    Franzi o cenho.

    - Como assim?

    - Em nenhum grimório você vai encontrar um fentiço de um jeito fácil que você entenda, ele vai ser descrito com símbolos combinados de modo com a frase e a lógica. A maioria usa um dialeto diferente, uma outra língua com códigos descritos para que assim, se caso o grimório caia em mãos de pessoas que não entenda os significados, nada vai acontecer.

    - Ah, agora entendi.

    - Isso fica a seu critério, e do modo como você vai achar melhor para você mesma entender.

    Assenti com a cabeça, guardando qualquer informação que ela soltava. Tsunade remexeu numa gaveta daquela mesa e em seguida me entregou uma espécie de faca

    - Um punhal? - questionei, segurando o grimório com a mão esquerda e pegando o punhal de dois gume com um cabo preto e um pentagrama entalhado na lámina prateada entre o cabo.

    - É um athame. - ela respondeu. - Um punhal sagrado, ultilizado para traçar círculos ou emblemas mágicos no ar, para direcionar energia, para controlar e banir espíritos, em rituais e fentiços. Quanto mais você o usar, mais forte ele se torna.

    - Nossa! - voltei meus olhos para o athame em minha mão.

    - Você irá usá-lo hoje no ritual.

    - Tá. - disse, erguendo os olhos para ela.

    As horas passaram-se rápido, e logo já estava na hora de partir. Tsunade havia preparado um lugar perfeito na floresta que dava para ver claramente a lua, e longe o suficiente das casas, para que nada de suspeito atraísse a atenção de curiosos.

    Me preparei, usava agora somente um hobie de ceda preto, e o cordão de cornalina no pescoço e mais nada. Desci as escadas encontrando Tsunade me esperando na sala com uma sacola com os igredientes que eu iria precisar.

    Coloquei meus tênis e saímos de casa. Eram oito e vinte quatro da noite, faltava menos de duas horas para o evento da noite, e por incrível que pareça, o céu estava totalmente límpido e com estrelas, mas isso não ocutava aquele friozinho enjoado da noite. Principalmente quando eu estava completamente nua - somente com o hobie me cobrindo - andando na rua.

    Verificamos se não havia nenhum vizinho nos olhando, mas o local estava deserto. Atravessamos a rua e entramos na floresta. Andamos por volta de meia hora mais ou menos, minha avó parecia saber o caminho, apenas a segui, olhando para os lados enquanto iluminava a área com a minha lanterna. Os barulhos de bixos escondidos que habitavam ali, sons típicos de florestas, me deixava hesitante, mas procurei me acalmar.

    A natureza é a sua aliada. Nada de mal vai te acontecer. Eu dizia para mim mesma, tentando me confortar com isso, mas era difícil.

    Depois de alguns minutos finalmente chegamos a pequena área aberta que Tsunade havia dito. A lua cheia iluminava tudo ao redor com a sua luz azul, e isso era bom, facilitava o nosso trabalho em preparar as coisas.

    - Você sabe o que fazer, né? - vovó perguntou, retirando as coisas da sacola.

    - Sim. - minha resposta soou firme.

    Ela assentiu com a cabeça e começamos a preparar tudo. Tsunade me ajudou a desenhar um grande pentagrama perfeito de sal, cada ponta coloquei uma vela vermelha. Ela derramou a mistura do vinho com artemísia dentro do cálice de prata e me entregou, o deixei dentro do pentagrama.

    Sentido-me envergonhada retirei o hobie preto e os tênis, ficando completamente nua. Entreguei minhas roupas para Tsunade, ela me entregou o athame.

    Respirei fundo e dei uma olhada para os lados, conferindo se não havia ninguém. Meus olhos voltaram-se para o céu e pude ver uma pequena borda vermelha surgindo na lua.

    Havia chegado a hora.

    Segurei o athame com a minha mão direita e fiz um círculo mágico - comigo permanecendo dentro dele, como Tsunade havia me ensinado - em volta do pentagrama de sal. Em seguida entrei no pentagrama, com cuidado para não pisar nas linhas de sal, fiquei no meio, junto com o cálice de prata que estava no chão. Em seguida, fiz outro círculo mágico menor, me rodeando no centro do pentagrama. Eu agora não podia mais sair dali, até a lua voltar ao normal.

    Olhei novamente para a lua, ela estava tomando uma coloração avermelhada aos poucos. Meu coração batia muito forte, eu estava muito tensa, mas eu tinha que me acalmar.

    Toquei no meu medalhão de cornalina e fechei meus olhos por um segundo. Permiti-me fazer um exercício de controle de respiração. Inspirei todo o ar que eu podia e o soltei lentamente, deixando durar mais tempo a saída da respiração quando inspirei. Fiz isso umas trêz vezes seguida e me senti mais calma.

    Abri os olhos, e comecei a conjurar as palavras:

    - Et rubrum lux ex luna tingitur, toto corpore in quo spiritus egit.

    As velas em cada ponta do pentagrama acenderam-se, todas de uma vez. Continuei:

    - Noctis lucis caelum, quod fit in carceribus, exilio omnibus infirmitatibus meis, in incertum: ut in me hodie incedet.

    Os dois círculos mágicos invisíveis ficaram contornados com uma linha azul, tornando-se agora visíveis.

    - Sanguinis virginem spero virium robore fortitudinis meae. - segurei firme o athame e fiz um círculo na palma de minha mão esquerda, e deixei o sangue, meu sangue de virgem cair no círculo. - Non possum non opus meum sine intermissione videbimus. - os dois círculos que eram apenas uma linha azul visível, agora uma luz azul quase que cegante ursufruia dele, envolvendo todo o meu corpo. Era quente, e bom.

    Agachei-me com cuidado, deixei o athame no chão e peguei o cálice de prata, voltando a ficar com a minha postura correta.

    - AEsir, da mihi fortitudinem, da mihi potestatem. - deixei que uma gota do meu sangue caísse dentro do cálice com vinho e artemísia. - AEsir, da mihi sapientiam, dabo in me virtus. - segurei o cálice com a minha mão esquerda e coloquei meu dedo indicador dentro dele, sentindo o líquido misteriosamente quente. - AEsir, defendat malum contra me, ut et in tentationem magicae nigrae. - levei o dedo molhado a minha testa e desenhei um pequeno losango no centro.

    Mordi o lábio com força para não gritar quando senti o líquido queimar minha pele. Algumas lágrimas escaparam pelos meus olhos, com a dor que eu sentia como se estivesse arrancando um pedaço de minha pele.

    Segurei o cálice agora com as duas mãos, ignorando o ardor da palma de minha mão contra o metal, o ergui para o céu, em direção a lua que havia chegado o seu ápice, soltando sua luminosidade vermelha.

    A lua de sangue.

    - Spero quod lux lunae sanguinum, cujus haec mihi omnia fortitudinem meam consilium faciebant opus gloriose.

    Meus olhos fitavam a lua, sentindo a luz vermelha me banhar por inteira. Desci o cálice e o levei a boca e bebi todo o líquido em um só gole, sentindo-o descer queimando por minha garganta.

    De repente, a minha mente ficou toda em branco, e tudo o que eu sentia a seguir era um fogo que me queimava toda por inteiro. Meus gritos agoniantes soavam por toda aquela floresta. Minha coluna entortou-se para trás, me deixando com o meu peito totalmente exposto para a lua, meus olhos arregalados fitando-a.

    Meu corpo queimava, e não conseguia mais movê-lo, e minha conciência estava se esvaindo aos poucos.

    Eu estava queimando. Estava doendo. Eu iria morrer...

    Não sei quanto tempo passou, talvez minutos, horas, não sei. A minha mente estava nublada o suficiente para poder raciocinar direito. Mas percebi a luz azul que irradiava dos círculos mágicos perder o brilho aos poucos, enquanto meu corpo alíviava no fogo que eu sentia.

    Começava a sentir o peso de meu corpo, não estava mais conseguindo mantê-lo em pé. Eu estava extremamente esgotada.

    A lua estava voltando ao normal, e eu estava agora respirando com mais intensidade, a dor estava diminuindo. E mesmo sentindo tudo isso ao mesmo tempo e quase áerea do mundo real, eu pude escutar os berros de Tsunade. Consegui desviar meus olhos para ela que corria em minha direção, seu rosto estava em pânico.

    Em seguida o som de um rugido alto me fez mudar a direção dos meus olhos para o lobo negro que vinha em minha direção com a boca aberta salivando, deixando os dentes grandes e pontudos a mostra. Ele estava quase em cima do círculo mágico que ainda soltava um pouco do brilho azul.

    Não pensei muito, eu ainda estava anestesiada no efeito do ritual, e o que aconteceu a seguir foi rápido demais para eu conseguir processar.

    Murmurei palavra que nem eu mesmo compreendi e em seguida o lobo voou vários metros, atravessando várias árvore, e sumindo do meu campo de visão.

    Eu não tinha a mínima ideia de como eu consegui aquela proesa, mas também não tinha o que pensar naquele momento, pois aquilo foi tudo que eu me lembrava antes de sentir meu corpo cair naquele chão duro e tudo ficar negro de repente.

    Eu havia perdido a conciência.


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