Jóia Rara

Tempo estimado de leitura: 15 horas

    18
    Capítulos:

    Capítulo 16

    A Amizade Conduz

    Álcool, Hentai, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Violência

    Yo, meus queridos e querida! Dessa vez tentei o meu máximo e não cheguei tão atrasada assim, né? Ou cheguei? Se sim, por favor me perdoem. Mas cá estou, finalmente! Yaaah! emoticon

    O capítulo hoje é mais descontraído e o título define muito! Esperam que entendam todos os sentidos dele, viu? E que gostem, claro!

    Sem mais delongas, boa leitura!!

    Naruto

     - Você está ferrado. – disse Sasuke, salientando toda a minha situação após um longo relato deprimido. Franzi os lábios, apertando o controle de videogame.

      - Falando assim parece que é um fardo... – murmurei, distribuindo golpes em seu personagem. Acertei um “fatality” e ele me olhou de cara feia.

      - Não é esse o ponto? As pessoas boas sempre carregam os fardos dos outros por simplesmente amarem, ou por bondade mesmo. – respondeu, fazendo uma careta após sua conclusão. Eu o olhei de canto e sorri minimamente.

      - É um ponto, mas não o meu. Eu não carrego os fardos dela, eu apenas tento entendê-la, ajuda-la de alguma forma.

      - Mas essa garota claramente não sabe que você está babando feito um idiota por causa dela. E suportar essa “friendzone” sozinho já é um fardo e tanto. – disse, lançando-me um olhar tedioso. Suspirei, largando o controle de lado e alcançando a lata de refrigerante.

       - É mais complicado do que isso. Não posso simplesmente abrir a boca e despejar tudo o que eu sinto.

     Sasuke bebeu de seu próprio refrigerante e pareceu pensar sobre o que eu disse.

     - E por que não? Eu sei que ela tem um milhão de problemas e que você se sente mal em tentar algo a mais, mas não acha que talvez seja exatamente disso que ela precisa? – questionou. Fitei a escuridão dos seus olhos e vi a preocupação lhe banhar a face. Éramos amigos há tanto tempo que não precisava de muito para nos comunicarmos e, embora Sasuke fosse fechado, eu sabia o quanto podia depositar minha vida em suas mãos sem desconfiar nem por um segundo. Abri um sorriso melancólico diante da pergunta. Mesmo que ele pudesse estar certo, o Uchiha não tinha nem noção das coisas que assombravam todo aquele impasse. Me daria um “Nobel da Paciência” se soubesse só da metade ou talvez se assustaria ao pensar em como tão rápida e loucamente havia me apaixonado por alguém tão problemática. E Shikamaru o apoiaria nessa parte, sorrindo amarelo e nostálgico, apenas por estar numa situação tão frustrante como a minha.

    - Porque a partir do momento em que eu disser, as coisas nunca mais serão as mesmas. Considerando o jeito como Hinata vive, ela pode simplesmente se afastar. Por medo de aceitar que isso possa realmente ser real ou por medo de me machucar com a falta do sentimento vindo dela. E sabe... eu não me espantaria se fosse a segunda opção. Quando me imagino contando à ela, não consigo vê-la sorrindo e dizendo “eu sinto o mesmo”, porque não seria normal. Ela teme tanto o amor, Sasuke, se apegar às pessoas e se afirmar dependente que eu nem sei como ela se deixou se tornar minha amiga desse jeito. Imagine se eu lhe abordar com um “ei, eu amo você”. Seria como deixa-la sem chão, como jorrar um milhão de questões sobre sua cabeça já atolada. Acabaríamos em um impasse ainda maior. – contei, internamente sôfrego, mas por fora em perfeita calma. Meu amigo se mexeu, inquieto e soltou um suspiro alto e pesado.

    - Caramba, olha pra você, Naruto! – exaltou, surpreendendo-me. – Você nem parece mais meu velho amigo. Essa garota te mudou muito, não na sua personalidade em si, mas é como se ela tivesse te acalmado de um jeito assustador. Não te vejo mais se exaltando por aí, nem rindo escandalosamente ou fugindo das garotas como vinha fazendo há um tempo. Eu só te vejo... em outro mundo. É como se você tivesse percebido alguma coisa extraordinária e não conseguisse administrá-la, a ponto de deixa-la tomar conta de tudo. Às vezes eu fico olhando para vocês dois conversando, eu sei que existe algum segredo aí e parece que o mundo em volta não existe mais. E isso... isso me deixa puto! – ele se levantou do sofá, me deixando estupefato diante de tantas palavras saindo de sua boca de uma vez só. Por outro lado, ele me olhava indignado.

    - Eu fico irritado só em ver o quanto isso podia te renovar. Como podia te tirar esse sorriso estranho que você vinha mantendo há uns dias. Você sorria para nossa galera, mas nunca para si mesmo. E foi só essa Hyuuga aparecer que tudo pareceu mudar, eu achei que fosse finalmente a hora de você deixar de lado esse medo de se envolver e fosse amarrar essa sua cara de tacho com alguém que pudesse te fazer feliz. Mas agora eu só consigo enxergar um cara perdido em pensamentos, com a calma dos céus e um baita coração solitário apaixonado. Me faz sentir falta das suas piadas e da sua impulsividade idiota de quando tínhamos 15 anos.

    Meus olhos fitavam Sasuke como se estivessem vidrados. Admirados em uma verdade explícita. E meu rosto corou, envergonhado por como essa mesma verdade podia estar estampada, incomodando à todos os meus outros amigos enquanto eu havia deixado tudo de lado para me infiltrar em meus sonhos com Hinata.

    - Sasuke... E-Eu não quis deixar vocês de lado, não foi minha intenção se pareceu isso...

    - BAKA! – ele quase berrou, me interrompendo e me assustando. Por falar em mudanças, onde havia se enfiado o indiferente e quieto Uchiha? Ele estendeu seu punho para mim, como eu fazia para ele desde que éramos dois pirralhos. – Ninguém te julgou por estar tão distante, porque mesmo que isso seja ruim, dá pra ver como aquela garota te deixa feliz. De um jeito estranho e muito torto, mas foi ela que trouxe essa sua cara de idiota de volta, então a única coisa que podemos fazer é aceita-la também. Agora bate essa porcaria de punho no meu antes que eu me arrependa de estar te imitando.

    Eu soltei uma risada embargada, estranha. Como se aquilo rompesse meu peito para alcançar as palavras de meu melhor amigo. E naquele momento, enquanto nos cumprimentávamos com os nós dos dedos, tive a certeza de que independente da personalidade de uma pessoa, por mais tímida, calada ou reservada que fosse, não significava que não poderia ter uma amizade verdadeira. Me levantei, enfiando a cabeça de Sasuke embaixo de meu braço, como em um golpe de luta, mas em intenções fraternas. Ele me deu um soco e nós rimos.

    - Arigatou, melhor amigo babaca. – disse, soltando-o. Sasuke sorriu de canto.

    - Me deve uma agora. Ou melhor, duas. – respondeu, mudando sua expressão para maliciosa. Franzi a testa.

    - Como assim duas?

    - Você não tem só um amigo não, sabia? As meninas se reuniram e tiveram a ideia de fazer uma tal de “noite de garotas” no dia anterior à viagem. E, claro, convidarão Hinata para participar.

    Fizemos uma careta diante do nome dado ao evento por nossas amigas. Eu ri, ficando instantaneamente nervoso.

    - Noite de garotas, hm? O que elas vão aprontar para cima de mim, Sasuke? – perguntei, temeroso. Imaginava que nem todos pudessem ter a mesma paciência que eu com o tempo de Hinata. O Uchiha bufou, jogando-se no sofá outra vez.

    - Sakura disse que em uma noite de garotas, é normal falar de garotos. Considerando que todas elas estarão juntas, elas acabarão por conversar sobre a gente. E... – Sasuke me olhou sugestivo. Corei, desviando o rosto.

    - Fala sério.

    - E você acha que aquela garota vai acordar para vida como, sem nenhum empurrãozinho? – ele zombou. Suspirei, não conseguia me sentir confortável com isso. No fundo, eu queria conquista-la sozinho, mas e se Sasuke estivesse certo? E se Hinata precisasse mesmo de ajuda para enxergar? E se a verdade fosse mesmo seu melhor remédio?

    - Você realmente acredita nisso? – perguntei, baixo. O Uchiha gargalhou como se eu acabasse de contar uma piada hilária. Fechei a cara, emburrado.

    - Você já está tão acostumado com essa “friendzone” que tem medo de sair dela! 

    Cruzei os braços, constrangido. Aquele idiota estava adorando curtir uma com a minha cara. Seu riso só aumentou diante da minha reação. Lhe lancei um olhar mortal e Sasuke se recompôs, pigarreando.

    - Relaxa, vai. E vê se agradece, nunca vi um cara como você precisar de ajuda para ficar com uma garota, mas parece que ela é mesmo especial. Nós estamos contigo, Uzumaki. – disse, recuperando sua moral em pequenas porcentagens. Eu sorri, assentindo.

    Apesar de estar confuso sobre aquela decisão, parte de mim estava ansioso para saber o que Hinata acharia do plano dos meus amigos e como seria no dia seguinte, quando eu desse um jeito de sentar ao seu lado no avião. Meu coração acelerou e senti aquele frio na barriga característico de alguém apaixonado. No fim das contas, não era como se eu estivesse caminhando em direção ao abismo, mas sim como já estivesse flutuando nele.

                                                   ***

    Dias depois...

    Hinata

         O colégio naquela manhã parecia estar divido entre lamúrias e festejos, desde os alunos de outros anos aos viajantes. Eu caminhava por entre as pessoas em uma invisibilidade quase total. Ao longo dos dias, havia tomado cuidado para não parecer tão próxima de Naruto e isso reduziu drasticamente os olhares que vinha recebendo, principalmente por parte de minha irmã mais nova. Mas por outro lado, meu amigo grandalhão estava cada vez mais irritadiço. Talvez fosse ansiedade para viajar ou simplesmente não gostasse de ficar pelos cantos para conversar comigo como se fôssemos fugitivos. Mas ele parecia estar nervoso com alguma coisa e tive certeza de que hoje isso estava ainda pior, pois ao avistá-lo na sala de aula, pude ver em seu olhar o quanto alguma coisa lhe importunava os pensamentos.

    Caminhei devagar até minha mesa, que eu ainda mantinha atrás dele, e me sentei sem cumprimenta-lo. Estávamos acostumados a manter essa discrição, principalmente quando a sala já estava quase cheia. Mas naquele dia, o loiro virou-se para mim e murmurou um rouco “oi”. Notei uma garota que passou por nós me encarar e isso me deixou aflita. Levantei a cabeça lentamente e lancei um olhar interrogativo para Naruto, tentando fingir surpresa por estarmos nos falando novamente. Com tanta precaução, estava até conseguindo ser uma mentirosa melhor. Ele sorriu de canto.

    - Oi... – respondi, deixando no ar aquilo como uma pergunta. A garota que encarava sentou numa cadeira logo mais atrás e eu ainda podia sentir seus olhos em minhas costas. O Uzumaki pigarreou.

    - É, hm... Ansiosa para viajar? – perguntou. Isso me fez perceber o quanto havia passado o tempo. Embarcaríamos no dia seguinte e eu não havia nem terminado de fazer as malas. Soltei o ar como um assovio, sentindo-me nervosa diante do fato.

    - Já é amanhã, né... – murmurei, mentalizando que deveria voltar para casa e deixar tudo pronto. O lado bom de viajar é que as pessoas estariam ocupadas demais para reparar se estou sendo ou não amiga de Naruto, o que poderia compensar todo o tempo em que o evitei por proteção. Abaixei a cabeça, jogando os cabelos para frente, de modo que só ele pudesse me ver sorrir. O olhei por baixo da franja e notei que meu sorriso havia sido entregue. O loiro soltou uma risadinha baixa e assentiu, logo virou-se para frente, pronto para assistir a aula que estava para começar. Me encostei na cadeira, aliviada por tê-lo acalmado um pouco. Já havia um tempo que Naruto não sorria mais como antes e isso me incomodava muito, mas era necessário. Sentia que logo as coisas se resolveriam e eu poderia lhe dar a atenção merecida.

    Não sabia explicar o porquê, mas sentia como se essa viagem marcasse um momento importante para minha história. Depois que voltasse, Hiashi tentaria me fazer seguir seus passos e eu poderia finalmente ter certa autonomia. Sabia que mentir não adiantaria, ele conseguiria descobrir se eu o fizesse, então só me restava me dedicar para realmente encontrar algo que fosse gostar de seguir para minha vida. Ele não poderia me obrigar a herdar seus negócios se eu apresentasse um sonho real, certo? E mais do que isso, talvez conseguindo encontrar um rumo para mim, pudesse começar em um emprego, tentar alcançar o mínimo de independência e não iria mais precisar que Hiashi fosse meu tutor. Se conseguir provar para ele e para o Conselho que posso viver sozinha, então teria finalmente a liberdade para expor o quanto gosto dos Uzumaki sem o peso do nome Sasaki em minhas costas.

    Isso me fez lembrar de Kushina. Fazia tanto tempo que não via aquela doce mulher, que podia compreender um sentimento estranho de saudade crescer em meu âmago. Era difícil admitir como estava me abrindo para o mundo e para tantas pessoas que agora me rodeavam, mas era verdade. Sentia falta de me sentir bem-vinda em algum lugar, sem temer olhares, nem julgamentos, sem precisar fingir qualquer coisa. E era na casa dos Uzumaki que isso se fazia real. Encarei as costas larga de Naruto à minha frente, seus cabelos louros bagunçados e o seu novo “tique” na perna, que o fazia balançá-la freneticamente sempre que estivesse nervoso ou ansioso. Sorri, sua mesa toda tremia com a ação e isso era muito engraçado vindo dele. Apesar de ter aprendido muitas coisas sobre a personalidade de Naruto, havia assistido a calma tomar espaço dentro de si e vê-lo tão impaciente nos últimos dias estava começando a soar divertido.

    A aula transcorreu com uma empolgação quase palpável e eu estava começando a sentir minhas barreiras de proteção tremerem contra a ansiedade que também me tomava. Embora isso fosse compartilhado por mais um monte de alunos, os meus motivos eram um tanto quanto mais urgentes. Não conhecia os prazeres de fazer uma excursão, nem tinha muitos planos turísticos, eu apenas queria me encontrar. Precisava disso mais do que qualquer coisa, já que descobrir meu caminho era minha única saída.

    Suspirei, anotando palavras-chaves de algo que Kakashi discursava. O professor de aparência exótica ditava com empolgação também, lançava olhares furtivos para Naruto volta e meia e apesar de saber que os dois tinham uma camaradagem além dos muros do colégio, achava estranho tanto segredinho. O pensamento me alavancou vertiginosamente para outro e quase deixei transparecer. Gemi internamente, frustrada. Segredos...

    Lembrei-me dos dias anteriores e de como o sentimento desesperador de impotência diante da minha vida havia me assolado. Não descobrira nada sobre a sala secreta e tampouco conseguira ver Tsunade depois daquele dia em sua sala. Naruto havia dito que a diretora visitara sua casa poucas vezes e que em todas elas apenas conversava horas a fio com sua mãe, ia embora e depois mandava Jiraiya para buscar o pequeno Dan. Tentei ir em sua sala outra vez também, mas a mulher parecia estar ocupada em suas 24 horas de cada longo dia. Tornara-se tão complicado a comunicação com a Senju que vi-me desistindo de encontrar a verdade. A coragem que nutria para desenrolar todos aqueles nós, começou a escorregar até estagnar novamente.

    E no fim, após tanta tortura, só me vi mais afundada ainda em incertezas. Já nem sabia mais se Tsunade participara mesmo da Sociedade Secreta, nem em qual lado poderia estar. Talvez ela tivesse sido amiga de Akemi e apenas se preocupava com sua vida. Talvez ela tivesse descoberto sobre a “zona proibida” depois de assumir o controle da escola e nem desconfiasse de que aquilo envolvia sua velha amiga. Agora havia tantas coisas para serem relevadas que apontar com exatidão alguma suspeita poderia ser um erro terrível.

    Olhei para meu caderno quase em branco e encolhi os ombros, sentindo culpa por estar tão dispersa. A aula se aproximou do fim e decidi prestar um pouco de atenção. Notei Kakashi sorrir por baixo da máscara para algo que estava sendo comentado, assim como toda a turma ria. Peguei o assunto a tempo de ouvir Naruto começar a dizer:

    - Não sei exatamente o que gostaria de seguir para o resto da vida. Mas acho que iria gostar de lidar com as artes marciais. De repente... abrir uma academia. Não sei, minha mãe herdou a empresa dos meus avós e assim é por gerações, meu pai entrou nessa com ela e sinto que isso não é pra mim. Acho que não seguirei a tradição! – após seu pequeno discurso, ele deu um riso discreto e Kakashi fez uma expressão estranhamente aliviada. Logo depois, os olhos escuros do professor pousaram sobre mim e me senti pressionada tão rápido quanto havia entrado na brincadeira. Pela descrição de Naruto, sabia que estávamos falando sobre profissões que gostaríamos de seguir, baseado no que vamos aprender na Convenção sobre nossas escolhas. Mas a verdade era que sobre mim, atualmente, eu só sabia meu nome.

    - Senhorita Hyuuga? – chamou Kakashi, fazendo-me corar diante de tantos olhares. Coloquei o cabelo atrás da orelha, constrangida. Havia tanta gente me encarando em expectativa e também desinteresse que isso me deixava nervosa. Notei olhares vindo de garotos, conversinhas entre eles e outros olhares de garotas que mais pareciam flechas em minha cabeça. Pigarreei baixinho.

    - Eu, bom... Estou aberta para descobrir o que mais daria certo para mim. Não tenho certeza de uma profissão. – respondi, tentando ser breve.

    A sala ficou em silêncio enquanto eu falava, mas logo vieram as reações. Alguns cochichos femininos sobre eu ser ou não bolsista e outros maldosos sobre eu não parecer interessada em nada. A surpresa veio pelo lado masculino. Um garoto murmurou “Deixa que eu te mostro, lindinha”, eu o olhei e recebi uma piscadela. Corei violentamente, escondendo o rosto com os cabelos. Naruto soltou um suspiro pesado à minha frente, assustando-me e logo suas pernas voltaram a balançar.

    - Certo, certo, para que tantos comentários? Vamos seguir com a fila. – disse Kakashi, interrompendo a bagunça e partindo para os próximos alunos. Fiquei de cabeça baixa, ouvindo o restante dos discursos, prestando mais atenção nas vozes conhecidas. Admirei a certeza de alguns, como Sakura que gostaria de cursar Medicina e se tornar uma cirurgiã e Sai que sonhava em se tornar um famoso mangaká.

    Eram pessoas recheadas com sua personalidade, decididas sobre o rumo que seguem e fortes em sua palavra. Era bonito de ver, como cada jeito lhes denunciava a essência única. Passei a admirar esse tipo de força, a forma que levavam a vida, a coragem de ser alguém diante de tantos outros. Suspirei, sentia-me um nada, uma “zé ninguém” que mal sabia a própria história, carregando um nome vazio, sem trajetória, sem esperança para um futuro e sem sonhos.

    O sino estridente, mas harmonioso, soou pelos corredores, anunciando o fim da aula de Kakashi. Eu me encolhi no lugar, triste por estar tão perdida e apenas tentei me manter invisível durante o resto do dia.

                                                      ***

       O uniforme de educação física naquela última aula me fez soltar um longo suspiro. Torcia para que o inverno chegasse logo para que pudéssemos usar mais roupas. Odiava estar à mostra de qualquer maneira, mas só me restava manter minha discrição da forma que pudesse. Prendi meus cabelos, já bastante longos, em um rabo-de-cavalo e caminhei até o aglomerado de garotas que decidiam times para o vôlei. Tinha ouvido alguma coisa sobre os jogos escolares em alguns meses e imediatamente comecei a pensar em maneiras de escapar de uma formação. Mas meus pensamentos foram interrompidos por Sakura e Ino, que se puseram uma de cada lado, sorrindo alegremente e exibindo suas faces coradas e bonitas.

    - Yo, Hinata-san! – disse Sakura. Sorri com o canto dos lábios, sentindo-me tímida quando a Haruno passou um braço sobre meus ombros e a Yamanaka enlaçou seu braço no meu do outro lado.

    - Viemos te fazer um convite irrecusável! – orgulhou-se Ino, rindo como uma menina sapeca. Olhei interrogativamente para as duas.

    - Não aceitamos não como resposta. – completou Sakura, como se aquilo tivesse sido ensaiado.

    - Q-Que convite? – perguntei baixinho, nervosa com tanta pressão. Elas sorriram radiantes e anunciaram em uníssono:

    - Uma noite de garotas!

    Parei de andar, puxando as duas comigo. Olhei para seus rostos em expectativa e senti um nó na garganta. Parte de mim interpretava aquilo como emoção, diante de um convite tão íntimo, que ressaltava como eu ainda tinha uma amizade com elas. Mas a outra parte sentia desespero, não imaginava como seria uma “noite de garotas”, nem mesmo uma pequena porcentagem dela. Não tinha ideia de como deveria me comportar, nem como controlar minha timidez e o medo de me deixar relacionar com as pessoas. E ainda havia o grande desafio de convencer Hiashi a me deixar ir.

    - Como assim? – interroguei em um fio de voz. Ino soltou meu braço e se pôs à minha frente, animada como se tivesse acabado de realizar um sonho.

    - Vai ser tão divertido! Todas as meninas vão, menos a Temari que já tinha programado algo. Vamos dormir na casa da Sakura e de manhã voltaremos para pegar o ônibus escolar juntas para irmos direto ao aeroporto! – contou, dando pulinhos.

    - Você não quer embarcar nessa sem planejar nada, não é? Vamos lá, Hinata-san, vai ser tão legal! – empolgou-se Sakura, apertando o meio abraço que dávamos. Mordi o lábio inferior, que por sinal já havia melhorado muito.

    - Como vamos levar todas as malas? – tentei argumentar, lembrando-me outra vez de que não havia terminado as minhas. Ino riu, notando minha tentativa de fuga.

    - Os pais da Saky então em casa, boba, eles vão levar todas nós. – respondeu, lançando uma piscadela. Arriei os ombros, vencida. No fundo, queria mesmo ir. Da última vez que passara um tempo com elas, havia me divertido de verdade, o que era uma surpresa. Talvez um pouco mais disso pudesse relaxar minha mente.

    - Certo... mas preciso convencer meu pai antes. – disse, suspirando. Elas bateram palmas em comemoração com pequenos e agudos gritinhos em acompanhamento.

    - Ótimo! A Ino pega você em casa às 19h! – disse Sakura.

    - Yaaaaaah! Vai ser tão legal, tenho certeza de que ele irá deixar. – festejou Ino, os olhos claros brilhantes de excitação. Eu ri, balançando a cabeça. Desejava mesmo que o Sasaki abrisse uma brecha e permitisse que eu fosse. Antes mesmo que eu terminasse de planejar meu discurso para ele, fui puxada pelas duas amigas em direção à o time já formado em um dos lados da rede de vôlei. Eu me ajeitei propositalmente em um canto da quadra e tentei, com todas as forças, não ser notada e nem ser atingida por uma bola.

    E no fim, sem sucesso, é claro.

                                                        ***

        Entre uma dezena de roupas e um site de meteorologia aberto e meu computador, estava eu tentando me acertar com uma mala. De acordo com as previsões, faria mais frio do que previsto para a temporada, assim como vinha fazendo por aqui. O mundo parecia estar cada vez mais desregulado. Mas em compensação, era bom para mim, já que a maioria das roupas que eu tinha eram grandes e de tecidos grossos. Tinha poucos minutos para terminar de ajeitar todas as coisas e pedir permissão à Hiashi para sair e isso só me deixava mais atrapalhada. Já havia fechado a mochila com todas as coisas de higiene pessoal e os poucos materiais escolares que precisaria usar nas palestras, então só precisava colocar as roupas de forma organizada dentro da mala preta antes que enlouquecesse de ansiedade.

    Demorei menos do que pensava, quando enfim fechei o zíper, sofrendo um pouco apenas para conseguir encaixar os sapatos em sacolas sobre as roupas. Nada que com paciência não pudesse ser resolvido. O grande problema mesmo seria enfrentar meu tutor, mas já havia pensando sobre como manter minha discrição. Respirei fundo antes de sair do quarto e desci a escada com o coração pulando forte no peito. Podia ouvir o som do noticiário na sala de televisão e sabia que ele estaria assistindo. No cômodo, Aiko lia um livro e Mayumi folheava uma revista, esparramada em almofadas ao lado de sua mãe. Eu pigarreei para chamar a atenção assim que o programa na televisão deu intervalo e todos os olhares caíram sobre mim. Dei um passo à frente, tímida.

    - Com licença, eu posso falar com o senhor, otoosan? – disse, propositalmente. Os olhos sólidos demais de Hiashi me fitaram, esperando. Um assentir de cabeça me deu o passe livre e eu busquei toda a coragem em mim para pronunciar as palavras. – Uma amiga me convidou e quero lhe pedir permissão para participar de uma reunião de meninas hoje, preparativos para a excursão.

    As três pessoas na sala ficaram surpresas e Hiashi se endireitou na poltrona, pigarreando.

    - Uma noite de garotas? – disse, fazendo-me corar. Até mesmo ele sabia reconhecer do que se tratava. Me limitei a assentir. – Com uma amiga, hm... que amiga?

    - Ela se chama Tenten. – respondi, vendo a careta de Mayumi. Sabia que se dissesse um nome menos popular dentre as garotas da escola, atrairia menos atenção. Tenten era quase como eu, apesar de explosiva e falante, não estava envolvida em muitas coisas com as outras garotas e também nunca era vista ao redor de garotos. – Uma das meninas convidadas me dará carona e amanhã iríamos juntas para pegar o avião com o colégio. Achei que seria bom para mim, a maioria delas disseram hoje na aula que querem seguir no ramo empresarial. – menti parcialmente. Havia aprendido um pouco a como conversar com Hiashi, sabia alguns de seus pontos fracos e conseguia, mesmo que raramente, driblar sua rigidez. Como planejava, os olhos dele imediatamente transmitiram certo interesse e um pequeno sorriso se formou em seus lábios.

    - Entendo... Quer ir também, Mayumi? Eu mando o motorista te buscar pela manhã. – ele desviou. Congelei em meu lugar, lutando para não demonstrar nada diante de sua fala. Forçosamente sorri para minha irmã e ela fez uma careta de reprovação.

    - Tenten? Credo, eu não! Essa garota me dá arrepios. – negou, voltando a olhar para a revista.

    - Ora, por que, querida? – perguntou Aiko. A menina bufou.

    - Francamente, mamãe, é o tipo de garota com quem Hinata falaria mesmo, ela parece uma brutamonte sem estilo! – resmungou sem pretensão de esconder sua prepotência. Hiashi suspirou pelo comentário e voltou sua atenção a mim.

    - Certo, você pode ir. Mas quero que me ligue antes de embarcar no avião. Vou te devolver o telefone antes de sair. – respondeu, olhando para a televisão assim que o noticiário retornou. Abri um sorriso, sincero, aliviado e feliz. Sem perceber, o comentário maldoso de Mayumi acabou por marcar um ponto a meu favor.

    - Arigatou, otoosan! – exclamei discretamente. Ele assentiu sem me olhar e eu voltei para cima a fim de esperar o momento de Ino chegar. Faltavam poucos minutos e, considerando sua empolgação mais cedo, imaginava que não se atrasaria. Olhei me meu relógio de pulso por infinitas vezes, conferi todas as bagagens, acrescentei o carregador de celular à bolsa e então finalmente ouvi buzinas do lado de fora. Apressei-me com a mala de rodinhas para fora do quarto, com a mochila pesada nas costas. Desci com cuidado e fui encontrar Hiashi na sala outra vez. Ele encarou minha situação e se levantou.

    - Já está na hora, otoosan. – anunciei. Mayumi não estava mais na sala e eu podia ouvir um cantarolar de Aiko na cozinha. O patriarca se afastou por um momento e depois retornou com meu telefone em mãos. Nunca pensei como aquele aparelho pequeno pudesse significar tanto uma coisa boa. A liberdade começou a se infiltrar de fininho em mim, causando-me sensações fortes e ansiosas. Peguei o celular de sua mão e lhe fiz uma reverência discreta.

    - Não se esqueça de ligar antes de embarcar. – disse Hiashi. Assenti.

    - Não se preocupe, arigatou, otoosan. – murmurei. Desci com as bagagens, avistando o carro de Ino em frente à casa. O homem me seguiu, abrindo o portão para mim.

    - Hinata. – ele chamou assim que saí dos limites da propriedade. Voltei-me em sua direção, esperando. – Lembre-se de nosso acordo.

    O olhei nos olhos, sentindo o peso de suas palavras. Apenas assenti, dando-lhe um sorriso de canto e me virei para o carro de Ino. Ajeitei a mala e a mochila no banco de trás e sentei no assento do passageiro, sorrindo para a loira animada ao meu lado. Hiashi já havia retornado para dentro de casa e assim que o carro começou a se locomover, meu coração acelerou também. Estava finalmente livre por uns dias. Respirei como se estivesse há tempos embaixo da água e Ino pareceu perceber.

    - Você conseguiu! – disse, vitoriosa com seu sorriso amplo. Eu ri baxinho.

    - Consegui. – murmurei. Ela soltou um gritinho empolgado e aumentou o volume da música pop coreana que tocava em seu rádio.

    - Arrasou! Vai ser demais, Hinatinha, pode apostar. – respondeu. Passei o restante do caminho absorvendo a certeza de suas palavras e quando notei, já estávamos em frente à residência de Sakura. Ino tocou a campainha com certa dificuldade, carregava uma mala roxa, uma mochila cheia de chaveiros coloridos e uma bolsa branca. A mulher que nos atendeu a porta era loira, mas tinha um semblante parecido com o de Sakura e percebi que nunca havia conhecido o restante da família Haruno. Lembrei-me do que Naruto tinha dito há um tempo atrás sobre como a convivência com os Uzumaki havia os aproximado da filha e sorri, imaginando que agora o casal deveria gostar de ficar em casa.

    - Ino, querida! Sakura já está com Tenten lá em cima esperando por você. – disse a senhora Haruno. Em seguida pousou os olhos em mim, curiosa. – Oh, quem é essa mocinha?

    - Essa é a Hinata, tia, uma amiga nova. – respondeu Ino. Eu sorri e a mulher me deu um leve abraço.

    - É um prazer, Hinata, sou Mebuki. Podem subir, Sakura está em seu quarto. – ela disse, dando uma piscadela. Eu fiz uma breve reverência e segui a Yamanaka até o andar de cima. Era possível ouvir as risadas vindo de trás da porta e Ino se prontificou a escancará-la sem delongas.

    - A LOIRA CHEGOU! – gritou e mais risadas tomaram o cômodo. Eu corei, meio tímida, mas levemente contagiada pela empolgação. Sakura logo se levantou e inusitadamente me enlaçou em um abraço.

    - Hinata! Você veio! – festejou, soltando-me para me encarar com as mãos em meus ombros.

    - C-Claro! – murmurei, corando. Ela me puxou pela mão e chamou Ino com a outra. Nós sentamos em dois colchões ajeitados no chão do quarto, com potes de salgadinhos e alguns refrigerantes por cima de toalhas. Tocava música em um rádio e ao lado de Tenten tinha uma caixa cor-de-rosa com inúmeros adereços de cabelo e revistas femininas. Eu sorri minimamente para todas elas, imaginando como seria passar uma noite juntas.

                                                   ***

      - Seu cabelo tem uma cor maravilhosa! – disse Ino enquanto comia salgadinhos. Elas haviam insistido tanto em arrumar meus cabelos que não pude dizer não. Todas estávamos devidamente vestidas com nossos pijamas, enquanto Tenten lia uma matéria em uma revista e Sakura lidava com minhas mechas. Eu estava tímida, mas não podia negar, ter tantas companhias femininas era reconfortante. Fazia falta ter pessoas para conversas sobre coisas tão bobas e para receber conselhos femininos. Ainda mais quando havia passado a vida inteira com minha mãe ao lado. Estar rodeada por garotas me fazia sentir mais normal, mais alegre. Era impossível não ser contagiada por cada maluquice de Ino, pela empolgação de Sakura e pelas piadas de Tenten. Eu enxergava a amizade entre elas como uma coisa palpável, forte e longa. E para falar a verdade, não me sentia mais tão sozinha.

    - Arigatou, Ino-san. – respondi, enquanto pegava um dos salgadinhos em formas ondulares cobertos por queijo artificial. Sakura trançava minhas mechas com cuidado, suas mãos eram tão suaves que tive a certeza de que daria uma excelente e atenciosa médica.

    - Ela sempre acha o cabelo de todo mundo bonito só porque não queria ser loira. – disse Sakura, dando-lhe a língua.

    - Alto lá! Eu amo ser loira, tá bom? Eu só detesto que Deidara seja também! – reclamou, referindo-se ao irmão gêmeo. Eu ri baixinho.

    - Não se preocupe com isso, você é uma garota linda. – murmurei, tímida. Os olhos de Ino brilharam.

    - Oh, meu Kami! Você é tão fofa, Hinatinha! – exclamou, levantando os braços e quase derrubando salgadinho em Tenten. As três riram em gargalhadas.

    - Por falar em beleza, olha a camiseta desse modelo da capa! – exclamou Tenten, arrancando mais risos das outras duas.

    - Por um momento eu jurava que um milagre aconteceria e você estaria chamando um garoto de bonito. – disse Ino. Tenten fez cara feia para ela e ficou levemente corada.

    - Não tem nada disso! Eu acho os garotos bonitos sim! – exclamou.

    - Ah é, tipo quem? – desafiou a Yamanaka. Tenten bufou.

    - Tipo... Tipo o Sasuke, ele é bonito. – eu olhei para Sakura, vendo ela arquear uma sobrancelha para a amiga e Ino esconder a risada. – E Sai... ele é bonito também. – continuou Tenten, pigarreando.

    - Ah, e quem mais, senhorita Mitsashi?  - disse Sakura, entrando na brincadeira. A morena à minha frente estava vermelha feito um tomate.

    - A-Ah... tem também... o Naruto! O Naruto é lindo! Quer dizer, não é, Hinata? – ela perguntou, nervosa. E dessa vez, quem ficou vermelha fui eu. Pega totalmente de surpresa pela pergunta, quase engasguei com o salgadinho. Ino e Sakura começaram a rir e a Haruno parou de mexer em meu cabelo, sentando-se ao meu lado.

    - Você acha ele bonito, Hinata? – insistiu ela. Pisquei uma, duas, três ou quatros vezes, não sabia. A vergonha me inundava como um tsunami, fazendo meu corpo todo esquentar.  

    - Ai, meu Kami, ela vai desmaiar! – alarmou-se Ino, tomando a revista de Tenten para me abanar. Eu inspirei o ar, percebendo que havia prendido a respiração. Não sabia onde poderia me enterrar, nem por que aquilo me deixava tão envergonhada. Há um minuto atrás estávamos falando sobre cabelos e agora eu estava sendo pressionada para dizer se achava Naruto bonito. A questão não era só a surpresa pelo rumo tomado, nem a falta de experiência nesses assuntos, mas sim como responderia. Eu o achava bonito? Sabia que sim, mas era uma beleza diferente. Para mim, Naruto brilhava de dentro para fora, todo o jeito como ele era irradiava sua beleza, era algo muito mais além de um simples rosto bonito. Parecia-me tão banal simplesmente dizer que ele era um garoto bonito que nem pensava sobre isso.

    - As garotas do colégio acham aquele loiro idiota um galã de novela. – disse Sakura, zombando. Tenten riu.

    - Mas ele é um loiro e tanto, vamos ser sinceras. Só porque ele é nosso amigo de longa data, não temos esse tipo de atração, mas para as outras garotas ele deve ser um príncipe. – comentou Ino com a boca cheia de salgadinho. A Haruno bufou, jogando uma das revistas em sua direção.

    - Sua porca pervertida! – disse Sakura, gargalhando. Ino lhe mostrou a língua.

    - Cala a boca, testuda. Você não concorda comigo, Hinata? – a loira voltou-se para mim e mais uma vez senti meu rosto queimar. Algo em meu estômago pareceu rodopiar. Por que estava tão envergonhada?

    - Por que você não fala nada? Você não gosta que a gente diga que o Naruto é bonito? – perguntou Tenten, com uma expressão inocente.

    - E-Eu... a gente podia mudar de assunto? – pedi por um fio de voz.

    - Ah, qual é, Hinatinha! Eu não movo um pio dessa conversa até você largar de ser tão tímida! – exclamou Ino, cruzando os braços. Sakura lhe deu uma cotovelada, fazendo-a reclamar. Tenten revirou os olhos.

    Respirei fundo, chateada por estar tão envergonhada. Não deveria ser nada demais admitir, por mais banal que pudesse ser. Eu não estaria assinando um contrato, nem nada, apenas concordaria com algo que nem tinha saído originalmente da minha boca. Elas me deixariam e paz e talvez voltaríamos a falar de coisas menos constrangedoras. Eu não devia levar tão a sério, afinal, Naruto é só meu melhor amigo, certo?

    - Bem... É. – murmurei, pigarreando e bebendo um gole do refrigerante gelado para ver se isso me refrescava. Ino imediatamente descruzou os braços e abraçou as pernas, interessada.

    - É? Isso quer dizer que você concorda? – interrogou, os olhos azuis esverdeados brilhantes. Sakura pareceu ter a mesma reação que ela, enquanto Tenten apenas observou a cena como se já esperasse que isso fosse acontecer.

    - H-Hai... – deixei escapar, torcendo para que isso sossegasse as duas. Mas do outro lado, isso só serviu para deixa-las mais eufóricas. Gritinhos de empolgação fizeram-me encolher os ombros e corar violentamente outra vez.

    - Isso é tão bonitinho! Ele morreria para ser uma mosquinha nesse salgadinho agora! – exclamou a Yamanaka, com as mãos entrelaçadas no peito.

    - INO! – Sakura gritou, cutucando-a. Mas a loira apenas lhe deu a língua e voltou a exclamar o quanto achava minha conclusão maravilhosa. Suspirei, desejando que o sono tomasse a cabeça das três e as fizessem decidir dormir naquele momento.

    - Você não precisa ficar constrangida com isso não, ta, Hinata? – disse Sakura, segurando minha mão. Eu desviei os olhos, lendo o rótulo de refrigerante enquanto buscava desesperadamente não corar. – Foi só uma pergunta boba. Achar as pessoas bonitas é normal, já ouvi um monte de gente dizer que te acha linda, sabia?

    Paralisei, nervosa. Nunca em mil anos acharia que isso era sério. Neguei com a cabeça, certa de que era só um pretexto para me distrair da vergonha.

    - Ah, pois acham mesmo. Precisava ver a cara do Naruto na semana passada quando um garoto veio me perguntar se eu era sua amiga. – disse Ino, dando risada. Levantei o rosto, pensando num motivo que justificasse tanto a insistência desse assunto e o porquê de Naruto ficar bravo por algo tão idiota.

    - Ino! – Sakura repreendeu outra vez e isso me incomodou. Por que elas estavam sendo tão misteriosas?

    - O que está tentando me dizer, Ino? – perguntei, olhando em seus olhos. As meninas ficaram caladas de repente e então Sakura soltou uma risada meio nervosa.

    - Essa desmiolada acha que todo mundo tem que gostar de alguém. – disse, bebendo de seu refrigerante. Mantive meus olhos em Ino, sua reação diante da frase da amiga foi apenas dar um sorriso sapeca.

    - Não sei de nada não, hein! – disse, dando de ombros. Eu suspirei, desviando o olhar. Era apenas uma brincadeira boba, assim como Sakura dissera antes. Decidi ignorar, não queria pensar muito sobre isso porque sentia uma vergonha estúpida e um frio na barriga vertiginoso. Logo Tenten mudou de assunto e Sakura voltou a mexer em meus cabelos, terminando algo que depois descobri ser uma trança embutida. Apesar do ocorrido, eu havia me divertido genuinamente e quando a madrugada caiu sobre nós em companhia do cansaço, meus pensamentos já me guiavam pela ansiedade de conquistar mais um pedacinho da liberdade, mesmo que a cada passo estivesse pisando em terras desconhecidas, porque no fim daquele dia maluco, feliz e constrangedor, eu não sentia mais medo, nem solidão. O tom dos meus sonhos pintou-se num azul brilhante, em uma certeza que eu já possuía, ainda que não entendesse direito. Mas estava lá, assim que fechei os olhos e afundei na melhor noite de sono em semanas, a imagem de um oceano. Se aquele que sobrevoaríamos pela manhã, que atravessaríamos até pousarmos do outro lado do mundo. Se aquele que minha doce mãe apresentara ou se aquele que me inundava por dentro, a cada dia mais. Não importava, no fim das contas, esse oceano era, depois de tanto tempo, a única coisa que eu podia chamar de meu.


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