Jóia Rara

Tempo estimado de leitura: 15 horas

    18
    Capítulos:

    Capítulo 6

    Amor Fraternal

    Álcool, Hentai, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Violência

    Ohayo, minna-san! Demorei muito? Desculpem, eu não estou muito bem e estou numa semana corridíssima! Tenho um espetáculo de dança para apresentar durante todo o fim de semana e foram dias de muito ensaio *cansada*. Outra coisa: desculpem também pelo capítulo não ser longo, porque estive realmente sem tempo e sem disposição mental. Mas apesar da dor de cabeça, me comprometi a finalizar nosso capítulo! Então boa leitura e a gente se vê nas notas finais!

    Hinata

        Grandes olhos azuis pairavam sobre mim. Um pequeno sorriso se formou nos lábios da mulher, transformando-se constantemente, como se ela não soubesse definir sua expressão, mas estivesse  positivamente sensitiva. Me senti estranha sob aquela avaliação e pelo o que pude notar, o Uzumaki também. Por um instante cheguei a pensar que de alguma forma ela me conhecia, ou estivesse me  confundindo com outro alguém. 

    - Como eu suspeitava... - ela balbuciou. 

    - Suspeitava? De quê? - perguntou Naruto, confuso pela atitude aparentemente repentina. A ruiva pareceu voltar a si e pigarreou, corando de leve. Juntou as mãos no peito e mudou sua expressão para  sapeca.

    - Eu sabia que ela era linda! - exclamou. Dessa vez, fui eu quem corei violentamente. Abaixei os olhos, constrangida. 

    - Eh?! Okaasan! - exclamou o loiro, envergonhado. Então aquela mulher era sua mãe?

    - O que é? Olha só, você me assustou e me fez quebrar um copo. - reclamou a ruiva, bufando. - Mas pelo menos trouxe uma menina para casa que não seja a Sakura ou a Ino. Parabéns, filho, você  está crescendo! - zombava. Ergui o rosto, avaliando aquela relação tão... diferente. O garoto revirou os olhos, sorrindo.

    - Hinata, esta é Kushina, minha mãe. - disse Naruto. O sorriso que recebi da matriarca foi estonteante. Ela parecia mais alegre ainda que seu filho. Girei nos calcanhares, acanhada. O loiro deu um leve tapinha em minhas costas, estimulando-me a sair do hall de entrada e me aproximar da mulher. O fiz, imaginando que seria o mais educado a fazer. Os olhos dela acompanhavam cada movimento, tão sorridentes quanto os lábios. 

    - Ohayo, Kushina-san. - murmurei timidamente com uma breve reverência. A mulher desviou dos cacos de vidro e esticou as mãos para mim. Seus dedos finos tocaram meus cabelos e minhas bochechas de forma carinhosa e maternal.

    - Ohayo, Hinata. Que prazer finalmente conhecer você. - ela disse baixinho, soltando um risinho. Aquilo era extremamente estranho para mim, ninguém jamais havia me olhado daquela forma se não  apenas Akemi. Mas era uma boa sensação, me deixava confortável. Os Uzumaki eram mesmo uma família hospitaleira. 

    - Oh, Dona Kushina, tá tudo certo ai nessa cabecinha? Você ta assustando minha amiga. - disse Naruto. Ela lhe olhou de forma enfezada.

    - Are, baka! Não me venha com amolação. - gritou, mas logo voltando sua atenção para mim. - Eu só estou... feliz. 

     O sorriso gentil se intensificou quando de repente, sem mais nem menos, ela me abraçou. Paralisei, totalmente confusa. Kushina era um pouco mais alta do que eu e apoiou o seu queixo em meu ombro, como se realmente estivesse me abraçando por afeição e não por apenas um cumprimento. Toquei a base de suas costas com as mãos, sentindo-me no dever de retribuir. Ela se afastou,  sorrindo.

    - Desculpe por ser tão barulhenta, Hinata. Bem-vinda à minha casa, sinta-se bem. - disse a mulher, o tom de voz suave e carinhoso. Eu ia responder alguma coisa educada quando o Uzumaki mais novo nos interrompeu.

    - Otoosan! Finalmente, salve-nos, okaasan está louca! - exclamou, zombando. Seguimos seu olhar e eu pude ver um homem alto na escada, quase como uma cópia do filho. Igualmente loiro e de olhos azuis. Ele deu um sorriso tranquilo, descendo pacientemente os degraus e parando ao lado da esposa, segurando os ombros da amada. 

    - Seja lá o que ela esteja fazendo, tenho certeza de que só é por amor! - disse ele. Os dois se olharam e a matriarca corou ligeiramente. Aquela cena me deixou especialmente sentida. Era uma forma tão bonita como os dois pareciam se tratar, como se o amor nunca envelhecesse. Um sentimento próspero... o amor. Eu tinha mesmo razão, a casa abrigava uma família feliz.

       Suspirei internamente. Dei um pequeno sorriso e senti mãos calorosas nos meus ombros também. Olhei para cima e vi o par de olhos me encarando sobre um sorriso zombeteiro. 

    - Otoosan, esta é Hinata. - apresentou Naruto outra vez. Reverenciei brevemente o patriarca e ele fez o mesmo. 

    - Bom dia, mocinha, meu nome é Minato. - disse o loiro mais velho. Eu assenti.  - Agora, o que é, Naruto? Por que está chamando sua mãe de louca?

    - Nada, besteira desse baka, Minato-kun. Eu só estava sendo receptiva com a Hinata, afinal, ela merece. - disse Kushina. Eu mereço? Merecia eu aquele carinho tão maternal? Não, eu não merecia. Mas então por que não desejava abrir mão disso? 

      Meus olhos insistiam na visão do casal apaixonado, na maneira como suas personalidades diferentes nitidamente se completavam. Onde um falta, o outro possui. A beleza extraordinária da mãe, seus longos e belíssimos cabelos de um ruivo intenso, caindo sobre suas costas sem desalinhar um fio. Os olhos azuis escuros, brilhantes de animação e o sorriso amplo e sapeca. Enquanto seu marido pacientava-se com sua agitação, mantendo uma expressão tão tranquila quando as águas do mar azul de suas íris, em contraste com a cabeleira muito loura e bagunçada. Perfeitos juntos. Feitos um para estar com o outro. Essa junção justificava o ser que era Naruto, o meu novo amigo, cujas mãos quentes me confortavam inexplicavelmente. Cuja voz eu adorava ouvir e cuja presença eu já estava tornando-me acostumada.

        Oh, Kami. O loiro de águas cristalinas que agora eu já sabia estar totalmente dependente. Naquele momento, dentro daquela casa, eu sabia. Nunca mais viveria sem me lembrar dos Uzumaki e nunca mais poderia viver se não os tivesse comigo. Porque se não eles, quem mais eu tinha no mundo?

    - Hinata-chan, você gostaria de almoçar conosco? - perguntou Kushina. Eu olhei nos olhos dela, sendo arrancada dos devaneios. Assenti, sem pode expressar nada diante do bruxulear de sensações que agora tomavam meu interior. 

       Recebi um sorriso de volta e então ela se voltou para os cacos de vidro e começou a juntá-los. Minato abaixou-se para ajudá-la e Naruto me puxou pela mão em direção à algum lugar da casa. Olhei para trás, onde o casal limpava o chão. Kushina ergueu os olhos para mim antes de eu sumir no corredor, mas não perdi de vista o sorriso doce que ela me lançou e tive a sensação de que seus olhos estavam levemente chorosos. Mas foi tão rápido que logo virei-me novamente e me deparei com um cômodo que deveria ser a sala de televisão. 

    - Qual foi a última vez que você assistiu alguma coisa, baixinha? - perguntou o loiro, andando até uma estante. Despertei do meu choque emocional, expirando baixinho. Foquei minha atenção nele e dei de ombros.

    - Hmm... eu acho que faz bastante tempo. - respondi. Ele sorriu de canto e sentou-se no sofá de forma largada. Eu andei devagar pela sala, avistando várias fotografias espalhadas pela estante. Senti-me curiosa para olhar e toquei no porta-retrato gracioso, emoldurado em um tom brilhante de azul. 

    - Rastreando o passado? - Naruto perguntou, bem acima de mim. Eu sorri, sem olhar para ele.

    - Apenas procurando algo que salve a sua pele. Pelo menos quando criança você devia ter sido um pouco bonitinho, não é? - zombei. Ele riu, atraindo minha atenção. Seu sorriso era zombeteiro, os olhos ardiam por alguma coisa, claros, mas intensos. 

    - Tão engraçadinha! - disse. Voltei meus olhos para as fotos, rindo. Eram tantas memórias ali, em cada fotografia. Mas tinham uma diferença nítida das minhas que estavam jogadas naquela caixa escondida no fundo do armário. As imagens que eu via ali eram todas felizes. Naruto bebê, devia ter um ano de idade, no colo de Minato, os olhinhos infantis extremamente azuis, gordas bochechas e cabelos loirinhos, acenando duvidosamente para quem quer que estivesse fotografando. Havia também uma com sua mãe, mas ele já era maior, uns três anos talvez? Olhinhos fechados, num sono gostoso embalado por Kushina, que o envolvia com afeição. A foto me arrancou um sorriso emocionado. Peguei outro retrato em mãos, grande, chamativo, que expunha uma imagem da família com mais alguns outros. Reconheci Kakashi-sensei e provavelmente Sasuke, apoiados num sofá ao lado de um homem grande de cabelos brancos e tatuagens no rosto. Todos sorriam, Minato e Kushina seguravam um Naruto agitado de possíveis quatro anos. 

    - Este é o meu padrinho, Jiraiya, o marido de Tsunade-sama. Ele foi mestre do meu pai em artes marciais e depois o meu também. Acabou tornando-se da família. - explicou. Assenti, lembrando do chute certeiro que ele havia dado na porta da despensa do colégio na noite em que arrombamos. Eu havia ficado realmente impressionada e agora fazia sentido.

      Devolvi aquela fotografia e andei mais a frente, procurando outras. Havia uma antiga, levemente manchada nas bordas. Mas dava para ver, eram os pais de Naruto quando crianças. Deviam ter sido amigos desde muito cedo então, estudados juntos, quem sabe? Isso só tornava o amor deles mais bonito ainda. Outras fotos se espalhavam por ali, algumas antigas de quando ele era só um bebê, outra com Sasuke, numa reunião familiar e uma especial, que me fez tocá-la para ver melhor. Eram os três juntos, Minato, Kushina e Naruto. Ele devia ter uns doze ou treze anos, abraçava o pai com um sorriso enorme e Kushina abraçava os dois da mesma forma que o filho. Ali, naquela foto caseira, estava exposto o tamanho do significado de ser um Uzumaki. Todas as coisas que Naruto havia dito sobre sua família vieram à tona em minha cabeça e se materializaram no pequeno porta-retrato em minhas mãos. Me fez sentir estranha ao olhar. Uma sensação nostálgica de saudade, misturada à emoção por presenciar algo tão bonito e mais a vontade de fazer parte daquilo. De ter para mim o tão estimado amor fraternal. 

       Sorri, íntima, mínima e estranhamente feliz. 

    - Ei, baixinha. - murmurou o loiro. Ergui o rosto, olhando-o. - Eu gosto disso em você, sabe? Quando olha para algo assim, não minimiza a importância que tem. Pelo contrário, maximiza. Eu vejo em você um fogo contido, brando, que deseja incendiar tudo, mas que não consegue ser livre. Uma vontade de viver. Eu não sei, posso estar errado. Mas quando te vejo olhando pras minhas fotos de família, com esse sorriso suave e essa avaliação tão... sensível, me sinto ansioso para te mostrar mais. Porque eu sei que, independente da sua trajetória, você é como eu. 

       Franzi a testa, encarando-o com o coração acelerado. Suas palavras me faziam ansiar por algo que não sabia definir. 

    - Como... você? - sussurrei pensativamente. Ele assentiu.

    - Sim. Você e eu somos movidos por um mesmo sentimento e que cuidamamos com nossas vidas, mesmo que de um jeito torto. 

    - Que sentimento? 

      Naruto sorriu, esticou a mão e acariciou minha bochecha, recolhendo o braço logo em seguida e olhando para a foto que eu ainda tinha em mãos.

    - O amor. 

      Apertei o porta-retrato, olhando-o com os olhos molhados por lágrimas que não caíam, mas inundavam-me por dentro. Em meio aqueles sentimentos, sorri. Ah, como ele era engenhoso. O garoto parecia ter o dom de me calar com suas palavras, de tocar meu íntimo mais fragilizado e de, inesperadamente, consertar tudo que havia muito tempo quebrado. 

    - Sabe de uma coisa, grandalhão? - murmurei, olhando para ele novamente.

    - O quê?

    - Não preciso das suas fotos de criança para encontrar beleza em você. Porque está bem na minha frente, em 1 metro e 86 centímetros insuportáveis de aturar, mas cheios da afetividade que eu jurava estar extinta no mundo. E, bom, acho que diante de todo esse tamanho, imensamente maior do que meu orgulho, devo dizer que você é mesmo lindo. - murmurei, vencida. Ri baixo, tentando espantar a vergonha que me tomava. O Uzumaki suspirou e me abraçou com ímpeto, esmagando-me em seu peito largo e erguendo meus pés do chão. Surpreendi-me com sua reação, mas retribuí, mesmo que fraca, o seu abraço caloroso. Fechei os olhos, sentindo que aceitá-lo fora a única coisa certa que fiz em toda a minha inútil vida. E diante disso, realmente, eu estava começando a ganhar mais um vez aquilo que há tanto imaginava ser impossível para mim: o amor fraternal.

    - Arigatou, Naruto-kun.

                                                                         ***

           

                   Naruto

              Pérolas. Uma cascata violeta de fios perfeitos. Pele alva e frágil. Lábios rosados tímidos ao sorrir. Tão pouco tamanho, mas tão grande o coração forte e partido. E eu? Inegavelmente apaixonado.

    Nem aos cegos poderia enganar e nem aos céus poderia limitar o quanto eu queria descobrir quão doce a sua timidez poderia ser. Mas apesar disso, sabia que não era o que ela precisava. E achava inusitado que os sentimentos estivessem aflorando tão depressa dentro de mim, porque Hinata não era nem um pouco fácil. Longe disso, aliás. E também não tinha nada em comum com nenhuma das garotas por quem já me interessei. O que, pensando por essa linha, realmente me faz crer que assim como ela difere de todos os quesitos, o que eu estava nutrindo também era diferente do que qualquer coisa que tenha sentido por alguém antes. Um mixto de vontades desordenadas: confortar, alegrar, compreender, arrancar daqueles olhos o vazio que parece assolar aquele frágil coração, renová-la, dar à ela o que o destino lhe tirou tão injustamente, salvá-la. Mas havia algo mais, forte o bastante para me fazer sonhar repetidamente com tudo que me embriaga com essas sensações sobre ela. 

            Eu queria amá-la.

         E naquele sábado, isso se fazia nítido. Apesar de todo o transtorno que será quando nossas famílias souberem desse laço, feito uma trincheira, havia algo em mim que dizia que tirá-la da mansão Sasaki era o certo. Derpertá-la do torpor no qual Hinata vivia vinha me incomodando desde o primeiro momento em que trocamos palavras. Só havia passado uma droga de semana, mas em poucos dias, já havia sentido muito mais do que há tempos sentia. Hinata chegava a desafiar meu juízo. Como no dia em que a ajudar a invadir o colégio. E olha só, mesmo sendo loucura, havia embarcado na aventura correta. Aquela garota não era uma rebelde, não era má. Suas atitudes espelhavam as minhas de um modo torto, tal como Yin e Yang. Moviam-se por impulsos semelhantes. Mas eu só não sabia até onde ela pertencia à parte escura. 

           E de certa forma, eu não tinha medo.

           Como poderia, afinal? Estávamos na sala de televisão, assistindo um dos filmes de samurais que passava na tela, sentados no fofo sofá branco ao estilo Ocidental que Dona Kushina tanto amava. E ao olhar para ela, constataria o sono no qual a garota afundara. Dormia como um anjo e logo ali, ao meu lado. A pele debaixo dos olhos dela pareciam levemente escuras, o que devia justificar noites mal dormidas. A cabeça pendia para o lado, esparramava aquela cascata púrpura no branco do sofá. As mãos delicadas repousavam sobre o corpo pequeno, que subia e descia pela respiração suave. A visão que tudo aquilo proporcionava espantava qualquer medo que pudesse se apossar de mim. Abaixei o volume da televisão e sutilmente me ajeitei, de forma que pudesse vê-la melhor. Às vezes sua testa franzia um pouco e as pálpebras ligeiramente tremiam, mas depois a expressão voltava à delicadeza de um anjo que somente Hinata conseguia ter. Seus lábios se mecheram, os dedos finos dela apertaram o tecido do moletom, evidenciando que talvez estivesse sonhando. 

    - Águas cristalinas... Lindas... - sussurrava pausadamente, tão baixinho que me inclinei para ouvir. Sorri de leve, achando aquilo bonitinho. - Não... Eu não quero ficar sozinha... - continuou a sussurrar. 

         Suspirei, olhando-a com compaixão.

    - Não está sozinha. - sussurrei, roçando os dedos em sua bochecha, tão sutil quanto pude. Mas ela abriu os olhos e suas orbes encararam diretamente as minhas. E foi quanto eu esqueci completamente de que estava encarando-a em segredo. Mergulhei numa imensidão angelical, lindas pérolas perdidas em sua própria beleza. E por falar em perdido, eu nem lembrava mais meu nome. 

        Encaramo-nos, ali tão próximos e logo senti meu peito apertar-se, inxar-se por um sentimento impetuoso. As batidas ensurdecedoras ecoando em meu subconsicente. Não, cosciente. É, totalmente consicente.

        Droga, Hinata. Você é mesmo uma baixinha petulante. Como ousa fazer isso comigo? Por que, céus, não consigo parar de pensar em você?

        Meus dedos teimosos esticaram-se na direção dela como se ansiassem por sua pele. E ansiavam. Tocaram o canto de seu queixo, deslizaram pela extensão, acariciaram a bochecha - agora ligeiramente rosada - e enfim abraçaram aquele rosto, esroscaram-se nos fios lisos. Meus lábios se ergueram, meu coração implorou, meus músculos se retesaram e meus olhos despejaram nela toda aquela bagunça emocional. E, estranhamente, a vi olhar para mim como se soubesse disso, como se conhecesse o redemoinho que provocava. Meu corpo não mais respondia à mim, respondia à ela. E quase desobedeceu minha sanidade quanto enfim percebi que ela não se movia, parecia assustada, paralisada, mas ao mesmo tempo instigada a sustentar meu olhar.

        Despertei-me daquela névoa que obstruía minha razão. E antes que chutasse o balde e me atirasse naqueles lábios, sorri amigavelmente. A expressão dela continuou intacta.

    - Não quis te acordar. Mas você... Acho que estava sonhando. - murmurei, um pouco rouco. Hinata piscou, parecendo despertar também de um transe. 

    - G-Gomen. - atrapalhou-se, corando. Eu sorri mais amplamente.

    - Não se desculpe, não teve nada de errado. - respondi. Ela olhou para baixo, desviando as lindas pérolas do meu campo de visão.

    - O que... Por que você está assim? - sussurrou. Meu sorriso cessou e eu pigarreei, retirando minha mão grande do rosto delicado dela.

    - Eu... Queria te confortar. Acho que o sonho não foi bom e você parecia lamentar ficar sozinha. - assumi parcialmente minhas intenções. Ela olhou outra vez pra mim, séria.

    - Ah... - murmurou timidamente. - Acho que sim... quer dizer... - pareceu engolir em seco. - Será que você pode parar de ficar tão perto de mim? Está me sufocando. 

          Suas palavras me fizeram endireitar o corpo, ficando constrangido. Hinata suspirou, parecendo nervosa. 

    - Gomen, baixinha. - respondi, verdadeiramente infeliz por assustá-la. E também, claro, pela rejeição. Bufei internamente. Porra, Naruto, você é um idiota

    - T-Tudo bem, é que... - ela atrapalhou-se outra vez. Olhei para ela de canto de olho e a vi erguer o rosto para mim, suspirar e sorrir quase imperceptivelmente. - É só que os seus olhos são intimidadores demais. 

       Eu ri baixo.

    - Interessante saber, quem sabe um dia não seja uma coisa útil, hein baixinha? - brinquei, lançando-lhe uma piscadela. Ela relaxou, balançando a cabeça ao sorrir com mais vontade. 

    - Baka. - murmurou.

    - Rá, rá! Sua petulante. - zombei, vendo-a revirar os olhos. - Mas me conta, quero saber o que estava sonhando. 

      Hinata voltou a ficar melancólica e encolheu os ombros, parecendo não gostar de falar sobre aquilo.

    - Não me lembro. - mentiu, claramente. Eu franzi os lábios, curioso.

    - Ora, Hina, vamos lá. - pedi. Ela suspirou, mas foi salva por uma cabeleira ruiva, que entrou na sala sem aviso prévio, sorrindo igual uma abobada.

    - Yo, meus queridos. Vamos comer? - chamou. Olhei para ela em expectativa.

    - Não tem rámen, Naruto, sossegue. - ralhou minha adorável mãe. Fechei a cara e Hinata riu disso. - Gosta de zenzai, Hinata-chan? 

       Vi a morena assentir com um brilho nos olhos e dessa vez fui eu quem dei risada. Minha mãe puxou minha orelha e me arrastou para fora do cômodo. 

    - AAAH, NÃO PRECISA DISSO TUDO, DATTEBAYO! - gritei. Kushina apenas riu, essa louca. Mas Hinata ficou corada, provavelmente impressionada pelo modo como minha mãe era assustadoramente bipolar.

        Nós sentamos à mesa, enquanto eu esfregava minha pobre orelha inocente. Meu pai balançou a cabeça, rindo como quem se desculpa para a convidada do dia. Ergui meus hashis, sendo espelhado pelo demônio ruivo que eu chamava de mãe.

    - ITADAKIMASU! - um uníssono soou. Nós nos olhamos com olhares zombeteiros e mortais. Minato revirou os olhos, sendo do jeito dele, todo discreto e quietinho. Mas Hinata fez o mesmo que ele, apesar de parecer achar graça daquilo tudo. Eram quatro pessoas e duas personalidades. Cômico. 

    - Então, Hinata-chan, como você teve esse azar de esbarrar no meu filhote? - disse mamãe. Lancei-lhe outro olhar mortal. Hinata sorriu, tímida.

    - Eu desmaiei em cima dele, acho que ele é o azarado. - a morena brincou. Eu ri, lembrando-me do primeiro dia em que nos falamos.

    - Desmaiou? - perguntou okaasan, ligeiramente preocupada. 

    - Mal estar... - mentiu minha amiguinha. Olhei-a pelo canto do olho e vi que ela fazia o mesmo. Rimos. - Mas não é um azar, Kushina-san. Ele é um bom amigo. 

      Inflei o peito, brincando. Todos na mesa riram, mas eu direcionei meu sorriso à dona dele e, tentadoramente falando, fui retribuído.

    - Vê se me ajuda a colocar juízo na cabeça oca desse loiro insuportável, porque Saky-chan já desistiu. - continuou minha mãe. Mostrei-lhe a língua.

        Continuamos a comer e percebi que o olhar de Hinata pareceu derreter quando ela provou do zenzai. Tive vontade de caçoar daquele fato, mas apenas apreciei o momento. A refeição fora mais agitada do que o normal, porque eu e minhas mãe juntos somos capazes de derrubar um império. E eu a amo por isso. Quando todos terminamos de comer, Dona Kushina resolveu dar o bote.

    - Naruto, você lava a louça. - É, talvez não ame tanto assim. Fechei a cara.

    - Por que eu? Estou com visita! - reclamei.

    - Não me interessa, lave essa louça todinha! - exclamou ela. Revirei os olhos.

    - Isso é injusto, okaasan...

    - ARE, LAVE LOGO, BAKA! NÃO ME FAÇA PERDER A PACIÊNCIA, DATTEBANE! - e por falar em paciência...

        Hinata olhou de mim para ela e então escondeu a boca com a mão, reprimindo um riso fofo. Eu me encolhi na almofada. Os gritos da matriarca eram de arrepiar! Por fim, meu pai resolveu ser bonzinho e me ajudou, impedindo que a convidada se manifestasse educadamente para fazê-lo, coisa que já estava vendo querer sair por aqueles lábios. Enquanto nós dois trabalhávamos em equipe, as belezas conversavam na mesa, Hinata ora tímida ora surpresa pela personalidade gritante de Kushina. 

       E foi então que a voz estrondosa de Jiraiya ecoou lá fora num amistoso "estou estrando". O mestre apareceu na porta do cômodo, com Tsunade em seus calcanhares e seu pequeno garotinho, Dan. Ele se desvenchilhou dos braços da mãe e correu até mim, abraçando minhas pernas.

    - Naruto-niisan! - exclamou. Dan tinha apenas cinco anos. Eu sequei minhas mãos na camiseta e me abaixei para ficar próximo da altura dele.

    - Yo, pequeno Dan! - saudei, bagunçando os cabelos dele. Amava aquele pestinha como se fosse meu irmão mais novo. 

      Tsunade entrou, saindo de trás do marido, mas paralisou quando enxergou Hinata ali. Ela e minha mãe trocaram olhares e então os topázios pararam diretamente em mim. Fora rápido demais para eu decifrar, mas sabia que havia alguma coisa ali que aquelas duas escondiam. Jiraiya também agiu estranho quando viu a morena, mas não como a mulher. E partindo daquele velho, eu sabia exatamente o que passava naquela cabeça pervertida. Revirei os olhos, sorrindo. Ah, meu querido sensei, quem dera!

    - Reunião familiar hoje, é? - perguntou Jiraiya maliciosamente. Meu pai tossiu, querendo disfarsar um riso. Aquele espertinho não me engana também!

    - Jiraiya-san, deixe-me apresentá-la para você. - disse Kushina, pegando na mão de Hinata. - Esta aqui é Hinata. 

      A morena o reverenciou discretamente e depois olhou para mim. Pisquei para ela, vendo um rubor quase invisível lhe colorir as bochechas. Mostrou-me a língua e voltou sua atenção para o velho tarado.

    - Yo, jovenzinha! - saudou o mestre. Tsunade o abraçou, sorrindo para Hinata. 

    - Que surpresa você aqui, Hinata. - disse ela. 

    - Não é? Naruto e ela são amigos! - exclamou Kushina, feliz da vida. A morena sorriu amarelo.

    - Ah, é mesmo, acho que já tinha notado isso. Mas e sua mãe, Hinata, ela veio para cá com você? - perguntou Tsunade, sem delongas. Observei a Hyuuga atentamente. Ela pareceu ficar rígida e a pouca cor de seu rosto sumiu de vez. Olhou para as próprias mãos e só então notei que ela precisava de ajuda para sair daquela.

    - Tsunade obaa-chan, não sabia que traria Dan hoje. - interrompi. O modo como a chamei instantaneamente lhe desprendeu do assunto que levava. Hinata relaxou, suspirando baixinho.

    - Não me chame assim, moleque! - berrou, cruzando os braços. Minha mãe riu, mas parecia diferente. Lançou um olhar para Hinata e depois para mim.

    - Hai, hai, é força do hábito! - disse, levantando as mãos em sinal de rendição. - Dan vai ficar comigo? 

       Tsunade expirou, ainda agitada. O filho a abraçou nas pernas, aliviando sua tensão.

    - Eu e Jiraiya vamos até o centro esta tarde. Precisamos comprar coisas pra a Academia. E viemos saber se teria algum problema em deixá-lo aqui. 

    - Mas claro que não! - disse minha mãe antes de mim. Eu sorri, reforçando suas palavras.  

      O pequeno Dan ergueu suas mãozinhas para mim e eu o peguei, jogando-o acima de minha cabeça e depois, virando-o de cabeça para baixo. Tsunade me lançou um olhar mortal enquanto seu filho gargalhava.

    - Certo, então eu vou logo para poder buscá-lo o quanto antes. - disse a loira, semicerrando os olhos para mim. Minha mãe riu, levantando-se para levar o casal até a porta. Meu pai foi atrás, engatado em uma conversa com Jiraiya. Olhei para Hinata, ajeitando Dan em meu colo. Ela retribuiu meu olhar, tristonha. 

    - Relaxe, baixinha. Que tal erguer esse rostinho e me ajudar a ser babá? - chamei, tentando animá-la. Hinata assentiu, levantando-se.

    - Quem é essa moça, Naruto-niisan? - perguntou Dan. 

    - Esta aqui é a Hinata. O que achou? - perguntei. O pequeno coçou o queixo com dos dedinhos, fazendo uma cara pensativa.

    - Hmm... otoosan diria que ela é uma gata! - exclamou inocente. A morena riu, corando de leve. Eu abri um sorriso orgulhoso.

    - Obrigada, mocinho. - disse ela. O garoto ergueu o rosto, todo cheio de pose. 

      Soltei-o no chão e ele logo disparou uma corrida para sala, gritando que era minha vez de procurar. Hinata se virou para assisti-lo, soltando um riso baixo. Dan amava brincar de se esconder e me fazia persegui-lo pela casa toda. Mas aproveitando o momento sozinho com minha amiga outra vez, inclinei para perto dela, colocando minha boca próxima de sua orelha. 

    - Dan tem razão, baixinha. - murmurei. Ela deu um pulo, voltando-se para mim.

    - N-Naruto-kun...

    - Naruto-kun? Está nervosa, é? - brinquei, dando um passo a frente e ela um para trás. Suas pernas bateram na mesa e meu tronco ficou a centímetros do seu.

    - O que você...?

      Gargalhei, achando graça da expressão abobalhada que a morena fazia. 

    - Estou só brincando com você, baixinha. Não me olhe como se eu fosse te devorar! - exclamei. Ela bufou.

    - Baka. - resmungou, afastando-se. 

      Nós fomos atrás de Dan, que já sumira por algum canto. Fiz sinal para Hinata seguir por um lado da casa e eu segui pelo outro.

    - Onde será que está o Dan, hein? - fingi preocupação. 

      E assim passamos a tarde. Ora correndo atrás do pestinha, ora correndo um do outro. Mas eu gostava daquela aproximação. Mesmo que estivesse tudo confuso e longe de se resolver, sentia que Hinata tornava-se cada vez mais humana e vulnerável à vida. O gelo em seus olhos parecia estar se derretendo e por enquanto, a satisfação de apresentá-la a esse novo começo, bastava. Seja como amigo ou como um irmão, a forma como ela me via não importava. Minha única recompensa seria fazer brotar um sorriso naquele rosto. Ao levá-la de volta no fim de tarde, vi-a sorrir para a paisagem enquanto o vento soprava seus cabelos - e seu doce perfume - pelo carro. Mas não foi a beleza dela que fez meu coração aperta-se no peito outra vez. Foi a espontaneidade como aquele simples gesto foi realizado. E quando estacionei em frente à sua casa, contemplei aquele fenômeno com a sensação de que a partir daquele "até logo", nunca mais deixaria de dizer "olás". 

    - Arigatou. - ela murmurou. O sol se pôs diante do rosto dela, seus olhos tornaram-se como algodão doce, sua pele pálida acendeu-se em raios alaranjados. Minha cor favorita. Seus cabelos violetas deslizaram por suas bochechas, impulsionados pela brisa morna. Era a visão de um anjo banhado à ouro, que eu na verdade queria banhar à beijos. 

    - Naruto? - chamou timidamente.

    - Sim, querida? - deixei escapar. Os lábios dela curvaram-se para cima suavemente. Hinata se inclinou na minha direção e todo o controle que vinha mantendo começou a oscilar. Seus olhos grudaram-se nos meus, indecifráveis e depois fecharam-se, um segundo antes de eu sentir o toque sutil de sua boca em minha testa. O estalo mínimo que aquele beijo fez em meus ouvidos foi o suficiente para despertar tudo dentro de mim. 

    - Uma vez Akemi me ensinou que beijar a testa de alguém é a forma mais fraterna de se demonstrar um sentimento. Nunca havia feito isso, mas acho que depois de tudo, quem mais mereceria que eu o fizesse senão aquele que me apresentou o amor fraternal outra vez? - ela sussurrou. Sorriu diante do meu rosto como se não imaginasse o que aquilo me causava. Eu sorri também, o coração batendo audivelmente em meus ouvidos. 

    - Eu me sinto honrado. E acho melhor você se preparar para fazer isso mais vezes. - sussurrei de volta. Hinata se encostou ao banco e olhou para o horizonte, serena.

    - Acho que não será problema. - respondeu. 

    - Ótimo. - murmurei, pegando sua mão e entrelaçando nossos dedos mínimos. Ela olhou para mim e eu exibi meu sorriso mais sincero. - A gente se vê em breve.

      Hinata assentiu, inspirou o ar e abriu a porta para sair. Preparei-me para dar a partida e ela se virou para mim, sorrindo.

    - Estarei esperando. 

      Distanciou-se de mim, levando consigo toda a saudade que já se implantava em meu peito. Mas se a saudade fosse a única coisa que eu pudesse sentir dela, eu o desejaria. Porque ao voltar para casa naquele sábado, todo o meu ser contemplava a preciosidade da garota cujos olhos davam-me uma certeza arrebatadora: não haviam jóias mais raras do que as pérolas. 


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