A paixão do capitão de gelo

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    Capítulos:

    Capítulo 29

    Mortais Sentinelas

    Álcool, Hentai, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência

    O inesperado incidente no Posto Médico Geral causou desordem e confusão nesta noite e aos arredores naquela parte da cidade. Os chamados de emergência transmitidos pelo 12º esquadrão ecoavam no ar noturno mobilizando a Brigada no cumprimento de socorro. Entretanto, os oficiais e shinigamis assim que chegaram ao local encontraram a situação no mínimo estranha. Um dos prédios principais estava em chamas, todo o quarto andar tomado pelo fogo e fumaça que saía pelas janelas. Os pacientes e enfermos se alojavam no pátio gigantesco da entrada e ruas próximas devido à superlotação atual e o mais intrigante.

    Não havia inimigos.

    Sem invasores ou qualquer indicio de ataque. Aparentemente, a causa do incêndio em Sougo Kyuugo Tsumesho era desconhecida.

    KARIN POV

    Um som rítmico de staccato ecoava distante. Ele foi a primeira coisa que notei despertando do torpor. Meu corpo parecia pesado, mole. Apesar de me sentir confortada onde estava deitada, demorei em encontrar vontade para entreabrir os olhos e observar ao redor. Piscando para ganhar nitidez, vi que estava num quarto e não um qualquer. Meu quarto e de Toushirou...

    Mas c..como cheguei aqui? Confusa, puxei o lençol me cobrindo ao olhar em volta. Aqui dentro estava iluminado por uma luz bruxuleante de uma vela. Tão suave que criava sombras nos móveis e ainda o barulho de batidas na madeira persistia.

    Uma palavra só me vinha com o som.

    Ataque. E as lembranças vieram como um jorro.

    - Escute aqui, se espere que eu confie nessa história de me proteger então...

    A sombra tremulou, desaparecendo naquele rasgado de som. Pálida, senti um arrepio sinistro e agarrei por reflexo o punho da espada. Antes que a puxasse, meu pulso foi agarrado e torcido num ângulo disparando choques de dor em todo meu braço.

    - Não seja presunçosa, garota. Em momento algum disse que a protegeria. Sua segurança, sim, nos interessa, mas quem a faça não é importante.

    Ele me imobilizava mantendo meu braço dobrado para cima e a força me dava impressão que ia quebrar. Pensava em um jeito de me soltar olhando discretamente para o braço pálido, quando a pressão do aperto aumentou de repente.

    - Não se mexa ou perderá sua criança.

    Ofeguei assustada e incrédula. Como? Tremula baixei o olhar realmente apavorada. Percebendo que fiquei quieta, seus dedos afrouxaram sem, no entanto, me dar chance de me livrar.

    - No prédio número quatro em um dos quartéis existe um túnel que leva para uma galeria subterrânea.

    - P... Por que está me dizendo isso?

    - Lá encontrará as respostas que procura.

    Nesse instante, olhei para a água. Os reflexos na superfície ondulante quase não davam para distinguir. Porém, prendi o fôlego ao focar na figura que estava atrás de mim.

    O hakama branco e esfarrapado, os braços nus e pálidos como o torso. A vestimenta dele estava rasgada, principalmente na manga esquerda como se... Tivessem decepado seu braço e outro cresceu no lugar. Contudo, o que realmente causou meu choque foi ver uma máscara quebrada em sua cabeça.

    Todos meus instintos de sobrevivência estavam certos afinal.

    Antes de reagir, uma reiatsu se aproximava veloz daqui. Ao ponto do ar tremular com a energia vibrando. A pessoa invadiu o poço, alterando a pressão aqui dentro fazendo a água jorrar explodindo. A mão do arancar já tinha me soltado quando caí desmaiada na água.

    Sentei ofegante no futon com o susto e agarrei a gola do quimono pela súbita falta de ar. Me sentia sufocada. Passos na escada me acordaram do assombro com a lembrança e mirei a porta quando se aproximaram. Ainda estremecia quando pararam e abriram a porta dando passagem para Rangiku que se espantou ao me ver acordada.

    - Karin-san, quando acordou? Devia estar dormindo.

    Atrás dela vinha um oficial que apenas pela bolsa de tecido que carregava nas costas identifiquei como sendo do 4º esquadrão.

    - Rangiku, eu...

    Respirei fundo para me acalmar e espiei de soslaio o shinigami que a seguia entrando aqui dentro. Ele parecia concentrado em tirar a bolsa das costas e sentar do meu lado. Segurei a língua preferindo ficar calada.

    - Você...?

    Rangiku me instigou e suspirando tentei disfarçar minha cautela com o paramédico shinigami.

    - Sinto minha cabeça doer, acabei de acordar.

    Os olhos cinzentos se estreitaram preocupados enquanto ela se sentava do outro lado do futon.

    - O que houve? Você parece pálida.

    - Anh? Nada. Apenas estou um pouco tonta do desmaio, como cheguei aqui?

    Pelo seu olhar desconfiado ela não acreditou nisso, porem Rangiku suspirou se ajeitando ao meu lado.

    - Eu não sei ao certo, mas o capitão apareceu com você nos braços pelo quartel. Sabe o que aconteceu?

    - Não.

    - Certo. – se revoltando para o shinigami do outro lado do futon, Rangiku tinha uma expressão séria – Examine-a por favor. Estarei na sala caso precisar.

    - Hai, Matsumoto fukutaichou.

    O homem assentiu simples e soltando um suspiro profundo, Rangiku se levantou não sem antes colocar uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Seu toque gentil não combinava com sua postura tensa. Ela estava preocupada. Não só isso, Rangiku estava sabendo de algo que não sei e isso a deixava de certa forma tensa e confusa. O olhar terno que me dirigiu antes de sair do quarto não encobriu totalmente suas preocupações.

    - Senhora Hitsugaya.

    Pestanejei de susto e mirei o cidadão ao meu lado. Ele usava luvas esterilizadas de látex até os cotovelos.

    - Deixe-me ver seu pulso direito.

    - Meu pulso?

    Olhei para o mesmo e me espantei com o tom roxo colorindo minha pele. Ele estava inchado e ao flexionar um pouco sibilei de dor. Suspirando ofereci para o shinigami e ele o segurou com o máximo de cuidado examinando-o. Observei por uns segundos e depois mirei sua bolsa ao lado. Havia um zíper nas costas dessa mochila de tecido. Dentro dela havia ataduras, uns objetos que julguei servirem para prendê-las e também alguns potes e vidrinhos com conta gotas. No meu exame reconheci o tranquilizante e lembrei da minha fuga no hospital.

    Uma gota disso e a pessoa desmaia.

    - Não há fratura ou rompimento de tensões, apenas uma luxação.

    Saí do devaneio e assisti o shinigami pegar um dos potes com uma leve hesitação. Estranhei isso e depois assim que o abriu, mergulhou um dos dedos enluvados numa pasta translúcida. Espalhando sobre o inchaço no meu pulso, me arrepiei com o toque gelado. Imediatamente senti adormecer e arregalei os olhos com a sensação.

    - Mas o que...?

    - Não se preocupe, esse balsamo apenas neutraliza as terminações nervosas.

    O encarei mais confusa, porem o sujeito sequer me olhava. Sem aviso injetou uma seringa em mim bem no meu pulso. A picada não doeu, mas me espantou. Muda vi ele retirar todo o sangue acumulado na região puxando o embolo e depois se afastou remexendo sua mochila. Segurei uma resposta ácida e dei uma olhadinha no local. Realmente desinchou, mas não tinha necessidade.

    Ele então enfaixou meu pulso bem firme e estendeu as mãos sobre mim com as palmas brilhando num tom pálido de azul. Um exame interno e fiquei quieta durante o processo. Com o incômodo silêncio minha curiosidade aguçou. Podia ouvir sons distantes de vozes. As batidas na madeira cessaram agora, mas ainda havia um ar carregado de tensão.

    - O que está acontecendo...?

    Hesitei franzindo as sobrancelhas, agora que lembrei sequer perguntei seu nome.

    - Heuyama, senhora. Heuyama Hiou.

    - Certo, Heuyama. O que está acontecendo? Ainda pouco ouvi o sinal de ataque.

    - Há uma hora o Posto Médico Geral sofreu um incêndio. O prédio principal foi tomado pelas chamas e o décimo segundo bantai enviou o alerta para as demais divisões em socorro. Este deve ter sido o sinal que a senhora ouviu.

    Me fitou nesse instante se endireitando enquanto procurei não demonstrar tanta confusão.

    - Incêndio?

    Assentindo ele retirou as luvas descartando-as num saco plástico pequeno.

    - Hai. Todos os grupos de resgate estão agindo controlando a situação. Felizmente, houve poucas baixas.

    - Entendi.

    Mirei o nada. Eu nunca imaginaria uma coisa dessas, mas se essa era a explicação então aquilo que eu vi e o que arrancar me disse ninguém fazia idéia. Isso é preocupante para não dizer assustador. Não foi um acidente, aquela coisa que provocou. Eu vi quando a cortina do meu quarto pegou fogo quando desviei de um ataque seu.

    - Senhora Hitsugaya.

    - Hai?

    O olhei cansada. Ainda sentia os efeitos da fuga além de uma sonolência.

    - Por que não estava em seu quarto durante o ataque?

    Seu tom me deixou em alerta. Como diabos ele sabe disso?

    - O incêndio causou uma desordem no prédio principal e enquanto retirávamos os pacientes não pudemos encontrar a senhora.

    Continuei calada enquanto me questionava com esse ar estranho nos olhos. Parecia uma sondagem de informações.

    - Onde esteve? Ficamos muito preocupados.

    Sei, esse jeito incisivo de me encarar não me convence disso. Ainda pelo tom disfarçadamente autoritário. Sei bem o porque, apenas porque sou mais nova. Não sou obrigada a contar pra ninguém e por isso, suspirei fingindo desânimo ao fitar o nada.

    - Não sei. No momento não consigo lembrar de nada.

    Ele fez um esgar, meio entalado de frustração e evitei olhar na sua direção com interesse.

    - Entendo, espero que melhore. Descanse um pouco, aparentemente está tudo bem com a senhora e seu bebê.

    - Arigatou.

    Em silêncio e modos simples, ele ajeitou todos seus instrumentos de trabalho e guardou na mochila se levantando ao ficar de pé. Não disse nada até deslizar a porta e depois fechar. Os passos na escada se afastando me fizeram soltar um suspiro de alivio e me deixei cair no futon.

    Ao encarar o teto, divaguei sobre essa noite e não deixei de pensar em uma coisa. A história que a barbie me contou mais cedo... Esse ataque...

    Algo me dizia que não eram eventos isolados.

    KARIN POF

    HITSUGAYA POV

    O Senkaimon se abriu naquela luz branca deixando a borboleta infernal atravessa-lo. Cruzei os limites do portal sentindo a brisa noturna bagunçar meus cabelos e minha roupa. Mirando para baixo, o estabelecimento de Urahara Kisuke não estava tão distante do meu campo de visão. Parado no ar vi sem surpresa as luzes acessas através das janelas e surgi com o shunpo diante da porta de entrada.

    Mal havia chegado e Tessai a abriu um pouco surpreso. Já imaginaria isso, afinal minha presença era repentina. Sem dizer nada ele me permitiu entrar fechando em seguida a porta e depois me guiou pela loja até o escritório de Urahara. Ao abrir um shogi, me deparei com Urahara não apenas acordado como parecia já ter recebido alguém. Na mesa em que estava sentado outra almofada se encontrava no tatame. Preferi ignorar e me foquei na pessoa com que vim encontrar. O homem de chapéu listrado bebericava uma caneca fumegante aparentemente calmo.

    Isso apenas confirmou minhas suspeitas.

    - Hitsugaya, não esperava sua visita.

    - Não avisei com antemão, suman.

    - Vamos, sente-se.

    Observando ao redor entrei me sentando na almofada vermelha posta à mesa baixa e redonda. Realmente não há mais ninguém aqui exceto as reiatsu residentes.

    - Onde está Kurosaki?

    - Hai?

    O mirei neutro e a máscara tranquila não vacilou um segundo.

    - Pelo visto ele ainda não sabe.

    A mudança em seu olhar foi notável, da impressão serena passou para séria e preocupada. Urahara pousou a caneca na mesa e suspirou. Seus olhos estavam concentrados. Resolvi abordar o assunto.

    - O ataque em Sougo Kyuugo Tsumesho já deve ter chegado aos seus ouvidos.

    - Hai, um incêndio sem causa acidental ou provocado. Mais da metade dos pacientes tiveram que ser realocados num dos hospitais de emergências e em seus esquadrões. No momento são as informações oficiais.

    Estreitei o olhar.

    - E extraoficialmente?

    - Três shinigamis do quarto bantai sofreram um tipo de ataque incomum e foram à óbito. Segundo Yoruichi-san, com as mesmas características dos soldados das missões falhas.

    - Deficiência de reiraku.

    - Hai.

    Suspirei olhando o vazio com o incômodo oprimindo meu peito. Estávamos lutando com algo que sequer tenho compreensão.

    - Parece que já sabia desses fatos.

    Assenti ainda mirando o vazio.

    - Antes de sair de Seireitei ouvi as noticias através de Hirako.

    Lembrar do capitão nervoso em meio aquele caos no 4º bantai me fez associar com o que houve na vigília.

    - O que lhe perturba realmente?

    Voltei o olhar em sua direção encontrando Urahara com o semblante intrigado. Ponderei por um instante e resolvi confiar. Ele é o homem mais inteligente que conheço, deve ter uma teoria para aquilo.

    - Hoje por volta das 21:30hs houve uma vigília de uma missão de reconhecimento. O grupo de Omitsu Kidou investigaria a região em comum das missões falhas com os soldados doentes. Antes de adentrar o local foram atacados.

    Seus olhos arregalaram um mínimo me surpreendendo um pouco. Pelo visto, mantiveram segredo a respeito disso. Engoli em seco, prosseguindo com o relato.

    - Perdemos contato visual por alguns minutos, mas o canal de áudio funcionava perfeitamente. Escutamos todo o ataque e assim que restabelecemos as imagens não havia um sinal dos soldados em Dangai, vivos ou mortos.

    - Alguma hipótese sobre o inimigo?

    Com a questão um suor frio brotou em minha nuca e respirei mais devagar, procurando me acalmar.

    - Nada que eu possa provar.

    - Como exatamente?

    O encarando lembrei do que vi nos telões da sala do observatório atraindo sua atenção. Acho que mesmo tentando disfarçar, transparecia pelo o olhar a agonia que reprimia.

    - Uma criatura translúcida assassinou dois dos shinigamis da equipe, queimando-os de dentro para fora através de seus corpos.

    - Há alguma investigação sobre isso? Kurotsuchi com certeza...

    - Esse é o problema. Ninguém além de mim viu isto.

    Urahara pestanejou de susto, consegui ver mesmo com a sombra em seu rosto pela aba de seu chapéu e não julgo sua reação. O principal motivo para ter vindo até aqui era pelo fato desse homem não ser alguém crédulo. Urahara Kisuke era um shinigami e cientista conceituado apesar do que houve no passado. Ele investigaria à respeito disso.

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    - E logo em seguida houve o ataque ao quarto esquadrão.

    - Hai.

    - Você deve ter ido antes do alerta assim que sentiu Karin-san em perigo.

    Assenti preferindo não falar. Os efeitos da conexão de almas eram um assunto um tanto delicado para mim. Ainda mais por esse sujeito saber mais detalhes do que eu mesmo.

    - Tem idéia do que possa ser?

    Abrindo o leque, Urahara se abanou ponderando. Dificilmente esse sujeito se abala.

    - Ainda é cedo para dizer. Aqui no Mundo dos vivos não encontramos um caso assim, apesar do desaparecimento dos Hollows.

    - Falando nisso, já encontraram algo relevante?

    Urahara suspirou fundo ao fechar o leque na mão e cruzou os braços.

    - Nada. Cheguei a pensar que seria algum quincy desconhecido, mas o equilíbrio de transição de konpakus entre os mundos não se alterou. Ainda mais que Ishida-kun negou qualquer traço desse clã nos desaparecimentos.

    - Entendo.

    Segurando uma caneca de chá que Tessai trouxe mais cedo, beberiquei o líquido morno pensando nas informações que Matsumoto me revelou outrora. Há cerca de algumas semanas o Centro de Desenvolvimento Tecnológico registrou uma anormalidade nas frequências espectrais em Karakura. Hollows desapareciam sem intermédio de shinigamis. Mesmo que as barreiras entre os dois mundos continuassem intactas, não havia notificação do curso desses espíritos à Soul Society. Os tenentes assumiram o cargo da investigação e até o momento não haviam obtido nenhum resultado.

    Frustrante.

    - Por hora, pedirei à Yoruichi-san que verifique o que me disse, Hitsugaya. Presumo que não tenha falado com mais ninguém, estou certo?

    Saí do devaneio levantando o olhar da caneca para o homem de chapéu listrado. Sua expressão compenetrada me fez a crer que levaria à sério essa investigação.

    - Hai.

    - Manterei contato caso descubra algo.

    HITSUGAYA POF

    Horas depois

    KARIN POV

    Depois que o paramédico foi embora, fiquei por um tempo sozinha até Rangiku entrar no quarto. Me flagrando ainda acordada (afinal devia sentir muito sono por causa da gravidez) me perguntou o que gostaria de jantar. Por uns instantes hesitei, afinal não queria incomodar, mas justo nesse momento meu estômago reclamou e sorrindo divertida disse que faria curry. Minha boca salivou só em ouvir a palavra. Depois de trocar de roupa, arrumei meu cabelo trançando-o e desci para o segundo andar.

    Sentada junto à mesa assistia ela mexer na panela com uma concha e o vapor subia preenchendo a cozinha. O arroz já estava cozinhado e agora esperava ansiosa o molho ficar pronto.

    - Rangiku, vai demorar muito?

    - Só mais uns minutos. Por quê?

    Que tortura. Gemi frustrada me debruçando na mesa e ouvi seu riso divertido. Por incrível que pareça não me estressei por isso.

    - Se tivesse jantado no hospital não estaria com fome.

    - Simplesmente não pude engolir. O cheiro me embrulhava.

    - Sei...

    - É sério, quando engravidar vai saber como é isso.

    - Quem sabe.

    Franzi a testa estranhando, que resposta vaga. Levantei a cabeça olhando a tenente de costas para mim vigiando a panela ao fogo. Agora que pensei... Eu nunca vi Rangiku namorando alguém. Será que tinha algo casual? Faz bem o jeito dela e se for com quem será? Sacudi a cabeça, me repreendendo. Pare, Karin. Isso não é da sua conta.

    - Karin-san.

    - Hai?

    - O que shinigami que te examinou disse? Nem demorou tanto.

    Suspirei me endireitando ao recostar na cadeira e olhei para meu pulso enfaixado.

    - Apenas um inchaço no pulso. De resto estou bem.

    - Estranho.

    Se voltando para mim, ela pôs a mão livre no quadril com o olhar confuso.

    - Geralmente eles são mais minuciosos. Acho melhor ir ao quarto bantai fazer um exame completo.

    - Se diz, tudo bem.

    Eu também achei muito estranho o modo como fui atendida por aquele cara.

    - Mudando de assunto, o que aconteceu mais cedo?

    - Como assim?

    - Enquanto eu procurava pelo capitão no quartel o encontrei com você nos braços e os dois completamente molhados.

    Arregalei os olhos enquanto Rangiku estreitava os seus tirando a mão do quadril.

    - A expressão que o Taichou fazia não era nada boa quando o chamei. Ainda mais que ele estava com sua zanpakutou também. O que realmente aconteceu?

    Suspirei um pouco tremula. Obvio que ela não engoliu aquela desculpa fajuta. Desviando o olhar, cruzei as mãos no colo lembrando em flashs tudo que passei até àquele poço. Surreal, esquisito e assustador. Meu coração batia seco na garganta em nervosismo.

    - Resumindo: eu fugi do quarto com minha espada porque You Ou me avisou.

    - Nani?

    A olhei temerosa vendo Rangiku franzir o cenho intrigada.

    - Ele... Ele me disse que alguma coisa perigosa estava no hospital e... Em seguida, um shinigami foi atacado por essa coisa praticamente na porta do meu quarto. – franzi as sobrancelhas pro vazio – Eu mal via o que era. Tudo o que tocava pegava fogo. Quando dei por mim estava fugindo de um bando de paramédicos usando o shunpo.

    - Mais alguém viu?

    Suspirei fundo retorcendo os dedos.

    - Não sei.

    - E o capitão? Ele te encontrou no hospital?

    Engoli em seco.

    - Não.

    Ela sabe que não e perguntou educada querendo não pressionar. Um silêncio pairou no ar ficando denso e incômodo. Rangiku me olhava esperando mais explicações, mas não sabia se podia contar à ela. Um arancar me tirou do hospital tecnicamente me salvando. Ponto. Mas tivemos uma conversa estranha, ele me negando informações, fornecendo outras... E no fim com sua ameaça/aviso desmaiei caindo naquele poço. Nem eu mesma entendo direito o que houve ali!

    - Sabe de uma coisa? Vamos deixar essa conversa pra depois. Você está morrendo de fome e o Taichou me deu ordens para cuidar direitinho de você.

    A olhei confusa com seu jeito jovial e Rangiku piscou divertida pra mim. Um alivio me inundou por isso e sorri sem graça. Ela não existe mesmo. Se voltando para o fogão, desligou o fogo e serviu um prato para mim. Antes de me entregar a vi salpicando uma mistura no molho. Tempero, acho e sorrindo gentil me entregou.

    No primeiro bocado me arrepiei com o sabor amargo travando minha língua.

    - O que foi? Não está gostoso?

    Engoli para falar direito com ela e encarei meu prato. O curry tinha uma cor quase preta.

    - Rangiku o que pôs aqui?

    - O normal. Legumes, carne, pimenta e meu tempero especial.

    A encarei lagrimando com o gosto horrível.

    - Especial?

    - Hai. Peixe seco triturado com natto, gengibre e kusaya.

    Ela disse toda orgulhosa alheia a minha expressão de nojo.

    A ânsia de vômito me subiu forte pela garganta e não pude segurar. Levantei da cadeira correndo em direção a pia mais próxima, porque se fosse ao banheiro não chegaria a tempo.

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    No dia seguinte

    - Tem certeza de que está bem?

    Olhei para Toushirou enquanto caminhávamos no quartel do quarto bantai.

    - Já disse que sim. Pode ir tranquilo, eu te espero assim que terminar a consulta.

    Mesmo com o semblante neutro vi sua relutância em aceitar. Procurei não fazer tempestade em copo d’água. Ontem depois de quase por os pulmões pra fora, eu mesma fiz uma sopa ouvindo Rangiku reclamar que não gostei da sua comida. Sério, eu não entendo. Como professora ela não me ensinou nada estranho. Assim que me servi assisti ela comer mais de uma vez aquela mistura pavorosa. Só de lembrar meu estômago se revira.

    Depois de jantar o sono veio e fui dormir. Eu não havia visto Toushirou quando chegou, somente de manhã ao acordar abraçado em mim. Ele exigiu que ficasse em repouso enquanto ia trabalhar e dado meu estado não teimei. Então ao saber que viria para um dos hospitais temporários do quarto esquadrão, o convenci em me levar junto. Afinal, precisava ter certeza se estava mesmo bem depois da confusão de ontem e ele não tinha que reclamar.

    Ao olhar em volta percebi que paramos diante de um prédio simples. As telhas azuis, as pilastras vermelhas da varanda e o símbolo do quartel acima do beiral de entrada me fez notar que chegamos.

    - Vamos.

    Com um suspiro ao lado, senti sua mão na base da minha coluna me guiando. O toque me espantou um pouquinho ao subirmos os degraus da entrada e vi pela visão periférica um sorriso discreto. Minhas bochechas queimaram. Como não ia para academia nem treinar, usava um quimono branco com camélias estampadas. Meu obi vermelho apertava de um jeito não desconfortável graças à Rangiku. Ela ficou louquinha quando pedi sua ajuda e aproveitou para arrumar meu cabelo também. Num coque elaborado ela conseguiu prender num enfeite só deixando bem firme. A kanzashi rosa de flor se destacava no meu cabelo negro. Bem, pelo ao menos o trabalho valeu a pena. Toushirou ficou mudo quando entrei em seu gabinete mais cedo.

    - Provavelmente com o incidente de ontem, Unohana não poderá te atender logo.

    Assenti quando entramos na recepção. Como de se esperar estava lotado e seguimos direto ao balcão de informações. Uma enfermeira cansada se surpreendeu ao nos ver. Ela franziu as sobrancelhas e depois se levantou da cadeira.

    - Hitsugaya taichou e senhora Hitsugaya, boa tarde.

    Fiquei vermelha com o tratamento e assenti encabulada. Vou demorar para me acostumar com isso. Toushirou, no entanto, se aproximou sem tirar a mão em minhas costas.

    - Boa tarde. Unohana taichou se encontra?

    - Hai, no momento está ocupada com os pacientes que se feriram no incêndio.

    Me incomodei um pouco ao ouvir e senti um afago na base da minha coluna. Toushirou percebeu, mas disfarçou. Essa atitude me fez estranhar o porquê. Ele não devia estar tão intrigado com minha reação? Ainda mais por ontem? Sacudi a cabeça mentalmente, agora não é hora pra isso.

    - ... uma verificação obstetra se possível.

    - Claro, há uma sala de descanso. – se dirigindo para mim, a mulher sorriu gentil – A senhora pode esperar lá enquanto a capitã está ocupada.

    - Tudo bem, não estou com pressa.

    Parece que tudo foi resolvido enquanto devaneava.

    - Por aqui, por favor.

    Dando a volta no balcão, a enfermeira de quimono rosado nos guiou para um corredor no extremo sul desse cômodo. As paredes verdes menta com as luzes no teto foi uma diferença notável do ambiente anterior. Aqui estava mais quieto, tanto que nossos passos ecoavam no piso polido de madeira. Ela dobrou para esquerda, depois para direita e seguiu reto até uma porta de rolar. Puxando nos guiou para dentro e vi um conjunto de sofás azuis com uma mesinha no centro.

    Numa reverência ela se retirou e depois Toushirou me voltou para si.

    - Irei agora ver Hirako e depois assim que terminar volto para te buscar.

    - Hai.

    Ele me observou para um tempo, realmente me analisando e fiquei encabulada por isso.

    - O que foi?

    - Realmente fica bem em você.

    Emudeci, vermelha e surpresa. Com a mão livre fez um carinho leve no meu rosto. As pontas dos dedos deslizando da têmpora até minha bochecha e depois com o nó deles seguiu até atrás da minha orelha. Me arrepiei nessa área sensível. Segurando meu rosto ele guiou para o seu e agarrei seu quimono na altura do coração quando me puxou pela cintura. Ao sentir seu fôlego no meu rosto, fechei os olhos o beijando-o.

    Foi breve, tão suave e sem malicia que quando dei por mim Toushirou se afastava curvando os lábios.

    - Até depois.

    Assenti meio aérea e soltando meus dedos da sua roupa, senti um afago no pulso enfaixado. Toushirou saiu da sala e suspirei para ganhar fôlego. Eu realmente preciso lembrar de respirar nesses momentos. Sentando no sofá com todo cuidado pela roupa limitada, esperei um bom tempo até Unohana taichou aparecer. Tipo, li até uma revista que havia na mesa sobre as noticias locais inteira e a relia quando vieram me avisar assim que a capitã apareceu.

    - Desculpe a demora, sente-se.

    Me acomodei numa cadeira enquanto o shinigami que me levou até o consultório provisório dela saía fechando a porta. A mulher de tranças me olhou sorrindo calma e procurei não me intimidar. Ela tem uma aura imponente em seu torno.

    - Então, antes de mais nada como está? Hitsugaya taichou me disse que se sente bem melhor.

    Me ajeitei na cadeira.

    - Sim, não sinto mais nenhuma cólica ou incomodo no... – pigarreei sem graça – útero, apesar de ontem.

    - Ah, sim. Ele nos disse que a encontrou na saída de emergência leste do prédio. Se importa de dizer se fez algum esforço ou algo do tipo?

    Pisquei surpresa, mas a capitã continuou normal. Ela deve estar achando que foi pela minha fuga, mas na verdade fiquei surpresa pela mentira. Toushirou mentiu! Por que? Será que ele quer esconder o que houve naquele poço? Claro que sim, sua baka. Ah, que saber? Penso nisso depois.

    - Bom, para não fazer movimentos muito bruscos usei o shunpo e... Fugi de alguns shinigamis seus. Desculpe.

    - Soube também. Levando em conta a situação é compreensível já que o incêndio se iniciou no quarto andar.

    Apenas assenti.

    - O que houve com seu pulso?

    Pisquei olhando para ele e depois para ela.

    - No último salto acabei batendo no corrimão da escada.

    - Um...

    Segurei a vontade de engolir em seco. A aura intimidante dessa mulher chegava a ser sufocante.

    - Tudo bem. Solicitou um paramédico para o tratamento?

    - Hai. Heuyama Hiou. Na verdade, é por isso que vim aqui. Ele não me fez um exame mais aprofundado e fiquei preocupada com meu bebê. A senhora sabe do meu caso, certo? Então gostaria que pudesse me examinar melh...

    - Um instante.

    Calei nervosa. Será que falei demais? Franzindo as sobrancelhas confusa, Unohana taichou abaixou a mão que havia levantado para me chamar atenção.

    - Disse que o shinigami se chama Heuyama Hiou?

    - Hai.

    Seu cenho se vincou mais e notei num instante o porquê. Intrigada, Unohana taichou não disfarçava a confusão.

    - Eu conheço todos os que trabalham comigo e não existe um shinigami com esse nome no quarto Bantai, Hitsugaya-san.

    Prendi a respiração, pálida com o que me disse. Para completar através de sua janela vi algo que me arrepiou inteira, me dando calafrios. À luz alaranjada da tarde uma sombra se erguia dos telhados como se estivesse acordando. Era enorme, línguas de vapor contornavam a silhueta e me lembrava vagamente de algo.

    O mais sinistro era que ao ondular seu corpo mergulhando no chão, os shinigamis por perto não reagiram. Sequer notaram sua presença.

    KARIN POF

    Centro de Desenvolvimento Tecnológico. Área de Sigilo

    - Tem certeza que a amostra é autentica?

    - Hai, taichou.

    - Se me enganar o darei de comida para os Hollows!

    Hiou estremeceu encolhendo os ombros com o grito. De cabeça baixa, espiou Kurotsuchi taichou caminhar até uma mesa cheia de tubos de ensaio e equipamentos de análise molecular. Ainda não entendia porque foi mandado fazer esse trabalho. O que uma amostra de sangue daquela garota teria haver com os experimentos do capitão? Não fazia ideia.

    Kurotsuchi por outro lado sorria empolgado, sacudindo o embolo. Ontem à noite confirmou uma de suas teorias. Uma de suas câmeras móveis de vigilância modificada conseguiu capturar a imagem. Fora uma boa ideia mudar os sensores de interferência e a tecnologia para hiperespectral.

    Sorrindo mirou para a imagem no monitor ao lado de uma gravura. Semelhanças notáveis à parte, realmente há diferenças. As mortais sentinelas do nível mais profundo do Inferno. Esses guardiões eram persistentes na caça procurando aquele com um pecado mortal, condenado a ser submisso ao inferno.

    Desviou o olhar para o tanque à direita, vendo dentro dele a criatura humanoide ligada por uma series de tubos. Daqui a pouco faria mais testes e exames e esperava que dessa vez, sua cobaia não tenha a mania de entrar em parada cardíaca.


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