Lua de Sangue

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    18
    Capítulos:

    Capítulo 9

    Aproximação

    Hentai, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência

    Boa Leitura.

    Acordei com o som irritante do despertador do celular. Virei-me para o lado da cama e forcei para que meus olhos se abrissem, sentindo-os arderem com a claridade do dia que ultrapassava as cortinas de renda. Desliguei rapidamente aquele som chato, voltando a ficar deitada na cama, olhando o teto.

    Não havia dormido direito, e nem sabia quando eu tinha pegado no sono, mas sabia que foi tarde, muito tarde. As lembranças de ontem - das coisas que minha avó me dissera -, vieram a minha mente como uma bomba atômica, fazendo minha cabeça doer mais.

    - Meu Deus. ? sussurrei aquelas palavras erguendo meu corpo rapidamente, ficando sentada na cama.

    Minha cabeça girou e quase tombei para trás, mas consegui o equilíbrio na hora. Pus as mãos na cabeça, agarrando meus cabelos quando a ficha finalmente havia caído.

    Aquilo não poderia ser verdade. Tudo aquilo era um absurdo para se acreditar. Era tudo muito surreal. Como é que bruxas e lobos poderiam existir? Parecia que eu havia saído do mundo real e entrado em algum livro de fantasia. Parecia que tudo que eu havia vivido não passasse de um monte de mentiras. Que eu vivi a minha vida toda sem saber quem eu realmente era.

    Bruxa?

    Aquela palavra era estranha para mim. Não conseguia pronunciá-la, eu me sentia esquisita, diferente, quando eu própria me denunciava como uma.

    Respirei fundo, agarrando a raiz dos meus cabelos. Eu estava me sentindo quebrada, destruída, e acima de tudo derrotada. Meu corpo estava cansado, minha cabeça doía, meus olhos deveriam estar com olheiras do tamanho de uma marquise, e tudo por uma simples noite mal dormida com um monte de coisas que havia na cabeça. Parecia que eu iria enlouquecer a qualquer momento. Tudo estava acontecendo rápido demais, não estava conseguindo alcançar o ritmo que a vida estava traçando para mim.

    O dia hoje seria cheio, não estava a fim de ir ao colégio, mas eu não podia faltar às provas, que com toda certeza eu iria me dar mal, já que eu não consegui colocar uma única palavra que havia no caderno na minha cabeça.

    Parecia que o destino estava conspirando contra mim, e para piorar esse dia - que mal começou -, hoje se completava um mês que meus pais morreram. Um mês que eu comecei a minha vida de órfã. Um mês que minha vida começou a desandar, virando de cabeça para baixo.

    Ergui minha cabeça e olhei o porta-retrato cor-de-rosa que estava ao lado de minha cama. Ergui minha mão até ele e o peguei.

    Nele havia a foto de papai e mamãe, eu estava entre eles com uma cara emburrada devido à piada sem graça que papai havia feito com o meus tênis coloridos que não fazia combinação com o vestido preto que eu estava usando.

    Eu me lembrava daquele dia, eu tinha mais ou menos quatorze anos, meus cabelos ainda estavam na cor original, loiro bronze. Era primavera, e estávamos no parque das cerejeiras celebrando o florescimento das Sakuras. Tudo estava muito lindo e muito rosa. Também me lembro de que foi a partir daquele dia que cismei em trocar a cor dos meus cabelos. Claro que no começo mamãe e papai questionaram e me proibiu de fazer aquela barbaridade. Mas eu estava com aquela ideia fixa na cabeça e também queria me renovar, tirar aquela expressão chata e sem graça que eu emanava.

    E foi numa tarde de sexta-feira, depois da escola, que eu e Shion fomos ao salão pequeno que ficava próximo a casa dela, e fiz. Mamãe só faltou ter um treco quando entrei em casa com a cabeça colorida. Eu tinha deixado para trás a Sakura antiga e voltado com uma Sakura nova. Mas só fisicamente, pois emocionalmente eu era a mesma tonta de antes.

    Fiquei uma semana de castigo, e papai me proibiu de ficar perto de Shion, ele alegava que ela era má influencia para mim. Bom, ele não estava errado, pois Shion era uma má influencia. Mas ela era a única que conseguia me entender, a única que me deixava melhor.

    E conforme os dias foram passando, aos poucos eles se acostumavam com o meu novo visual. Papai até comentou que eu fiquei mais bonitinha com o cabelo daquela cor, e passou a me chamar de algodão doce.

    Com mamãe não foi diferente, ela reclamou, e reclamou, mas no final ela cedeu, como ela sempre cedia.

    Eu tinha pais maravilhosos e compreensivos, mas também tinham as caretices deles - como todas as pessoas adultas tinham -, mas eu sabia que no fundo eles só queriam me ver bem.

    E agora eu tinha os perdido.

    Passei o dedo no rosto de mamãe, enquanto sentia meus olhos embaçarem pelas primeiras lágrimas que chegavam sorrateiramente. Seus cabelos loiros e curtos, que contrastavam com seus olhos verdes, destacava seu sorriso lindo. Eu tinha herdado aquele sorriso dela, pois era o que o papai e a vovó falavam. Eu ainda me lembrava do timbre de sua voz firme e ao mesmo tempo doce, como o de Tsunade. Eu tinha aquela impressão de que ela entraria no quarto a qualquer momento com o cenho franzido e pedindo para que eu me levantasse, para não me atrasar para a escola.

    Minha atenção voltou-se para papai e seu jeito brincalhão e bobo, que por várias vezes tirava a mamãe do sério, mas eu sabia que ela amava o jeito extrovertido dele, sempre animando a casa. Seus cabelos castanhos avermelhados estavam mais curtos do que costumava a usar. Seus olhos azuis estavam estreitos e com ruguinhas aos lados por causa do sorriso contagiante que ele dava. Eu o amava tanto, ele era o meu herói, e ainda é.

    Eu não sabia o quanto era bom àquela época. E como diz aquele ditado, a gente só dar valor quando perde, então... eu queria que o tempo voltasse atrás e parasse. Não queria que nada daquilo tivesse acontecido. Eu não queria ter que ficar sozinha no mundo. Era tão... solitário.

    - Eu sinto tanta falta de vocês. - sussurrei baixinho, minha voz saindo engasgada por causa do choro. Mordi o lábio com força, segurando o soluço que teimava em sair.

    Coloquei o porta-retrato no lugar, virando-o para baixo rapidamente. Joguei-me na cama novamente, de cara no travesseiro, quando não conseguia mais prender as lágrimas. Gritei, minha voz saindo abafada enquanto soluçava, meu corpo todo tremia.

    Por que comigo? Porque comigo?

    Eu fazia essas perguntas várias e várias vezes, enquanto sentia o gosto das lágrimas que desciam pela minha garganta. Se eu tivesse o poder de mudar as coisas...

    E ainda tinha aquilo tudo que estava acontecendo. Tsunade soltara uma bomba e me deixou acabada. Não queria que nada disso fosse verdade. Eu tentava dizer para mim mesma que talvez Tsunade pudesse está ficando maluca. Mas lá no fundo, uma pequena vozinha me dizia ao contrário. Eu tinha que me acostumar com essa nova vida, com essa nova eu - que eu não sabia desde ontem -, e tentar me habituar o máximo que eu pudesse.

    Fiquei alguns minutos naquela mesma posição, até que tomei coragem e me levantei. Eu ainda tinha aula e não podia me atrasar.

    Olhei as horas no celular, percebendo que perdi quinze minutos.

    Droga! Desse jeito eu iria me atrasar!

    Movimentando meu corpo morto pelo quarto, peguei minhas roupas no guarda-roupa, e minha mochila que estava jogada no chão, os jogando na cama, e corri até o banheiro com uma toalha na mão. Fiz minha higiene, e dei uma olhada no espelho. E como eu imaginava; minha cara estava horrível. As minhas olheiras estavam quase chegando ao chão, e as marcas de lençol em meu rosto não ajudava em nada.

    Eu estava parecendo um zumbi.

    Suspirei pesadamente e me despi, entrando no box que estava molhado. Minutos mais tarde entrei no quarto, enrolada na toalha, meus cabelos pingando, e meus pés fazendo um molhadeiro no chão por onde eu passava, mas eu não me importei. Sabia que Tsunade iria reclamar. Uma coisa que Tsunade nunca admitia era desorganização.

    Tirei a tolha do meu corpo, deixando minha nudez a mostra. Sequei os cabelos, enrolando a toalha neles em seguida. Vesti-me rapidinho, enquanto fungava e soluçava levemente devido o choro de alguns minutos atrás.

    Penteei meus cabelos, os deixando soltos mesmo. Passei um pouco de corretivos para disfarçar as olheiras, e pinguei uma gota de colírio em cada olho para tirar o vermelhidão do choro.

    A última coisa que eu queria era que Tsunade percebesse que eu andava chorando pelos cantos, mesmo que minha cara destruída denunciasse o contrário.

    Calcei meus tênis e peguei minha mochila e o celular, saí do quarto.

    Deixei a mochila no sofá e fui até a cozinha, vendo como todas as manhãs, Tsunade arrumada com suas roupas sociais e os cabelos presos num coque alto e frouxo. Ela estava fazendo torradas, e o cheio estava por toda a cozinha.

    Revirei minha mente, lembrando que hoje não era o dia que ela entraria tarde no trabalho.

    Meus passos barulhentos a fizeram olhar para mim. Seu olhar era cauteloso, um pouco hesitante para falar a verdade. E diferente das outras vezes, ela não sorriu calorosa assim que viu.

    - Bom dia, querida.

    - Bom dia. - murmurei sentando-me no meu lugar na mesa, fitando os desenhos da toalha.

    - Dormiu bem?

    Mordi o canto da minha boca.

    - O que a senhora acha? - ergui meus olhos para cima, ela colocava as torradas no prato redondo de vidro.

    Ela me olhou por um breve momento, mas desviou os olhos para o que ela estava fazendo. Não me respondeu.

    O silêncio se apossou na cozinha, deixando o clima pesado e sufocante. E nenhuma de nós duas tentava quebrá-lo. Eu tinha um monte de perguntas, um monte de dúvidas, e minha língua coçava para começar a metralhar, mas eu não sabia como começar. Não sabia qual das minhas duvidas era a mais importante, já que todas eram importantes para mim.

    Depois de arrumar a mesa Tsunade sentou-se de frente para mim e começou a comer. Não fiquei atrás e comecei a fazer o mesmo, já que daqui a pouco eu teria que sair para pegar o ônibus.

    - A senhora não está atrasada? - perguntei, minha voz saindo fraca e cansada.

    Ela me olhou.

    - Entrarei um pouco tarde hoje. - deu um gole de seu café. - Te levarei hoje ao colégio.

    Não questionei, apenas assenti com a cabeça, voltando minha atenção para o meu copo de suco de abacaxi quase intocável.

    Escutei um suspiro cansado de Tsunade, mas não ergui meus olhos, apenas mastigava lentamente a torrada como se ela não tivesse fim.

    - Hoje está se completando um mês. - sua voz saiu baixinha mais audível.

    Senti a torrada descer rasgando a minha garganta. Sabia que ela tinha se lembrado, não era atoa que Tsunade estava quieta e cautelosa comigo. Ela tinha a plena consciência de como aquilo era doloroso para mim.

    - Eu juro que eu queria que tudo fosse diferente. - ela começou: - Mas temos que seguir em frente. Sei que é doloroso para você, como está sendo para mim, mas isso é uma prova que o destino nos coloca para nós podermos lhe dar e nos tornarmos mais fortes.

    - Então o destino está sendo cruel comigo. - falei, erguendo meu olhar para ela, sentindo raiva da minha má sorte.

    - Nada que acontece com a gente é por acaso, Sakura. Sempre tem um motivo para tudo.

    Crispei meus lábios, sentindo novamente meus olhos arderem.

    - Motivo para tudo? - questionei a olhando. - Eu não queria essa vida que eu tenho agora. Eu não queria deixar a minha cidade, e muito menos não queria deixar minha casa e nem a minha melhor amiga. Eu gostava da vida idiota e chata que eu tinha... eu odeio Konoha!

    A expressão cautelosa de Tsunade dava aos poucos uma expressão desolada e chateada com aquelas sequências de palavras agressivas que eu jogava em sua cara.

    Uma onda de culpa me atingiu em cheio, fazendo-me arrepender na hora.

    Tsunade desviou seus olhos dos meus, e fitou a mesa, sua boca numa linha reta.

    - Me desculpa! - minha voz saiu rápida e esganiçada.

    Droga! Eu tinha que falar uma grande besteira depois de tudo que ela fazia para me deixar confortável e bem? Sabia que estava sendo difícil para ela ter sua vida mudada de uma hora para outra, assim como estava sendo comigo, e eu não tinha o direito de jogar em sua cara o quanto eu estava insatisfeita com essa minha nova vida.

    - Não sabia que você não estava satisfeita aqui...

    - Não. - a interrompi, fazendo-a me olhar, seus olhos magoados. - Não é nada disso. Eu gosto da senhora, mas eu não... - balancei a cabeça para os lados. -, só não estou conseguindo me acostumar com esse clima frio, e essa chuva...

    - Tudo bem. - ela agora me interrompeu, meu coração se apertou. - Não precisa se explicar, te entendo.

    Não sabia que aquela simples frase fosse me deixar pior do que eu já estava. Eu me sentia um mostro, uma espécie de vilã do mal. Maldita seja essa minha língua grande e essa mania das palavras saírem livremente sem eu perceber.

    O resto do café da manhã passou-se intenso, e eu me remoía por dentro. Não consegui comer mais nada, tinha perdido a fome completamente.

    Saímos de casa em direção ao Jeep verde-musgo que estava estacionado em frente. O clima estava num tom de cinza perolado, o verde das árvores estavam mais vivos enquanto a fina garoa chata caía. Entrei no Jeep e Tsunade sentou-se ao meu lado em seguida, e logo mais, já estávamos virando a esquina de nossa casa.

    O silêncio ainda reinava no carro, cada uma de nós perdidas em seu próprio mundinho interno. Eu queria muito saber o que Tsunade pensava dessa neta ingrata que eu era. E remoendo a minha culpa eu resolvi quebrar o silêncio:

    - Desculpa.

    Novamente o silêncio se apossou, vovó com a atenção focada na estrada. E quando pensei que não adiantava mais tentar e que eu tinha estragado tudo com a minha boca grande, a sua voz soou pelo carro:

    - Eu já falei que está tudo bem. - ela deu uma pausa. - Eu te entendo. Sei muito bem que não é nada fácil para uma garota como você ter a vida mudada de uma hora para outra e vir morar numa cidadezinha pacata como Konoha. Não se preocupe, não estou chateada.

    - Mais eu estou. - declarei, fazendo-a me olhar pela primeira vez desde que entramos no carro, mas sua atenção voltou-se para frente. - Eu sou uma burra por dizer isso, sabendo que a senhora está fazendo de tudo para me deixar bem.

    - Eu já disse que está tudo bem. E vamos encerrar essa conversa fiada.

    Fiquei quieta, pois eu sabia que Tsunade não queria mais tocar naquele assunto quando diz aquelas palavras. Mordi o lábio, apertando minha mochila mais contra o meu peito enquanto olhava a janela ao meu lado. Reconheci os caminhos que eu percorria no ônibus escolar e sabia que estávamos próximos da escola.

    Tsunade parou no sinal vermelho, e naquela hora uma das minhas perguntas que eu queria fazer na cozinha hoje, me veio à cabeça. Aquilo tinha passado despercebido ontem, quando ela me explicava às coisas e só à noite eu pude refletir melhor. Ainda tinha um tempinho e ela poderia me explicar antes que o carro estacione no colégio.

    Virei meu rosto para ela, que ainda mantinha sua atenção nos pedestres que atravessavam a faixa logo na frente.

    - Eu posso fazer uma pergunta?

    Ela me olhou, mas sua atenção não tinha saído do sinal que há poucos segundos mudaria.

    - Claro.

    - O que a Hinata queria com a senhora ontem?

    Ela desviou seu olhar de mim para frente e o sinal ficou verde, ela passou a marcha e acelerou.

    - Ela queria que eu a ajudasse.

    Rapidamente tomei uma posição alarmada, meus olhos não saiam dela.

    - Ajuda? - eu quis saber. - Ajuda para quê?

    Tsunade suspirou pesadamente e me olhou rapidamente de solaio.

    - Hinata está passando por alguns problemas. - ela começou, e franzi o cenho. - Vou explicar melhor, pois pela sua cara você não deve está entendendo nada.

    - Com certeza. - murmurei.

    - Como mencionei ontem, os Hyuuga são um tipo sensível de bruxos. - ela virou à esquerda. - Seus poderes se rebelam muito cedo, e precocemente, quando eles ainda são crianças novas. Os poderes variam de Hyuuga por Hyuuga, e Hinata é um tipo de bruxa que tem o dom de ver o futuro.

    - Ver o futuro? - senti meus olhos arregalarem levemente.

    Tsunade tirou seus olhos da estrada para mim.

    - Sim. - ela respondeu. - Ela não sabe lhe dar muito bem com as visões e isso a deixa perturbada.

    Senti minha boca ficar seca com aquela revelação. Quanto mais eu cutucava aquela história, mais me surpreendia com que as coisas podiam ser tão...

    - A senhora ainda não disse o real motivo, que tipo de pedido foi esse? - eu me sentia agitada, minhas mãos soavam como uma torneira aberta.

    O carro parou de repente, e só agora eu havia percebido que tínhamos chegado ao colégio. Tsunade virou-se, sua atenção agora voltada para mim.

    - Ela queria mais uma dosagem de obsidio.

    Franzi o cenho.

    - Obsidio? O que é isso?

    - É uma porção feita com uma erva chamada verbena que bloqueia os poderes de uma bruxa temporariamente.

    Prendi a respiração, não entendendo onde aquilo me levaria. O que mais eu poderia descobrir?

    - O quê?

    - Verbena é um veneno para nós bruxas. - ela explicou. - Ela bloqueia nossos poderes por um bom tempo dependendo das dosagens que ingerimos, nos deixando inválidas. Uma bruxa não é nada sem seus poderes. Ficamos fracas, frágeis e inúteis. As consequências depois que o efeito passa é muito ruim. - ela apertou suas mãos no volante e trincou a mandíbula, parecia irritada. - Àquela menina está cometendo um grande erro de ficar bloqueando os poderes assim.

    - E por que a senhora ainda dar essa poção a ela, se isso faz mal? - perguntei, não entendendo sua atitude.

    - É difícil vê-la perturbada com as visões. - ela me olhou. - Eu só dou pequenas dosagens a ela, bem fracas para dois ou três dias sem poder. - ela umedeceu os lábios, e fitou a frente. - Nós temos a sorte de sermos de uma linhagem de curandeiros. Acho que está na sua hora, não quero receber notificação de seus atrasos.

    Ela me olhou novamente, apenas assenti com a cabeça.

    - Boa aula. - ela sorriu minimamente.

    - Obrigada. Bom trabalho.

    Ela balançou a cabeça positivamente, e saí do carro sendo recebida pela fina garoa. Andei com passos rápidos para a entrada da escola, podendo escutar o sinal tocar. Lá dentro estava cheio e quente, e era bom, odiava o frio.

    Entrei na minha sala de biologia, o professor estava sentado em sua cadeira, enquanto olhava um catálogo de alguma coisa. Lee sorriu para mim assim que me viu, ele estava sentado em seu lugar. Apenas forcei um sorriso, e caminhei até meu lugar que estava vazio.

    Os alunos falavam e não pude deixar de escutar a conversava de um grupo de alunos na mesa ao lado. Eles estavam planejando seu final de semana que se aproximava, já que hoje era quinta-feira.

    O professor levantou-se para começar sua aula, na mesma hora que Hinata Hyuuga atravessou a porta da sala. Senti-me levemente tensa enquanto ela se aproximava com seus passos firmes até seu lugar, ao meu lado.

    E diferente das outras vezes, seu rosto estava sereno, não havia aquela expressão fria e muito menos melancólica. Será que é por causa da porção de verbena que ela havia tomado para bloquear seus poderes? Será que eles eram tão ruins assim para ela tomar uma decisão tão drástica assim, sabendo das terríveis consequências que ela teria daqui a alguns dias?

    Ela sentou-se ao meu lado, e como de todas às vezes, ela me ignorou, nem na minha cara olhou. O que eu queria afinal? Que ela falasse comigo depois de nossa pequena troca de palavras que tivemos em minha casa ontem? Ela me odiava e eu já tinha a plena consciência disso. Mas era estranho saber seus segredos e problemas, enquanto a pessoa nem ao menos vai com a sua cara.

    A aula passou se arrastando, e paguei mico quando o sr. Sarutobi chamou meu nome para responder a pergunta que ele havia feito para mim da matéria que estava no quadro. Ele soube que eu não estava prestando atenção e que estava no mundo da lua. Naquela hora eu queria cavar um buraco e me enterrar no fundo. Minhas bochechas ficaram vermelhas enquanto ouvia pequenas risadas de alguns alunos.

    Como eu odiava ser o centro das atenções.

    Não satisfeito, o sr. Sarutobi fez a mesma pergunta para a minha parceira ao lado. E para a minha surpresa e a de todos na sala, e até o próprio professor, ela respondeu. Ela respondeu um simples Não Sei curto e grosso. As atenções agora foram todas para ela, que não parecia se importar, voltando a copiar o que estava escrito no quadro como se não tivessem falado com ela.

    Reprimi uma pequena risada e abaixei minha cabeça, ficando na minha. Eu podia escutar os chiados da música gótica que ela escutava nos fones ocultados pelo capuz, seus cabelos pretos, longos e lisos estavam para frente e ajudava também.

    Eu quis puxar conversa com ela por algumas vezes, sei lá, o fato de saber coisas sobre ela me dava alguma espécie de crédito. Mas eu preferi ficar quieta, eu tinha receios dela me tratar com grosserias, e hoje eu não estava com emocional para levar patadas.

    Depois que as aulas terminaram, eu fui para a aula de história com Ino, que já estava me esperando no corredor. Ela estava mais alegre e serelepe que o normal, e tudo pelo fato de que hoje ela iria se ver livre da bota ortopédica no pé. Ela falava e falava, mas só meu corpo estava presente e eu só dizia ?Hm? e ?Uhum? totalmente no modo automático. Minha mente novamente viajava pelas coisas que Tsunade me falou ontem e hoje. Tudo parecia louco demais para se acreditar.

    As aulas se passaram, assim como a próxima e a de geografia, onde fiz a prova que eu tentei estudar sem sucesso. Eu tinha certeza que eu tinha ido mal. Não tinha conseguido resolver as questões todas, e deixei duas em branco. Completamente eu tiraria um belo e redondo zero.

    O som estridente do sinal do intervalo tocou, e me arrastei para fora da sala. Não estava com fome e muito menos estava a fim de ficar com os outros no intervalo. E foi por isso que desviei minha rota traçada todos os dias até o refeitório. Mas no meio do caminho dou de cara com Ino. Pensei em passar direto e fingir que não tinha a vi, mas ela tinha me visto primeiro e agora vinha em minha direção.

    Parei e ela me alcançou, seu cenho levemente franzido.

    - Você estava indo para onde? - ela quis saber. - O refeitório é por outro lado.

    - Ino eu não vou para o refeitório... ahn... eu quero ficar sozinha.

    Ela me fitava como se eu fosse alguma espécie de alienígena raro.

    - Aconteceu alguma coisa? Eu percebi que você estava meio distante hoje. Está mais quieta que o normal.

    Não estava a fim de contar meus problemas para ela, além do mais, eu havia percebido que Ino além de legal era língua solta. E eu não estava com paciência para ficar aturando olhares de pena para cima de mim por está passando por um momento difícil com a perda de meus pais. Não mesmo.

    - Eu - olhei para o chão por um breve segundo, depois ergui meu olhar para ela que esperava uma resposta convincente. - só estou com uma dor de cabeça. Não sou uma boa companhia hoje, desculpe.

    - Você quer que eu fiquei com você? - ela parecia preocupada. - A gente pode ir até a enfermaria e pedir algum analgésico ou algo parecido...

    - Não. - a interrompi. - Eu só preciso ficar sozinha, só isso. Não se preocupe.

    Ela ainda ficou algum segundo me encarando, tentando encontrar algum vestígio de mentira ou alguma coisa que me levasse àquela decisão. Bom eu realmente não estava mentindo, estava mesmo com dor de cabeça, e não estava a fim de ficar no refeitório com aquele barulho todo que havia lá.

    - Tudo bem. - ela disse. - Qualquer coisa pode me ligar.

    - Ligarei se precisar.

    Afastei-me, indo por outro caminho. Saí do prédio sendo arrebatada por um friozinho chato que fazia lá fora. O tempo tinha estiado, mas tudo estava molhado pela chuva que dera mais cedo. Caminhei para os fundos do colégio, especificamente, para os fundos do prédio três. Não sabia o que me levou ir até ali, o lugar que eu tinha estado com Sasuke na semana passada, apenas me deixei ser levada aonde meus pés iam.

    O local estava vazio e deserto, como lá na frente. Os alunos preferiram ficar lá dentro do refeitório, e agradeci por isso. Procurei um local mais seco, e achei. Sentei-me no cantinho coberto do prédio três, onde não estava molhado. Encostei minhas costas na parede, deixando minha mochila ao meu lado. Juntei meus joelhos e os enlacei com meus braços, os puxando para meu peito, apoiando minha testa neles.

    Fiquei naquela posição não sei por quanto tempo, mas foi tempo o suficiente para escutar o barulho do término do intervalo. Não fui para a aula de matemática e muito menos estava com vontade de assistir as outras aulas.

    Meus olhos estavam fechados, enquanto eu novamente era levada para as lembranças de minha cidade antiga. Uma angustia tomou conta de mim, e um sentimento de desespero se apossou em meu peito.

    Eu estava sozinha, e não estava preparada para aquilo. Acho que nunca estive. O destino havia sido cruel comigo, ele havia arrancado as duas pessoas mais importante para mim. Ele havia me botado em prova, mas eu sei que eu não vou conseguir chegar até o final. Eu sempre me senti a pessoa mais fraca do mundo, e mesmo eu tentando provar o contrário, eu sempre fracassava no final.

    E a prova disso era eu aqui, sentada no frio me lamentando de tudo o que tinha acontecido comigo e não seguir em frente, como Tsunade referia sempre. E por falar em Tsunade, eu ainda me sentia mal pelas coisas que eu havia falado de manhã. Eu havia magoado a pessoa que mais estava se esforçando para me ver bem. A única pessoa que eu tinha nessa vida, a única pessoa que cuidava de mim. Como eu era estúpida.

    - Você está bem?

    Imediatamente senti meu coração dar um salto, minhas mãos tremiam agarradas nas minhas pernas.

    Aquela voz?

    Ergui minha cabeça para cima rapidamente, e não acreditei quem eu vi parado de pé ao meu lado, me olhando de cima para baixo.

    Sasuke.

    Sentia minha boca secar, e meu sangue correr mais rápido. Eu fiquei completamente sem ação nenhuma. Nunca imaginei em toda a minha vida vê-lo ali naquele momento. Seus cabelos mais bagunçados que o normal, seus olhos mais pretos que um inferno de trevas me olhava cauteloso, mais um brilho de preocupação passavam por eles. Ele estava vestido como sempre, um jeans largo, desbotado e rasgado, camiseta sem mangas, demostrando seus braços fortes, e as costumeiras botas de motoqueiros.

    Ele estava terrivelmente... perfeito.

    - O que... o que você está fazendo aqui? - foi com muito esforço que consegui fazer com que minha voz saísse.

    Apoiei minha mão na calçada de concreto e fiquei de pé desengonçadamente e quase fui ao chão quando meu pé esquerdo pisou no cadarço frouxo do pé direito. Meu corpo foi para frente e só não fui ao chão, pois Sasuke foi rápido demais e segurou meus braços como suas duas mãos.

    - Uou.

    Nossos olhos novamente se encontraram quando ergui meu rosto para cima, percebendo nossos rostos próximos demais um do outro. Senti meu sangue subir, e sabia que estava corando. Corando de vergonha e nervosismo.

    - Ah... ai meu Deus. - sussurrei baixinho, eu me sentia uma idiota desastrada.

    Como eu era imbecil. O meu azar tinha que dar às caras justo naquela hora? Fazendo-me parecer à pessoa mais estúpida do universo?

    Eu estava me sentindo nervosa, minha cabeça não estava funcionando direito, e aquele olhar de Sasuke que desviava ora de meus olhos para minha boca entreaberta, não estava ajudando em nada.

    Suas duas mãos que estavam em meus braços pareciam que estavam queimando a minha pele que estava por debaixo do casaco grosso de moletom. Como aquilo era possível? Como ele podia emanar tanto calor estando descoberto daquele jeito? Será que ele estava novamente febril? Era a única explicação para aquele fenômeno estranho.

    E foi com muito esforço que eu consegui arrumar forças - de não sei onde - para me afastar dele, tombando dois passos para trás, desajeitada. Sentia que meu coração sairia a qualquer momento pela minha boca, enquanto meu estômago estava infestado de borboletas.

    Percebi o canto da boca de Sasuke ergue-se minimamente para cima. Ele completamente estava se divertindo com a minha desgraça de ser desastrada.

    Cruzei meus braços, num meio de nervosismo, ainda sentia-os queimarem muito.

    - O... o que quer aqui? - amaldiçoei-me por gaguejar, repetindo a mesma pergunta de segundos atrás.

    Seus olhos não desviavam nem por um segundo dos meus.

    - Eu só estava passando.

    - Passando? - ergui minhas sobrancelhas, tomando o controle da situação, quer dizer do meu corpo.

    - É.

    Surpreendi-me por ele estar mais falante do que da última vez que nos esbarramos. Será que... ai meu Deus, será que ele veio tirar satisfação pelo meu ato grosseiro e idiota de ontem?

    Aquele pensamento me deixou em pânico, fazendo meus olhos arregalarem.

    Droga! Por que eu fui fazer aquilo?

    Sasuke tinha percebido minhas caras e bocas que eu fazia, e sua testa enrugou-se.

    - Tem certeza que está bem? - ele voltou a perguntar.

    Balancei minha cabeça para cima e para baixo, rapidamente. Ele umedeceu os lábios brevemente, desviando seus olhos para o lado, e depois os voltando para mim.

    - Você não foi para aula.

    - Eu não estava com vontade de assistir.

    Ele ergueu uma sobrancelha.

    - Você acabou de perder um teste surpresa. - sua voz grossa e calma, me fez arregalar os olhos novamente.

    Teste? Ah não, eu não podia acreditar nisso. Novamente minha onda de azar estava me atacando. Sabia que esse dia não seria nada fácil, mas não pensei que ele fosse ser um verdadeiro desastre.

    - Surpresa?

    O olhei ainda mais, crispando meus lábios.

    - Por que você resolveu falar comigo de uma hora para outra? - o questionei. - Pensei que você me odiasse o suficiente para não respirar o mesmo ar que eu.

    - O que a levou a pensar que eu te odeio? - ele havia respondido minha pergunta com outra pergunta, seu cenho estava franzido. Ele parecia zangado.

    - Suas atitudes? - disse eu, arranjando coragem de não sei de onde. - O modo estranho como você me trata?

    - Como eu te trato exatamente? - ele tombou seu corpo para frente, sua boca estava terrivelmente sexy enquanto ela era movimentada para soltar aquelas palavras.

    Engoli em seco, minhas mãos molhadas de suor.

    - Diferente. - sussurrei.

    Seus olhos ficaram mais pretos.

    - Diferente como? - se aproximou mais, fechando os olhos por um breve momento, inspirando o ar.

    Abri minha boca, mas não consegui emitir nenhum som. Só o fato de ter Sasuke novamente perto o bastante de mim ao ponto de sentir sua essência masculina, e o calor que ele emanava, me deixava redondamente atordoada.

    Fechei os olhos, não suportando ver aquela imagem de anjo demônio que ele possuía, um símbolo de um pecado descomunal.

    - Você está invadindo meu espaço. - minha voz saiu fraca e arrastada. Faltava pouco para eu perder novamente o controle, e eu não queria ser usada de novo.

    Senti o calor se afastar, e permiti-me abrir os olhos, vendo-o me olhando atentamente. Ele parecia perturbado como da última vez, parecia que estava travando uma batalha interna consigo.

    Mordi o lábio, num gesto de nervosismo, e Sasuke apertou a mandíbula, seus olhos ficaram felinos e predadores. Escutei um grunhido, me deixando alarmada, me fazendo dar um passo para trás.

    - Por que você faz isso? - ele perguntou, sua voz saindo entredentes.

    Franzi o cenho, não entendendo a pergunta.

    - Isso o quê?

    Suas narinas inflavam, seus olhos não saiam de mim.

    - Acho que não podemos ser amigos. - ele disse de repente, sua voz saindo zangada.

    - Jura? - disse sarcasticamente.

    Ele desviou seus olhos dos meus para o chão, passando as mãos pelos cabelos. Depois olhou para trás. Segui seu olhar vendo Karin Uzumaki a dez metros de onde nós estávamos. Ela nos olhava atenciosamente, forcei meus olhos e pude ver sua cara séria, olhando Sasuke.

    Espera! Será que eles são...

    Sasuke voltou sua atenção para mim, e o olhei. Ele estava sério, havia colocado sua expressão fria novamente.

    - Preciso ir. - ele nem esperou uma reposta de minha parte para virar os calcanhares e ir até a garota ruiva, que havia começando a andar a sua frente.

    Fiquei os olhando até perdê-los de vista. Eu estava confusa, meu corpo todo estava agitado. Só faltava aquilo mesmo para fechar aquela onda de azar que eu estava tendo hoje. Claro, agora estava óbvio demais. Karin Uzumaki só podia ser sua namorada. O que mais seria para ele agir daquele jeito comigo?

    Logo fui arrebatada por um sentimento estranho, um buraco havia sido aberto em meu peito. Agora não tinha mais dúvidas. Eu havia sido usada por ele, mesmo que tinha sido só um beijo naquele dia. Mas só aquele pensamento já havia me deixado péssima.

    Mordi o lábio, enquanto eu sentia meus olhos ficarem marejados, embaçando a minha visão. Sequei-os com as costas das mãos, não iria chorar por causa de um garoto. Mesmo que seja um garoto que tinha chamado minha atenção, e que eu começava a nutrir sentimentos. Mas para a minha sorte estava só no começo, eu podia destruí-lo em meu peito enquanto havia tempo. Não queria viver um amor platônico, essa era a última coisa que eu queria para mim. Eu já estava satisfeita com o tanto de problemas que eu tinha.

    Abaixei-me, pegando minha mochila que estava no chão. Eu havia passado tempo demais aqui. Não iria assistir às aulas e o melhor a se fazer era ir embora. Sabia que não teria ônibus escolar, e o dinheiro que eu tinha não dava para pagar uma passagem no ônibus público. A única escolha para mim era ir a pé. E só esse pensamento me deixava triste, pois minha casa não era tão perto assim.

    Caminhei para frente do colégio, encontrando tudo vazio, os alunos estavam em suas salas de aula. Amanhã eu daria um jeito e me explicaria para os professores, mas agora não estava com cabeça de ficar na secretaria para conseguir uma despensa para mim.

    Continuei andando em direção a saída. O céu estava cinza, como estava na manhã e sabia que a chuva estava próxima. Não havia trazido guarda-chuva e torcia para que a chuva não me pegasse no caminho.

    - Sakura!?

    Olhei para trás, vendo Gaara se aproximando de mim, correndo. Ele vestia roupas esportivas, deveria está na educação física. Parei, e o esperei. Conforme ele se aproximava seus passos diminuía.

    - Oi, Gaara.

    - Pensei que não tinha vindo hoje - ele começou -, não te vi de manhã, e nem no intervalo. Ino disse que você não estava bem.

    Umedeci meus lábios secos.

    - Eu estava com dor de cabeça e resolvi ficar sozinha.

    Ele me olhava atencioso, desviando seus olhos para minha mochila e o fato de que eu estava próxima da saída.

    - Está indo embora?

    - Não estou com cabeça para assistir as aulas hoje.

    - Ah. - coçou seu queixo. - Mas aconteceu alguma coisa? Você está pálida e cansada.

    Balancei minha cabeça para os lados, negando. Sim, aconteceram várias coisas, e estou pirando com isso.

    - Coisa minha, só isso. - tentei sorrir, mas falhei miseravelmente.

    Gaara ainda me olhava com seus olhos verde-água atenciosos. Senti-me estranha com seu olhar firme em mim, fazendo-me desviá-los para o chão.

    - Eu tenho que ir.

    - Eu vou com você. - ele disse rapidamente.

    Ergui meus olhos para cima, surpresos.

    - O quê? Não, Gaara, não precisa.

    - Não vou deixá-la ir para casa sozinha. - ele declarou firme. - Você vai de quê?

    - Vou a pé.

    - Mais um motivo de não deixá-la ir sozinha. A cidade é pequena, mas isso não a exclui de ter assaltos no caminho.

    - Mas e as suas aulas? - dei motivos para ele desistir. - Isso não é justo.

    - Não estou a fim de assisti as aulas hoje. - sorriu. - Só vim por causa da prova.

    - Gaara...

    Ele me interrompeu.

    - Está decidido. Me espera aqui! Eu só vou trocar de roupa e pegar minha mochila.

    Suspirei pesadamente me dando por vencida. Não tinha argumentos para discutir contra. Além do mais, eu não conhecia bem aquela cidade e eu tinha oitenta por cento de chances de me perder, já que eu nunca fui boa em gravar lugares.

    - Tudo bem.

    Gaara saiu correndo por aonde ele veio. Caminhei até uma pilastra de concreto, onde ficava um quadro revestido de vidro onde havia avisos da secretaria, e me encostei. Fitei o chão molhado e me perdi em meus pensamentos. Fiquei tão focada neles que nem percebi quando Gaara se postou ao meu lado, vestido com suas roupas normais, sua mochila nas costas e dois papéis pequenos e quadrados na mão.

    Ele me entregou um.

    - O que é isso? - perguntei pegando-o.

    - É uma autorização de dispensa. - ele disse e eu o olhei do papel para ele. - Acho que você vai precisar para mostrar aos professores amanhã.

    - Ah... caramba, obrigada. - sorri débil, com a forma gentil dele. - Obrigada, de verdade.

    - Eu peguei um para mim também. - ele disse enquanto começando a caminhar.

    - Mais uma vez obrigada. - eu nem tinha o que falar.

    Gaara era com toda certeza o cara mais gentil que eu tive o prazer de conhecer. Adorava sua companhia, o jeito descontraído e calmo dele, me fazia sentir bem. Acho que de todas as pessoas que eu conheci em Konoha, Gaara era o único que tinha mais chances de preencher o lugar de melhor amigo, e ele provava isso a cada dia que passava.

    Andamos vários metros enquanto o silêncio reinava entre a gente, um silêncio bom e reconfortante. Eu fitava a paisagem esverdeada sendo contrastada com as casas de madeira pintadas com cores neutras, bem bonitas.

    Konoha era diferente de Tóquio, era calma e silenciosa, não chegava aos pés do barulho e agitação de Tóquio. Era bom por uma parte, pois eu gostava de certa forma do silêncio, e ruim pelo clima frio e chuvoso o que nos impossibilitava de fazer quase nada, nos fazendo ficar trancada a maior parte do tempo em casa.

    A voz de Gaara soou leve e calma, quebrando o silêncio e me fazendo olhar para ele:

    - Me diz, por que resolveu dar uma de rebelde e matar aula? - ele me olhou.

    Arfei, soltando um sorriso torto de lado, desviando os olhos dele para o céu cinza e feio.

    - Eu não estou dando uma de rebelde. - olhei a calçada molhada pela geada da manhã. - Acho que eu não tenho essa capacidade para rebeldia.

    - Hm.

    O silêncio novamente reinou entre a gente. Uma coisa boa que eu percebi em Gaara, era que ele não insistia quando percebia que a pessoa não queria falar. Ele respeitava a decisão e isso é um dos vários motivos para eu sentir confiança nele, confiança o bastante para começar a me abrir.

    - Hoje faz um mês que meus pais morreram. - falei baixinho, sentindo minha boca seca. Era difícil para eu tocar nesse assunto. Gaara era a primeira pessoa que eu estava conseguindo me abrir.

    Ele me olhou surpreso, acho que nunca pensou que o real motivo para eu me sentir péssima fosse esse. Bom não o único motivo.

    - Caramba... - ele hesitou, passando a mão na nuca. - Eu sinto muito. Deve está sendo difícil pra você.

    Assenti, sorrindo cansada, desviando minha atenção para frente, continuei:

    - Meus pais morreram num acidente de carro, mês passado. - calei-me, sentindo a dor me consumir novamente. - Minha vida toda mudou de uma hora para outra. Há cinco semanas eu estava na minha cidade reclamando da vida chata que eu tinha e tentando convencer meus pais a me dar a mesada adiantada para ir ao cinema com Shion.

    - Que barra. - eu o olhei, pegando-o me fitando, seus olhos tênues. - Eu também perdi meus pais.

    Agora quem ficou surpresa fui eu.

    - Sério? - perguntei, e ele assentiu.

    - Eu perdi minha mãe quando tinha um ano de idade. - ele olhou para o chão, pensativo. - Meu pai morreu quando eu tinha cinco.

    - Nossa, eu sinto muito.

    Ele me olhou.

    - Não precisa sentir. Eu não tenho lembrança deles. - ele suspirou cansado. - Acho que talvez seja por isso que eu não sinto falta deles. E talvez eu não sinta o que você está sentindo agora.

    Abri minha boca, mas voltei a fechá-la. Havia descoberto que eu não era a única órfã de pai e mãe. Gaara também era sozinho no mundo, e isso juntava mais um motivo por ele ser parecido comigo.

    - A vida sempre nos dando rasteiras. - comentei.

    - Concordo, mas eu tenho minha irmã mais velha, Temari. - o fitei. - Ela me criou desde quando eu era um bebê. Ela largou tudo para cuidar de mim. Largou seus sonhos, seu futuro brilhante, como Kankuro, meu outro irmão mais velho que mora em Kioto. Acho que ela está mais próxima de ser a minha mãe do que qualquer pessoa. Talvez se caso eu a perdesse, a sua ausência iria me abalar muito.

    - Também penso o mesmo da minha avó, Tsunade. - balancei minha cabeça para os lados fechando os olhos. - Não iria aguentar outra perda dessas.

    - Conheço a sua avó, ela é bem legal. - ele disse, e o fitei.

    - Acho que todos a conhecem.

    - Sim.

    Viramos a esquina e logo vi o ponto do ônibus que eu sempre ficava de manhã. Aquela caminhada havia sido mais rápida do que eu imaginava. Acho que foi pelo fato de estarmos tão entretidos em nossa conversa que não havia percebido.

    - Acho que eu fico por aqui. - falei, parando na rua onde eu iria entrar.

    Gaara assentiu.

    - Eu me ofereceria para ir com você até a sua porta, mas eu tenho que ir. Temari completamente deve está sozinha com Shikadai.

    - Shikadai?

    - Meu sobrinho, ele só tem três meses.

    - Ah. Tudo bem, você já fez muito me acompanhando até aqui. - sorri.

    - Até amanhã.

    - Até.

    Gaara continuou sua caminhada, enquanto eu segui meu caminho. Aquele tempinho que passamos tinha me desviado dos tormentos que era Sasuke, que havia voltado com força maior, como uma maldição.


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