A paixão do capitão de gelo

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    Capítulo 28

    Emissário

    Álcool, Hentai, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência

     Sougo Kyuugo Tsumesho era composto de três prédios com quatro andares, sendo um edifício central e os outros dispostos paralelamente interligados. Disponíveis em suas alas estão as pré socorristas no primeiro andar, unidades de cuidados intensivos no segundo e terceiro e, quartos para pós-tratamentos no ultimo andar. Soldados shinigamis que se feriam gravemente em batalhas e/ou missões eram enviados diretamente para lá, submetidos em métodos de curas, inclusive cirurgias. Projetado como posto avançado de recuperação, cabia a responsabilidade ao 4º bantai. Unohana taichou geria e supervisionava o estado dos pacientes. Desde o mais grave até àqueles em melhorias vistas.

    Contudo, a sobrecarga atual de feridos abrangia a maior parte do esquadrão, exigindo uma atenção minuciosa e severa da capitã e outros médicos disponíveis. O tipo de ferimento nos soldados, alguns em estado comatoso, intrigavam os oficiais no processo de cura. A reiatsu residual encontrada nos corpos desses shinigamis, de aspecto incinerador não se comparava a qualquer que tenham visto.

    KARIN POV

    Assim que Toushirou foi embora, não tive muito o que fazer senão pensar. Ele disse que somente me buscaria amanhã. Bem queria uma checagem completa do meu estado. Sorri um pouco encarando minhas mãos cruzadas no colo. Esse lado protetor é bem sutil, mas fofo também. Toushirou não é bom com palavras como já percebi, mas em demonstrações ele não deixava a desejar.

    Bem, uma noite no hospital... Não podia fazer nada quanto à isso. Olhei para a janela entediada, suspirando em desânimo com a movimentação tanto do corredor como lá do pátio. Se estivesse mais disposta perambularia um pouco. Queria saber como funcionava direito um hospital e a medicina em Soul Society. Apenas vim pra cá desmaiada. Não vi o que faziam quando me tratavam. Me emburrei ao ouvir mais uma agitação lá fora, os gritos de ordens chegando até aqui. Droga.

    Estar grávida tem suas chatices, mas... Eu sou uma garota adulta agora, meu bebê é mais importante. Ao afagar minha barriga, sorri um pouco disso e bocejei sem querer. Cansada e letárgica. Piscando, olhei o relógio na parede esverdeada à direita e vi que eram nove da noite. Tão cedo... Bocejando mais pouco, levantei o lençol me deitando de lado. O travesseiro quadrado incomodou meu pescoço e afastei pra longe fechando os olhos.

    Daqui a pouco vão trazer o jantar mesmo. Uma soneca não faria mal.

    Não sei quanto tempo se passou. Mas não consegui dormir direito. Sentia um calor, como uma massa de ar quente em minha volta que chegava a ser sufocante. Quando dei por mim arfava, puxando ar pra conseguir respirar. Será que estou com febre? Entreabri os olhos, enxergando tudo embasado. Como estava de frente a entrada, a cortina azul tremulava levemente. Mas... Espere. Tem algo errado. Esse calor não vem de mim. Confusa, pisquei tentando acordar direito e entender quando um ruído sutil, agudo se misturando ao enfurnar soou do extremo do quarto.

    Uma energia vibrou suave e conhecida nesse cômodo me alertando ainda mais e caí de costas na cama levantando os olhos. Arquejei impressionada. Um falcão cinzento de asas negras se empoleirava na cabeceira da minha cama.

    - You ou?

    Inclinando a cabeça para o lado, o olho alaranjado se estreitou divertido.

    - Parece surpresa.

    Franzi a testa. Não fosse por menos. Eu nunca soube que uma entidade de zanpakutou podia fazer isso. E ainda, diferente de quando entrava no meu mundo interior, sua voz produzia um eco. Mesmo assim, era estranho. Me sentei afobada na cama voltada pra ele

    - Como...? Quer dizer, o que está fazendo aqui?

    Nesse instante que percebi. O falcão tinha quase um metro de altura, bem menor que seu tamanho real e maior que uma ave normal.

    - Quando shinigamis são feridos em batalhas, dependendo do poder espiritual do dono, as entidades de zanpakutous se manifestam. Mas somente quando estamos no mesmo cômodo que nosso mestre.

    - Ah...

    Notando minha confusão, ele me explicou tombando a cabeça.

    - Uma enfermeira me trouxe enquanto dormia

    Olhei de relance para a mesa atrás dele, colocada rente a parede. Forrada num lençol branco em cima dela estava meu quimono da academia, dobrado e separado por peças e ao lado delas minha zanpakutou fora da bainha. A espada brilhava envolvida numa aura prateada e anil e ainda por cima transformada. Incrível.

    - Karin.

    - Hai.

    Saí daquele estado de fascínio e me surpreendi com seu olhar. You ou me encarava sério.

    - Não vim aqui apenas para lhe ver. Tem algo errado nesse lugar.

    - Nani? Do que está falando?

    Olhando em volta, a ave estreitou os olhos girando a cabeça como se tentasse enxergar algo, mas não conseguia.

    Uma reiatsu se move nesse local, por entre essas paredes, mas não sou capaz de dizer com exatidão... – estremeceu frustrado, então me encarou – Deve ser sair daqui imediatamente.

    Ele estava me assustando. Procurei não entrar em pânico. A ultima coisa que de preciso é ficar apavorada.

    - Espere, tem certeza do que está falando?

    Tudo o que o Rei Falcão fez foi estremecer me fitando preocupado e urgente. Engoli em seco.

    - É um hollow?

    Suspirando fundo, os olhos alaranjados se apertaram enquanto You ou mantinha a calma.

    - Não. É uma reiraku deturpada. De uma natureza nociva e errante. Vá, agora! Está próxima daqui.

    - Matte.

    O eco de sua voz diminuiu enquanto seu corpo se esvanecia até desaparecer numa fumaça cinzenta. Olhei para a mesa e a zanpakutou voltou ao seu estado selado parando de brilhar. Agarrei a cabeceira encarando o nada, sentindo o coração se apertando.

    O que foi isso? Não havia sentido. Além do mais, não posso simplesmente sair correndo. Mas... You ou não apareceria sem motivo. Mesmo disfarçando estava nervoso.

    Um barulho, de estalos e trincos, me espantou vindo do corredor. Encarei a cortina ofegante notando o silêncio anormal, esse calor aumentar. Rápido levantei da cama, sentindo uma fisgada na barriga e peguei minha espada com a bainha. Embainhei-a devagar vigiando a cortina e me aproximei cautelosa.

    Ao chegar perto olhei para baixo, vendo as bordas do tecido azul tremulando como vi ao acordar, mas o vento... era quente. Engoli em seco, com o coração mais acelerado e segurando numa mão a zanpakutou, agarrei um monte da cortina com a outra. Afastei enxergando devagar e olhei em volta. Num extremo nada, as luzes nas paredes pareciam fantasmagóricas de tão fracas. Dei um passo, pisando em algo molhado e baixei os olhos encarando o que devia ser meu jantar.

    Nem verifiquei o resto da louça quebrada e a comida jogada no piso de madeira. Um engasgo enregelou meu sangue e ergui o olhar para esquerda, em tempo de ver uma cena macabra. Um shinigami do 4º bantai prostrado de joelhos no chão, a pele cinzentando e o rosto murchando como seus braços. Ele olhava em frente, para mim com os olhos opacos e fundos.

    Balbuciava alguma coisa. Ia perguntar o que havia com ele quando sua voz ganhou mais força sussurrando.

    - Corra.

    Arregalei os olhos, vendo seu corpo cair para frente enquanto o ar tremulou, cortando ao vir até mim. Nem pensei. Saltei no shunpo inclinando para o lado ao me esquivar por reflexo. Apareci metros a frente, vendo chocada a cortina pegar fogo, as chamas azuis lambendo o tecido ate se extinguir. Olhei para a bochecha, mesmo sem poder ver sentia a pele ardendo!

    Foi vapor?! Mas de onde veio isso? Um tremular sutil de reiatsu me espantou e encarei a frente.

    Uma forma transparente pelo modo como o ar ficava turvo e a luz refratada do que havia no outro lado do corredor, se deslocava saindo do meu quarto, ondulante como... um tentáculo? Pisquei incrédula, tremendo ao sentir a temperatura aumentar. Aquilo se voltou na minha direção, hesitante por uns instantes então se retorceu, mergulhando no piso. Arfei nervosa. De onde vinha? Verifiquei envolta e segundos depois me arrepiei inteira. A reiatsu nociva cresceu debaixo dos meus pés e girei desviando, saltando no shunpo outra vez.

    Apareci no meio de um cômodo com um bando de soldados feridos. Alguns gritaram ao me ver. Nem dei atenção, me apoiei com a mão livre na parede, sentindo as pernas fracas. Que droga, eu não devia ter me movido daquele jeito.

    - Ei, o que está fazendo aqui?

    - Não pode sair do seu quarto!

    Duas enfermeiras espantaram as outras que nem haviam me notado e simples engoli a fraqueza me endireitando ao correr até a porta de saída do lado oposto. Com a quantidade de gente aqui acabei causando uma verdadeira confusão. Não esbarrei por pouco de um shinigami do quarto bantai trazendo comida, ouvindo ele cair com a bandeja. Atrás de mim, alguém gritou que me segurassem.

    - Ei, menina. Pare!

    Um shinigami apareceu na minha frente, tentando me apanhar pela manga do quimono e afastei o braço de uma vez, fazendo a gola se alargar expondo um pouco meu colo. Como corria, o movimento brusco me fez escorregar e girei o corpo desviando de outro shinigami à minha esquerda e me abaixei, deslizando os pés ao passar por debaixo do seu braço.

    - Peguem ela!

    - Não deixem ela fugir!

    Kuso. Mordi o lábio. Será que ninguém sentia esse calor saturando o ar?! Seja o que for, aquela coisa se aproximava a cada vez mais desse andar. Já estava quase alcançando a saída quando vi algo pela visão periférica. Me esquivei, afastando o rosto pra trás, vendo um homem na maca a minha esquerda revirar os olhos com uma gota de algo verde na testa. Ele caiu desmaiado na maca e me virei para quem jogou aquilo. Um shinigami estalava a língua segurando um vidrinho pequeno entre os dedos. Arregalei os olhos.

    Tranquilizante.

    Ah, merda.

    Sumi no shunpo, antes que me atirassem mais daquela pasta, surgindo numa área de recepção. Quase não havia ninguém aqui. Respirei fundo, suando frio e estremeci ao sentir umas pontadas no baixo ventre. Por favor, agüente mais um pouco. Agarrei a barriga  observando o movimento no outro extremo. Estou me arriscando demais. Assim que achei seguro, caminhei até sair dessa recepção entrando num outro corredor. A saída devia ficar pra lá.

    - Ei, você.

    Arfei agoniada, virando o rosto na direção da voz. Um grupo de outros shinigamis me viram. Girei para o outro lado, o movimento causando outras fisgadas na minha barriga e um borrão cruzou meu caminho antes que me mexesse.

    - Parada aí.

    Tsk. Um cara grandão embarreirava o caminho. Recuei uns passos, escutando os outros correrem até mim. Encarando o grandão, me inclinei um pouco e joguei a zanpakutou na frente agarrando a corrente entremeada. O shinigami se espantou, achando que sacaria a espada, se chocando ainda mais quando apenas passei a corrente pelo pescoço, pendurando atravessada em minhas costas.  A cinco passos dele, me movi como se fosse saltar em tempo de gritos virem do cômodo de onde fugi. Aproveitando da distração saltei no shunpo outra vez, surgindo num lugar vazio.

    Olhei em volta, arfando e procurando me acalmar. Ao meu lado um balcão alto de madeira e branco cheios de pranchetas. Diante dele uma fileira de cadeiras acolchoadas e verdes, e se reparasse nos cantos vasos de plantas ornamentavam. Engoli em seco. Me encostando no balcão, ao encarar um corredor largo e vazio.

    Típico de uma ala de hospital. Tremula fechei os olhos. Meu coração martelava seco na garganta. Eu preciso me acalmar, me acalmar. Afaguei um pouco minha barriga, sondando se o bebê estava bem e senti as fisgadas sumirem. Abri os olhos fitando o nada.

    - O que eu faço?

    Não posso lutar, muito menos correr do jeito que preciso. Mal saí de uma situação complicada, o que fiz ainda pouco foi exagerado demais. Mordendo o lábio, tentei encontrar um jeito de sair daqui sem prejudicar a mim e o bebê. Se os funcionários me encontrarem de novo vão me forçar ficar num quarto. Era óbvio, por isso fugi deles sem tentar explicar.

    Eu nem via direito o que era aquilo!!

    Se eu receber um ataque direto... Espere. Ataques diretos. Kuukaku me disse uma vez de um kidou para esse tipo. Um bakudou em forma de barreira, que defende desviando qualquer ataque vindo de fora. Qual era o nome? Franzi a testa impaciente até que consegui lembrar. Espalmei a mão no baixo ventre e olhei para ela, vendo-a brilhar pálida.

    - Kyoumon.

    A energia refletiu a pouca luz que vinha das lâmpadas no teto e canalizei dentro do meu corpo. Fiz com que envolvesse meu útero, tendo a mesma sensação da tarde que tive com Toushirou. Isso ajudou a me concentrar até que a mantive ativa e firme.

    Sorri satisfeita. Pronto. Agora ele está seguro.

    Uma brisa soprou balançando suave meus cabelos e virei o rosto alerta para a esquerda. Uma janela estava aberta, deixando entrar o ar da noite. Engoli em seco. Ela não estava assim momentos atrás.

    As luzes do teto piscaram falhando, junto com o som de eletricidade perdendo o contato ao estalar. Um suor começou a brotar do meu pescoço, misturando ao frio e agarrei o punho da espada em minhas costas. Eu não iria lutar. Não tinha condições pra isso. Na primeira oportunidade distraio num ataque rápido e fujo. Dei um passo, olhando atenta em redor, sentindo qualquer presença de reiatsu nesse andar. Pelo céu predominando a paisagem na janela estava num local alto. Um estalo soou distante e encarei na direção estreitando o olhar.

    No suspense quase não vi até enxergar direito. Uma silhueta. Esguia e humanoide parada perto da entrada de uma sala. A reiatsu dela... Não era de um shinigami. Engolindo o pânico, a encarei numa postura firme e expressão séria.

    - Quem é?

    A pessoa não respondeu. Continuou quieta até dar um passo. O barulho soou alto nesse lugar e agarrei mais forte o punho da espada.

    - Não se aproxime ou eu vou...

    A silhueta tremulou junto ao um rasgado de um som desaparecendo. Sonido. Ainda presa no choque, ouvi o barulho soar atrás de mim e girei sacando a zanpakutou ao mesmo tempo em que o prédio inteiro estremeceu. Perdi o equilíbrio com os abalos e vi por uns instantes, um braço pálido como giz se esticando pra mim. Cerrei os dentes, ofegante e sumi no shunpo antes de me chocar no chão, surgindo em pleno ar num local diferente.

    Olhei sobre o ombro vendo o piso de madeira crescer de repente enquanto despencava em queda livre.

    - Shibata!

    Rápido, girei desaparecendo outra vez e surgi mais perto do piso. Escorreguei ao cair de pé, derrapando para trás e me endireitei, dobrando os joelhos com o peso da manobra. Arquejando olhei ao redor e acima. Quase me choquei com uma parede. Parecia quando não sabia direito hohou. Tremendo encarei o vazio, agarrando minha barriga.

    Quem era ele? Um hollow? Com certeza, mas... seria um tipo pior? Levantei o rosto pra me situar. Aqui devia ser o refeitório com tantas mesas compridas espalhadas. A energia caiu e havia gritos. Pela direção vinha exatamente do quarto andar.

    - Tenho que sair daqui.

    - Devia ser mais prudente com o que acontece em sua volta.

    Arquejei de susto, petrificada com a voz fria. Mal olhei para trás e a pessoa me agarrou pela cintura sumindo no rasgado de som do sonido.

    KARIN POF

    Momentos atrás.

    HITSUGAYA POV

    Dentro da sala de observação, os técnicos verificavam às ordens de Akon os dados registrados da missão fracassada. A mais simples informação seria relevante para o relatório que provavelmente será apresentado na próxima reunião de capitães. Eu, enquanto isso, me mantive em silêncio. Afastado dos outros capitães ouvindo vagamente o burburinho ao redor. Estava perplexo com o que acabou de se passar aqui.

    O que era aquilo?

    A cauda sinuosa, translúcida assassinando dois soldados Omitsu Kidou sem a menor dificuldade. Estreitei os olhos, arfando mais perturbado. Isso... não poderia está acontecendo. Observando ao redor, procurei manter uma aparência de concentração e seriedade, segurando o choque por dentro. Sei bem o que vi. Era absurdo ninguém ter enxergado as cenas no telão. Entretanto, o que me espantava eram os capitães aqui presentes. Kurotsuchi principalmente. O olhei de esguelha, conversando com Kyouraku no que me parecia irritado.

    - De maneira alguma!

    Kyouraku sorriu tentando ser agradável, mas foi inútil. Pelo semblante endurecido e cadavérico do outro, não cederia de jeito nenhum.

    - Ah, mas apenas uma cópia não faria falta.

    Suspirando sério, Kurotsuchi cerrou os dentes minimamente.

    - O livro de registro de transição em Dangai é um documento confidencial de alta importância. Não posso entregar uma cópia sem os devidos protocolos. – se voltando para o lado gritou - Nemu!

    Um borrão acompanhado de um estalido surgiu ao seu lado dando lugar para sua tenente, que se curvou em respeito.

    - Hai, Mayuri-sama.

    - Envie imediatamente alguns homens para o local.

    Estreitei os olhos para Kurotsuchi. Ele simplesmente ignorou os outros taichous dando ordens aos seus subordinados. Hirako e Kyouraku suspiraram enfadados enquanto Soi Fong estreitou o olhar. Ela não estava nada satisfeita com isso.

    - Com que propósito, Kurotsuchi?

    Num ar indiferente, ele acenou para o lado descartando a pergunta.

    - Pistas, óbvio. Os cadáveres devem servir de algum uso depois desse fiasco.

    Soi Fong arregalou os olhos.

    - Como foi que disse?

    Esse sujeito era mesmo intragável. A capitã estremecia, lívida do comentário nada discreto desse louco. Os técnicos trabalhando nos consoles ao redor e abaixo desse observatório fingiam não ver a discussão. Cena típica, creio.

    - Eu não acredito que este tipo de suicídio necessite de necropsia, Kurotsuchi. A não ser de que esteja falando dos outros soldados da equipe.

    Hirako assinalou e ainda debochado continuou.

    - Os que desapareceram ao atravessarem Dangai.

    Se voltando para ele, Kurotsuchi cruzou os braços por dentro das mangas do haori o encarando de soslaio.

    - Está insinuando que o Centro de Desenvolvimento Tecnológico tem alguma culpa nisto?

    Hirako o olhou de cima.

    - Exato.

    Soltando os braços, Kurotsuchi avançou no louro debochado apontando-lhe o dedo.

    - Absurdo! Eu não preciso ouvir opiniões de um sujeito irresponsável!

    - Oie, vamos nos acalmar. A vigília dessa missão já foi esgotante por uma noite.

    Kyouraku se intrometeu entre os dois. Entretanto, ainda se encaravam com hostilidade. Hirako num ar irritante num sorriso descarado e Kurotsuchi estremecendo de ódio.

    - O que realmente interessa é a razão desse ataque.

    Estremeci por dentro desviando o olhar. O que, precisamente devia ser a pergunta.

    - Hitsugaya taichou.

    Não pude responder. Preso nessa sensação sufocante, suspendi o fôlego estremecendo de choque ao entender.

    - Karin.

    Sussurrei incrédulo e percebi vagamente o taichou ao meu lado pestanejar. Sem me dar conta ao certo do que fazia, girei no lugar levantando os olhos para a passagem de entrada desse observatório no instante que um shinigami entrou. Sem ao menos explicar disparei no shunpo. Atravessando o vestíbulo da passarela avermelhada em segundos, as luzes no teto se acendendo automaticamente com minha presença. Assim que pisei no corredor longínquo, uma cacofonia encheu a sala de observação. Pelas vozes, todos agitados e confusos. Parecia um caos.

    Fiz um esgar, mais perturbado com os calafrios em minha espinha. Aumentavam a cada segundo. Um grupo de shinigamis que se encaminhava nesse corredor se espantou com o deslocamento de ar assim que corri diretamente para a saída. Folhas de relatórios voaram e alguns olhavam espantados. Claro que não me viram na velocidade que estava. Mal apareci no pátio de entrada, iluminado com tochas até o portão e saltei outra vez para longe. Me dirigindo até a fonte desse clamor mudo de perigo.

    Não é possível. Outra vez?! De todos os lugares... Achei que ela estaria segura no 4º bantai!

    Segundos depois um sinal de alerta se propagava por toda a cidade. Estreitei o olhar, correndo o mais rápido que podia pelos telhados dos prédios até Karin.

    Isso não era possível. Ao pousar num terraço ouvi uns pedaços da ordem para Brigada.

    - ... Alerta de emergência no Sougou Kyuugo Tsumesho. A causa do ataque ainda não foi confirmada. A região está completamente cercada. Repetindo... todo o Gotei 13 deve ser reunir na área nordeste, quartel do 4º bantai.

    A voz anasalada de um dos técnicos do Departamento Tecnológico, transmitia em grande escala as ordens.

    Arquejei ainda mais, notando outras reiatsu seguindo quase que imediatamente para o mesmo local. Já avistava o complexo de prédios durante um salto quando senti o eco mudar de direção bruscamente. Parei no ar. Derrapando ao frear no movimento. Arfando estupefato observei em volta. O que foi isso? Shunpo? Não, ela não tinha condições de saltar grandes distâncias assim. Então...

    Uma explosão estourou, me distraindo e virei o rosto encontrando um dos prédios do hospital em chamas. A nuvem negra subia, em meio à fagulhas e destroços. Mirei o pátio externo, a maioria dos pacientes se amontoando em macas ou carregados por enfermeiras e soldados do esquadrão. Foram deslocados às pressas, enquanto outros shinigamis da Brigada chegavam para auxiliar.

    Mas o que está acontecendo?

    Procurando sentir a reiatsu de Karin, a localizei em área distante. Vinha contrária do esquadrão. Sumi no shunpo, correndo desesperado na direção enquanto notava aquele clamor diminuir, os calafrios atenuando. Kuso...

    Tentei evitar pensar no pior, achar algum sentido nisto. Sequestro? Improvável. Mesmo que a tenham tirando do local de ataque, se aproveitando desse caos não a levaram para outro lugar. Estavam em Seireitei. Estremeci irado ao perceber algo mais, aumentando o passo relâmpago. Não enxergava nada pela visão periférica. Mesmo com o vento noturno soprando no meu rosto, não pude ficar calmo. Chegava mais próximo do lugar para onde a levaram, sentindo mesmo que insignificante outra reiatsu junto dela.

    E não era de um shinigami.

    HITSUGAYA POF

    KARIN POV

    Sequer tive como reagir. Presa pela cintura não vi mais nada, até aparecermos em pleno ar num lugar úmido. Olhei para baixo, vendo o chão brilhando tênue crescer até o sujeito pousar chapinando água. Tossi atordoada, meio sem fôlego – o braço pálido pressionava bem no diafragma – enquanto ele caminhava até uma margem de pedra. Suguei uma golfada de ar, me recuperando um pouco e dei uma cotovelada nele no estômago com toda a força.

    Péssimo erro. Um segundo depois um choque de dor disparou por todo o meu braço. Parecia que tinha golpeado uma parede. Nem tive tempo de segurar o grito.

    - Quieta. Um ataque inútil desses só irá feri-la.

    Vastor Lorde cretino. Ele não sentiu nada! Subindo a margem, ele me soltou brusco e caí de quatro nesse piso de pedra. Borrifos de água ecoavam por parte toda e ofegante, levantei os olhos. Através das mechas vi que estávamos em uma espécie de poço. Pedras lisas e redondas forravam o canal redondo de água, até o centro onde um buraco escuro ficava. Um balde de madeira boiava em cima desse buraco – o poço, creio eu – enquanto outro estava suspenso acima na armação de madeira que sustentava o teto daqui. Uma corda grossa os ligava e de cima bem no alto, uma luz azul fantasmagórica refletia aqui.

    Era bem fundo, no subterrâneo pelo ar úmido e ao julgar pelas paredes lisas e cinzentas devia ser...

    - Os canais das galerias subterrâneas.

    Pestanejei de susto, virando para a voz fria.

    - É onde estamos agora, caso queira saber.

    A silhueta dele estava na entrada de um dos canais. Franzi a testa, me endireitando devagar ao me levantar. Com meu movimento vi a sombra de sua cabeça se inclinar para mim.

    - Não irei lhe fazer mal.

    Segurei uma resposta ácida. Como “não vai me fazer mal”? Fui arrastada aqui, ele ainda se escondia nas sombras não me deixando-o ver, sem contar que o gosto da bile subia forte enquanto olhava mais atenta sua sombra. Ele... não tinha sequer uma semelhança com aquele outro que me quebrou a perna. Seu corpo era... praticamente humano.

    - O que você quer?

    Se voltando para mim, tive a impressão que me analisava friamente me causando arrepios na espinha.

    - Esse tom de desconfiança leva a crer que não acreditará em nada do que eu disser.

    - Responda minha pergunta.

    Estava quase perdendo o controle. Esse sujeito me deixava extremamente nervosa.

    - Em primeiro lugar, garantir sua segurança.

    Nani? Recuei um passo.

    - Segurança? Do que voc...

    - A criatura que se infiltrava na construção onde estava. Um contato com ela e extinguiria sua energia espiritual.

    Petrificada lembrei-me daquele shinigami caindo morto no corredor. Ele parecia ser queimado de dentro para fora.

    - É como pensei. Você também pode ver.

    Acordei do devaneio. A sombra do hollow estava mais próxima da entrada do canal. Estremeci por dentro, o coração martelando na garganta. Todos os meus nervos gritavam em alerta. Mesmo que não me tenha feito nada, esse cara era perigoso. Tanto que um suor brotava na minha nuca e não era pela umidade daqui.

    - O que é aquilo?

    Se o enxergava então também sabe o que é.

    - Não posso dizer.

    Nem hesitou. Isso só aumentou meu nervosismo.

    - Escute aqui, se espere que eu confie nessa história de me proteger então...

    A sombra tremulou, desaparecendo naquele rasgado de som. Pálida, senti um arrepio sinistro e agarrei por reflexo o punho da espada. Antes que a puxasse, meu pulso foi agarrado e torcido num ângulo disparando choques de dor em todo meu braço.

    - Não seja presunçosa, garota. Em momento algum disse que a protegeria. Sua segurança, sim, nos interessa, mas quem a faça não é importante.

    Ele me imobilizava mantendo meu braço dobrado para cima e a força me dava impressão que ia quebrar. Pensava em um jeito de me soltar olhando discretamente para o braço pálido, quando a pressão do aperto aumentou de repente.

    - Não se mexa ou perderá sua criança.

    Ofeguei assustada e incrédula. Como? Tremula baixei o olhar realmente apavorada. Percebendo que fiquei quieta, seus dedos afrouxaram sem, no entanto, me dar chance de me livrar.

    - No prédio número quatro em um dos quartéis existe um túnel que leva para uma galeria subterrânea.

    - P... Por que está me dizendo isso?

    - Lá encontrará as respostas que procura.

    Nesse instante, olhei para a água. Os reflexos na superfície ondulante quase não davam para distinguir. Porém, prendi o fôlego ao focar na figura que estava atrás de mim.

    O hakama branco e esfarrapado, os braços nus e pálidos como o torso. A vestimenta dele estava rasgada, principalmente na manga esquerda como se... Tivessem decepado seu braço e outro cresceu no lugar. Contudo, o que realmente causou meu choque foi ver uma máscara quebrada em sua cabeça.

    Todos meus instintos de sobrevivência estavam certos afinal.

    Antes de reagir, uma reiatsu se aproximava veloz daqui. Ao ponto do ar tremular com a energia vibrando. A pessoa invadiu o poço, alterando a pressão aqui dentro fazendo a água jorrar explodindo. A mão do arancar já tinha me soltado quando caí desmaiada na água.

    KARIN POF

    HITSUGAYA POV

    Parecia um deja vu. Exceto que dessa vez era noite e apenas em um local da cidade o ataque havia acontecido. Aparecendo diante dos portões do meu esquadrão, os guardas se espantaram ao me ver carregando Karin nos braços com o pormenor de nós dois estarmos completamente molhados. Encarando a frente, entrei sem dizer nada e notaram pelo meu semblante que não deviam me fazer perguntas.

    Mesmo controlado, deixava escapar um pouco que seja da minha reiatsu. E ela estava tão perturbada mostrando qual era realmente meu humor. Péssimo era o mínimo. Seguia pelo caminho de cimento, atraindo atenção enquanto me dirigia até o dormitório do capitão. Meus soldados se curvavam em respeito ao cumprimentarem, logo voltando aos seus afazeres. Alguns até chegavam perto, porem, antes de me abordarem notavam meu humor e se retiravam.

    Assim que deixar Karin onde morávamos provisoriamente, buscarei Matsumoto. Ela não poderia ficar sozinha. Não depois do que vi.

    Flashback

    Estava quase chegando ao local, quando o eco desapareceu. Sustentei a respiração, arregalando os olhos ao estacar no ar. O vento soprava forte, as rajadas sacudindo tanto minhas roupas como cabelos, aumentando a sensação de vazio.

    - Onde?

    Embaixo de mim, uma praça enorme se estendia. Seus muros baixos ladeavam pelo o que notei uma área residencial. Estremeci aflito, o eco ressonava vindo daqui. Tenho certeza absoluta. Estava tão concentrado nisso, que por um momento me esqueci que podia sentia a energia dela. Me centrei, controlando essa ansiedade até mirar uma construção bem a entrada leste. Estreitei o olhar e arquejei.

    Um poço. Sumi no shunpo, disparando até o lugar e me atirei lá dentro. Na queda, senti a outra energia desaparecer de repente, se aproveitando do jorro de água causado com a pressão da minha reiatsu. Quase a segui, mas um baque na água tirou minha atenção. Esqueci do hollow - era inegável a assinatura de reiraku - para o corpo boiando na água. Desapareci surgindo ao lado dela. Karin quase afundava, a “chuva” que causei provocava marolas impedindo e me encharcando também.

    A peguei nos braços e ajeitando-a contra o peito, me espantei ao ver sua zanpakutou em suas costas. A tirei passando a correia pelo pescoço e pendurando nas minhas, para depois a segurar direito nos braços. Fitei-a por um momento, estremecendo ao apertar os olhos e desviei para o túnel a esquerda. Mechas do meu cabelo grudavam no rosto me impedindo de enxergar direito. Mesmo assim, não diminuiu essa agonia misturada com impotência.

    À essa altura a criatura já estava bem longe daqui.

    Flashback off

    Kuso!

    O que será que queria? Não encontrar respostas estava me dando nos nervos.

    - Taichou!

    Parei no lugar, girando para trás em tempo de ver Matsumoto correr até mim. Ela arregalou os olhos, reparando tanto no meu estado como da minha esposa.

    - O que houve capitão?

    Suspirei fundo mais consternado e a encarando de soslaio girei para a entrada do prédio.

    - Depois conversamos. Venha comigo.

    Continuei a caminhar, entrando no gramado diante da casa e logo o atravessei subindo os degraus da varanda. Estava com pressa. Encharcada e ventando forte desse jeito, a pele de Karin já esfriava, além de que precisava saber senão havia acontecido nada nem com ela ou o bebê. Atrás de mim, Matsumoto me seguiu calada. Abri a porta dupla sem problemas e já dentro segui direto até a escada. Indo ao segundo andar, onde sem parar fui até nosso quarto e puxei a porta.

    Matsumoto se manteve quieta na sala. Sem explicar ela percebeu e me deu privacidade de cuidar de Karin. O que incluía retirar o quimono branco e ensopado, levá-la até o banheiro anexo e lhe dar um banho com água morna. Talvez eu esteja sendo meticuloso, mas da forma como tudo aconteceu hoje, poderia ter acontecido o pior e a culpa disso estava me atormentando. Assim que o corpo dela se aqueceu, a enrolei numa toalha e a levei para o quarto onde a enxuguei e a vesti deitando-a no futon.

    Antes de me levantar, peguei seu pulso direito respirando fundo para o hematoma. Tinha o formato de um punho e o tamanho era do de um homem. Pousei com delicadeza no colchão, fitando seu rosto adormecido. A sensação de impotência aumentou juntamente com a frustração.

    Maldição.

    Se tivesse entendido mais cedo, se... tivesse me apressado mais ao encontrá-la... Kuso. Me descuidei achando que estaria em segurança no hospital. Karin não está em condições de se defender sozinha e mesmo assim, ela tentou hoje. Mordi o lábio em nervosismo. Espero que não tenha exagerado. Deslizando os olhos nela, me apoiei num joelho e estiquei a mão, tocando com a ponta dos dedos desde sua garganta, escorregando em linha reta até seu baixo ventre. Um alivio e surpresa me inundaram.

    Alivio por saber que não havia errado. Surpresa por que senti uma energia localizada dentro dela nessa região. Sorri um pouco.

    - Kyoumon.

    Olhei para seu rosto, orgulhoso e um pouco risonho. Protegendo do que ser protegida. Esse bakudou gastou mais da metade de sua reiatsu. Não é estranho agora por estar fraca. O desmaio deve ter levado em conta isso também. Voltei os olhos para sua barriga e tocando levemente, retirei o kidou, quebrando-o aos poucos até não restar nada.

    Graças a isso, nosso filho estava bem. Ao olhá-la mais uma vez, não resisti e me debrucei devagar, apoiando o braço ao lado de sua cabeça, a outra mão enterrando em seus cabelos úmidos espalhados no colchão. Com o rosto tão próximo do seu, arfei tonto com a respiração morna se chocando com a minha. Apenas encarei seus lábios mais uma vez e fechei os olhos, encobrindo com os lábios. Entreabri sua boca, encaixando na minha dando inicio ao um leve beijo.

    Precisava. Num intervalo curto sofri dois sustos enormes. Tê-la assim, nem que fosse num beijo roubado me acalmava. Antes que exagerasse, me afastei. Provocando um estalo de lábios no silencio desse quarto e encostei a testa na dela, vendo-a dormir serena.

    Pensei em dizer algo para ela, mesmo que não ouvisse, o momento parecia perfeito. Contudo, as palavras que pensei não precisava, de fato, verbalizá-las. Seria melhor quando estiver acordada, talvez exausta do que pretendia fazer com ela, e ainda quando essa situação se resolvesse.

    O ataque no Posto Médico Geral não pode ter sido apenas coincidência.

    A criatura que destruiu a missão e ninguém viu. O Arancar que abordou Karin e ficou a sós com ela nos canais. Não existem coincidências assim.

    Me endireitando a cobri com o lençol. Depois de me trocar, me livrando das roupas molhadas, saí do quarto. Assim que der a ordem para Matsumoto de permanecer com Karin, saíria. Precisava conversar com uma pessoa.


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