Escrúpulo

  • Finalizada
  • Aanonimaa
  • Capitulos 1
  • Gêneros Ação

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

    12
    Capítulos:

    Capítulo 1

    o que isso é?

    Heterossexualidade, Nudez, Sexo

    O autor deste texto, Paola Tchébrikov, diante de seus direitos impressos na lei brasileira, Lei 9.610/98, proíbe a divulgação de seu trabalho por terceiros, com ou sem permissão. Qualquer tentativa será previamente relatada ao dono do site e o autor punido. Sobre universos usados, marcas de roupas, comidas etc, dá-se os créditos aos seus devidos criadores. O texto está adaptado ao Novo Acordo Ortográfico, qualquer erro pode e deve ser relatado ao autor.

    Escrúpulo

    o que isso é?

    – Por Paola Tchébrikov

    A porta de entrada foi aberta lentamente, rangendo tanto que Douglas anotou mentalmente – de novo – que precisava colocar óleo naquelas fechaduras. Em uma mão segurava sua pasta, na outra o celular, conversando avidamente com sua assistente. Fechou a porta com o pé e rumou à sala, jogando a mala no sofá e continuando sua busca, indo até a cozinha.

    Franziu o cenho ao encontrá-la vazia. Onde estava Alice? Foi à dispensa, à lavanderia e ao quintal dos fundos, onde, quando estava livre, ela cuidava do jardim. Mas não a encontrou. Havia apenas o cheiro de casa limpa.

    Já começando a se preocupar, acelerou a conversa, logo desligando o celular. Usando agora a audição, procurou qualquer som que indicasse a presença de sua adorável esposa. Novamente frustrou-se, e, praguejando algo, Douglas voltou para a sala, se pondo a subir as escadas que davam para o segundo andar.

    Ouviu o som das risadas de sua menina. O alívio invadiu seu peito de tal forma que, desabotoando os três primeiros botões de sua blusa e passando a mão nos cabelos negros, entrou no quarto lilás e branco, não tardando em alcançar o berço colorido.

    A bela garotinha de cabelos negros como os do pai e olhos azuis curiosos como os da mãe mordia divertidamente a cabeça de um boneco do Mickey Mouse. O coração do homem se encheu de amor e carinho, aquele fora o melhor presente que alguém poderia dar a ele. Sua filha era seu bem mais precioso.

    Acariciou o rostinho pequeno, sorrindo quando a mão pequena agarrou o dedo dele. Brincou alguns minutos com o bebê e depois a deixou com seus brinquedos, voltando à busca por Alice.

    Na porta do quarto seguinte havia o desenho de um casalzinho, escrito ‘papai e mamãe’, e foi ela que Douglas abriu.

    Há coisas que queríamos nunca ter feito. Coisas que, mesmo sendo necessárias, preferíamos ter evitado.

    Abrir aquela porta era uma delas. Douglas amaldiçoou eternamente aquele dia.

    Quando seus olhos cor de mel fitaram a cena diante de si, o corpo dele gelou de tal forma que ele ficou imóvel por vários minutos. Sua mente processou o ocorrido em segundos, mas Douglas se recusava a acreditar.

    Em sua cama, no chão e nas paredes havia o que parecia ser sangue. A frase ‘ela não será de ninguém’ jazia escrita na parede com o líquido. Tudo aquilo não era nada em comparação ao corpo jogado sobre a cama, coberto por um lençol vermelho – que ele não reconheceu.

    Douglas engoliu em seco, sentindo o gosto amargo na boca. Entrou fechando a porta, se aproximando da cama a passos como os de alguém que caminha para o inferno. Orava mentalmente, pedindo que não houvesse acontecido o que ele estava pensando.

    O instante entre a porta e a cama durou uma eternidade, e Douglas procurou forças no fundo de sua alma para erguer o lençol e o que viu o assombrou por muitos anos.

    Lá estava sua Alice, com sinais claros de resistência e, em seu abdômen, a marca clara de uma facada.

    Não havia sido em um ponto letal, o que fez o homem ter fé que ela podia estar viva, mas, ao levantar o rosto e fitá-la nos olhos, sentiu seu mundo desabar. Não tinha vida naquele corpo. A pele estava cinzenta e gelada ao toque de Douglas.

    A constatação da morte da moça deixou o homem abalado. Conhecera Alice há dois anos em um orfanato, aonde a moça ia para animar as crianças órfãs. Formada em Psicopedagogia, possuía licença para visitar orfanatos e hospitais, o que ela fazia mesmo depois do casamento.

    Aliás, em menos de três meses que saíam juntos. Douglas a pedira em casamento. Rindo, a moça questionou se ele não estava sendo muito apressado. Mas Douglas estava decidido: casar-se-ia com aquela moça bonita por dentro e por fora.

    Mal haviam se casado e Alice anunciou estar grávida. Foi uma alegria para ambos e, quanto mais cedo estava o momento do parto, mais bobo o casal ficava.

    E agora lá estavam eles: Alice morta por algum louco e Douglas ao seu lado, lágrimas escorrendo por seu rosto enquanto acariciava a pele macia de sua pequena amada. Lembrava-se do dia em que a comparara a um coelho, o que rendeu muitas gargalhadas e brincadeiras sobre o assunto – principalmente à noite.

    Crispando os lábios, cobriu o corpo dela com o seu. Os dedos longos afastaram alguns fios loiros do rosto pálido, e Douglas deu um beijo suave nos lábios dela, deslizando-os levemente sobre os carnudos de sua esposa. Suas mãos deslizaram para o pescoço longo, passando pelo colo e chegando ao vestido floral que ela usava, abrindo lentamente cada um dos botões.

    Douglas beijou as bochechas, a testa, os olhos dela, tudo isso enquanto lágrimas escorriam abundantes por seu rosto, pingando no corpo sob o seu. Ao abrir todo o vestido, distribuiu beijos suaves do rosto aos seios abundantes pela gravidez recente, deslizando as mãos pelos braços finos enquanto adorava sua bela esposa com gestos calmos e delicados, suas lágrimas se misturando ao sangue dela.

    Lentamente tirou o vestido, jogando-o para o lado e descendo suas mãos para a roupa íntima dela, retirando de modo calmo do corpo imóvel.

    Sentia seu coração apertar-se de amor por aquela mulher, mesmo que, naquele momento, aquilo fosse apenas um corpo sem vida. Não conseguia imaginar sua vida sem Alice, mas sabia que Alexandria, sua menininha, precisava de si. Não podia se dar ao luxo de deixá-la só no mundo.

    Ainda assim, havia em seu peito uma ânsia pela última vez. Uma vontade louca de se despedir de sua esposa falecida fê-lo seguir adiante em seus atos.

    Parecia tanto ser uma loucura que Douglas, pela primeira vez em sua vida, sentiu vontade de fazer algo completamente exótico. Sempre havia agido certinho, atendendo às expectativas dos outros e prezando por sua imagem. Contudo, diante da angústia da perda, Douglas deixou tudo de lado e se concentrou em um hoje que lhe renderia um amanhã conturbado, porém satisfatório.

    Sentou-se na beirada da cama, tirando o sapato e desabotoando a camisa azul. Jogou as meias em qualquer lugar ao retirá-las com os pés e voltou ao corpo sobre a cama, beijando o ventre suave dela e subindo. Suas mãos trataram de livrá-lo de seu cinto e de abrir o zíper de sua calça social, logo revelando o órgão sexual semi ereto dele.

    Douglas deu pequenos beijos nos mamilos de sua mulher, enquanto, com uma mão estimulava sua ereção. Sua respiração tornou-se descompassada. Por um segundo pensou que aquilo era desumano e desonroso, mas, no fim, o desejo de saciar aquela ânsia e de rever sua esposa uma última vez foi maior. Delicadamente separou as pernas dela e se pôs entre elas, posicionando-se e penetrando-a de modo lento.

    Suspirou ao sentir que estava totalmente dentro dela e, inclinando-se, beijou-a no pescoço, apoiando seus braços na cama e iniciando os movimentos. Saiu devagar de dentro dela, entrando no mesmo ritmo, indo fundo. Beijou os lábios mortos e imóveis de sua esposa, lágrimas escorrendo por seu rosto ao lembrar-se da última vez em que haviam feito aquilo. As mãos delicadas e leves em suas costas, o sorriso doce e satisfeito e os suspiros baixos, acompanhados de gemidos abafados, apenas excitaram ainda mais ele. Alice era perfeita em todos os sentidos.

    Continuou entrando e saindo da moça, distribuindo pequenos beijos pelo rosto dela, gradativamente aumentando a velocidade das estocadas.

    O suor já escorria por sua testa, e o sangue do corpo dela já estava impregnado no seu. Gemeu, afastando-se dela apenas para se arrumar, segurando as pernas flexíveis no alto e voltando a estocar; rápido, forte, até que, com um grunhido alto, se desmanchou dentro dela, deixando que seu corpo repousasse sobre o cadáver.

    A respiração forte, o coração a mil, Douglas deixou que os minutos seguintes se passassem a seu tempo. O silêncio durou pouco, pois logo o som suave do choro de uma criança chegou a seus ouvidos. Levantando-se, Douglas fechou o zíper de sua calça e limpou o sangue em seu abdômen com sua própria camisa.

    Pegou o telefone no criado-mudo e saiu do quarto, entrando no de sua filha enquanto dava instruções à polícia de como chegar até sua casa, pois acabara de chegar do trabalho e encontrara sua esposa morta no quarto.

    Com o coração na mão, Douglas pegou a filha nos braços, ninando-a enquanto ia até a cozinha para pegar uma mamadeira. Alimentou-a enquanto velava por seu bem mais precioso e seu único motivo para continuar vivendo. Alice fora seu sol, seu ar e sua fonte de vida, mas a moça agora estava em um lugar melhor – ela, mais do que qualquer um, merecia ir para o céu.

    Porém, agora estava sem ela, a mulher de sua vida. Sobrara de seu coração cacos. Ao terminar de alimentar a menina, ligou para sua mãe e chorando contou a ela o que havia acontecido. Ela não tardou em avisar que estava indo ao encontro dele o mais rápido possível. Com Alexandria em seus braços, Douglas contemplou a chegada da polícia e depois de sua mãe, que o consolou e cuidou da neta quando Douglas precisou conversar com os policiais. Seus sogros chegaram logo depois, abraçando-o e compartilhando a dor da perda.

    Aquele dia oito de agosto foi uma data melancólica para muitos. Várias crianças dos orfanatos choraram e havia centenas de pessoas no velório dela. Lamentaram que uma jovem tão boa e cheia de vida tivesse tal fim e se injuriaram quando a polícia avisou que não havia prova alguma que os levasse a algum suspeito. Contudo, conseguiram identificar o ex-namorado dela através de câmeras internas na casa.

    Douglas se mudou para outra casa perto da mãe e da sogra, e as duas Senhoras passaram a cuidar da menina quando o pai dela estava ocupado.

    Alice foi mais uma vítima da injustiça do mundo, Douglas nunca mais encontrou outra mulher para si e Alexandria foi criada pelas avós, só conhecendo o rosto da mãe através de fotos.

    O que é o escrúpulo nessas situações?


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