Dança celeste

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    12
    Capítulos:

    Capítulo 7

    O Templo das Estrelas

    Linguagem Imprópria, Violência

    ~sai de debaixo de uma pedra~

    Oi gente, Chibi is baaack~

    Não, eu não morri, só estava com problemas pra escrever a fic mesmo. Mas, eu finalmente terminei o capítulo e enfim chegamos ao clímax da história!!!!

    Aproveitem o capítulo de 5.8k de palavras e espero que gostem~

    Ana/Chibi ^^

    Fronteira do Império e das Terras Místicas, próximo à Serei

    Após deixarem a cidade de Serei, não demorou muito para que Natsu e Lucy cruzassem a fronteira entre o Império e as Terras Místicas e chegassem à pequena cidade de Tobirah, uma espécie de vilarejo interiorano onde eles pararam para reabastecer seus suprimentos.

    As Terras Místicas eram a parte mais elevada de todo o continente e a proximidade com as estrelas influenciava diretamente na flora do lugar. Tudo parecia mais vivo e tinha um brilho estonteante, que eles não tinham visto em nenhum outro local do continente.

    Tobirah mesmo sendo um vilarejo, ainda era um dos locais mais importantes do território pois por lá passavam vários peregrinos que procuravam o Templo das Estrelas em busca de conforto para a alma e respostas sobre o futuro.

    Tanto era assim que grupos liderados por guias nativos eram levados até Mikony, a última e maior cidade antes do início da ardilosa trilha que levava às portas do templo.

    Natsu e Lucy se juntaram a um desses grupos e tiveram uma viagem tranquila de Tobirah a Mikony. E quanto mais subiam dentro das Terras Místicas, mais Lucy sentia seus braceletes ressonarem com a energia celestial e a marca em suas costas incomodava de leve, mas não como se ardesse ao ponto da dor, e sim como um estímulo que trazia calma e conforto.

    Natsu também aparentava estar em paz durante todo o trajeto e nem mesmo sua marca ou sua recém-formada cicatriz pareciam incomodá-lo. E foi naquele clima de paz e serenidade que eles chegaram a Mikony, a suposta capital das Terras Místicas, uma cidade fundada pelos primeiros Star Dancers que surgiram na história do continente.

    Ao chegarem na cidade, ficou claro que a última parte de sua jornada não seria fácil. Estava óbvio que muitos desistiam ao chegar à capital e verem o quão penosa era a jornada até o Templo. Mas estando tão perto de seu objetivo, os dois se recusavam a desistir, ainda mais depois de tudo o que haviam passado para chegar até ali.

    E após descansarem por alguns poucos dias, os dois começaram a longa e ardilosa trilha que levava ao templo. A trilha era estreita e cercada por vegetação de aparência inamistosa, árvores que aparentavam brilhar ao mesmo tempo que possuíam troncos e galhos distorcidos e cheios de espinhos em seus troncos, tornando não impossível, mas bastante difícil de se usar como apoio para evitar uma queda.

    Natsu e Lucy avançavam devagar, sempre ajudando um ao outro, especialmente nas áreas onde havia pedras soltas e nas áreas escorregadias. E ao fim de uma exaustiva jornada de aproximadamente cinco-seis dias, os dois chegaram ao topo da montanha, local onde ficava o Templo das Estrelas.

    O Templo era uma construção imensa, com tal ar de misticismo que fazia com que toda a energia a que eles já tinham se acostumado fosse comparável a nada. Com uma gigantesca porta de ferro trabalhada com o que aparentavam ser ilustrações esculpidas no metal, a vista era no mínimo deslumbrante, deixando a dupla boquiaberta.

    Eles se aproximaram da porta e perceberam que ela não estava trancada, bastando apenas empurrá-la para poder entrar. Foi exatamente o que fizeram. Assim que entraram no grande salão de entrada, Natsu e Lucy ouviram dois sons. Um instrumento de cordas suave sendo dedilhado e uma voz doce e claramente feminina acompanhando o instrumento de cordas.

    Os dois foram seguindo o som, até que chegaram ao cômodo onde estavam duas pessoas: um homem de cabelos roxos que tocava uma espécie de alaúde e uma mulher de vestimentas exóticas, cabelos negros e uma tiara que imitava chifres, que era quem cantava.

    Natsu e Lucy ficaram em um canto um pouco mais escondido com a intenção de escutar a música sendo cantada ali, apesar de ser desnecessário, já que a dupla de músicos estava imersa demais em sua música para notar qualquer outra coisa. Foi quando a melodia mudou e uma canção que ressoava com Natsu e Lucy começou a ser tocada.

    A mulher começou a cantar, acompanhando a leve melodia do alaúde.

    Aquela que sob as estrelas dança

    Quem sobre o trono de lava descansa

    Laço de alma se forma e persiste

    A estrela guardiã do dragão resiste

    União predestinada

    A tempos e tempos já esperada

    Dança Celeste diferencial

    Qual nunca se viu igual

    Ela pausou o canto e a música continuou, só que dessa vez, quem cantava era o menestrel, iniciando uma nova estrofe da canção.

    Eis que das montanhas vem a esperança

    Com a marca de Draco caminha a criança

    Presente das fadas à linhagem do fogo

    A magia ancestral traz o renovo

    No campo escarlate a estrela dança

    Enquanto o príncipe reclama sua herança

    Das altas estrelas mensagem vem

    Trazendo boa nova às pessoas de bem

    E quando ele recomeçava o solo instrumental, a mulher notou que Natsu e Lucy estavam ali e os observavam. Ela cutucou o menestrel, interrompendo a música e chamando a atenção dele para a dupla que ali estava.

    — Neinhart, parece que temos visitas.

    — Como Sayla? — Indagou Neinhart, o menestrel, ao interromper a música. —  Visitas?

    — Sim, Neinhart. Visitas. — Respondeu Sayla de maneira doce e delicada. — Queridos, por que vocês não vem até aqui para conversarmos de uma forma mais apropriada?

    Natsu e Lucy apenas olharam desconcertados um para o outro e se aproximaram do local onde Sayla e Neinhart os esperavam. Nesse meio tempo, Sayla havia buscado algumas almofadas e indicado que eles se sentassem de frente a uma mesinha baixa para conversarem.

    — Aceitam chá? Também temos alguns biscoitos. — Ela ofereceu aos dois. — Sintam-se à vontade.

    — Pois bem, sejamos diretos, o que os traz ao Templo? — Perguntou Neinhart.

    — O que nos traz aqui? É... — Natsu se mostrou bastante incomodado e indeciso. — ...me ajude aqui, Lucy!

    — Você por acaso esqueceu, Natsu? Seu pai nos mandou até aqui após receber a mensagem das estrelas. Acho que foi para deter o usurpador. — Interviu Lucy.

    Ao ouvir isso, Sayla e Neinhart apenas olharam um para o outro e, com um simples aceno de cabeça, Neinhart se desculpou e retirou-se rumo a uma parte mais ao fundo do templo.

    — Nos desculpem por isso, mas foi necessário. Oh céus, nós nem mesmo nos apresentamos! Que rude da nossa parte! Pois bem, eu sou Sayla, a contadora de histórias e aquele que se retirou agora a pouco é Neinhart, o menestrel.

    — Mas, onde ele foi? — Natsu questionou.

    — Ele foi anunciar a chegada de vocês aos altos sacerdotes. Faz muito tempo que não recebemos visitantes.

    — Mas... como ele vai nos anunciar se sequer sabe nossos nomes? Nós também não nos apresentamos antes dele sair. — Comentou Lucy.

    — Vocês verão. Mas se quiserem podem se apresentar também. — Sayla respondeu sorrindo.

    — Se é assim... eu sou Lucy Heartfilia, uma Star Dancer. — Lucy se apresentou primeiro, com toda a confiança que possuía.

    — Ah sim, bem notei seus braceletes, querida. Você aparenta ser amada pelas estrelas, já que possui essa quantidade de pingentes. — Mencionou Sayla, para logo em seguida se dirigir a Natsu. — E você, querido?

    — Pode me chamar de Natsu.

    — ... entendo. — Sayla comentou. Foi então que uma figura familiar entrou em seu campo de visão. — Veja só, Neinhart está de volta. Parece que tudo está pronto para receber vocês. Então, vamos?

    Concordando silenciosamente com Sayla, Natsu e Lucy se levantaram e foram seguindo a contadora de histórias e o menestrel até uma sala menor que o salão, aparentemente privada e pouco utilizada.

    Um rapaz de cabelos e olhos negros os esperava na sala, sentado em uma das cadeiras do lugar. Ele apenas esperou que Natsu e Lucy entrassem no local antes de se dirigir educadamente a Sayla e Neinhart, agradecendo-lhes por ter conduzido os visitantes até ali e pedindo que eles se retirassem.

    Sayla e Neinhart deixaram a sala e o rapaz virou-se para Natsu e Lucy, dirigindo-se a eles.

    — Pois bem, sejam bem-vindos ao Templo das Estrelas. Eu sou Zeref, um dos altos sacerdotes do templo. Logo Mavis, a alta sacerdotisa, estará se juntando a nós.

    Não demorou muito para que uma garota loira, que por algum motivo estava descalça, chegasse correndo e ofegante, já se desculpando pelo atraso.

    — Desculpem a demora. Prazer. Eu sou Mavis, a alta sacerdotisa. Creio que vocês sejam as crianças da profecia, certo?

    — Crianças da… profecia? — Lucy repetiu meio perdida.

    — Eh… que profecia? — Perguntou Natsu sem entender nada e com a confusão clara em seu rosto.

    — Espera, vocês nunca ouviram sequer fragmentos da profecia? — Indagou Zeref com urgência em sua voz.

    — Eh… não? — Responderam os dois.

    — Acalme-se Zeref, temos tempo para esclarecer tudo com calma. — Interrompeu Mavis — Vocês devem estar cansados depois de sua longa jornada até o templo. Por que não descansam e aí discutimos sobre esse assunto depois, sim?

    — Se é assim, vou pedir para que Mard e Zera preparem tudo. — Falou Zeref, já sinalizando para os dois assistentes.

    Os dois assistentes saíram com os visitantes para os aposentos que já haviam sido preparados para eles, deixando os altos sacerdotes sozinhos. Quando percebeu que já estavam sozinhos, Mavis se virou para Zeref e começou a dar uma espécie de bronca nele.

    — Zeref! Nós não podemos sair despejando informação em cima dos dois da maneira que você queria fazer! Você quer que tudo acabe sendo destruído por imprudência sua?

    — Mas Mavis, só pelo fato deles terem chegado até aqui... eles ao menos deveriam ter ouvido fragmentos da profecia.

    — Você se esquece que fora do Templo a profecia provavelmente está praticamente esquecida. — Retrucou Mavis — Mas agora que eles estão aqui, devemos ter cuidado ao contar tudo. Se a harmonia não for restaurada dessa vez, é provável que ela nunca retorne ao seu estado natural.

    — É verdade. — Concordou Zeref — E você sentiu, não foi?

    Mavis concordou com um leve aceno de sua cabeça.

    — A linhagem clama por sua herança selada. — Continuou Zeref — Agora vamos, logo os dois estarão atrás de nós procurando por respostas.

    Após deixarem a dupla de viajantes a sós, Mavis e Zeref se dirigiram ao local mais profundo do Templo. Havia certa coisa que não podia mais esperar, o tempo de quebrar o selo havia chegado.

    A herança da linhagem do fogo estava sobre uma construção semelhante à um altar, com um grande, antigo e complexo selo impedindo que qualquer um pudesse tirá-la daquele lugar.

    Mavis e Zeref se posicionaram cada um de um lado do altar, e logo foram levantando suas mãos direitas e fechando seus olhos, para que conseguissem se concentrar e iniciar a quebra do selo ancestral.

    Um brilho surgiu nas mãos estendidas e aos poucos o selo reagia ao brilho. Um ruído como o de uma porta se destrancando começou a tomar o local, e aos poucos o brilho que cobria o lugar ia se tornando mais forte.

    Chegou o ponto em que Mavis e Zeref tiveram que fechar seus olhos por causa do brilho, que só começou a diminuir após um alto estrondo de destravamento tomar a sala.

    Os dois altos sacerdotes estavam exaustos ao fim do processo. Mas havia valido a pena. Agora que a herança da linhagem do fogo estava livre, era apenas questão de tempo até que seu legítimo dono respondesse ao chamado dela.

    Zeref se levantou ainda ofegante e tirando a fina camada de poeira que havia se acumulado em sua roupa e comentou:

    — Bem, agora que a herança foi liberada, devemos voltar. Com certeza aqueles dois devem estar impacientes.

    E concordando com Zeref, os dois deixaram a sala onde estava a herança e retornaram ao local onde Natsu e Lucy os esperavam.

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    E de fato, não demorou muito para que Natsu e Lucy procurassem pelos altos sacerdotes. E a principal pergunta que atormentava a mente deles era sobre a tal profecia que todos pareciam saber o que era, menos eles.

    Já impaciente com toda aquela demora, Lucy resolveu ir direto ao ponto.

    — Pois bem, será que finalmente alguém vai nos dizer o que está acontecendo aqui? Porque parece que estamos envolvidos até o pescoço em algo que não temos a menor ideia do que seja!

    — Eu sabia que não esclarecer tudo logo resultaria nisso... — Comentou Zeref — Então, vamos às explicações. Mavis, por favor.

    — Já entendi. Não precisa ficar jogando para cima de mim. — Mavis respondeu revirando os olhos. — Vocês devem estar se perguntando sobre a profecia de que tanto falam, não é?

    — Mas como?! — Natsu foi pego de surpresa. — Está tão transparente assim a nossa maior dúvida?!

    — Nós apenas temos talento para ler as pessoas. — Disse Mavis ao começar a andar pelo salão. — Isso e também a maneira como vocês reagiram à canção do Menestrel e da Contadora de Histórias. — Mavis deu um breve giro, para logo em seguida parar sua caminhada.

    Ela então respirou fundo e começou a explicação:

    — Enfim, há tempos o templo das estrelas guarda a principal profecia do mundo, que traz que no momento de maior desequilíbrio, um dos herdeiros da linhagem do fogo e um dos mensageiros das estrelas se uniriam para restaurar a harmonia.

    — Certooo? Eu entendo a parte do mensageiro das estrelas, porque isso só pode estar se referindo a um Star Dancer. — Começou Lucy. —Mas quem seria o tal herdeiro da linhagem do fogo?

    — Seria uma pessoa com ancestral dracônico. ­— Comentou Zeref casualmente. — Porém essa linhagem, assim como os Star Dancers, está quase extinta.

    — E vocês ainda tem coragem de confiar em algo que depende de uma linhagem quase extinta?! — Comentou Natsu baixinho consigo, mas para o azar dele, Zeref acabou o escutando.

    — Pode parecer tolice essa história toda, mas as estrelas não erram. — Zeref afirmou de maneira dura ao se levantar da cadeira onde havia se assentado durante a explicação de Mavis. — Se elas deram essa profecia nos primórdios como a solução para um problema que pode destruir a harmonia permanentemente, confiar nas estrelas é a saída.

    — Quantos Star Dancers acreditaram nas palavras das estrelas e foram mortos por isso?! — Retrucou Natsu, já irritado com o alto sacerdote.

    — Não queria recorrer a isso, mas você não me deixa escolha, garoto! — Zeref falou avançando já na direção onde Natsu se encontrava.

    — Ei, o que é isso?! Me solte! — Natsu se debatia enquanto tentava se livrar do agarrão que o segurava pela gola.

    — Cale a boca que você vem comigo. É hora de conversarmos em particular. — Zeref falou em um tom intimidador, enquanto já ia arrastando Natsu para uma outra sala. — E Mavis, cuide de explicar tudo que for necessário à Star Dancer. Pode deixar que desse estorvo aqui cuido eu!

    — Eu realmente espero que todo o trabalho em quebrar aquele selo não tenha sido em vão... — Mavis comentou sem prestar muita atenção a quem podia escutar suas palavras, enquanto observava Zeref terminar de arrastar Natsu para fora da sala, deixando-a sozinha com Lucy ali. — Pois bem, que tal irmos à parte que realmente te concerne?

    E conduzindo uma Lucy que não tinha muita ideia do que estava acontecendo ali, Mavis se dirigiu para uma outra sala. Uma sala que funcionava como um observatório das estrelas.

    — Certo, agora que estamos apenas nós duas aqui, preciso que responda uma pergunta com a maior sinceridade possível: como você conseguiu o pingente de Draco?

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    Zeref demonstrava estar no limite de sua paciência. Depois de arrastar um Natsu confuso pelo templo, eles finalmente haviam chegado a uma área de treino reservada, que nada mais era que uma espécie de arena de pedra iluminada por umas poucas tochas rústicas.

    Zeref apenas soltou Natsu e começou a andar pela arena, mostrando certa ansiedade. O garoto mal teve tempo de se recuperar da queda, quando as provocações começaram.

    — Até quando vai ficar estirado de forma patética aí no chão? Se chegou até aqui, me mostre do que é capaz!

    — Mas o que! — Natsu foi tentando levantar mesmo sem entender nada do que ocorria ali.

    — Tsch, isso é tudo que restou da linhagem? Não sei porque Mavis acredita que a harmonia finalmente será restaurada... — Zeref zombou enquanto apertava os punhos.

    — Mais uma vez... EU NÃO SEI O QUE RAIOS ESTÁ ACONTECENDO AQUI! — Natsu gritou irado enquanto terminava de se levantar, o que fez com que o ar ao redor dele faiscasse, como se algo estivesse tentando se manifestar.

    Zeref notou a perturbação no ar, mas não deixou que Natsu notasse que ele queria que o garoto seguisse por aquele caminho.

    Quanto a Natsu, o garoto ficava cada vez mais frustrado a cada minuto passado naquele salão com o alto sacerdote que simplesmente havia começado a insultá-lo sem qualquer motivo aparente.

    — Isso não é justo. — Natsu sussurrou com a cabeça baixa e os punhos cerrados. Sem suas espadas, só lhe restava partir para o embate corpo a corpo e mesmo assim... Natsu lançou um olhar fulminante na direção de Zeref e rosnou avançando: — Isso não é justo!

    — Não é justo?! Quem se importa com justiça? — Retrucou Zeref enquanto desviava de socos desajeitados. — Em tempos de perturbação, justiça deveria ser a última coisa em sua lista de prioridades! — Ele bloqueou o ataque de Natsu, logo dando uma joelhada na barriga do garoto para em seguida lançá-lo para longe de si. — Fraco, muito fraco. E você ainda se diz digno do trono?!

    Natsu tossiu tentando recuperar o ar que o último golpe de Zeref o havia feito perder. Cheio de dores por seu corpo, ele não esperava que o sacerdote fosse tão forte fisicamente. Parecia que seu treino árduo para empunhar duas espadas com maestria havia sido inútil. A frustração borbulhava dentro dele, mas ela assim fazia porque as palavras do sacerdote tinham certa dose de verdade.

    Natsu sabia que mesmo com todo o treino que havia feito por toda a sua vida, ele jamais conseguiria fazer tudo que fosse necessário sozinho. Ele sabia que ainda não era digno do trono de Phyron. E era por isso que ele tinha que se tornar mais forte.

    A borbulhante frustração aos poucos ia mudando dentro dele e se tornando a mais pura força que alimentaria sua caminhada rumo ao futuro.

    Com os olhos em chamas e a determinação nascida da frustração impulsionando seus punhos, Natsu colocou tudo de si num único soco.

    Zeref arregalou os olhos. Ao redor do punho de Natsu, faíscas tomaram a forma de uma chama alimentada pela determinação do garoto e ele não conseguiu desviar a tempo, tomando o golpe diretamente em seu peito e sendo lançado para o lado oposto do salão.

    O sacerdote tossiu brevemente, antes de começar a rir como se tivesse escutado uma piada muito engraçada. E sem a sombra de desprezo que antes tinha quando se referia a Natsu, ele disse com um meio sorriso:

    — Parabéns garoto. Você passou. Parece que a linhagem do fogo ainda está longe de se extinguir.

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    Natsu estava catatônico com aquela situação. Nada ali fazia sentido! Em um momento, ele estava sendo atacado de todas as maneiras possíveis pelo alto sacerdote, para logo em seguida ele o elogiar do nada?!

    E ele sentia que algo havia mudado. Algo dentro dele parecia rugir em seus ouvidos, pedindo para ser liberto.

    Zeref apenas se levantou e foi se aproximando enquanto tirava a poeira de suas roupas, já se preparando para explicar tudo.

    — Está confuso, não é? Sente que tem algo dentro de você suplicando para se libertar, mesmo que você não tenha ideia do que seja esse algo.

    — Como? Como você sabe?!

    — Bem, para começar só posso te dizer isso: você é parte da linhagem do fogo, garoto. Uma linhagem poderosa, mas que precisa ter seu potencial acordado em batalha para se manifestar.

    — Então essa sensação estranha, de como se um raio corresse pelo meu corpo, é...

    — Muito provavelmente a magia da linhagem. — Completou Zeref. — Pelo menos, a maneira como você descreveu é semelhante a como Rahkeid, o pioneiro da linhagem, me disse que era. Nas palavras dele, “um raio correndo pelo corpo, funcionando como uma faísca para as chamas mágicas”.

    — Espera. Magia? Tá bom que eu já lutei usando técnicas de produzir fogo, mas realmente usar magia?! Isso não é algo que praticamente se restringe aos Star Dancers hoje?! — Natsu perguntou abismado.

    — Como eu disse antes garoto, não Natsu, você é parte de uma linhagem mágica, por isso assim que as habilidades da sua linhagem foram acordadas você se torna capaz de usar magia.

    — E o que seriam essas habilidades afinal?

    — Quando Rahkeid, o primeiro da linhagem, prestou juramento frente às estrelas e foi banhado no sangue e nas chamas de alguns dos últimos dragões que habitaram o continente de Ishgar, a primeira habilidade que ganhou foi uma resistência maior ao calor e as chamas. Tempos depois, em batalha, ele descobriu que podia manipular fogo mágico. Mas o ápice de sua força foi quando ele mesmo, com a orientação e a bênção das fadas, forjou armas que amplificassem suas habilidades. Armas essas que depois seus descendentes descobriram ressoar com os membros despertos da linhagem.

    — Então isso é... — Natsu fechou os olhos enquanto sentia uma estranha sensação que passava por seu corpo se amplificar. — Tem algo que me chama. — Ele se virou para Zeref com uma expressão séria e pediu: — Você sabe onde está a herança, não é mesmo? Então eu te peço, me leve até aquilo que é meu de direito.

    E com um meio sorriso no rosto novamente, Zeref começou a indicar o caminho que Natsu deveria seguir, levando-o até o local onde estava guardada a herança dos dragões.

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    Lucy recuou após ouvir a pergunta de Mavis. Instintivamente, ela colocou sua mão sobre o local no bracelete onde o pingente de Draco se encontrava, como se isso fosse proteger o precioso pingente.

    Mavis, percebendo o movimento brusco, tentou amenizar a situação.

    — Desculpe. Não sabia que era um tópico sensível. Eu fui um pouco sem tato ao perguntar algo tão sério tão repentinamente.

    — Você... não tem culpa disso. É que se tornou uma resposta automática proteger o pingente, ainda mais depois dos vários encontros desagradáveis que tivemos no caminho até o Templo. — Lucy comentou quase que sussurrando enquanto ia aos poucos abaixando a guarda. — Mas... como você sabe que tenho o pingente de Draco? Eu nem sequer havia mencionado isso antes!

    — Ah, quanto a isso, as estrelas revelaram a nós, altos sacerdotes, que as crianças da profecia estariam ligadas à Draco. Não é em vão que o Dragão Celestial é mencionado várias vezes na profecia. — Explicou Mavis.

    — Entendo... — Comentou Lucy com um pouco mais de segurança. — Mas qual a necessidade de me separar de Natsu? Estamos viajando desde a Floresta dos Fragmentos Perdidos juntos!

    — Os desafios que ele tem que enfrentar são diferentes dos seus, Lucy. Para que vocês cresçam, há momentos em que terão que desbravar caminhos solitários.

    — Como se eu já não tivesse passado boa parte da minha vida de forma solitária... — Lucy resmungou, nada satisfeita com a resposta de Mavis.

    — Você deve estar pensando no que eu devo ter preparado de desafio para você, não é mesmo? — Mavis perguntou com um sorriso sincero.

    — Ah, sim. Claro. — Lucy concordou meio sem jeito.

    — Fique tranquila, não é nada demais. Só quero que você invoque Draco.

    — Ah claro, invocar Draco. Tranquilo, não é nada muito... — Lucy parou por um instante assim que percebeu o que era que realmente lhe estava sendo pedido — INVOCAR DRACO?! Mas, mas... ele me fez prometer que só o invocaria em caso de extrema necessidade.

    — Ah, não se preocupe sobre isso. Não estará quebrando a sua promessa se o invocar agora. — Mavis colocou uma mão no ombro de Lucy — Ele sabe que chegaria a hora que você teria que invocá-lo para que tudo voltasse ao caminho da harmonia.

    Ainda um pouco receosa, Lucy decidiu confiar na sacerdotisa e começou a se concentrar para invocar Draco. Energia mágica a cercava, sendo emitida como ondas pulsantes que cintilavam como as próprias estrelas no céu noturno.

    Mavis olhava admirada enquanto a Star Dancer tentava invocar Draco. Lucy, porém, sentia que havia algo faltando ali. Algo lhe dizia que sua conexão com Draco estava incompleta, mas mesmo assim ela insistiu, chamando o encantamento para a invocação.

    — Eu sou aquela cujos pés trilham o caminho revelado pelas estrelas. Passo a passo, na dança astral. Ouça a minha voz e venha! Eu o convoco, Draco!

    E no exato momento em que Lucy pronunciou as últimas palavras do encantamento, a energia oscilou, fazendo com que ela perdesse o controle momentâneo da magia. Como se algo a impedisse de completar a invocação, ela logo sentiu a energia mágica se dispersar totalmente e o cansaço tomou conta de si.

    Lucy desabou ofegante e tremendo, totalmente confusa. Isso nunca... nunca havia acontecido antes! Então porque agora, em um momento tão crucial, ela não havia conseguido invocar um de seus pingentes? A dúvida se manifestava claramente em seu rosto.

    Apesar disso, Mavis não parecia desapontada com Lucy. Na verdade, a sacerdotisa estava pensativa, tentando entender o que havia dado errado ali.

    — Hum... interessante... Tudo estava estável até que do nada entrou em colapso. Só tem uma possibilidade que passa por minha mente. — Ela comentou enquanto franzia a testa um pouco mais — Você não estava sozinha quando invocou Draco pela primeira vez, estava?

    — É claro que... — Lucy parou repentinamente e murmurou surpresa — Não, não estava. Tinha... tinha um garoto comigo! Mas ele não era um Star Dancer.

    Mavis se aproximou e olhando fixamente nos olhos de Lucy, disse com toda a convicção possível:

    — Só há uma explicação para a invocação ter esse resultado. Seu laço junto a aquele com quem você invocou Draco pela primeira vez está fora de sintonia. E só há uma maneira de vocês consertarem isso.

    — Maneira essa que seria?

    — Vocês devem ser sinceros um com o outro. — Mavis fez sinal para que Lucy a acompanhasse novamente — Venha, é hora de nos reunirmos com os rapazes.

    ------DC------

    A última coisa que Natsu esperaria era que, enquanto seguia na direção da herança do fogo que por ele chamava, uma dor lancinante o assolaria a ponto de fazê-lo ficar paralisado.

    Claro que Zeref o estava acompanhando para garantir que nada de ruim o atingisse, mas mesmo assim Lucy não conseguiu deixar de ficar extremamente preocupada quando o viu no estado deplorável que se encontrava.

    A marca no ombro de Natsu ardia, ao mesmo tempo que o sangue do garoto fervia e reverberava em seus ouvidos. O único som que ele conseguia registrar além disso era a voz de Lucy o chamando com preocupação.

    — ...tsu? Natsu!

    Natsu piscou os olhos várias vezes, tentando afastar a sensação de tontura que acompanhava a dor. Apoiando-se de forma precária em suas mãos, já que ele havia caído de joelhos durante a crise, ele conseguiu dizer algumas poucas palavras entre seus dentes cerrados.

    — Lu... Lucy? O que... — ele engoliu em seco, tentando suportar a dor, mas falhando miseravelmente nisso.

    Preocupada, Lucy usou seu corpo como apoio para ajudar Natsu a se levantar. Assim que ela colocou a mão sobre a região do ombro direito do garoto, ela pode sentir a energia mágica que ressoava ali.

    No mesmo momento, Lucy empalideceu. Havia algo de errado com aquela assinatura mágica e fato dela estar em Natsu era ainda mais preocupante. Afinal, seu companheiro de jornada não era um Star Dancer e muito menos sabia usar magia.

    Com suas mãos tremendo, ela afastou a camisa do garoto, finalmente vendo a marca e perdendo sua compostura.

    — Não... não pode ser! — Ela murmurou assustada, antes de suas lágrimas começarem a cair devido ao turbilhão sentimental em sua mente. — Me desculpe Natsu! Isso é tudo culpa minha!

    — Do que está falando, Lucy? — Ele perguntou ainda ofegante.

    — Eu não deveria... não deveria ter tentado a invocação! Se eu soubesse que isso te deixaria nesse estado...

    — Invocação? — Outro grunhido de dor escapou de Natsu — Engraçado que desde que eu tenho essa marca, essa é a primeira vez que ela fez algo comigo. Não é culpa sua, Lucy.

    — Mas eu deveria saber. Deveria saber que invocar Draco sozinha, mesmo após ler as histórias que contam sobre ser uma invocação em dupla teria consequências! — Lucy parou por um momento e olhou com severidade para Mavis — Você! Você sabia que algo assim aconteceria! E não me avisou!

    — Eu não sabia que a outra metade do laço sofreria com a tentativa de invocação. — Mavis afirmou séria, enquanto cruzava os braços — Mas foi como eu falei antes, se vocês não forem sinceros um com o outro, nada se resolverá.

    E se retirando junto com Zeref, Mavis só olhou para os dois uma última vez antes de comentar:

    — Abandonem os segredos ou não chegarão a lugar nenhum.

    Depois disso, Lucy e Natsu apenas ouviram uma porta batendo e o silêncio pairando ali.

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    O silêncio no local e as últimas palavras ditas pela sacerdotisa tornavam a ideia de conversar ainda mais complicada do que deveria ser em teoria. Foi quando Natsu irrompeu numa crise de riso, assustando Lucy por um momento e quase fazendo a pobre garota ficar ainda mais preocupada com ele.

    — Desculpe, não quis te assustar. — Ele falou abrindo um sorriso gentil e caloroso — É que, quando eu penso que deixei a Floresta a contragosto para chegar num lugar desses e descobrir que descendo de uma linhagem ancestral e que provavelmente vou ter que lutar pra salvar toda a harmonia do continente, não consigo não rir. Até parece que nosso encontro foi predestinado.

    — Tem certeza que é saudável rir desse tipo de realização? Porque me parece que você está rindo pra não entrar em colapso.

    Natsu ficou sério por um momento e olhou nos olhos de Lucy.

    — Porque quando viu a marca nas minhas costas você disse que era culpa sua?

    — Porque... porque eu tenho uma marca igual. E acho que você ganhou uma só pelo tempo que passou junto comigo nessa viagem. Descul...

    — Ein? Porque tá pedindo desculpas Lucy? Eu tenho essa marca desde que era criança!

    — Eh?! Como assim?! Mas a marca de Draco só aparece naqueles que foram unid... — Lucy se interrompeu quando percebeu o que aquilo realmente significava — Ah, só pode estar de brincadeira. Você é o garoto que me ajudou na primeira vez que invoquei Draco!

    — Draco? Quem é esse mesmo?

    — Eh... você sabe, Dragão celestial, brilhante...

    — Ah, o dragão daquela noite. Acho que me lembro de entrar numa brincadeira e quando percebi, puf! Tudo brilhava e um dragão enorme estava na minha frente.

    — Pois é, agora eu preciso da sua ajuda pra invocar esse dragão de novo. — Lucy disse com um sorriso de canto.

    — Só que Lucy, eu não lembro muito bem dos detalhes daquele dia. E tem mais, você tem certeza que quer a minha ajuda nisso?

    — E por que eu não iria querer a sua ajuda? — Ela retrucou desentendida.

    — Porque... — Ele começou e respirou fundo antes de continuar — ...porque eu sou o último de uma linhagem quase extinta e o príncipe de um reino caído?

    — Você é o príncipe de Phyron? — Ela só levantou uma sobrancelha enquanto esperava a confirmação dele — Eu realmente não esperava por essa.

    — Eu devia ter contado antes, eu sei. — Ele suspirou fundo — Mas é meio complicado contar para alguém uma informação que se passou a vida toda escondendo.

    — Mas você me contou agora, não foi? Isso significa que você já confia em mim, né? — Lucy foi se aproximando e estendeu a mão para ele.

    — Acho que sim. — Natsu olhou a mão que estava estendida — E você vai realmente querer a ajuda desse príncipe patético?

    — Não acho que aceitaria a ajuda de qualquer príncipe exceto o que me acompanhou nessa jornada até agora. — Ela reafirmou com um sorriso — Aceita uma dança, Natsu?

    — Se você não se importar de ter um parceiro com dois pés esquerdos... — Ele aceitou a mão estendida e se levantou com a ajuda dela.

    No momento em que Lucy ajudou Natsu a se levantar e os corpos dos dois se aproximaram, um clarão de luz passou pelo local, tão veloz que foi quase imperceptível. Uma sensação de bem-estar passou pelo príncipe e pela Star Dancer, porém eles não perceberam que as marcas em suas costas brilharam por um breve momento antes de voltarem a ser meras marcas. O laço finalmente estava estável.

    Os dois respiraram fundo e se colocaram em posição, começando de vez a dança. Porém, aquela já não era a mesma dança que haviam feito na noite estrelada na floresta. Era uma nova dança, firmada na confiança mútua e no laço que os unia.

    A dança se iniciou com Lucy dando um rodopio e se afastando da mão ainda estendida de Natsu. Apesar de ficar surpreso por um instante, logo um olhar brincalhão tomou conta do rosto do príncipe, fazendo com que ele se afastasse na direção contrária a que Lucy tinha ido.

    Lucy então começou a movimentar seus braços como se convidasse os céus a se juntarem a eles naquela dança e no momento em que seus braços se abaixaram, ela percebeu que Natsu se aproximava meio que correndo.

    Natsu corria, mas não muito rápido, rumo a Lucy. Quando estava perto, ele tomou impulso e com uma espécie de cambalhota parou de frente a ela, oferecendo uma mão para que ela segurasse novamente. Lucy aceitou a mão oferecida e fez um breve movimento de aproximar seu corpo e depois afastá-lo de Natsu, sempre segurando a mão dele, até que na quarta repetição do movimento, ela trouxe a mão que estava livre e a aproximou do rosto dele, como se fosse fazer uma carícia e por fim a repousou no ombro do príncipe.

    Natsu se levantou com cuidado e conduziu Lucy no que poderia ser chamado de um passo semelhante à uma valsa, fazendo-a girar ao fim do quinto passo. Ao fim do giro, os dois grudaram seus corpos por um momento e depois começaram a fazer um movimento de abertura e fechamento, só que todas as vezes que se encontravam ao fechar, os dois trocavam o lado em que se encontravam.

    Até que na sexta repetição, os dois pararam por um mero segundo e juntaram suas palmas. Os dois olhavam nos olhos um do outro, e a sensação de felicidade podia ser sentida de longe se alguém ali estivesse observando a dupla.

    Enfim os dois entrelaçaram seus antebraços e giraram algumas poucas vezes antes de separarem em direções diferentes saltitando. Quando acharam que a distância estava suficiente, cada um dos dois fez um movimento diferente para se posicionar para o fechamento da dança. Natsu parou seu movimento com uma cambalhota e depois fez um rápido giro em seu próprio eixo para assumir a posição final. Lucy deu um giro em seu próprio eixo em apenas uma de suas pernas, como uma bailarina, depois abaixando-se e dando um segundo giro em seu próprio eixo rente ao solo, para enfim se erguer para a posição final.

    Em sincronia, os dois respiraram fundo e assumiram uma posição convidativa de combate, finalizando enfim a dança que permitiria a invocação de Draco.

    O chão reluziu com a mais pura luz, e logo a forma do dragão celestial se materializou ali. O dragão abriu um sorriso ao ver os dois e os cumprimentou:

    — Ora ora, a quanto tempo, não é mesmo crianças?

    — Draco! — Lucy exclamou feliz — Conseguimos Natsu!

    — Nunca duvidei que daria certo Lucy. — Ele respondeu a abraçando por trás — Então, agora que conseguimos invocar Draco, o que faremos?

    — Isso não é óbvio? — Lucy olhou nos olhos de Natsu com a mais pura determinação — Agora nós juntamos forças, retornamos à Phyron e recuperamos o seu trono.


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